RESUMOS DOS TRABALHOS APRESENTADOS
RESUMOS DOS TRABALHOS APRESENTADOS
Ana Luísa Gomes da Fonseca Freire (UNIFAFIRE): LUTA ANTIMANICOMIAL E RAÇA: A INVISIBILIDADE DO PENSAMENTO DE FRANTZ FANON NO BRASIL
Este trabalho tem como objetivo geral evidenciar o apagamento das contribuições de Frantz Fanon na luta antimanicomial brasileira. Para isso, temos como objetivos específicos a necessidade de compreender quais foram essas contribuições e analisar como essas foram reconhecidas quando apontadas por sujeitos brancos. Para cumprir os objetivos propostos, nossa metodologia tem base qualitativa e se estrutura a partir do levantamento bibliográfico (artigos, teses, dissertações, livros, etc.) de obras de Frantz Fanon e de autores que relacionam suas reflexões à luta antimanicomial e seu apagamento histórico, como é o caso de Faustino (2020), Sevalho e Santos (2022). Nessa perspectiva, o trabalho se justifica pela importância de construir novas narrativas e ressaltar a necessidade de inclusão do quesito raça na luta antimanicomial no Brasil, já que os apontamentos de Basaglia (1980) seguiram a lógica apenas do social. É fundamental ressaltar que apesar da obra de Fanon ter influenciado Basaglia, questões raciais não foram pontuadas nas denúncias feitas por ele diante das problemáticas dos manicômios. Dessa maneira, o apagamento da obra de Frantz Fanon afastou a reforma psiquiátrica no Brasil de uma reflexão anti racista que evidenciaria a relação entre o internamento compulsório de pessoas negras com sua cultura e o local social que elas ocupavam. Assim, pontuar a importância de Fanon na luta antimanicomial brasileira é evidenciar o racismo presente no modo de cuidado e no modelo da saúde do país, pois é através de teorias eugenistas ainda vigentes que procedimentos e reflexões coloniais e hegemônicas ainda possuem força.
Andreza Rafaely dos Anjos (UFPE): A ADAPTAÇÃO DA FAMÍLIA À CRIANÇA: UMA LEITURA BRASILEIRA DECOLONIAL DO TEXTO FERENCZIANO
A proposta do texto de Sandor Ferenczi (1927) tem como princípio base investigar a adaptação da família à criança como primeiro passo para compreendermos a criança e seu desenvolvimento. Ele aborda a perspectiva do nascimento da criança, o trauma e o meio – ambiente ao qual a criança será inserida - como fatores importantes a serem considerados no processo de construção subjetiva. No entanto, é válido destacar que, sendo o Brasil um país que se estrutura na colonialidade, as coisas podem mudar de rumo. A problemática está sobre aquilo que o autor traz enquanto dimensão fisiológica, de que o instinto dos pais os impulsiona “a tornar a situação do recém-nascido tão agradável quanto possível”. De quais bebês estamos falando quando pensamos em berço quente, protegido ao máximo das excitações opticas e acústicas incomodas? A proposta deste trabalho é uma tentativa de pensar esse texto dentro do contexto do Brasil, fazendo uma releitura decolonial do que Ferenczi propôs, considerando o atravessamento e os impactos do meio como algo que antecede os corpos das famílias e crianças, em suas construções subjetivas.
