José Félix Henriques Nogueira


Jornalista, escritor e político, José Félix Henriques Nogueira nasceu em 1825, em Torres Vedras, e faleceu em 1858. Desde 1988 que dá o seu nome à nossa Escola e desde 2012 ao nosso Agrupamento, tendo sido na sua época um defensor ativo do associativismo e do municipalismo. Precursor da República, foi tido pelos Republicanos da segunda metade do século XIX como «ilustre fundador da moderna democracia portuguesa»”.

Aqui deixamos alguns dos textos de Henriques Nogueira, compilados pelos nossos alunos e organizados pelos seguintes temas:

o HISTÓRIA e SOCIEDADE

o EDUCAÇÃO E INTERVENÇÃO CÍVICA

o CIÊNCIA, TECNOLOGIA E PROGRESSO SOCIAL

o LITERATURA E CULTURA

o VIAGENS


HISTÓRIA

Portugal e Espanha

Os democratas portugueses e espanhóis entendem que a fórmula mais perfeita da unidade ibérica é o estabelecimento da república federativa. Por este sistema os antigos estados de Espanha recuperavam a sua independência administrativa, sem prejuízo dos interesses gerais da nação. A administração foral das províncias vascongadas, que ainda em tempos do absolutismo lhe facultava tão importantes privilégios, estendia-se ao resto do país. Portugal entrava em igualdade de circunstâncias na liga dos povos peninsulares. Perdia o nome vão, mentiroso, escarnecido de reino independente, que a sua pequenez e situação geográfica lhe não permitem que seja, para ganhar as vantagens de estado independente deveras, e portanto bem administrado e prospero. Não e vergonha confessar que somos pobres, havendo sido ricos. A povoação, o espaço e o capital não se improvisam. Mas seria louca exagerarão do espírito de nacionalidade desprezar, por injustificável orgulho, o ensejo que se nos oferece de melhorarmos a nossa situação, concorrendo também para a força e prosperidade da Península.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo III, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.45.

Bruno Daniel Ferreira Rodrigues, 12º PTG

Portugal e Espanha

Os povos peninsulares querem unir-se, não para exclusiva utilidade de uma família, de uma classe ou de uma província, não para exercerem uns sobre os outros injusta preeminência, mas para prestarem mútuos auxílios, para melhor defenderem seus legítimos interesses, para atingirem a altura de civilização a que têm chegado outros países. Os povos peninsulares, aprendendo à sua custa na escola dos reis, são agora, ou têm razão para ser, tão ibéricos como o foram noutras épocas os seus ríspidos mestres. Os povos conhecem já, felizmente, que separados hão-de continuar a ser como até aqui o joguete dos estrangeiros e o pasto das facções, e que unidos podem pagar menos tributos, gozar de maiores vantagens, exercer na Europa e no mundo uma grande influência e sobretudo firmar a paz interna, sem a qual não há prosperidade.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo III, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.44.

Daniela Lúcio, 10ºPTM

Economia

O comércio acha-se montado de um modo inconveniente para a agricultura. O negociante, pondo-se de permeio entre o produtor e o consumidor pesa consideravelmente sobre um e outro - mas de preferência sobre o primeiro. Umas vezes as falências mais ou menos dolorosas dos homens de negócio arruínam o lavrador; outras a sede do ganho leva-os a adulterar certos géneros, com evidente descrédito para a agricultura do País: quase sempre a mesquinhez é o seu móvel para a fixação dos preços. Classe pouco numerosa e com interesses muito especiais e análogos, tem conseguido conluiar-se por mais de uma vez para impor condições desfavoráveis aos lavradores, quase sempre fracos para lhas modificarem.

Os nossos processos de fabrico são em parte rotineiros, tanto pelo lado da perfeição como pelo da economia do trabalho. Não admira portanto que a agricultura tire tão-somente, se tanto, uns 3 ou 5 por cento do seu capital. Desconhecemos a importância de poupar tempo pelo emprego de máquinas ou de agentes mais expeditos. Gastamos em pura perda o dobro ou o triplo do que seria necessário despender para a ferragem dos animais do serviço, e para o reparo dos carros, se melhor fosse o piso de nossas estradas.

Não temos, em quantidade suficiente, pastos nem gados, nem estrumes; porque nos falta a primeira condição para tudo isto, que é a água das regras.

Compramos aos estranhos uma grande parte das substâncias alimentares, que melhores e mais baratas poderíamos fabricar em nossa casa ou produzir no nosso campo. Deixamos de cultivar em grande escala algumas plantas úteis nas artes, que eram outras tantas âncoras para a nossa agricultura.

Aumentadas por tantos modos as despesas da produção agrícola, elevado o gasto da economia doméstica do lavrador, sobrecarregados os géneros pelos excessivos carretos, pela comissão nada módica do negociante e pelos diversos impostos e direitos de entrada ou de saída, a nossa agricultura dificilmente pode competir em bondade e barateza de produtos com os das nações mais adiantadas. E se ainda assim tira algum lucro, calcula-se quão grande ele seria, removidos os obstáculos que deixamos ponderados!

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tom I, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 321.

(Colaboração da encarregada de educação Maria Teresa Timóteo e do seu educando, José Rodrigo, 12ºA)

Organização municipal

Nos primeiros anos da monarquia asturiana, em que a povoação insurgente era mui escassa e ainda rareada pelas contínuas guerras com os Árabes, as pequenas aldeias habitadas por servos adscritos eram facilmente regidas a arbítrio dos delegados do rei, e essa foi a situação geral naquela época. Posteriormente a repovoação ou o aumento de certos lugares por homens livres (antigos proprietários e novos tomadores de solo, colonos espontâneos e algum artista ou mercador) trouxe a necessidade de uma tal ou qual organização, que servisse para defender a comunidade dos ataques e violências dos poderosos, e ao mesmo tempo para conservar a paz interna e dirimir os pleitos dos moradores. Esta necessidade, aviventada pelas tradições das antigas municipalidades, deu origem aos primitivos concelhos, deu origem aos primitivos concelhos de Oviedo e Leão nos séculos IX e X. Os forais daquela época, estatuindo expressamente os direitos e obrigações que ligavam os moradores ao senhorio ou à coroa, pouco dizem sobre o mecanismo interno da administração, sobre os direitos e deveres civis, sobre a forma da eleição (se a havia) e sobre os privilégios e deveres dos magistrados, cuja existência se pressupõe.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 23.

(Colaboração de Joana Sarreira da Silva, turma 12º PTG, nº11)

Organização municipal

As principais magistraturas, nos concelhos perfeitos, eram as dos alcaides, juízes e almotacés. Os alcaides, postos geralmente pelo rei nas povoações acasteladas, exerciam as funções de chefes militares, intervindo mais ou menos nos negócios judiciais e administrativos. Estes oficiais, por via de regra fidalgos, delegavam a sua extensa autoridade em um burguês, que se denominava alcaide-menor. Na segunda metade do século XIII alguns concelhos ao norte do Doiro alcançaram o importante privilégio de elegerem os seus alcaides. A necessidade de converterem os direitos reais em renda certa obrigava os reis a fazerem tamanhas concessões. Por outro lado os concelhos tinham o direito de repelir qualquer senhorio, se o reputavam perigoso, ainda quando a vila era dada em préstamo*.

« Dou-vos por foro que não tenhais por senhor senão o rei ou seu filho, ou quem vós, os concelho, quiserdes.» - (Foral de Freixo)

* Consignação de certa quantia de frutos ou dinheiro, imposta em algum terreno ou cousa rendosa, e destinada para sustento e manutenção de alguma pessoa – (Eluc.).

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 25.

