Minicursos - Grupo 1
HISTÓRIAS DO PASSADO NAS TELAS DO PRESENTE: a Literatura Clássica em séries do século XXI
Anne Caroline Ferreira Veloso (UNESP-SJRP) e Gelbart Souza Silva (UNESP-SJRP)
Resumo: A Literatura Clássica produzida pelos gregos e romanos antigos conheceu diversas adaptações ainda na Antiguidade. Isto é, sabe-se que havia relação entre poemas, entre epopeias e pinturas, entre esculturas e versos líricos, etc. Nos tempos modernos, a literatura e a cultura greco-romanas continuam a ser retomadas e a influenciar novas obras artísticas, em diversos gêneros, línguas e redes, de modo que as personagens antigas são ressignificadas para e pelas novas gerações. Já que modernamente a imagem está sempre em movimento, propomos este minicurso no qual nos importa discutir como a cultura clássica é representada nas telas modernas e que implicações, diálogos e (des)construções há nesse processo de recepção. Para tanto, respaldamo-nos nas contribuições da Recepção Clássica focadas na prática cinematográfica (Wyke, 1997; Solomon, 2001; Martindale; Thomas, 2006; Rosenstone, 2006; Hardwick; Stray, 2011) para analisar três obras modernas em streaming: Troy: Fall of a City (NETFLIX, 2018), Blood of Zeus (NETFLIX, 2020) e Alexander: The Making of a God (NETFLIX, 2024). Cada uma dessas produções seleciona e leva às telas um ciclo da história e da literatura clássica, a saber: a Guerra de Troia, a saga de Hércules e a história de Alexandre, o Grande, respectivamente. O minicurso se divide em duas partes principais: na primeira, discutiremos os conceitos de “intertextualidade”, “adaptação” e “recepção clássica”, concentrando-nos na produção em streaming; ainda nessa primeira parte, apresentaremos uma introdução às temáticas clássicas e um brevíssimo panorama da Recepção Clássica nas telas; na segunda parte, apresentaremos cada uma das obras e discutiremos junto ao público sobre como a literatura, a história e a cultura antigas são plasmadas em um formato moderno e quais implicações de produção e leitura há nesse procedimento. Usaremos handouts, apresentações de PowerPoint e recursos audiovisuais para execução de nosso minicurso. Objetivamos, portanto, introduzir o público no estudo da intersecção entre passado e presente a partir da Recepção Clássica em obras veiculadas por streaming.
PROCESSO CRIATIVO EM DEBATE
Vinícius Canhoto (USP/PUC-RS) e Mariana Azevedo (UNESP-Assis /PUC-RS)
Resumo: Em Seis passeios pelo bosque da ficção (1994) Umberto Eco discorre sobre a construção da escrita pelo autor-modelo que guia o texto desde o primeiro capítulo até a última letra do epílogo, direcionando o olhar investigativo do leitor-modelo, o preparando para seguir o caminho perfeito para o diálogo entre a intenção do texto e o receptor, caminho este no qual o leitor-modelo deve fazer escolhas para preencher as lacunas da narrativa, sendo estas guiadas durante seu passeio pelo bosque da ficção. Já em seu trabalho Confissões de um jovem romancista (2018), publicado pela primeira vez em 2011, Eco disserta sobre os caminhos trilhados para a constituição de suas obras e, ao reunir documentos, visitar lugares, traçar mapas, dá início à trama de seus enredos. O processo é descrito pelo autor como viver em uma “espécie de castelo encantado – ou, se preferirem, num estado de recolhimento autístico.” (p. 11). Para Mario Vargas Llosa em Cartas a um jovem escritor (1997) a boa escrita necessita de leituras de qualidade e de linhas metodológicas que criem um texto claro e coeso com destaque ao poder de persuasão que deve nortear a escrita. O autor defende que se as palavras e a estrutura de um romance forem eficazes e persuasivas, o leitor ficará de tal forma sugestionado e absorvido pela história que se esquecerá da maneira como ela é contada, convencido de que se trata da própria vida se manifestando por meio de personagens. A partir dos pressupostos apresentados, pretende-se discutir no minicurso possibilidades e processos de criação a partir da exposição das obras Arroz Queimado (2023) de Vinícius Canhoto e Alberto Lazzarini, e A Aretha Franklin em mim de Mariana Azevedo. Os proponentes da atividade, além de discutir suas respectivas obras, irão propor aos participantes exercícios de criação literária, bem como discussões acerca dos trabalhos desenvolvidos durante a atividade. Dentre os materiais a serem utilizados estão: projetor, computador e som, e os participantes devem trazer papel e caneta para escreverem. No primeiro encontro será lido o conto A Aretha Franklin em mim discutindo em grupo os aspectos formais de sua construção, em seguida os integrantes do curso terão um tempo determinado para desenvolverem textos de própria autoria que serão comentados pelos escritores; no segundo encontro o mesmo procedimento será realizado a partir da leitura de trechos do romance Arroz Queimado.