Bruna Maria Freitas de Souza (UFPE): O PENSAMENTO DE FRANTZ FANON E O GRUPO MODERNIDADE/COLONIALIDADE: APROXIMAÇÕES E RUPTURAS
A segunda década do século XX latino-americano foi potencialmente atravessada pela emergência de uma série de debates teóricos que versaram, por um lado, sobre aspectos como a libertação, a emancipação e o desenvolvimento da América Latina e, por outro, por discussões que abordaram e problematizaram profundamente os efeitos do colonialismo e do imperialismo sobre a realidade sócio-política do continente. Notáveis contribuições foram aquelas levantadas pelos intelectuais que compõem o chamado Modernidade/Colonialidade (M/C), composto por um grupo de pensadores que, em oposição às perspectivas previamente adotadas no seio dos Estudos Pós-Coloniais (sobretudo às do Subaltern Studies), ocuparam-se de, dentre outros, (re)pensar o lócus que a América ocupa junto à configuração do sistema-mundo moderno colonial (Quijano e Wallerstein, 1992) emergente em 1492 (Dussel, 1993), bem como às formas pelas quais as categorias mentais de raça, classe e gênero funcionaram e ainda funcionam enquanto principais ferramentas de manutenção e reprodução da colonialidad del poder, incisivamente conceitualizada enquanto o enredamento de múltiplas e heterogêneas formas de dominação e exploração (política, epistêmica, econômica, biológica, espiritual, sexual e afins) a nível global. Nesta comunicação, analisaremos algumas aproximações e divergências estabelecidas entre o pensamento de Frantz Fanon e os principais postulados dos pensadores da Decolonialidade. Para tanto, serão tecidas aproximações e comparações acerca da obra do pensador das Antilhas e os escritos inaugurais/basilares do Modernidade/Colonialidade, com ênfase às discussões relativas aos seguintes tópicos: raça, racismo, capitalismo, colonialismo, desenvolvimento, modernidade/colonialidade, imperialismo e seus respectivos desdobramentos.
Diego Francisco Lima da Silva (UFPE): RASGOS COLONIAIS E ÓBITOS POR HOMICÍDIOS: UMA ABORDAGEM FANONIANA DO USO CINDIDO DA CIDADE
A compreensão das cidades enquanto produtos sociohistóricos, oriundos da ocupação do espaço pelo ser humano, possui destaque nos de trabalhos de autores como Lefebvre (2006), Santos (2006) e Harvey (2006), por exemplo. Frantz Fanon (2022) ao apresentar a seus leitores a cidade de Argel ocupada pelos franceses em meados do século XX, nos conta sobre uma cidade cindida entre os colonizados e os colonizadores, entre os opressores e os condenados da terra, uma cidade de ferro e outra de lama. Os homens-caranguejos identificados por Castro (2001) e Chico Science (1994) possuem similaridade gemelar com os Condenados da Terra de Fanon (2022). Ambos atormentados pelo racismo e pelo colonialismo, ambos na luta pela sobrevivência por meio da resistência. Com sua humanidade desconsiderada lutam para impor sua dignidade. Ambos estão inseridos em um violento cenário de compartimentação e opressão, os de Josué sobrevivem dentro das possibilidades cabíveis, os de Chico se organizam e se “antenam” para a transformação; os de Fanon, dado a escancaramento da questão colonial, estão munidos de tudo que for possível para conquistar a libertação nacional. Em Recife, possuem destaque nos estudos epidemiológicos sobre a violência trabalhos como os de Barbosa et al (2011), Lima e Ximenes (1998) e Costa (2009) que apontam para a correlação entre piores condições de vida e assassinatos quando da divisão espacial da ocorrência de homicídios nos diferentes bairros do Recife. Tais estudos demonstram que a violência urbana está destinada aos habitantes dos bairros mais pobres, predominantemente negros. O uso cindido da cidade propicia uma segregação velada aos moradores das grandes cidades do país, são Rasgos Coloniais que afetam o corpo e a alma das pessoas, quase sempre negras, submetidas a este cotidiano. Aos herdeiros do processo colonial impõe-se, a partir da alienante lógica da racialização, uma brutal e compartimentada existência.