(Colaboração de Paula Leal, professora de Português e Francês)

Organização municipal

No longo período que decorre desde o século XV, em que os reis começaram a introduzir nos concelhos os seus corregedores e juízes de fora, até os nossos dias, o município viveu sempre tutelado pela coroa. A escassez de recursos nunca deixou medrar. As suas rendas, tiradas quase exclusivamente de tributos odiosos, direitos de consumo e multas, levavam consigo a maldição da sua origem, e além disso sendo poucas para pouco chegavam. Os nossos antigos vereadores atamancavam o seu bocado de calçada, à saída da vila ou no meio dela, por medo de “correição”. Em um país cheio de fundações graciosas, sés, mosteiros, palácios, não existe um só monumento de alguma consideração, paço municipal, aqueduto ou estrada, que denote, por excepção sequer, a riqueza ou vigor dos concelhos. As vastas possessões dos baldios nunca se aproveitaram, apesar das repetidas e inúteis prescrições da lei. Como haviam de fazer grandes benfeitorias os míseros concelhos que mal tinham para o seu custeamento ordinário? Como podiam eles capitalizar, se o fisco oprimia os contribuintes com a apertada rede dos tributos, e se ainda tirava para si um terço dos minguados rendimentos do concelho? Era impossível. Enquanto meia dúzia de frades, estabelecidos de pouco tempo numa charneca ou num canto de povoação, conseguia levantar o seu convento, amanhar a sua cerca, engrossar as rendas da casa com donativos, legados e juros de capitas, os concelhos, com muitos séculos de existência, senhores de extensos terrenos, árbitros da bolsa dos moradores, nunca chegaram a regular a sua economia pelos seguros princípios da conservação e reprodução das riquezas. O falso zelo pelo religioso instituía capelas, dotava igrejas e ermidas, fundia-se, mais ou menos directamente em benefício do clero; mas, á excepção dos legados às misericórdias, ainda assim raros e mesquinhos, nunca o espírito de beneficência ou de afeição local enxergou o concelho para objecto de suas derradeiras liberalidades. A sede de oiro desvairou os ânimos do povo para as conquistas do Oriente e para a colonização do Brasil. O solo da Pátria, privado de braços robustos, falto de comunicações, vinculado ao clero e á nobreza, deixou de sustentar os seus filhos. Os desastres políticos do fim do século XVI, a opressão castelhana, o domínio do absolutismo, com a inquisição, os jesuítas, a dissipação da corte e a prodigalidade de despesas inúteis, tudo isto devia entorpecer, e efectivamente entorpeceu a vida íntima do País. Não admira, portanto, que os concelhos, as fracções do Estado, se conservassem na miséria, quando este chegava aos abismos dela.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp. 65-66.

(Colaboração de Ricardo Coelho e João Patrocínio 10ºC)

Organização municipal

Fazenda – o município concentra a administração dos seus bens e rendimentos, de qualquer natureza sem contudo os desviar da sua legítima aplicação. Os bens e rendimentos que constituem o património municipal são conservados religiosamente e aumentados para o benefício público de ano para ano. Um tombo minucioso e autenticamente feito indica a qualidade, valor e procedência de todos os bens municipais.

Capital. – o município funda um banco hipotecário, dando-lhe por base a massa dos seus bens. Este banco, fonte inexaurível de prosperidade, facilita á administração municipal dos meios de empreender os seus gigantescos trabalhos, e aos produtores pequenos e grandes, o ensejo de se livrarem da agiotagem. O fundo do banco é progressivamente aumentado com os valores dos bens particulares, que seus donos quiserem associar-lhe. O banco compreende as diversas instituições de crédito e previdência, como montepio, caixa económica, seguro, caixa de desconto, depósito e agência.

Indústria – O município auxilia, por todos os modos, o desenvolvimento da indústria local. As suas oficinas criam excelentes operários para as artes e ofícios. As suas granjas fornecem campos de inteligentes trabalhadores. A sua escola e museu habilitam os fabricantes a usar dos processos mais vantajosos e recentes. As exposições que promove e ostenta em seus paços, os prémios com que distingue o mérito são outros tantos meios de proteger o trabalho.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 73.

(Colaboração de Carla Umbelino, professora de Educação Física)

Organização municipal

Polícia. – o município organiza uma guarda para a conservação do sossego publico e para a defesa das pessoas e propriedades. No tempo das colheitas esta guarda necessita aumentar em número. Os guardas devem ser indivíduos prudentes e bem morigerados. A proporção que o povo se for educando melhor convém que abandonem as armas de fogo – e que empreguem simplesmente a força moral. A desobediência e as intimações destes funcionários deve ser cuidadosamente punida.

Edifícios. – o município constrói sucessivamente a série de edifícios necessários para montar as suas instituições. Na cabeça do concelho edifica, em local vasto e bem situado, o seu paço com a vastidão precisa para alojar a câmara e a administração, o tribunal de justiça, a cadeia, o quartel, a misericórdia, a escola, a biblioteca, museu, arquivo, a imprensa, a oficina, o trem, o correio, a posta, o mercado, o banco, a hospedaria, o clube, o teatro e o ginásio. Junto ao edifício ou a uma pequena distancia deve haver uma grande cerca para o estabelecimento da granja, horta e pomar, passeio e jardim botânico e zoológico.

Associações. – O município associa os membros das diversas profissões úteis para representarem, defenderem e aumentarem os seus interesses. Contem, portanto, as associações agrícolas, fabril, comercial, literária, artística e filantrópica. Todas estas associações têm a sua sede no paço municipal. Contribui, por último, para o estabelecimento das associações locais pelas aldeias, como meio de favorecer poderosamente as classes menos abastadas.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp. 75-76.

(Colaboração de Carla Umbelino, professora de Educação Física)

Organização municipal

I

Enumerámos sucintamente as instituições que devem alimentar a vida municipal. É justo que demos sobre elas alguns detalhes, que habilitem o leitor ajuizar melhor da sua proficuidade. Ser-lhe-á fácil, então, observar como essas instituições se desencadeiam umas de outras, aperfeiçoando-se e completando-se mutuamente e convergindo de per si e no seu todo para a resolução de importantes problemas sociais e económicos, que até aqui por outros meios ou a não acharam, ou a não tiveram satisfatório. Não é isto virtude nossa, mas da poderosa organização que estudamos. Município, pequena pátria que o cidadão primeiro ama, e que primeiro serve, tem na índole gratuita de suas magistraturas, na contínua renovação delas, na acção constante da vigilância pública, nas advertências e louvores da opinião, elementos de força que fizeram atravessar, nobre veterano das instituições do mundo velho, sobre o campo ermo, assolado ou pacífico de cem gerações, e que ainda hoje, enriquecidos com os princípios humanitários da ciência política, o tornam a mais popular, a mais eficaz e a mais esperançosa, talvez, das instituições modernas. Em harmonia com o nosso plano, exporemos sucessivamente nas condições que devem reunir, e o fim que devem propor-se os diversos estabelecimentos municipais.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp. 77-78.

(Colaboração de Inês Henriques, 10ºC e Pedro Botelho, 10ºC)

Instituições municipais

A guarda municipal é destinada a proteger, tanto quanto for possível, as pessoas e propriedade dos habitantes do município – e a executar as decisões das autoridades. Sendo as funções desta guarda, como são, inteiramente civis, não lhe compete a organização, nem o aparato militar. Os cidadãos a quem por seu turno pertence fazer este serviço são escolhidos entre os chefes de família que forem mais bem morigerados, prudentes e animosos. É necessário que eles tenham estas qualidades – e sobretudo a de verdadeiros em suas asserções – porque num certo número de casos, o seu único depoimento pode ser base de acusação contra qualquer indivíduo. Os guardas municipais devem andar geralmente sós, e combinar as suas excursões de modo que possam auxiliar-se mutuamente, ou requisitar o auxílio dos habitantes. Para este fim precisam usar, mormente nos campos, de instrumentos que façam ouvir-se ao longe. O concurso dos habitantes para a apreensão dos malfeitores é recompensado pecuniariamente aos que forem pobres – e honorificamente aos abastados. O serviço dos guardas é pago mensalmente na proporção do tempo que empregarem nas suas diversas comissões.

