Por: Fernando Ernesto Alvarado • Publicado originalmente em espanhol no Facebook em 28/05/2025 Tradução: CLAEP
O cessacionismo – a crença de que os dons miraculosos do Espírito Santo cessaram com a morte dos apóstolos ou com o encerramento do cânon bíblico – têm penetrado em muitas igrejas pentecostais a ponto de, hoje, nos encontrarmos como pentecostais que na prática se têm convertido em cessacionistas. Isto é um fenômeno perigoso e contraditório que requer uma resposta clara e contundente. No panorama teológico atual, é fundamental que como cristãos comprometidos com a verdade bíblica e particularmente como pentecostais, apresentemos uma sólida defesa do continuísmo.
O auge do cessacionismo têm sido impulsionado por uma ressurgência do calvinismo, particularmente entre os batistas reformados que em seu zelo em defender a soberania de Deus, tem declarado uma guerra contínua contra a soteriologia arminiana. E o que é pior, tem minimizado e rechaçado a obra contínua do Espírito Santo na igreja hoje. Esta tendência tem afetado profundamente não somente a teologia arminiana de muitas igrejas pentecostais como também sua pneumatologia, a saber, sua compreensão da obra do Espírito Santo. O mais alarmante é termos chegado ao extremo de ver surgir um novo título: “pentecostais cessacionistas”, o qual é um verdadeiro oximoro, haja vista que o pentecostalismo, por definição, se baseia na crença da continuidade dos dons espirituais. Não podemos ser pentecostais e ao mesmo tempo negar a vigência dos dons sobrenaturais que tem sido uma característica central de nossa fé desde seu início. [1]
Esse impacto tem sido devastador nas igrejas que historicamente tem abraçado uma fé viva e sobrenatural. Os pentecostais, desde seu surgimento no século XX com o avivamento da Rua Azusa, proclamam com fervor a presença ativa e contínua do Espírito Santo, com dons como profecia, línguas e milagres sendo parte integral da vida cristã. No entanto, o cessacionismo tem começado a se infiltrar nestas congregações promovendo uma teologia que nega a relevância dessas manifestações na atualidade. [2] Isto tem levado muitos a adotar uma postura mais racionalista e menos experiencial da fé, debilitando nossa capacidade de testemunho em um mundo pós-moderno que, paradoxalmente, anela pelo sobrenatural.
Como cristãos devemos recordar que a essência mesma do cristianismo é sobrenatural. Desde seu começo tem estado marcado pela intervenção divina em um mundo natural, desde a encarnação de Cristo até aos milagres realizados pelos seus apóstolos. Negar a continuidade dos dons espirituais não somente empobrece nossa fé, como também nos priva da evidência do poder e da presença de Deus em meio de Seu povo. Os dons do Espírito, como estão detalhados em 1 Coríntios 12, não são somente ferramentas de edificação para a igreja, como também sinais visíveis da aprovação divina sobre Sua obra no mundo (1Co 12.7-11; Atos 2.17,18). Se rejeitarmos estes dons, corremos o risco de reduzir nossa fé a uma série de proposições teológicas carentes da vitalidade e do poder que caracterizam o Evangelho. [3]
Além da Bíblia, a tradição histórica da igreja também oferece um claro testemunho em favor do continuísmo. Os primeiros Padres da Igreja como Justino Mártir, Irineu e Tertuliano, descreveram experiências contínuas dos dons espirituais em seus escritos. Irineu, por exemplo, testificou sobre cristãos que falaram em línguas e realizaram milagres em seu tempo. [4] No decorrer dos séculos, as manifestações do Espírito Santo nunca cessaram por completo na vida da igreja. Ainda que, é certo, que em alguns períodos históricos, especialmente depois do auge do racionalismo e do iluminismo, ocorreu uma diminuição na abertura ao sobrenatural, isto não significa que os dons tenham deixado de estar disponíveis para a igreja. Ao contrário, a história mostra que os tempos de avivamento e renovação espiritual sempre tem sido acompanhado por uma restauração dos dons do Espírito.
Este padrão histórico se evidencia em avivamentos como o Grande Despertamento do século XVIII liderado por figuras como Jonathan Edwards e George Whitefield que, embora calvinistas, não rejeitaram os dons espirituais, mas viram manifestações do poder de Deus em suas congregações. [5] De maneira similar, o avivamento pentecostal no princípio do século XX, marcado pelo derramamento do Espírito Santo na Rua Azusa, foi uma poderosa confirmação de que os dons espirituais seguem vigentes hoje, demonstrando que Deus opera de maneira sobrenatural em Sua igreja para trazer renovação e avivamento.