Jéssica Lima da Silva (UFPE): UM ENSINO DE FILOSOFIA KEMÉTICA
Refletir acerca dos paradigmas filosóficos ocidentais é mexer com um aspecto quase intocável da cultura ocidental, pois ao mudar o foco da produção filosófica de longa data que a Europa estabeleceu para outro, como a África, é um feito a ser considerado de contra-cultura. Portanto, o presente texto procura destacar a importância de uma filosofia que busque diretamente lutar contra o epistemicídio e o racismo epistêmico, na tentativa de demonstrar a urgência de se desenvolver novas formas de abordar a filosofia e sua origem, a fim de que possamos ter uma perspectiva mais ampla sobre suas diversas características e outras formas de abordá-la no livro didático. Para isso, é preciso entender que negar a capacidade abstrata de pensar a outros povos é negar sua própria humanidade. Em suma, a filosofia egípcia, praticada por filósofos sacerdotes, era caracterizada como a “filosofia de mistério”; e dedicava-se à reflexão sobre Seshat, a deusa das bibliotecas e dos escritos. Os papiros hieróglifos permitiram que os egiptólogos acessassem o mundo antigo faraônico e descobrissem as contribuições filosóficas da civilização egípcia. Entre os exemplos de filósofos egípcios, destacam-se Ptah-hotep e Amen-em-ope, que abordavam questões éticas e possuíam conhecimentos em áreas como arquitetura e medicina. Embora a filosofia egípcia fosse considerada diferente da filosofia dos gregos e dos etíopes, é evidente que contribuiu significativamente para o desenvolvimento do pensamento filosófico na história da humanidade. Compreender essa ideia implicaria em uma mudança de mentalidade das pessoas negras, pois ocasionaria uma transformação na forma como elas se veem e foram ensinadas a se enxergar com olhar de inferioridade. Essa mudança traz empoderamento para os os povos negros e os coloca em igualdade com outros povos do mundo que construíram grandes civilizações.
João Pedro da Cunha Almeida (UFPE): A DESCOLONIZAÇÃO DOS CORPOS: ECOS DO PENSAMENTO FANONIANO NOS ESTUDOS DE GÊNERO
Escrito em um momento de engajamento do pensamento anticolonial e crítico ao imperialismo, Os Condenados da Terra (1961) foi uma obra basilar para as epistemologias do Sul Global, com grande repercussão entre pensadores do terceiro mundo. De Paulo Freire (1968), com a elaboração de um pensamento dicotômico entre opressor e oprimido em sua Pedagogia do Oprimido, a Glauber Rocha (1965) com os manifestos do Cinema Novo transpassados, por exemplo, em Uma Estética da Fome, compreendem-se alguns ecos do pensamento fanoniano que caminham à desconstrução das visões neocoloniais no meio capitalista globalizado que instaurou-se na contemporaneidade. É fato que ao pensar a descolonização como uma obra de conquista do próprio colonizado (oprimido), Fanon abriu um leque argumentativo para a enfatização do protagonismo por parte do colonizado no processo de libertação das amarras coloniais. Na África, os dividendos do pensamento fanoniano espalham-se em diversos estudiosos, sendo a presente comunicação responsável por trazer à discussão a socióloga nigeriana, de origem Iorubá, Oyèrónké Oyewùmí, que, em sua tese A Reinvenção das Mulheres (1997) nos traz uma abordagem, no mínimo, interessante e intrigante para pensar certos conceitos abordados por Fanon no âmago dos estudos de gênero. De acordo com a autora, os tipos de pessoas produzidos após a situação colonial (colonizador e colonizado) possuem a masculinidade enquanto um denominador comum de suas características. Oyewùmí, no intuito de problematizar tamanha observação, estabelece, em diálogo com outras estudiosas feministas, o pensamento da “dupla colonização” sofrida por mulheres africanas. Diante disso, a presente comunicação irá analisar os diálogos e desdobramentos do pensamento de Fanon em articulação com os estudos de gênero Oyewúmianos para analisar a colonização como um estímulo da institucionalização das categorias de gênero em povos Iorubás.