A guarda municipal deve estar espelhada por todos os lugares do concelho, às ordens dos comissários de polícia e dos regedores de paróquia. Na cabeça do município é necessária uma forma permanente (de dez homens a pé e a cavalo pelo menos) às ordens do chefe municipal. Pertence-lhe a guarda dos espaços e oficinas, a execução das diligências mais importantes de polícia e a segurança das estradas.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.78.

(Colaboração de Ana Rita Oliveira e Telma Antunes 12ºA)

Instituições municipais

O tribunal municipal toma conhecimento das causas cíveis e crimes que estejam da sua alçada. Compõe-se de um certo número de juízes, proporcionando à povoação do município. Os juízes são eleitos à pluralidade de votos, nas assembleias paroquiais. Os membros do tribunal dividem-se em secções formadas a sorte. Estas secções revezam-se pelo decurso do ano.

No princípio de cada mês há audiência geral, e nela são julgadas, por sua ordem, as causas pendentes. O júri de sentença é composto de seis membros, e toda a decisão deve pelo menos ter o acordo de quatro deles. Havendo empate dobra-se o numero de juízes. A administração da justiça municipal não tem férias, nem emolumentos.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp.78.79.

(Colaboração de Nuno Mendes e Henrique Matias, 10ºC)

Instituições municipais

A penitenciária municipal é destinada a recolher e corrigir os condenados pelos tribunais paroquiais e pelo tribunal municipal. Neste alojamento-oficina os corrigendos ficam sujeitos a um regímen mais ou menos restrito, segundo a sua culpabilidade, saúde, educação e comportamento o tempo preenche-se em exercícios alternados do trabalho manual nas oficinas ou na cerca, de estudo nas aulas, de moral na capela, e de higiene, forçado, o trabalho celular, o isolamento total, devem empregar-se tão-somente como meios disciplinares e repressivos das infracções do regulamento.

A penitenciária tem um certo número de comissários para vigiar pela execução do regulamento. Estes funcionários devem pôr cobro nos abusos e violências, já os empregados, já dos corrigendos. As queixas são feitas aos comissários, verbalmente ou por escrito, na visita periódica do estabelecimento. Os condenados por crimes que indiquem ferocidade são transportados aos presídios penais.

O trabalho dos corrigendos é-lhes computado no seu justo valor, e o produto dele entrega-se-lhes à saída da penitenciária, deduzidas as despesas de alimentação e vestuário.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.79.

(Colaboração de Inês Vila Verde, 12A e Tiago Joaquim, 10ºC)

Instituições municipais

A botica fornece os medicamentos, tanto para as enfermarias como para as casas locais, e vende-os aos particulares com um certo interesse. As plantas medicinais são cultivadas em suficiente escala na granja municipal e as preparações mais usuais fazem-se no laboratório do estabelecimento.

O asilo dos órfãos recolhe e educa as crianças enjeitadas e aquelas que seus parentes não puderam criar. Nenhuma criança deve sair doo asilo, a não ser reclamada pelos pais, ou por pessoa de bem que a adopte. As crianças de leite que tenham uma compleição fraca, são criadas por amas, empregadas no estabelecimento. As crianças mais robustas são sustentadas com o leite dos animais domésticos, com os caldos nutritivos e afinal com a dieta ordinária. As crianças de 2 a 10 anos carecem de desenvolver principalmente as suas faculdades físicas. A alimentação abundante, o descanso suficiente, o anseio nos corpos e vestidos, a distracção nos jogos e folguedos, a ginástica, o canto, a inspecção de variados objectos, o estudo e a leitura da escrita, a nomenclatura das línguas, tudo isto convém a educação da infância neste segundo período. Os educandos de 10 anos para cima aprendem, na oficina e na granja municipal, o ofício para que mostrarem aptidão. Os que possuírem um talento distinto seguem o curso da escola municipal – e alguns deles, os que se houverem tornado distintíssimos, são mandados frequentar, à custa do município, as escolas superiores. Os educandos são submetidos a regras de urbanidade no tratamento usual e de asseio e boa ordem no seu pequeno mobiliário. As gratificações e os prémios que eles merecerem pela sua assiduidade e aproveitamento depositam-se na caixa económica para ulteriormente lhes serem entregues com os respectivos juros. As educandas de 10 anos para cima instruem-se em um ou mais ofícios dos trabalhos próprios das mulheres. Todas se exercitam nos diversos misteres de economia doméstica, e também nas prendas da sociedade, cuja primazia pertence à música. As que mostrarem um génio superior devem ser convenientemente protegidas e aproveitadas. Chegadas a uma certa idade as educandas tomam diferentes rumos segundo a sua opinião e circunstancias particulares. Muitas delas vão ser mestras nas escolas locais. Outras entram como excelentes criadas no serviço doméstico. Outras casam-se, e assim prendadas por uma boa educação independentes pelo seu trabalho, todas elas podem encontrar os necessários meios de subsistências. Todavia as portas da misericórdia nunca se fecham para as suas filhas: em qualquer sinistro da vida elas devem achar ali a possível protecção. O que houverem ganho a titulo de gratificação no serviço da casa ou nos prémios anuais é-lhes, igualmente, capitalizado na caixa económica, e constitui o seu pecúlio na época da maioridade.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.81.

(Colaboração de Diogo Mateus 11ºB, Nº4 e João Pereira 11ºB, Nº10 )

EDUCAÇÃO E

INTERVENÇÃO CÍVICA

Educação

A Escola Municipal

“A escola municipal é consagrada ao ensino elementar das ciências e das artes, que são de geral utilidade. (…) Compreende (…) as seguintes disciplinas: I Aritmética, álgebra e geometria. II História natural. III Medicina e veterinária. IV Agricultura e economia rural. V Física e Química. VI Tecnologia e mecânica industrial. VII Desenho e construções civis. VIII História e legislação pátria. IX Língua francesa e inglesa. X Música.”

“Os educandos de 10 anos para cima aprendem, na oficina e na granja municipal o ofício para que mostram maior aptidão. Os que possuem um talento distinto seguem o curso da escola municipal – e alguns deles, os que houverem tornado distintíssimos, são mandados frequentar à custa do município as escolas superiores.

As educandas de 10 anos para cima instruem-se em um ou mais ofícios na oficina dos trabalhos próprios das mulheres. (…) As que mostrarem um génio superior devem ser convenientemente protegidas e aproveitadas.”

A escola local

“A escola local é regida por uma mestra (…) Ensina-se nela a: I Ler, escrever e contar as 4 operações. II Doutrina cristã e civilidade. III Coser e cozinhar.

Esta escola é comum para meninos (até aos 10 anos) e meninas.”

NOGUEIRA, José Félix Henriques, O Município no Século XIX, cap. Instituições Municipais, Ed. Ulmeiro, 1ª edição fac-similada, Lisboa)

(Colaboração de Noémia Santos, professora de Português)

Eleições

Cidadãos:

Talvez tenha sido difuso de mais. Mas eu desejo que me conheçais suficientemente. Se as opiniões, que vos tenho manifestado, vos parecem razoáveis, se tendes confiança na minha energia e lealdade em defende-las, se sois superiores ás sugestões que talvez vos hajam de prevenir, não tanto contra a minha pessoa, como contra as minhas doutrinas, entregai-me o mandato, sempre difícil, mas hoje espinhoso de vosso representante, que essa eleição, filha da simpatia pela representação da localidade, não provocada por influências estranhas, espontânea e livre como os sentimentos do coração, enchendo a mim dum nobre orgulho, honra muito mais os homens independentes e ilustrados, que a fizerem.

Bulegueira, 22 de Outubro de 1851.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.201.