IDENTIDADES RASGADAS: COLONIZAÇÃO, LUTA E RECONQUISTA NA LITERATURA DECOLONIAL
Alyne Yumi Yoshida (UNESP-SJRP), Gabrielly Fernanda Spizamilio Silva (UNESP-SJRP) e Yuri Belloube (UNESP-SJRP)
Resumo: A discussão teórica sobre o conceito de identidade avançou nas últimas décadas, estimulado principalmente pelos grupos étnicos atravessados por questões territoriais e diaspóricas causadas pelo processo colonial, propagado primeiramente pelos impérios europeus e posteriormente pelo Japão e pelos Estados Unidos, promoveu mudanças culturais significativas nos territórios nos quais se instalou. O imaginário sobre o colonizador e o colonizado foi construído para apresentar a colonização como um ato benéfico e heroico, pois se associou à imagem do colonialista a de um benfeitor civilizador, branco e bem-vestido, desembarcando de grandes navios que, ao avistar os povos não-brancos, mal vestidos e até mesmos nus, decidiram civilizá-los e salvá-los. Entretanto, o que se presenciou do colonialismo foram discursos racistas moldados por estereótipos e um sistema marcado por violências brutais como a escravização, explorações desenfreadas de recursos naturais, disseminação de doenças, opressão de costumes, ou seja, a completa desumanização dos povos colonizados. Eventualmente, a partir da emergência da busca por (re)construir a identidade nacional e cultural, de se sentirem pertencentes e humanizados novamente, surgiu a necessidade dos colonizados de romper com a exploração do sistema colonial. No contexto africano, ao atravessar as memórias coloniais, retrataremos a perda e a busca pela identidade cultural angolana no romance Nós, os do Makulusu, de Luandino Vieira (1935-), ambientado na guerra pela independência de Angola. Pretendemos explicitar, no contexto asiático, objetivamente a influência da relação histórica na perda da identidade cultural coreana como resultado dos diversos eventos históricos mencionados no livro Pachinko, da autora coreana Min Jin Lee (1968-). Ao longo da narrativa, podemos observar diversos acontecimentos históricos que refletiram na forma como os coreanos viam a si e a sua própria nação. Devido a eventos como a Ocupação Colonial Japonesa na Coreia (1910-1945) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a identidade do povo não foi apenas perdida, mas sim reordenada por outras. Sendo assim, investigaremos como esses eventos catalisaram a perda da identidade coreana e o subsequente reencontro dessa identidade por meio do orgulho pela independência e proteção de sua cultura. Em relação à América, nos Estados Unidos, a marcha para o oeste, fundamentada na doutrina do Destino Manifesto, dizimou populações indígenas e culminou na invasión norteamericana (1846-1848) - pela visão dos mexicanos. A vitória estadunidense levou à anexação de mais da metade dos territórios pertencentes ao México. O novo governo deu duas possibilidades aos cidadãos mexicanos: serem assimilados pela cultura estadunidense ou deportados de volta ao seu país. A assimilação nunca ocorreu, a língua inglesa foi imposta como a única oficial e o encontro cultural levou esse grupo de mexicanos a se desenvolver diferentemente daqueles ao sul do Rio Grande, criando, assim, uma identidade hifenizada; não só mexicana, nem apenas americana, mas mexicana-americana. A literatura criada nesse contexto retrata as opressões sofridas e a luta por melhores condições de vida dessa parcela da população, bem como a criação de uma consciência “chicana”, questões essas presentes na obra de Tomás Rivera (1935-1984) ... y no se lo tragó la tierra. Para atingir tais objetivos, guiados pelas concepções de Anthony Appiah, Albert Memmi, Frantz Fanon, Stuart Hall, Gloria Anzaldúa e David Chapman, serão analisados os textos referentes à formação da identidade, ao contexto histórico, ao conceito de cultura, além da teoria de fronteira. Ainda, traremos os textos de Eduardo de Faria Coutinho e Tania Franco Carvalhal e Gentil Luiz de Faria no aporte teórico sobre literatura comparada. Por fim, serão utilizados computadores, com acesso à internet, projetor e caixa de som para as apresentações em slides a fim de expor e discutir os textos supracitados, assim como pincel atômico e lousa para possíveis explicações em classe.
