A comunidade do Cacoal, localizada na zona rural do município de Bragança, possui uma história marcada pela memória oral de seus moradores mais antigos. Esses relatos revelam como um território que antes era coberto por mata e pouco habitado se transformou, ao longo do tempo, em uma comunidade organizada e em constante desenvolvimento.
De acordo com os depoimentos de moradores tradicionais, a região onde hoje se encontra o Cacoal era inicialmente formada por áreas de capoeira e mata fechada, cortadas apenas por pequenas trilhas abertas no meio da vegetação. Esses caminhos simples, conhecidos como “picadas”, eram utilizados para deslocamento entre localidades próximas e representavam as únicas formas de acesso ao local naquele período.
A formação da comunidade ocorreu de maneira gradual. Os relatos indicam que o povoado começou com apenas duas casas, construídas por famílias que chegaram à região em busca de terra para morar e cultivar. Entre os primeiros habitantes lembrados pela memória coletiva está Antônio Pompeu, considerado o primeiro morador a se estabelecer na área. Ele era marido de Ramira, conhecida pelos moradores como “tia Ramira”, figura importante nas lembranças da comunidade.
Nos primeiros anos, a vida no local era marcada por muitas dificuldades. A ausência de estradas, serviços públicos e infraestrutura obrigava os moradores a enfrentar longas distâncias para resolver questões básicas. Um episódio frequentemente lembrado pelos mais antigos ilustra bem essas condições. Quando faleceu o primeiro morador da comunidade, Antônio Pompeu, não havia cemitério nem estrutura funerária no local. Diante dessa situação, sua esposa colocou o corpo do marido em uma pequena canoa e realizou uma longa viagem até a povoação de Piriá para realizar o sepultamento.
Esse trajeto, feito pelos rios e igarapés da região, poderia levar muitas horas — às vezes mais de meio dia ou até um dia inteiro de deslocamento, dependendo das condições do
Com o passar do tempo, outras famílias começaram a chegar à região, atraídas pela possibilidade de trabalhar na terra. A economia local se desenvolveu principalmente por meio da agricultura familiar, com destaque para o cultivo de cacau e café. Essas plantações eram muito comuns na área e influenciaram diretamente a origem do nome da comunidade. O termo “Cacoal” deriva da palavra cacaual, que se refere a áreas de cultivo de cacau.
Um dos depoimentos mais importantes sobre a história local é o do morador percurso. O fato demonstra não apenas as dificuldades enfrentadas pelos primeiros moradores, mas também a determinação e a força dessas pessoas que ajudaram a construir a história da comunidade.
Zaqueu, que vive na comunidade desde a infância. Aos 78 anos de idade, ele relata que chegou ao Cacoal quando tinha apenas quatro anos, o que significa que mora no local há aproximadamente 74 anos. Seu testemunho permite compreender as profundas transformações que ocorreram ao longo das décadas.
Segundo ele, quando chegou à região havia poucas casas e quase nenhuma infraestrutura. Com o crescimento da população e a organização da comunidade, começaram a surgir melhorias importantes, como a chegada da energia elétrica, a abertura de estradas e, mais recentemente, a pavimentação de vias com asfalto.
Parte dessas melhorias está associada a ações do poder público municipal. Moradores recordam que algumas obras e avanços ocorreram durante a gestão do prefeito conhecido como Raimundão, cuja administração contribuiu para ampliar as condições de infraestrutura da comunidade.
Nos dias atuais, o Cacoal apresenta uma realidade bastante diferente daquela vivida pelos primeiros moradores. O que começou com apenas duas casas em meio à mata tornou-se uma comunidade mais estruturada, com melhores condições de acesso, serviços e qualidade de vida para seus habitantes.
Assim, a história do Cacoal é marcada pelo esforço das famílias pioneiras, pela resistência diante das dificuldades e pela construção coletiva de um território que continua em processo de desenvolvimento. Os relatos preservados pelos moradores mais antigos são fundamentais para manter viva a memória da comunidade e compreender o caminho percorrido desde seus primeiros anos até os dias atuais.
A comunidade do Cacoal, possui uma trajetória marcada por transformações estruturais importantes, que refletem o processo de organização e desenvolvimento local ao longo do tempo. Entre esses marcos, destacam-se a criação do cemitério comunitário e a implantação de um antigo mercado público, ambos associados a períodos específicos da administração municipal.
De acordo com relatos de moradores antigos, o cemitério do Cacoal foi implantado durante a gestão do então prefeito Emílio Ramos, representando um avanço significativo para a comunidade. Antes de sua criação, os moradores enfrentavam grandes dificuldades para realizar sepultamentos, sendo necessário deslocar-se para outras localidades.
Inicialmente, o espaço do cemitério foi cercado e destinado ao uso da comunidade, mas por um período permaneceu com pouca manutenção. Os relatos indicam que o local chegou a apresentar sinais de abandono, com vegetação densa — conhecida como “capoeira” — cobrindo grande parte da área.
Em situações de sepultamento, os próprios moradores precisavam abrir caminho no meio do mato, utilizando ferramentas como facões, para acessar o local e realizar os enterros. Essa realidade evidencia as dificuldades enfrentadas pela população em um período em que a infraestrutura ainda era bastante limitada.
Com o passar do tempo, o cemitério passou por melhorias. Atualmente, o espaço encontra-se em melhores condições de conservação, com a área limpa e organizada, refletindo um maior cuidado da comunidade com esse importante patrimônio coletivo.
A memória oral também preserva informações sobre os primeiros sepultamentos realizados no local. Segundo relatos, a primeira pessoa enterrada no cemitério do Cacoal foi a esposa de Dudu Laurindo, conhecida como Rosa Chica. Esse registro representa um marco simbólico na história da comunidade, indicando o início da utilização do espaço como local definitivo de sepultamento dos moradores.
Outro importante elemento da história local é a construção de um mercado comunitário, também atribuída à administração de Emílio Ramos. Esse espaço foi criado com o objetivo de atender às necessidades comerciais da população, funcionando como ponto de venda e troca de produtos.
Com o passar dos anos, o mercado deixou de exercer sua função original e o prédio foi gradualmente adaptado para outros usos. Atualmente, o espaço é utilizado como moradia, demonstrando como as estruturas da comunidade podem ser ressignificadas conforme as necessidades dos moradores.
A história do cemitério e do antigo mercado revela aspectos importantes do processo de desenvolvimento do Cacoal. Esses espaços refletem não apenas mudanças na infraestrutura, mas também a capacidade de adaptação da comunidade diante das dificuldades e transformações ao longo do tempo.
Além disso, os relatos dos moradores mais antigos desempenham um papel fundamental na preservação dessas memórias. São essas narrativas que permitem compreender como era a vida na comunidade em períodos anteriores e como os avanços conquistados contribuíram para melhorar as condições de vida da população.
A trajetória do Cacoal evidencia um processo gradual de construção coletiva, no qual cada melhoria representa um passo importante na consolidação da comunidade. O cemitério, hoje organizado e funcional, e o antigo mercado, ainda presente na paisagem local, são exemplos concretos dessa história.
Preservar essas memórias é essencial para valorizar a identidade da comunidade e compreender o caminho percorrido desde os tempos de maiores dificuldades até a realidade atual.
Pesquisa realizada pelos alunos do 7º Ano da Escola Miguel Gouveia — 2026.