(Colaboração de Tiago Joaquim e Júlio Quaresma)

Segurança dos cidadãos

Estamos sobre um vulcão de imoralidade. Os atentados contra a segurança individual e de propriedade repetem-se com uma frequência assombrosa. Os crimes mais violentos, mais bárbaros e mais degradantes da espécie humana aparecem desvendados em sua horrível nudez, como se estivéssemos em plena idade média. Os cavaleiros saem dos seus castelos pelas terras chãs, e forçam, roubam, assassinam e devastam a seu bel-prazer. A personagem, aterrada, mas fremente de indignação, levanta os olhos para o céu, como noutras eras, esperando da Providência o castigo de tantos crimes. Os infractores das leis, mais ou menos culpados, passeiam impunes em grande número. Os que chegam a ser presos ou se evadem das cadeias ou são absolvidos dos tribunais incompetentes, ou condenados apenas tenuíssimas, voltando a sociedade mais pervertidos do que saíram para nela continuar a exercer seus malefícios. Com poucas excepções este e o estado da nossa justiça criminal nomeado no século XIX!

Que faz, entretanto, o governo a vista de um quadro tão assustador? O governo cruza os braços, e deixa passar a onda do crime que alaga todo o País. Debalde a imprensa independente clama todos os dias pela segurança dos cidadãos, e pela repressão dos criminosos. O Governo trata exclusivamente da sua própria segurança e dos seus próprios gozos. Não tem tempo, não pode, não lhe convém, talvez, estender um pouco mais do manto da sua solicitude. Seja qual for a causa desta apatia, altamente censurável, que o Governo tem mostrado em presença do gravíssimo estado moral do País, nós recordar-lhe-emos o cumprimento dos seus mais sagrados deveres. Um governo que não tem força ou ciência para satisfazer a mais elementar das necessidades públicas - a segurança individual e de propriedade – é indigno de estar à testa de um povo civilizado.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo III, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.80.

Ruben Ferreira e Bernardo Pedro, 12º A

LITERATURA E CULTURA

Literatura: «Revista peninsular»

Principiou a publicar-se, em Lisboa, um jornal exclusivamente destinado a estabelecer relações de convivência literária entre Portugal e Espanha. Faltava na imprensa dos dois países um órgão que representasse o movimento simultâneo das suas literaturas, que estudasse a influência das diferentes escolas e dos seus chefes, que desse a conhecer as vocações auspiciosas dos seus jovens escritores, que revelasse os trabalhos dos seus homens de ciência, numa palavra, que mostrasse aos povos peninsulares, até aqui tão afastados e desconhecidos um do outro, a elaboração intelectual e o gosto literário de suas primeiras capacidades. Esta falta, que os progressos da civilização e as necessidades especiais da nossa Península tornavam cada dia mais sensível, vem, pois, e em boa hora venha, preenchê-la a Revista Peninsular. Quando todos os meios de aproximação para os homens e para as coisa recrescem e se aperfeiçoam de dia para dia, quando os sólidos princípios da liberdade de comércio ganham terreno, e prometem reger a economia das nações, quando as sublimes teorias de fraternidade universal começam a ter propugnadores e mártires, quando os menos preocupam a mente dos políticos, justo é que, no meio desta actividades moralmente ao menos, uma nação vizinha, irmã e companheiro de glórias e de infortúnio. Quaisquer que sejam as nossas crenças sobre o futuro que a Providência tem marcado á Espanha e a Portugal, quaisquer que sejam a semelhante respeito as nossas esperanças ou as nossas apresentações, nenhuma consideração pode diminuir o interesse que naturalmente temos em estudar a fisionomia moral de um país que mais cedo ou mais tarde nos há-de abrir passagem para a Europa, e cuja situação política e económica há-de sempre influir, e em escala ascendente, nos nossos próprios destinos. Demais, semelhante estudo não se recomenda só por necessário, se não também como atractivo. Com efeito, na história e nas tradições de Espanha revemo-nos em sentimentos e altos feitos, às vezes em proporções e outros agigantados pela grandeza do local e do número. Afonso Henriques e Afonso VIII são entre outros muitos, belos tipos de valor cavaleiroso da reacção cristã contra os árabes. Gama e Cólon, Pedro Álvares e Magalhães fazem descobertas imortais, que em Albuquerque e Cortez, Castro e Pizarro alargam com suas valentes espadas. No princípio deste século portugueses e espanhóis combatem contra os invasores da Península, enquanto mais tarde gomes Freire e Riego se sacrificam pelas liberdades.

Nos fastos literários grandes nomes se contrapõem em um e outro país. Camões e Cervantes, Gil Vicente e Lope de Veja, Garret e Quintana ilustram as épocas em que viveram. Em ambas as nações o génio popular, vivamente impressionado pelos variados sucessos de que a Península foi o teatro, produziu uma infinidade de poesias, algumas delas de notável merecimento e de remota antiguidade. Por uma significativa coincidência, a exploração e a imitação desses preciosos vestígios da poesia primitiva foram tentadas quase ao mesmo tempo nos dois países – e em ambos eles serviram ao renascimento da literatura e do gosto pelas coisas da pátria. Acaso ou predilecção, foi ainda a terra de Espanha que inspirou os bons romances portugueses de mais subido mérito, para nosso gosto – o homérico Eurico e o primoroso Conde de Castela. É que na região da arte não há fronteiras, e em parte nenhuma talvez, como naquele país, existe o belo, o grande, o maravilhoso debaixo de formas tão variadas e originais.

Na arena política a Espanha e Portugal têm passado pelas mesmas vicissitudes. As causas da verdadeira e da falsa grandeza de ambos eles, e as da sua estrepitosa decadência e lento progresso são ainda as mesmas. Como Portugal, a Espanha prosperou enquanto vigoravam as antigas virtudes e as liberais instituições dos seus estados; decaiu com a extensão da conquista e com o triunfo do absolutismo; revive, e engrandecer-se-á, com o desenvolvimento das liberdades populares. Tal é em sua íntima ligação connosco a vizinha Espanha.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo III, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp.106-107.

Encarregada de Educação, 12º A

Cultura: O Teatro Municipal

“O teatro municipal apresenta em períodos certos, mais ou menos espaçados, espectáculos de declamação, canto e dança. Os educandos de ambos os sexos que mostrarem aptidão para esta carreira devem ser devidamente guiados.”

Cultura: A Biblioteca Municipal

A biblioteca municipal contém a colecção dos livros mais necessários para o estudo das ciências e das artes, da literatura, da história e das antiguidades (…)

O governo nomeia comissários para a compra de livros em Londres, Paris, Bruxelas, Leipzig, Turim e Madrid, por via dos quais são fornecidas, ao preço do custo, tanto às bibliotecas municipais, como à central.”

NOGUEIRA, José Félix Henriques, O Município no Século XIX, cap. Instituições Municipais, Ed. Ulmeiro, 1ª edição fac-similada, Lisboa, pp. 111-139)

(Colaboração de Noémia Santos, professora de Português)

Cultura: o Museu Britânico

As múmias, de que ali se observam muitos exemplares, têm um caixão de madeira, talhado pela forma do corpo, e pintado de várias cores.

Exteriormente o caixão apresenta algumas vezes o retrato do morto, e interiormente uma longa discrição, que é talvez o seu panegírico ou a sua biografia. O cadáver está envolvido em ligaduras, com a cabeça coberta por um pano pintado ou por uma máscara dourada. Algumas destas múmias acham-se tão desfeitas, que não é fácil distinguir nelas nem a forma dos corpos, nem os envoltórios das partes nuas. Os vasos etruscos, admirável manufactura da olaria italiana, ocupam um grande salão. No british room observam se diferentes antigualhas anteriores á invasão romana na Inglaterra, tais como facas de pedra, pontas de frecha, e martelos de bronze, grosseira e meio-cozinha louça de primitivos bretões, modelos de cromelechs de pedra, ou sepulcros das antigas tribos célticas. O ethnographical saloon apresenta uma extensa galeria de objectos de uso doméstico, armas, vestidos e divindades da Índia, da China, do Japão, da Núbia, da Abissínia, da América, das ilhas do oceano Pacifico, da Nova Zelândia e da Austrália.