Minicursos - Grupo 2
É NECESSÁRIO PRESERVAR O AVESSO: O QUE “O AVESSO DA PELE” NOS ENSINA SOBRE O RACISMO BRASILEIRO
Ayla Gregório Soares (UNESP-SJRP), Dalila Fernanda de Castro Neves (UNESP-SJRP), Joice Cristina Porto (UNESP-SJRP) e Maria Camila Morais Sousa (UNESP-SJRP)
Resumo: No início de 2024, o livro “O avesso da pele” (2020), obra que debate o racismo brasileiro, foi alvo de tentativa de censura em três estados brasileiros com a justificativa de apresentar vocabulário de ‘baixo calão’ e cenas de atos sexuais, não sendo, portanto, apropriado para o trabalho em sala de aula com estudantes do Ensino Médio. O professor e escritor Jeferson Tenório, autor do livro, declarou surpresa diante desse acontecimento visto que, no Brasil, deveríamos estar mais preocupados com a formação de leitores do que com a censura de obras literárias. A partir das distorções levantadas sobre o livro, percebemos a urgência de seu estudo e discussão, na universidade e nas escolas, principalmente, pelo fato de que palavras de ‘baixo calão’ e cenas de sexo causaram mais incômodo do que a violência e o racismo escancarados na obra, justificando a relevância da nossa proposta. Nesse sentido, o minicurso “É necessário preservar o avesso: o que “O avesso da pele” nos ensina sobre o racismo brasileiro” tem como objetivo geral apresentar e analisar o livro “O avesso da pele”, a fim de discutir como ele aborda as temáticas de racismo e violência racial e policial, demonstrando a sua importância para a construção de uma sociedade antirracista. Além disso, também objetivamos (i) contribuir para a ampliação do letramento literário e racial; (ii) impulsionar o desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo sobre as representações do racismo e do negro nessa obra literária; e (iii) demonstrar a relevância da leitura e do ensino da obra na universidade e no Ensino Médio, visando a formação de professores e estudantes críticos e comprometidos com a luta antirracista. Para tanto, no minicurso, trabalhamos com a análise conjunta da obra a partir da leitura e da discussão de trechos selecionados, com o objetivo de discutir suas temáticas, em dois encontros de 1h30m, de forma expositiva-dialogada, utilizando os seguintes recursos: projetor, notebook, slides, livros físicos, lousa, marcador e cópias dos trechos apresentados. A metodologia a ser utilizada tem como base central as estratégias de leitura proposta por Pietri (2007), que argumenta que o trabalho com o texto literário em sala de aula, ainda que feito a partir de fragmentos dos romances, deve ser realizado de modo a contribuir para a compreensão da obra como um todo, ampliando a capacidade leitora e de construção de sentidos dos estudantes, desenvolvendo o interesse pela leitura total da obra. Assim, por fim, baseamo-nos nos seguintes pressupostos teóricos: na perspectiva de trabalho com a leitura em sala de aula de Pietri (2007); nos pressupostos dos operadores da narrativa de Franco Junior (2003); na noção de direito à literatura e seu papel humanizador de Candido (2011); na diferença entre a literatura sobre o negro e a literatura do negro de Proença Filho (2004); no conceito de literatura afro-brasileira de Duarte (2008); e nas reflexões e análises de Abrantes; Lins (2021), Barreto (2022), Chagas (2022) e Silva (2021) acerca da obra e seus temas.