João Victor Venâncio Vasconcelos do Nascimento (UFPB): ASPECTOS DA SOCIOGENIA DOS "CABRAS MARCADOS PARA MORRER": TRABALHADORES RURAIS AMEAÇADOS NA MATA SUL DE PERNAMBUCO
Este artigo pretende tecer considerações sobre a sociogenia de pequenos agricultores inseridos em um contexto de violência e violação de direitos em comunidades rurais do município pernambucano de Jaqueira. Localizado na Zona da Mata Sul do estado, trata-se de uma região historicamente marcada por diversas contradições entre o grande latifúndio açucareiro e indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais e pequenos agricultores. O objeto principal da análise é uma videorreportagem produzida pelo portal Leia Já, intitulada “Marcados para morrer: o drama dos agricultores jurados de morte, em Jaqueira (PE)”. Nela, Ernande, Adriano e Branco, moradores das comunidades de Barro Branco e Fervedouro há gerações, descrevem em detalhes as violências cometidas por representantes de um grupo econômico vinculado à burguesia usineira, que busca se apropriar do território e despejar as famílias. Partindo do conceito fanoniano de sociogenia (FANON, 2020b) como premissa analítica que põe em cena a influência do contexto histórico concreto na formação subjetiva, buscarei identificar relatos de mudanças individuais e coletivas e afetações, que possam ser traduzidas como decorrentes das violências sofridas pela comunidade. Com os resultados obtidos, busca-se pôr em evidência a necessidade de consideração das subjetividades afetadas como elementos tão factuais para se evidenciar
José Lucas Gabriel Gomes Fragoso (ESUDA): PELE BRANCA, MÁSCARA UNIVERSAL
Os encontros do Grupo de Estudos Frantz Fanon me fazem questionar: como é ler “Pele negra, máscaras brancas” (2020) sendo uma pessoa branca? Me deparei com o desconforto da necessidade do deslocamento do lugar de pretenso sujeito universal para o de sujeito racializado - processo pelo qual a pessoa se entende como pertencente a uma raça, cujo critério de diferenciação é a cor da pele – para além da abstração do ser. Neste ponto, é importante salientar que raça não tem fundamentação biológica, mas sim social. A brancura se inventa como norma universal e inventa o negro a quem impõem um complexo de inferioridade (FANON, 2020). A pretensa universalidade depende da inferioridade imposta para existir (CARNEIRO, 2023), pois não existe a suposta superioridade branca sem as pessoas por ela inferiorizadas. Sendo ambas cascas gráficas que enclausuram cada ser a sua maneira (JESUS, 2022), com o agravante de que a invenção branca da racialidade se impõe ao negro pela violência. A partir disso, dialogo com Fanon e comento sobre como o texto dele influenciam o meu processo de me perceber também racializado. Assim, com a seleção de trechos do capítulo quatro, busquei evidenciar a pretensa máscara universal que me foi entregue devido a minha pele branca, com a intenção de apontar para a necessidade de implicar a brancura no dispositivo de racialidade, sendo essa uma forma de provocar outras pessoas brancas a lutar contra a injustiça racial (CARNEIRO, 2023). Também usarei o capítulo cinco, no qual Fanon escreve sobre a experiência vivida do negro. Contrapus fragmentos selecionados desse capítulo com a minha experiência vivida de branco, com o intuito de evidenciar o absurdo que é a existência de uma diferenciação com base na cor da pele. Por fim, concluo que a leitura de Fanon me desconforta enquanto pessoa branca por ser racializante.
Leandro Francisco Correia da Silva Barbosa (UFPE) : DA FILOSOFIA POPULAR COMO PRÁTICA EMANCIPADORA AO DEVIR MESTIÇO COMO PRÁXIS DE DESCOLONIZAÇÃO.
