Vou fazer uma canção em louvor ao santo preto
Canta, povo bragantino: bendito, oh! bendito.
Quando chegar dezembro
Qual é o santo que está no andor?
É são Benedito com Nosso Senhor.
Marujada de São Benedito
em louvor ao protetor
vem vestindo azul ou vermelho carmim na festa
no barracão dança xote, mazurca e chorado
nos duzentos anos de louvação
mas fico mesmo encantado
quando dança retumbão
(Marujada de São Benedito, do grupo Arraial do Pavulagem)
A fundação da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança marca o início da Marujada de Bragança. Em 1798, escravos tiveram a autorização de seus senhores para criar a organização e louvar ao Santo Preto: São Benedito. Em agradecimento, saíram de porta em porta comemorando. Desde então, há mais de duzentos anos, a Marujada acontece no âmbito da Festividade do Glorioso São Benedito, que ocorre de 18 a 26 de dezembro, e envolve os moradores de Bragança, município localizado no nordeste paraense, não apenas durante a festa, mas também nos preparativos que ocorrem ao longo do ano.
Em maio tem início o período de esmolação, quando uma comitiva sai pela região com a imagem peregrina arrecadando doações para a festa. Em 8 de dezembro, ocorre uma procissão fluvial da localidade de Camutá até o porto de Bragança. Nos dias pares da semana que antecedem à festividade, há ensaios da Marujada no salão da Igreja de São Benedito. No dia 18 de dezembro, começa oficialmente a festividade com a Alvorada, às 5 da manhã, quando se ergue o mastro e marujas e marujos caminham descalços até a Igreja de São Benedito. As apresentações da Marujada seguem até o encerramento da festa, em 26 de dezembro.
Organizada pela Irmandade, a Marujada é quase unicamente constituída por mulheres que assumem o papel de direção. O cargo mais alto da hierarquia da Marujada, que é vitalício, é o de capitoa, geralmente ocupado pela mais velha do grupo, que desfila carregando um bastão dourado simbolizando sua autoridade. A subcapitoa, escolhida pela capitoa e sua substituta, está em um nível seguinte. Os homens, marujos dirigidos por um capitão, participam como tocadores ou acompanhantes.
Trajando blusa branca, faixa de fita vermelha e uma rosa de tecido, saia rodada comprida vermelha, azul ou branca e um chapéu vistoso enfeitado com fitas (quanto mais antiga, mais fitas) e plumas, as marujas visitam as casas, como na festa primeva, dançando ou andando em duas filas pelas ruas da cidade. À frente das filas, a capitoa e a subcapitoa. Acompanham-nas os marujos, vestidos com calça e camisa brancas, tocando tambor, pandeiro, cavaquinho, cuíca, viola e rabeca. No dia 25 de dezembro, a saia das marujas e a blusa dos marujos são azuis. Já no dia 26, a saia das marujas e a fita amarrada no braço dos marujos são vermelhas. O ritmo predominante da Marujada é o retumbão, mas durante a celebração também há a execução de xote, chorado, mazurca, cada um associado a uma dança específica.
São ainda momentos integrantes da festividade em louvor ao São Benedito a cavalhada, no dia 25, o leilão e a procissão, no dia 26. Na cavalhada, cavaleiros disputam argolas azuis e vermelhas, vencendo aquele que obtiver o maior número de argolas. O leilão é o momento que os participantes arrematam donativos arrecadados pela Igreja para a realização da festa. A procissão é um grande momento de devoção, quando o Santo Preto percorre a cidade, terminando com uma missa. A derrubada do mastro marca o fim da celebração religiosa.
Estima-se que mais de oitenta mil pessoas se dirigem a Bragança para acompanhar a celebração, considerada Patrimônio Cultural do Pará por meio da Lei Estadual n. 7.330, de 17 de novembro de 2009.