PARÓDIA, HERÓIS E VILÕES NOS DISCURSOS DA ARTE E ENTRETENIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE
Mariana Letícia Ribeiro (UFSCar), Heloísa Helena Ribeiro (UNESP- Araraquara)
Resumo: O minicurso tem como objetivo discutir o conceito de paródia e o maniqueísmo em contos populares e mitos, bem como observar exemplos de como obras contemporâneas questionam estruturas narrativas e sociais normativas ou as reafirmam a partir do uso de tais recursos, de modo a ressaltar sua relevância. No primeiro dia de minicurso, será estudado como a construção narrativa em Realities Shows – como Big Brother – e em discursos políticos, sociais e culturais nas redes sociais reafirma o discurso dos opostos maniqueístas existentes em contos populares maravilhosos. Por outro lado, também será analisado como algumas obras contemporâneas, por exemplo Good Omens (2019), rompem com essa estrutura. O papel do herói que parte para uma aventura ou é responsável por salvar alguém, e do malfeitor, quem persegue ou batalha com o herói, definidos por Propp (1984) em Morfologia dos Contos Maravilhosos, revelam como o maravilhoso “reflete e anula a desordem do cotidiano”, segundo Bessière (2009, p.7), em O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha (2009), servindo como uma espécie de “cura” para o mundo real, ao representar seus ideais. Assim, busca-se evidenciar como as redes sociais, a mídia e o entretenimento utilizam esse discurso para reafirmar as estruturas morais, enquanto a arte as questiona. Por sua vez, no segundo dia de minicurso, será discutido o conceito de paródia, entendido a partir de Linda Hutcheon (1985) em Uma teoria da paródia, em que é compreendido não como uma necessidade de ridicularizar um discurso, obra, gênero ou estrutura, de modo a torná-los risíveis, mas “[...] sua transgressão é sempre autorizada. Ao imitar, mesmo com a diferença crítica, a paródia reforça” (1985, p.39), ou seja, é uma forma crítica, mas “[...] reverente, torna-se [...] uma forma de preservar a continuidade na descontinuidade” (1985, p.123). A paródia, assim, será observada e discutida nas obras de Alexandra Lucas Coelho, O meu amante de domingo (2014), e de Spike Lee, Bamboozled (2000), de modo a compreender como ela serve, simultaneamente, a retomada e ao questionamento da história e das estruturas sociais impostas às mulheres – no caso, a partir de uma perspectiva sobretudo da mulher europeia – e à população negra, mais especificamente, norte-americana. Os materiais serão trabalhados por meio de projeção e impressão pelas palestrantes. Nos dois dias serão utilizados slides e exemplos em vídeo e textos para a explicação dos conceitos, seguida de análise guiadas dos conceitos em trechos de filmes, textos e redes sociais.