A colecção de produtos de história natural é riquíssima, e apenas inferior à do Museu de Paris. Entre os curiosíssimos fósseis que possui avultam o enorme esqueleto moldado de Megatherium americanum, de Buenos Aires, o do Mastodon Ohisticus; de Nem Jersey, que é parecido com o do elefante, e o molde do crânio e queixada inferior do Dinotherium ou tapir gigante, que Cuvier supôs ter atingido a espantosa altura de 80 pés. A colecção dos livros impressos contém de quinhentos a seiscentos mil volumes. A livraria de Jorge III, que consta de sessenta e três mil volumes, e parece haver custado cento e trinta mil libras esterlinas, foi oferecida à nação por Jorge IV em 1823. A colecção dos manuscritos é extremamente rica. Só o conteúdo de duas estantes está avaliado em perto de trezentos mil libras.

Livros há ali que valem literalmente o seu peso em ouro. O Museu [Britânico][ possui também uma pequena, mas valiosa colecção de estampas e desenhos.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 294.

(Colaboração de 12º A)

VIAGENS

Descrição de paisagens

Ericeira

O forte que estampa representa está sobraceiro à calçada que dá para a praia, e hoje acha-se desguarnecido. Segundo se depreende duma inscrição sobre a porta foi edificada por D. Pedro II em 1760.

No chafariz chamado a Fonte do Cabo existe uma pedra embutida na parede com um emblema e legenda em caracteres góticos em relevo, que parece significar: «Feita na era de mil e quatrocentos e cinquenta e sete anos».

Ainda existem restos do palácio do senhorio desta vila, o conde da Ericeira: Pela parte superior de algumas janelas vêem-se pedras com um leão esculpido. Estas paredes, a que o povo chama de Paço, são dignas de veneração por terem servido de residência, e quem sabe se de academia, ao nosso douto escritor D. Francisco de Meneses.

A meia légua ao nascente desta vila está aberta uma mina de barro branco no sítio chamado a Avesseira, que já tem sido explorada por conta das fábricas de louça das Janelas Verdes e Vista Alegre.

Também por este mesmo sítio é situado o chamado Pinhal dos Frades, por ter pertencido ao Convento de Mafra. É uma importante propriedade nacional, assim pelo número como pela bondade e préstimo das árvores, que excedem em diâmetro e altura as de todos os outros pinhais circunvizinhos.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.190.

(Colaboração de Dário Nascimento e Diogo Bento, 12º A)

VIAGENS

Descrição de viagem de barco

Viagem a Londres

Subi à tolda para respirar a aragem livre. Entretanto o navio levantou ferro, e começou a mergulhar seus fortes e velocíssimos remos. O sonho dourado de toda a minha vida ia finalmente realizar-se! Cortando por grandes dificuldades e endurecendo o coração a impressões tão pungentes, eu empreendia, só e desprotegido, uma viagem, cujo móvel principal era o amor puro, franco e desinteressado.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.201.

(Colaboração de Noémia Santos, professora de Português)

Descrição de viagem de barco

Viagem a Londres

Evidentemente pelo tempo e pelo tombar compassado e violento do barco, navegámos em pleno oceano. O estrondo das águas quebrando-se no costado do navio, o ranger monótono do cavername, a bulha do vento e da máquina eram o pouco harmonioso acompanhamento que tive durante horas tristes de ansiedade. «Quem me manda a mim ser tolo, disse eu comigo e com os meus botões, para trocar pelos cómodos domésticos os dissabores ou os perigos de uma viagem? Por que não faço eu como tantos outros, que só de si curam, dando ao Diabo tudo que os molesta?» Perdoe o benévolo leitor este desabafo de egoísmo, que tinha suficiente desculpa no meu aflitivo estado. A imaginação representando-me a perspectiva de 5 dias assim ou pior passados, tornava-me mais medonho o meu sofrimento. Felizmente, ao cabo de bastantes experiências, pude encontrar posição, se não cómoda, pelo menos suportável. Habituei-me ao seco balouço do meu novo berço, e fiz por aplacar a insurreição do meu estômago, que se ia tornando permanente. Para esse fim apurei a língua, e pedi ao nosso steward um pouco de chá verde. Em boa hora apareceu a chávena de green-tea trazida pelo diligente e caritativo criado. Foi, sendo suponho, recebida com especial agrado, porque sobre ela deixei-me ligeiramente adormentar. Ao cair da tarde desse dia interminável consegui tomar um caldo, uma laranja, e um copo de vinho do Porto. Este frugal jantar, variado pelo chá e biscoito, ao almoço e merenda, repetiu-se todos os dias que passei embarcado, isto é, deitado.

No leito superior ia um jovem e esgrouviado inglês que, segundo lhe pude tirar do bucho, era empregado na diplomacia. O meu sossegado companheiro era, com efeito, de uma reserva exemplar. Creio que durante a passagem não gastou nem me fez gastar uma dúzia de frases. Somente de horas em que quando dirigia algum monossílabo ao steward, que chamava em tom doce, sonoro, e, se é lícito dizê-lo, distintamente aristocrático Antes do jantar, de que eu não partilhava senão o ingrato cheiro, vi suspensas e como caídas do tecto as longas e esguias pernas, coroadas pelo descarado tronco do silêncio attaché que passou a compor o seu vestuário, quase tão esperadamente como se fosse para um baile de corte. Invejei-lhe o sossego com que fazia estes preparativos. À hora do costume veio o criado apagar a frouxa lamparina e fechar a porta do beliche. Cessou o ruído do perpassar da gente. Somente de quando em quando, a campainha estridente do relógio e as vozes confusas do quarto quebravam o silêncio da noite. Enquanto os outros dormiam, velava eu, devorando o tempo com a impaciência do que não está bem. Sobre a madrugada pude também descansar um pouco.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp. 279-280.

Dário Nascimento e Diogo Bento, 12º A

VIAGENS

Descrição de viagem de barco

Viagem a Londres

No dia seguinte, pela tarde, entrámos a segura e profunda baía de Vigo. Não careci de aviso. A progressiva serenidade com que o barco navegava era claro indício de que pairávamos sobre águas mais quietas e bonançosas. Levantei-me logo, e escrevi a minha mãe. Vim depois gozar a vista da cidade, e observar o admirável porto que a Providência concedeu à Península para refúgio dos navegantes em suas tempestuosas costas. A cidade, que se assenta em anfiteatro no fundo do porto, tem um aspecto tristonho e miserável. O forte que a domina apresenta aos olhos do espectador a tosca frontaria de seus casebres e muros amarelados. A povoação é pequena. Não sobressaem nela, como devia esperar-se, os estaleiros, nem as docas, nem os outros estabelecimentos de comércio. Avulta o castelo, imagem da guerra, e faltam os navios, imagem da paz! As montanhas que abrigam o porto do lado do norte, são altas, aprumadas e pitorescas. A ria alonga-se para o interior, e perde-se de vista em seu curso sinuoso por entre margens de selvática beleza. A duas léguas de distância banha-se em suas águas a vila de redondela, nomeada pelo número dos seus pescadores, e pela abundância dos seus vinhos.

Enquanto permanecemos fundeados, atracava o barco um cardume de botes galegos, cujos marinheiros se distinguiam por camisolas vermelhos-escuras, e por seu peculiares barretes. Um compatriota nosso, que se destinava a mais longa digressão, mas que não pôde pactuar com o enjoo, saltou em terra. O mesmo faria eu, se dali aos Pirenéus houvesse um caminho-de-ferro! O vapor largou daí a pouco, e eu gozei de novo sobre a tolda a vista das escuras e verdejantes serras, que encaixam paralelamente, numa grande extensão, a barra mais segura de Espanha. Ao anoitecer passávamos o ilhéu de Baiona. O frio e a agitação recrescente do mar obrigaram-me dentro em pouco a entrar em quartéis de inverno. Deitei-me, e dessa vez por largo espaço, até defronte das costas de Inglaterra.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 280.