Este trabalho é um desdobramento de reflexões sobre a colonização sob a perspectiva de Paulo Freire (1967; 1969; 1979; 1987a;1987b; 1996), Frantz Fanon e Walter Mignolo (2008), passamos a nos questionar sobre possibilidade de uma filosofia emancipadora capaz de descolonizar a consciência colonial?. Com Fanon (1968; 2008), compreendemos o estranhamento que existe com leituras de autores da cultura Branca, e como esse estranhamento nos conta do aprofundamento da colonização, na qual a psique também foi colonizada e mesmo com o fim das colônias é através da consciência que a colonização permanece. Paulo Freire nos fornece ferramentas éticas para esses caminhos descoloniais, como pistas metodológicas sobre a conscientização, com a qual a curiosidade epistêmica guia a consciência a querer saber mais em diálogo. Mas é com Walter Mignolo (2008) que temos um desdobramento das idéias de Freire e Fanon. Mignolo nos provoca a pensar sobre “consciência mestiça”, como essa consciência permite uma dupla tradução, o mestiço como um estrangeiro de dentro e que portanto, tem um pensamento de fronteira. Aprofundamos a discussão sobre o que pode se transformar a Universidade, num diálogo com Frantz Fanon, caso esta não pense em suas contradições e como uma consciência mestiça pode conduzir para essa reflexão. No diálogo com os três autores, damos os primeiros passos para entender o que pode ser a conscientização mestiço e quais os caminhos filosóficos e pedagógicos para uma educação emancipadora e descolonial. Para finalizar, temos duas narrativas que exemplificam o que pode ser uma práxis de uma consciência mestiça e como essa discussão nos leva a caminhos outros na descolonização.
Luiz Henrique Costa de Santana (UFPE): FRANTZ FANON: UM LEITOR DE MARX
Na contemporaneidade, há uma tentativa de apagar o viés e as tendências críticas marxistas de determinados autores dos Estudos Culturais que ancoram as suas linhas de pensamento nas perspectivas Pós-Coloniais do mundo. Nesse marco, Frantz Fanon é um dos autores cujo arcabouço teórico fora negado, silenciado e por vezes apagado. Com isso, o objetivo desse trabalho centra-se na seguinte perspectiva: pensar como Frantz Fanon (1969 [1961]), em sua obra Os condenados da Terra, realiza uma leitura refinada da teoria marxista, percebendo a luta de classes no contexto da colonização e do colonialismo. Para tanto, debruçamo-nos sobre tal obra à luz de uma metodologia qualitativa e documental (GODOY, 1995; SAMPIERI, 2003), percebendo a influência marxista nos estudos de Frantz Fanon. Partimos, pois, da seguinte pergunta que norteará esta comunicação: Seria Frantz Fanon um leitor de Marx? Em linhas gerais, através de uma análise inicial foi possível perceber que os postulados que figuram na obra fanoniana partem, sim, de uma leitura aguçada da obra de Karl Marx (1998,2004, 2007, 2011, 2012, 2013a, 2013b). Ao fim da obra, o próprio Fanon (1969) retextualiza o imperativo contido no manifesto comunista: “VAMOS, CAMARADAS, é melhor que mudemos de procedimento desde já. A grande noite em que estivemos mergulhados, cumpre que a abalemos e nos livremos dela. O dia novo que já desponta deve encontrar-nos firmes, avisados e resolutos. É preciso que renunciemos a nossos sonhos, abandonemos nossas velhas crenças e nossas amizades anteriores à vida. Não percamos tempo como litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos. Deixemos essa Europa que não cessa de falar do homem enquanto o massacra por toda a parte onde o encontra, em todas as esquinas de suas próprias ruas, em todas as esquinas do mundo.” (FANON, 1969, p. 271).
Marcelle Xavier Correia Rodrigues : “OLHE [MÃE], UM NEGRO!”: O DESEJO CONTIDO NO OLHAR DO BRANCO
O trabalho visa pensar a temática do olhar trazida por Frantz Fanon no texto “A Experiência Vivida do Negro”. O desejo contido no olhar subjulgador do branco - que fixa a pessoa negra em determinados lugares sociais e a objetifica - na sociedade racista brasileira. Como nos diz Lacan, o olhar não está situado apenas no nível dos olhos, ele é objeto do qual o sujeito se torna objeto do outro. Esse olhar, no entanto, não é fantasmagórico, ele vem materializado em um corpo branco real, preservado no país que aboliu culturas e outras formas de existência. Assim, como na cena colonial, o branco se vale da violência ampliada, agora com reforço do Estado democrático, para repetir as posições coloniais que confirmam o estatuto ontológico de raça, como nos alerta Fanon. Entre o desejo, a cegueira de cor e o grande Outro, voltemos os holofotes à desprezível subjetividade branca com o objetivo de mudar esse mundo.