Devemos entender claramente que a teologia cessacionista ainda que esteja enraizada em uma preocupação legítima pela proteção da ortodoxia e da sã doutrina, mutila uma parte fundamental da vida cristã: a experiência viva do Espírito Santo. Ademais, o cessacionismo contradiz tanto o testemunho das Escrituras como a tradição da igreja ao longo dos séculos. Defender o continuísmo, portanto, não é simplesmente uma questão de preferência teológica, mas uma questão de fidelidade à Bíblia e à história da igreja. Negar os dons espirituais é, em última instância, negar uma parte importante do que significa ser cristão e membro do corpo de Cristo.
A Pneumatologia Cessacionista: Um Evangelho Defeituoso e Mutilado
Necessitamos despertar! Como crentes, temos o dever de defender a continuidade e a vigência dos dons do Espírito, não somente por seu valor teológico, mas porque são essenciais para o testemunho vivo da fé cristã. Não podemos nos acovardar na defesa da fé! O crescimento do cessacionismo nas igrejas pentecostais e carismáticas representa uma ameaça séria para nossa identidade e missão. Os dons espirituais não são um luxo opcional, mas uma necessidade para a edificação da igreja e para o testemunho do Evangelho em um mundo que cada vez mais rejeita os valores cristãos. Se queremos preservar nossa identidade como pentecostais e, sobretudo, se queremos ser fiéis às Escrituras, devemos rejeitar o cessacionismo e proclamar com valentia que o Espírito Santo segue operando em nosso tempo manifestando Seu poder e Sua presença em nossas vidas.
De uma perspectiva lógica, a pneumatologia cessacionista cria uma contradição ao afirmar que o Espírito Santo atua na regeneração e santificação dos crentes, porém nega Seu poder para operar através dos dons sobrenaturais. Como pode o Espírito Santo ser ativo na vida da igreja em aspectos fundamentais da fé, como o crescimento espiritual e a comunhão, porém estar limitado quanto aos dons que edificam a igreja? A mesma essência do Espírito, como se apresenta no Novo Testamento, é dinâmica e sobrenatural. Os dons espirituais, como a profecia, o falar em línguas e dom de curar enfermidades, não são simples adendos opcionais à vida cristã, mas expressões concretas da presença de Deus entre nós. [6] Negar sua continuidade é reduzir nossa fé a uma teologia teórica, desvinculada da experiência viva da obra de Deus.
Biblicamente, o cessacionismo encontra escasso apoio. As Escrituras afirmam repetidamente que os dons do Espírito não são exclusivos da era apostólica, mas que foram prometidos para toda a igreja até a volta de Cristo. Em 1 Coríntios 12.7-11, Paulo deixa claro que os dons espirituais são concedidos para a edificação do corpo de Cristo e em Atos 2.17,18, a promessa de que “nos últimos dias” Deus derramaria Seu Espírito sobre toda carne inclui explicitamente visões, sonhos e profecias. Não há indicação no texto de que estes dons deveriam cessar, mas ao contrário: se estendem até aos “últimos dias”, um período que abarca desde Pentecostes até a segunda vinda de Cristo. [7] Negar esta continuidade é negar a própria Palavra de Deus que garante Sua obra até ao final dos tempos.
Desde a perspectiva dos Pais da Igreja, encontramos um testemunho claro da continuidade dos dons espirituais. Justino Mártir, Irineu e Tertuliano, entre outros, escreveram sobre a presença dos dons em seu tempo. Irineu em sua obra Contra as Heresias, testificou que “os que são verdadeiramente seus discípulos realizam milagres em seu nome” e que “alguns ressuscitam aos mortos”. [8] Estes testemunhos reforçam que os dons espirituais não foram um fenômeno limitado ao tempo dos apóstolos, mas que continuaram ao longo da história da igreja primitiva. O cessacionismo, ao contrário, rompe com esta rica tradição histórica sugerindo que a obra do Espírito em Sua plenitude já não é relevante para a igreja atual.
Além do mais, defender a continuidade dos dons não é simplesmente uma questão de manter a coerência teológica, mas sim de ser fiel à natureza mesma do Evangelho. O cristianismo é, em sua essência, uma religião sobrenatural. Desde a encarnação até a ressurreição, a fé cristã está impregnada de milagres e manifestações do poder de Deus. Jesus mesmo declarou que “estes sinais seguirão aos que creem” (Mc 16.17), e o livro de Atos nos mostra uma igreja onde os dons do Espírito eram vitais para a expansão do Evangelho. Sem os dons espirituais, o testemunho da igreja perde força e o Evangelho que pregamos se constitui em um conjunto de doutrinas desprovidas de vida.