Rafaela Bandeiras Santos, 12ºPTG

Descrição de Londres

A estação do caminho-de-ferro é edifício vasto e construído nesse inimitável gosto da moderna arquitectura inglesa, em que a simplicidade se encontra quase sempre reunida à elegância. Era domingo e, segundo o costume do país, havia, por tal motivo, menor número de carreiras. O trem estava a partir. Um guarda tomou a minha bagagem apressadamente e indicou-me, na longa fila de carros e carruagens, o waggon* para o qual devia subir. O trem posava sobre um alto e espaçoso telheiro, e dali a pouco entrou de andar com tal lentidão e suavidade, que me parecia ser puxado por cavalos. Mas não tardou que o silvo agudo da locomotiva e uma para mim extraordinária, mas mui agradável velocidade, me advertissem a que eu era transportado pelo vapor, o gigante do século XIX. O espaço desaparecido diante dos meus olhos maravilhados! Ao perto as pequenas cottages* dos cultivadores, guarnecidas de vidraças, os seus quintalinhos verdejantes, os seus moradores grandes e pequenos, homens e mulheres, as lisas azinhagas das aldeias, orladas de árvores, os serpejantes riachos e canais, cortando o terreno em todas as direcções, os campos tão regular e cuidadosamente amanhados, como se fossem tabuleiros de horta, belos grupos de maciços bosques de árvores frondosas, como principalmente se encontram neste país, onde a sua cultura é esmerada, e o fértil solo e a constante humidade do clima favorecem a sua vegetação, tudo isto figurava-se uma bela miniatura de paisagem Suiça. Ao longe, no extenso horizonte, elevavam-se os azulados outeiros, suaves ondulações do solo que lhe quebram a monotonia, sem lhe alterarem sensivelmente a planura. Aqui e ali, a maior ou menor distância do nosso voo rasteiro, avistavam-se as ricas povoações ostentando a massa considerável de seus edifícios e altas torres. Desta sorte passarem diante de nós, como em revolvente panorama, Winchester com a sua soberba catedral e antiga povoação; Basingstoke, Kingston e outros lugares menos importantes, com as suas asseadas e alegres estações. Ao nosso lado ficavam os altos e elegantes colunelos do telégrafo eléctrico sustentando oito ou dez fios condutores de suas notícias.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 284.

Francisco Menezes Leal, nº12 10ºC

Inês Fernandes Gomes nº13 10ºC

Mariana Matias Zeferino nº19 10ºC

VIAGENS

Descrição de Londres

A cidade, aglomeração inextricável, infinita, imponente de soberbos palácios e de elevados coruchéus; o Tamisa revolvendo lá em baixo suas águas negras e túmidas, sulcadas por centenares de navios de todas as dimensões; as pontes monumentais, que a consideráveis distancias comunicam as duas margens; tudo isto constitui um quadrado por tal forma gigantesca, que a imaginação sacia-se, e a vista cansada sucumbe debaixo do peso de tanta grandeza. Ao menos assim me aconteceu a mim, pobre filho de uma pobre terra, ao contemplar a face da moderna babilónia. Tanto fausto, tanto apuro, tanto progresso ao passo que me interessavam como objectos de estudo, vertiam na alma o sentimento indefinível de tristeza e de pesar, porque me lembrava o meu país, hoje tão arrasado e empobrecido, também outrora empunhava o ceptro dos mares, e que posteriormente concorreu não pouco, pelo desmazelo e ignorância dos seus naturais, para a existência destes monumentos, cuja magnificência me humilhava. Pagamos e enriquecemos os mestres. Justo era, que agora, ao menos, aproveitasse-mos das lições!

Entretanto atravessei Trafalgar Square, majestosa praça ornada de soberbos edifícios e gloriosos monumentos, onde vem confluir as ruas de maior trânsito da imensa movediça capital. Dali a pouco achava-me no Oliveira’s hotel, Golden Square, em casa de português, e em campainha de portugueses. Essa circunstancia proporcionou-se, não só simpática hospedagem, mas excelentes companheiros para algumas digressões, e aprazível e em ensejo de pensar e de falar muitas vezes a respeito de Portugal. Ali pude colher também muitas e úteis informações sobre as cousas do país em que acabava de entrar.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp. 285-286.

Emanuel Gomes Nº10 10ºC Mário Nunes Nº20 10ºC

Descrição de Londres

O que é Londres – Um passeio pelas ruas, praças e jardins – Regent Street à noite – As crianças em St. James – O chapéu – Pobre Irlanda! – O gaiato – Policia modelo – Londres ao domingo.

Não tentarei a descrição de Londres. Sobre ser quadro vasto, impossível de acomodar-se nas breves notas de uma viagem, não me julgo habilitado para traça-lo; e todavia demorei-me ali cerca de dois meses, e vi muitas das principais cousas, que chamam a atenção do observador. Mas é que Londres resume a grandeza, a ciência, a industria, a riqueza, e o fausto da Inglaterra, e por isso carece de anos para conhecer no admirável desenvolvimento de suas instituições, de suas empresas, e suas obras gigantescas. Direi, pois, pouco e sobre poucas cousas, traduzindo com fidelidade as variadas impressões que elas me suscitaram.

Londres divide-se naturalmente em três grandes bairros, a cidade velha, a cidade nova, e a cidade de além-rio. A cidade velha, ainda hoje denominada a city, é a parte quase exclusivamente comercial da povoação. Nela se encontram as docas, a alfândega, o banco, a moeda, o correio, e muitos dos principais armazéns. No seu centro campeia a majestosa Catedral de São Paulo, sobre a pequena eminência de Ludgate reid. À beira do Tamisa numa ligeira encosta está situada a antiga Torre de Londres. Este bairro tem uma fisionomia particular. As ruas são nele geralmente mais estreitas, e os edifícios mais antiquados e irregulares. Sobretudo a concorrência de gente em algumas das suas ruas e veículos, e pasmosa e quase processional. Não é raro ter o viandante de esperar cinco ou dez minutos que se interrompa por um pouco a longa fila de ómnibus, carruagens, cabs, waggons e carros de mão, para atravessar de um lado para outro. A cidade nova se estende para o oeste, desde o Strand até Chelsea, Paddington e Regent’s Park, é a parte elegante, grandiosa e aristocrática da povoação. Ali se vêem as mais belas ruas, os lindos squares, os soberbos edifícios, os vastíssimos passeios, e os numerosos teatros, museus e bazares. Trafalgar Square é o centro deste magnifico bairro onde vêm confluir as ruas mais frequentadas dele. A formosa Abadia de Westminter, o colossal palácio do Parlamento, o riquíssimo Museu Britânico, a formosa Regent Street, primeira rua do mundo, o vasto Colosseum, distinguem-se ali entre milhares de construções mais ou menos sumptuosas e originais. As classes ricas povoam em boa parte este grande bairro, e Eaton Square, Belgrave Square, Portman Square e Portland Place, são residências dignas de príncipes. Infinitos ómnibus e luzidas equipagens cruzam as ruas, em cujo largos passeios a turba peã gira e espairece. As lojas ostentam em seus amplos e rasgados mostradores infinita variedade de valiosas mercadorias. Tudo o que a arte ou a natureza pode oferecer e mais belo ali se encontra; tudo que o luxo pode apetecer de mais caprichoso ali se satisfaz. Money é a varinha mágica que tudo alcança.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp. 287-288.