Marcianne Silva Ambrósio Benício (UFPB): IDENTIDADE NEGRA: RECONHECER-SE QUILOMBOLA
O presente trabalho buscar apresentar algumas reflexões acerca da identidade negra. Tendo como objetivos, analisar os elementos que constituem a identidade étnica dos remanescentes quilombolas em seus contextos contemporâneos enquanto grupos sociais, como também, identificar no modo de vida dos remanescentes quilombolas, as questões de ordem ancestral, cultural, identitária alicerçadas nas formas de uso comum do território dentro da comunidade quilombola. Salientando que na sociedade brasileira, assim como em outras, que as representações do povo negro sempre foram construídas a partir de narrativas hegemônicas, capazes de apresentar um grupo social em detrimento de outros. Sempre colocando o negro como, bárbaros, bandidos e incapazes. E esses estereótipos foram difundidas mediante a ótica eurocêntrica, estabelecendo como critérios e padrões de superioridade do homem branco, heterossexual, cristão e civilizado. Os indivíduos que não correspondem a essas normas eram vistos como marginais, abjetos e excluídos socialmente. Esse pensamento ficou cristalizado durante muito tempo dentro de uma sociedade que mascarou o racismo e o preconceito em relação ao negro em nosso país, isso acarretou ao povo quilombola uma luta intensa, travada tanto no campo jurídico como no social, a busca por seus direitos, respeito e igualdade. E para além disso, pela valorização e reconhecimento de seu lugar e de sua história.
Maria Júlia Sales Brasil (UFC): A LINGUAGEM ENQUANTO INSTRUMENTO COLONIZADOR DA RE-XISTÊNCIA: UMA ANÁLISE A PARTIR DO PENSAMENTO DE FANON NO CONTEXTO BRASILEIRO
Pensar a linguagem é um exercício que possibilita fazer uma relação direta entre a sociedade e os complexos inseridos. Pensar o sentido da linguagem é ir além de praticar o exercício da fala, é compreender como essa fala é utilizada para colonização do pensamento, sendo assim, um instrumento de poder. Para tanto, para esta pesquisa apropriou-se de uma metodologia de caráter bibliográfico (GIL, 2002) somado a um arcabouço teórico que conta como cerne Fanon (1965) aliado à Bispo (2015) para realizar uma análise do contexto brasileiro. Ademais, é necessário destacar que a linguagem confere importância crucial para Fanon (1965), partindo do princípio que “o falar é existir absolutamente para o outro”. Para além do existir, o apropriar-se da fala, que por conseguinte remete a sua cultura também resulta em um domínio do mundo expresso por ela, daí cabe às reflexões sobre o desnudamento forçado às línguas originárias que viviam nesse território que passou a se chamar Brasil. Diante disso, os conceitos trabalhados por Bispo (2015), a partir das cosmovisões dos colonizadores e dos contra colonizadores (leia-se aqui quilombolas, indígenas e etc) de pensamento monista desterritorializado vertical e pensamento plurista territorializado circular. O projeto colonialista provém de uma cosmovisão monoteísta linear que utilizou como ferramenta civilizatória imposições de denominações, indo ao encontro com uma cosmovisão politeísta que por ser circular possibilita refluxos adquirindo a essas denominações novas significados. Outrossim, Bispo (2015) cita a ressignificação de quilombo, antes sinônimo de criminalidade, mas hoje estado de direito/luta. Acerca desse processo de reedição na contemporaneidade foi ressignificado o substantivo “resistência” fazendo uso do fonético “ré-existência”, palavra que melhor dita o contexto atual das comunidades contra colonizadoras. Destarte, tanto Bispo quanto Fanon reconhecem a importância do léxico na sociedade como campo de disputa, de forma atemporal e coetânea, que atestam a colonização do pensamento.