A obra contínua do Espírito Santo também é crucial para enfrentar os desafios do mundo atual. Vivemos em uma era pós-moderna, caracterizada por um ceticismo em relação ao sobrenatural, porém, ironicamente, marcada por um crescente interesse pela mística e pela espiritualidade. O cessacionismo, ao negar a vigência dos dons, priva a igreja da oportunidade de mostra ao mundo um testemunho poderoso e tangível do poder de Deus. Os dons espirituais não somente edificam a igreja, mas também são um testemunho do favor divino e uma ferramenta para atrair aos não crentes. Como diz Paulo: “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (1Co 12.7) e sem isso, nossa capacidade de ser luz no mundo fica seriamente comprometida. [9]
Assim, a pneumatologia cessacionista é uma versão mutilada e defeituosa do Evangelho. Nega a obra contínua do Espírito Santo e contradiz tanto o testemunho das Escrituras como a tradição histórica da igreja. Como crentes, temos o dever de defender a vigência dos dons do Espírito, não somente para preservar a integridade de nossa fé, como também para dar testemunho do poder de Deus em um mundo que necessita desesperadamente experimentar o sobrenatural. O Espírito Santo segue operando hoje e como igreja, devemos abraçar Sua obra proclamando com coragem que o mesmo Deus que atuou em Pentecostes segue atuando em nosso tempo.
A Busca da Unidade Cristã Não é Um Pretexto, a Covardia Muito Menos
A busca da unidade é um anseio profundamente humano e cristão. Desejamos estar em comunhão com os demais, evitar divisões e conflitos e promover o amor entre nós. No entanto, a unidade não deve ser construída sobre a mentira ou o engano, porque isso trairia o fundamento da verdade que buscamos. Em Efésios 4.15 somos encorajados a “falar a verdade em amor” no que implica que o amor e a unidade verdadeira só podem sustentar-se se estão baseados na verdade. Como crentes, temos o dever de defender a verdade mesmo quando ela possa gerar conflitos ou diferenças. Não podemos sacrificar a verdade em nome de uma unidade superficial, porque seria como construir uma casa sobre a areia.
Quando não defendemos a verdade por temor da divisão, incorremos em erro. Jesus mesmo disse: “Não cuideis que vim para trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” (Mt 10.34). Estas palavras mostram que a verdade às vezes provocará confrontação, porém é um custo necessário para que a verdade de Deus se mantenha firme. A busca de uma paz artificial, à custa da verdade, não é a paz que Jesus nos oferece. É melhor estar em desacordo pela verdade do que estar em uma falsa unidade que encobre a mentira.
A verdade não somente é um conceito abstrato; no cristianismo está encarnada na pessoa de Jesus que disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida (Jo 14.6). Se Cristo mesmo é a verdade, então devemos estar dispostos a segui-Lo, incluindo se isso significar nos separarmos de outros que preferem crer em falsidades. A fidelidade a Cristo não pode comprometer-se e isso às vezes nos colocará em uma posição incômoda de conflito com os outros. Porém preferimos estar separados deles se isso significa permanecer fiéis a nosso Senhor.
É importante, no entanto, que não usemos a verdade como uma ferramenta para criar divisão desnecessária ou para justificar o orgulho ou a hostilidade. Em 1 Coríntios 13.6, Paulo nos recorda que “o amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade”. Defenderemos a verdade em um espírito e amor, com o desejo de que outros também a aceitem. Porém, quando essa aceitação não se produz, não podemos ceder. Nossa prioridade deve ser sempre a verdade, não a aceitação ou a unidade a todo custo.
Em síntese, a busca da unidade é valiosa, porém não pode nem deve vir às expensas da verdade. A verdade é a base sólida sobre a qual podemos construir uma verdadeira unidade e sem ela qualquer união é falsa e passageira. É melhor estar separados pela verdade que unidos pela mentira porque, afinal, somente a verdade perdura e traz liberdade (Jo 8.32).
BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS
[1] Grudem, W. (1994). Systematic Theology: An Introduction to Biblical Doctrine. Zondervan, p. 110.
[2] MacArthur, J. (2013). Strange Fire: The Danger of Offending the Holy Spirit with Counterfeit Worship. Thomas Nelson, p. 45.
[3] Carson, D. A. (1987). Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12–14. Baker Academic.
[4] Keener, C. S. (2011). Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts. Baker Academic, p. 400.
[5] Synan, V. (1997). The Holiness-Pentecostal Tradition: Charismatic Movements in the Twentieth Century. Eerdmans
[6] Carson, 1987, p. 153.
[7] Grudem, 1994, p. 110.
[8] Keener, 2011, p. 400.
[9] Grudem, 1994, p. 113.