Ana Catarina Gonçalves nº2, 10ªC

Ana Rita Gomes nº4, 10ªC

VIAGENS

Descrição de Londres

A cidade de além–rio, denominada Southwark, que se estende desde Lambeth até Surrey e Deptford, é a parte, a bem dizer, fabril da povoação. Além de vastos armazéns e estaleiros, predominam ali as fábricas de diversos géneros, principalmente fundições de ferro, saboarias e gasómetros. A grande quantidade de chaminés, altas e esguias, como mineretes de mesquita oriental, espalham na atmosfera nuvens de fundo de carvão, cujos vestígios enegrecem as paredes dos muros e oficinas, este barro possui,todavia, algumas ruas espaçosas, como Borough e Westminster Road, principalmente habitadas por mercadores e lojistas. As concorridas estações dos caminhos de ferro do Sul e Leste, que por Folkston e Shouthampton comunicam a Inglaterra com a França e o oceano, acham – se ali estabelecidas. Ainda que ligada á margem do Norte por pontes, esta parte da cidade apresenta, em geral, um notável contraste de inferioridade, pelo que respeita ao movimento, ás construções e ao asseio. Tais são as divisões naturais da opulenta capital das dez mil ruas,travessas, becos e pátios, das oitenta praças de todos os tamanhos, e das cento e setenta mil casas!

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.288.

Maryline nº21, 10ºC

Mafalda nº17, 10º C

VIAGENS

Descrição de Londres

O domingo em Londres é duma sensaboria proverbial. As lojas fechadas, as ruas desertas, os repiques dos sinos, as igrejas cheias de devotos, as tabernas atulhadas de fregueses. O honesto cidadão encaixa-se em casa ou vai espairecer ao campo. A tafula criada de servir sai a passeio, e só de noite regressa à casa de seus amos. Os passeios são também concorridos ao domingo. Todavia nunca descobri neles, nem noutra alguma parte, o tipo puro e extremo do peralvilho, como avulta em Lisboa, e como depois o fui observar em Paris. Os ingleses têm o admirável bom gosto de não serem janotas. São muito livres em seus movimentos para se sujeitarem ao empertigado molde de um espartilho, e bastantemente judiciosos para perderem o tempo por cavacos e soalheiros em escandalosa ociosidade. Contentam-se da modesta honra de apresentarem o seu pais cortado de caminhos-de-ferro, coalhado de fábrica, primorosamente cultivado, e abundantemente cheio de tudo quanto há rico ou curioso útil ou agradável a vida. E por isto lhes não quero eu mal. Assim o seu Governo não procurasse engrandecer-se, como o tem feito, a custa e com o suor e o sangue dos povos pequenos, francos e atrasados!

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.292.

Bruno Daniel Ferreira Rodrigues, 12º PTG

Joana Dias ,12ºPTG, nº10

VIAGENS

Descrição de Londres

O Instituto Politécnico oferece algumas horas de instrutiva recreação. O salão central tem um vasto tanque, onde se fazem as experiencias do sino mergulhador. Os curiosos pagam por esse divertimento mais um shilling adicional. Na noite em que ali fui, vi sair dentro dele, como pintos de sob as asas da galinha, três homens e duas senhoras. Não me pareceu que ficassem com vontade de repetir o ensaio. Depois meteu-se debaixo de agua, e nela, esteve, durante alguns minutos, um búzio, vestido com fato impermeável, e coberto superiormente por um forte capacete, do qual saía um tubo condutor do ar. O robusto inglês, quando se viu livre das suas “calças pardas”, suava como um touro. É inumerável a quantidade de desenhos, de modelos e de pequenas maquinas, que ali se observam. Algumas delas, as de vapor por exemplo, estão em movimento. Advertidos por um ligeiro toque de sineta os concorrentes vão assistir á prelecção de ciência aplicada ás artes e aos usos da vida. Estas prelecções todas práticas, experimentais e expostas num estilo simples e ás vezes jocoso, costumam ser feitas por homens de bastante crédito científico, cujo o nome se anuncia previamente. Durante meia hora ouvi discorrer sobre pneumática com aquela abundante facilidade dos oradores ingleses, que é o apanágio dos aproveitadores do tempo por excelência, e o tormento dos que, como eu, lhes não podem seguir o fio.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.295.

Cláudia Macedo, 12º PTG

VIAGENS

Descrição de Londres

O Panorama de Londres e o Terremoto de Lisboa atraem há muitos anos visitadores ao Colesseum. Fui lá uma noite. Subindo a aristocrática Portland Place e tomando à direita no Park Crescent, encontra-se a poucos passos a extremidade de Albany Street, solitária e larga rua, por onde se entra para a magnífica exposição de vistas do Colesseum.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p. 302.

12º PTG

VIAGENS

Descrição de Londres - Espectáculos

Os esplêndidos Willis’ Rooms em King Street, onde se dão os célebres bailes de Almaks, oferecem repetidas vezes concertos e jantares públicos. Fui convidado a assistir a um concerto diurno em que tocaram piano, harpa e rabeca alguns artistas distintos, cujos nomes infelizmente me passaram da memória, acrescendo a esta circunstância haver-se-me extraviado nítido programa, que lá se distribuía. A reunião era numerosa e escolhida. A mais religiosa atenção foi prestada aos diversos artistas. O grande salão era guarnecido de belas colunas, de trabalhosos relevos de estuque, e de profusos doirados. Enormes e magníficos espelhos decoravam o salão de imediato. Tudo conduzia, tudo respirava grandeza e elegância nesta noble mansion, que me deu ideia de que são célebres clubs de pall mall, soberbos palácios, construídos pelos primeiros arquitectos, onde os subscritores gozam, a certos respeitos, um serviço de príncipes. A associação, como e onde quer que a apliquem, produz sempre maravilhas.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.304.

(Colaboração de Isabel Santos, professora de Inglês)

VIAGENS

Descrição de Londres

Os clubes são uma das instituições mais originais e admiráveis da opuleta e engenhosa Inglaterra. Quem passar por diante do Athenaeum Club House ou do Reform Club e observar simplesmente os vestíbulos destes edifícios, cuidará que eles alojam reis ou imperadores. Pois nada disto assim é. Estes palácios não chegam mesmo a pertencer a qualquer membro poderoso da aristocracia britânica. Pertencem a vários homens, muitos deles medianamente ricos, mas superiormente ilustrados, que se associaram para gozarem em comum as comodidades, os prazeres e o luxo, que individualmente excediam as suas forças. Há clubes para as diferentes classes sociais, mas especialmente para as superiores. Há-os, também, pelo menos em nome, para membros de certas parcialidades políticas. A admissão dos sócios é feita por votação de esferas. Paga-se jóia de entrada e uma subscrição anual destinada a suprir as despesas ordinárias do serviço. As comidas e bebidas são pagas simplesmente pelo preço de custo. Mr.Walker descreve assim as vantagens destas associações: «Uma das maiores e mais importantes mudanças modernas é o actual sistema dos clubes. As facilidades da vida foram por eles, a muitos respeitos, maravilhosamente aumentadas, entretanto que a despesa diminuiu consideravelmente. A custo de poucas libras por ano gozam-se vantagens que só grandes fortunas poderiam possuir. Vou explicar isto mais claramente por um exemplo particular. O único clube a que pertenço é o do Athaenum, o qual consta de mil e duzentos membros, entre os quais, em cada classe – civil, militar e eclesiástica, pares espirituais e temporais (noventa e cinco nobres e doze bispos), membros da Câmara dos Comuns, homens das profissões científicas, assim os ligados À ciência, às artes e, nos seus principais ramos, como os destinos que não pertencem a uma determinada classe. Muitos deles encontram-se todos os dias, vivendo com a mesma liberdade, que teriam em suas próprias casas. Por seis guinéus anuais cada sócio tem às suas ordens uma excelente livraria, mapas, jornais ingleses e estrangeiros, as principais publicações periódicas, e o necessário para escrever, com suprimento de tudo o que precise. A casa é uma espécie de palácio, e é regida com o mesmo cuidado e conforto, como uma habitação particular. Cada sócio +e um dono, mas sem nenhum dos cuidados do dono. Pode vir quando quiser, e estar ausente o tempo que lhe agradar, sem que as cousas corram mal. Tem às suas ordens criados atenciosos, sem ter de lhes pagar ou de os dirigir. Pode ter qualquer comida ou bebida que deseje, a toda a hora, e servir-se delas com o asseio e conforto da sua própria casa. Manda justamente o que lhe convém, sem ter de pensar senão em si. Numa palavra é impossível supor um grau maior de liberdade no viver. Os clubes, tanto quanto a minha experiência o mostra, são favoráveis à economia do tempo. Há um lugar fixo, onde se chegue; tudo é servido com a maior expedição, e não é ordinário ter grande demora à mesa. São, também, favoráveis à temperança. Parece que, quando a gente pode regalar-se à sua vontade, e quando tem oportunidade de viver parcamente raras vezes se cai em excessos.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp.304-305.