Nayara Fernanda dos Santos de Sena (UNILA): OS QUILOMBOS E A CULTURA NACIONAL: REFLEXÕES ENTRE FANON E BHABHA
Em: DissemiNação. O tempo, a narrativa e as margens da nação moderna, Bhabha se dedica a pensar acerca do conceito de cultura nacional e suas significações, estabelecendo um diálogo com Fanon, no seu texto Sobre a cultura nacional; usarei os dois autores como referência para relacionar o conceito de cultura nacional. Para Bhabha, a tentativa de unidade política de nação/Estado, desloca a nação para uma versão tradicionalista ao invés de plural, por diferenciar o “exterior” e o “interior” das fronteiras espaciais, relacionando a cultura a noção de povo, que diferencia o “eu” do “outro”, tencionando para visão de nação e de cultura assentada num povo e numa cultura únicas. Correlacionando o pensamento de Bhabha acerca da crítica a temporalidade como algo demarcado para construir uma cultura nacional, Fanon destaca que uma “procura apaixonada de uma cultura nacional anterior à era colonial extrai sua legitimidade”, portanto, os quilombos não se propõem a tentar “imitar” a cultura africana, mas sim, retomar aquilo que caracteriza sua negritude em diáspora. Fanon então, identificou três fases que caracterizam a quebra da estrutura colonial pelo colonizado: a primeira, é o período do assimilacionismo integral, em que ele assume a cultura do colonizador; a segunda, é a fase do mergulho, em que o colonizado sofre um abalo e resolve recordar sua cultura e a terceira, que é o período de combate, em que o colonizado, depois de tentar perde-se do povo, perde-se com o povo e sacode o povo, se transforme então em despertador de seu povo e de sua cultura nacional. Com estas considerações, o quilombo sempre esteve neste local de combate, como movimento libertador e emancipatório para negras e negros em diáspora, e dentro de uma perspectiva cultural da nação brasileira, representa a nação africana para os afrodescendentes em diáspora no Brasil, e contribui para esta pluralidade de culturas nacionais.
Pedro João da Silva Bisneto (UFRN): O “PONTO CEGO” DA NEGRITUDE: A CRÍTICA DE DENISE FERREIRA À LEITURA FENOMENOLÓGICA EM FANON
Em seu livro Unpayable Debt, seguindo um movimento crítico presente em toda sua obra, a professora Denise Ferreira da Silva traça o violento percurso realizado por aquilo que ela denomina de Analítica da Racialidade - um regime simbólico produtivo que estabelece a diferença como efeito da razão universal – que tem como função primordial a promoção da subjugação racial enquanto realidade efetiva. Conforme a autora, a formulação da racionalidade moderna é fundada sobre os pressupostos inerentes a essa brutal trajetória, o que permite, por sua vez, o ressoar dessas questões em perspectivas jurídicas/econômicas/éticas/metafísicas, que, para além de aprofundar as violências da subjugação racial, estruturam uma lógica de morte inerente aos corpos racializados. Para isso, a perspectiva analítica da autora se estabelece enquanto crítica os pensamentos reprodutores dos pressupostos (Separabilidade, Determinabilidade e Sequencialidade) e descritores onteoepistemológicos (sejam eles a Universalidade e a Historicidade), que além de serem desenvolvidos pela racionalidade europeia e basilares à Filosofia Ocidental Moderna, também estruturam os fundamentos de uma teoria “pós-de-colonial”. É exatamente nesse percurso que a autora brasileira reencontra Fanon e, mesmo reconhecendo sua importância e relevância, enxerga, principalmente em Peles Negras, Máscaras Brancas, sua tentativa de formular uma subjetividade negra – atividade inerente aos movimentos da negritude dos anos 60 – que se fundamenta tanto em sua curta leitura da Dialética do Senhor e do Escravo (Hegel), quanto em sua análise da Fenomenologia (leituras e influências do pensamento de Merleau Ponty encontradas no Capítulo 05). Assim, o objetivo desse trabalho é analisar a compreensão de Denise Ferreira da Silva acerca da reprodução fanoniana da dicotomia que recai sobre os corpos racializados enquanto condições de vulnerabilidade racial x vulnerabilidade metafísica e que formula uma nova humanidade que “talvez assinale uma outra onto-espistemologia, uma localizada no abismo, no sempre-já dado início da existência” (FERREIRA DA SILVA, 2019, p.79).
Sérgio Gabriel Conceição Correia (UFPE): A EDUCAÇÃO POPULAR E A RECEPÇÃO DA DESCOLONIZAÇÃO CULTURAL DE FRANTZ FANON
Considerando as investigações do psiquiatra Frantz Fanon, e, sua contribuição com a desalienação do negro enquanto construção de um novo humanismo, mais especificamente ao negro à possibilidade de ser homem. Acrescentando uma crítica à violência colonial e a tomada de consciência frente as realidades econômicas e sociais, percebemos a importância do mesmo para a conjuntura teórica-político-pedagógica da Educação Popular na América Latina. Nessa pesquisa, mostraremos que a luta pela libertação está inserida na proposta pedagógica de Educação de adultos, também convenientes em outras modalidades educativas, tecida e pensada juntamente com os movimentos sociais populares, dentre eles, o movimento negro. Para tanto, analisamos os sentidos de ideias como racialização, subjetividade, cultura e violência, nas discussões de Frantz Fanon (1925-1961) e a recepção dessas, somadas a multiculturalidade e interseccionalidade nos desdobramentos de seu pensamento juntamente com Paulo Freire (1921-1997) e João Francisco de Souza (1945-2008).
Virna Ferreira de Fonseca (UFC): O DESDOBRAMENTO DE FANON NA HISTÓRIA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA DISCIPLINA DE TÓPICOS 1
O presente resumo objetiva refletir acerca da importância do autor Frantz Fanon para o componente optativo do curso de história "Tópicos especiais", inserido na grade curricular da Universidade Federal do Ceará (UFC). A priori, destaca-se a relevância desta disciplina como base para as futuras pesquisas em África e adjacentes, pois, o componente parte de uma leitura com enfoque em grandes intelectuais negros, de diferentes nacionalidades, pouco abordados ao longo do curso e que possuem um peso indescritível na formação humana/profissional dos discentes. Destarte, o intuito dessa disciplina não é dar voz, mas ouvir os que muito foram silenciados e protagonizar suas narrativas. Outrossim, para a metodologia utilizou-se uma pesquisa de cunho bibliográfico (GIL, 2000), baseada em textos como o de Lélia Gonzalez (1984), Nah Dove (1998), Frantz Fanon (1968). Ademais, ao focar na presença de Fanon (1968) para essa disciplina cabe destacar a reflexão que é proporcionada para analisar a estrutura-superestrutura de todo um cenário que possíu suas raizes em cima dos corpos e vidas dos negros sendo aqui, iniciado também, um debate contemporâneo acerca de “quem é quem”, quem é a pele preta usando a máscara branca. Pensar nos escritos de Fanon, é, acima de tudo, fazer um constante exercício de analisar a própria realidade, onde é fundamental ampliar e aprofundar esses pontos, principalmente, nos cursos de humanidades, pois é a partir da problematização e consciência da realidade que será possível estar na luta frente ao processo de ensino crítico. Em síntese, consta a necessidade de um processo de desconstrução teórica pois, é possível compreender que a visão acadêmica ainda é muito eurocêntrica. Entretanto, é imprescindível que haja discussão, problematização e revisão da grade curricular para abranger os diferentes personagens da história e intelectuais contemporâneos que trazem uma narrativa para pensar os complexos imbuídos na sociedade.