Joana Bárbara Severiano, 12º PTG

VIAGENS

A sociedade inglesa

O espírito filantrópico dos Ingleses e o seu génio eminentemente empreendedor suprem, até onde é possível, os monstruosos defeitos da sua organização social. Sem as inúmeras instituições, que a caridade e a associação têm levantado naquele país para amparo das classes pobres e laboriosas, a sorte delas seria cem vezes mais lamentável do que é. As variadas misérias do pobre encontram ali quase sempre o seu lenitivo. Além das utilíssimas Work-houses há hospícios particulares para certas e determinadas doenças; há dispensary, boticas gratuitas em que se dão os remédios; há consultórios também gratuitos; há asilos para órfãos; há-os para mulheres grávidas e para convalescentes. Há, também, sociedades particulares consagradas a prevenir os vícios, os desmazelos e as doenças do povo. A soma que elas despendem anualmente só em dinheiro de donativos voluntários, sem contar os serviços pessoais, passa de 50 milhões de libras. Há, igualmente, sociedades destinadas a propagar a instrução popular, a proteger as mulheres, a educar os órfãos e a moralizar as classes viciosas. Há, finalmente, estabelecimentos económicos, em que o pobre encontra, por um preço módico, alojamento, comida, lavadouro, banhos, livros e asilo para si e para os seus filhos durante as horas de trabalho.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.311.

Renato Filipe Félix Oliveira

VIAGENS

Descrição de Londres

Londres e o Tamisa, vistos de grande altura sobre o pavimento de Charing Cross Bridge*, são com efeito um quadro arrebatador. Olhando por esse rio abaixo, vêem-se a distâncias descomunais diversas pontes de variada e magnifica arquitectura. A cidade, estendendo-se por um e outro lado, fecha o horizonte com a mole imensa e seus edifícios. Não parece somente um cidade a que o espectador tem diante dos olhos, mas sim o acampamento de uma grande nação , em que as barracas são templos e palácios. Na terra em que tudo é majestoso até as águas dos seus rios encobrem maravilhas, que a não estarem patentes pareceriam contos fantásticos. Costeando a margem esquerda do Tamisa, e descendo as estreitas e húmidas ruas de St. Catherine e Wapping, chega-se a um casebre de mesquinha aparência, por onde se desce ao famoso tunnel de Londres. Á porta paga-se penny. A escala é de uma profundidade considerável, mas espaçosa e clara. Os muros interiores são decorados com algumas pinturas a fresco, representado paisagens.

*Ponte de Charing Cross

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp.315-316.

Liliana Firmino, 12º PTG

CIÊNCIA, TECNOLOGIA E PROGRESSO SOCIAL

Evidentemente o espírito humanitário do século XIX alarga, de dia para dia, o horizonte de suas aspirações. Auxiliado pela ciência e pela riqueza ele encurta as distâncias, liga os continentes, aproxima os povos, destrói as barreiras e convida os produtores de todos os países a um certame nobilíssimo de aperfeiçoamento e de esforço. Os caminhos de ferro, as carreiras de vapores, os telégrafos eléctricos, as ligas de alfândegas, as exposições de indústria, os congressos da paz são os meios, materiais e morais, que a filosofia do nosso tempo emprega para aproximar a tão desejada, tão necessária e ainda tão distante harmonia universal. De todos esses meios, porém, todos eficazes e convergentes ao mesmo fim, um dos mais engenhosos e interessantes é o das exposições em grande e larga escala. Os governos e os indivíduos dos diversos países têm um igual interesse em que a sua indústria seja aí dignamente representada. Os governos lucram porque a apresentação de um produto natural ou artificial, consideravelmente distinto, vai muitas vezes desenvolver uma indústria amortecida e, por consequência, aumentar a matéria tributável. Os indivíduos lucram, porque essa apresentação os acredita como produtores ou exploradores, e os enobrece com os prémios do júri eminentemente respeitável. Os próprios expositores não premiados lucram, porque ficam habilitados, talvez, a concorrer com mais fortuna em outra ocasião. Sobretudo lucram, e muito, os produtores dos países mais atrasados, se podem examinar os bons, os melhores exemplares da sua especialidade para, em seus trabalhos ulteriores, se aproximarem deles, e até para os igualarem ou excederem, se tão alto lhe fosse dado subir. Os indivíduos que por interesse particular ou por mera curiosidade concorrem a estas exposições, lucram também, vendo milhares de coisas, de que pouca ou nenhuma ideia faziam. Voltando aos seus lares eles são naturalmente os promotores dos melhoramentos, que os impressionam. Assim progride a civilização. Os inventores contam-se um a um. Os imitadores podem aparecer aos milhares.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo III, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.76.

José Rodrigo, 12ªA, Nº17

CIÊNCIA, TECNOLOGIA E PROGRESSO SOCIAL

Exposição de Paris

Estas reflexões foram-nos suscitadas pela próxima exposição de paris. O Governo nomeou uma comissão de homens de ciência, para estudar ali os progressos da indústria com aplicação ao nosso país. Procedendo deste modo, o Governo fez o que cumpria em assunto tão ponderoso. Os nomes dos comissários oferecem ao país sólidas garantias de que o seu exame será tão consciencioso como fecundo em proveitosas indicações. Providenciou também o Governo para que dez artistas de Lisboa e Porto fossem àquela exposição observar o que se pudesse convir ao aperfeiçoamento dos seus respectivos misteres.

Foi uma resolução judiciosa. Os homens de ciência encaram ordinariamente as questões em grande, no seu ponto de vista mais geral, nas suas aplicações, nos seus resultados, na sua influência sobre a economia social. Os homens de pratica atendem particularmente aos detalhes, às minuciosidades, a tudo o que pela sua pequenez relativa escapa aos olhos menos experimentados. De uns e outros o concurso é necessário. Os primeiros colhem factos para o campo do raciocínio. Os segundos tiram instruções para a laboração da oficina.

Mas se isto assim é, se tão acertadamente se promove a instrução da classe fabril, porque se negará à agricultura um estimulo igual? Será esta numerosíssima e importante classe menos digna de protecção? Não carecerá ela tanto ou mais do que qualquer outra de ver e aprender o bom que lá por fora existe, e que seguramente se há-de reunir no templo do trabalho? Não merece ela que do muito com que concorre para o tesouro se tire um pouco com que seja, não já distinguida como deveria sê-lo, mas equiparada às outras classes produtoras? Cremos que sim – e todavia estranhamos que a seu respeito e contra os seus manifestos interesses se haja guardado um tão prolongado silêncio. Não esperamos que o Governo faça nomear, pelo modo mais conveniente, uma comissão de agricultores das diferentes províncias, que seja incumbida de estudar, na exposição de Paris, quanto possa ser aplicável e proveitoso á primeira das nossas indústrias.

NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo III, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.77.

Liliana Ferreira, 12ªA, Nº18