A METANARRATIVA DA VIOLÊNCIA EM MERIDIANO DE SANGUE: A CONSTRUÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA POR CORMAC MCCARTHY
João Silva (UNESP-SJRP) e Rafael Campos (UNESP-SJRP)
Resumo: O curso tem como objetivo expor utilizando o referencial teórico-metodológico de György Lukács e Fredric Jameson para compreender Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, como um romance histórico. E ainda, analisar a forma da narrativa da obra como, nos moldes de Paul Ricœure, pois a experiência temporal da obra centrada na personagem Kid permite expor como o processo de construção da narrativa dos eventos são configurados em uma intriga coerente que permite construir a experiência de uma temporalidade de construção da unificação americana com o fio condutor da violência que a personagem vivencia, produz e reproduz no Oeste Americano. A acepção teórica de classificação e a análise da trama de Kid permite analisar criticamente como a História é retratada na obra. Nestes termos o objeto de ensino será compreender como McCarthy propõe uma construção metanarrativa de condução histórica a partir da violência. Enquanto em termos hegelianos, há uma proposição da História construída a partir de historicidade dialética entre contradições que deveriam ser transponíveis a partir da racionalidade, produzindo assim, a síntese. Na obra Meridiano de Sangue, as contradições são produzidas a partir da violência e o ato em si torna-se a síntese. Ou seja, a ideia de que a construção dos EUA não foi a partir do ideário iluminista, mas conduzido pela violência, pilhagem e genocídio. Não foi a contradição da reprodutibilidade de uma sociedade que produz as próprias contradições internas que deveriam ser superadas internamente, mas a própria ação de destruição cria as contradições que impede uma sociedade se reproduzir e ao mesmo tempo sintetiza a formação social, criando assim, um ciclo contínuo de violência ad infinitum. A formação americana foi possível a partir da dizimação dos indígenas no Oeste, mas a marca da violência contra os povos perpetuam no próprio seio social, ou seja, existe uma contradição interna, a impossibilidade de unificar um país que discrimina e hierarquiza o seu povo, mas ao mesmo tempo, a unificação do Oeste só é possível a partir da dizimação e pilhagem contra os povos originários, neste sentido, a violência produz a contradição, mas ao mesmo tempo cria a síntese. A Violência pode ser interpretada na obra O Meridiano de Sangue como a chave mestra para compreensão da História, ela é a força motriz que age sobre as personagens para elas a agirem para construção da História Americana. Para que seja possível, o curso será ministrado em duas aulas expositivas, com o uso de apresentação de slides, convidando os participantes a agirem de forma ativa com perguntas e comentários, portanto a exposição será mediadora entre o arcabouço teórico e o texto com leituras de trechos e explicações, sendo usado traduções em português.
Minicursos - Grupo 3
O GRANDE-OUTRO: LINGUAGEM E RELAÇÃO EM NARRATIVAS DE CLARICE LISPECTOR
Vitória Mari Leandro (UNESP-SJRP)
Resumo: A relação Eu x Outro, importante temática consagrada pela fortuna crítica da poética de Clarice Lispector, configura-se a partir do embate do Eu, simbolizado pelas personagens-protagonistas das narrativas, com o Outro, simbolizado por figuras que se apresentam não somente sob a forma de outros seres humanos, mas também de animais, de plantas, de Deus, e, por fim, da própria linguagem. A linguagem é, paradoxalmente, mediadora das relações Eu x Outro, e também um grande Outro para as heroínas de Lispector, que, como em uma dança desritmada e desconfiada, aproximam-se e afastam-se da linguagem convencionalizada, pois sabem, intuitivamente, que ela violenta e trai tudo o que nomeia. O presente minicurso, portanto, tem o objetivo geral de, a partir da análise da natureza das relações presentes em algumas narrativas de Lispector, mostrar a influência que a linguagem exerce na construção das relações — sempre complexas e ambivalentes — estabelecidas pela autora, a fim de (re)pensar as relações Eu x Outro e suas possibilidades. Para tanto, em um primeiro momento, o minicurso se debruçará sobre a dupla natureza da linguagem, que, ao mesmo tempo em que atua como instrumento de construção e mediação de relações, age de maneira a limitar a alteridade e afastar o Eu da experimentação mais genuína do Outro, reduzindo as potências relacionais. Dizer que a linguagem age é compreendê-la a partir da teoria dos atos de fala de John Austin (1962), filósofo da linguagem que coloca todo dizer enquanto uma ação, pois guarda em si dimensões que não são apenas descritivas, mas também performativas, ou seja, quando a linguagem se realiza, ela age. Dessa forma, tem-se, também, enquanto objetivo específico do minicurso, compreender de que maneira a linguagem age nas narrativas, ou seja, o que elas realizam em termos de significação, que permite visualizar as relações que ela possibilita e/ou interdita. Édouard Glissant, poeta e ensaísta martiniquense, em sua obra Poética da relação (1990), propõe uma discussão que visa, dentre outras coisas, repensar as relações a partir da oposição de raiz (individual e constitutivo de um Eu) e rizoma (coletivo e constitutivo de Nós). Glissant (1990) se baseia na proposta elaborada por Gilles Deleuze e Félix Guattari, em Mil Platôs (1980), obra na qual se encontra o conceito de rizoma, que pode ser compreendido como um emaranhado de fios que se conectam em redes, sem início ou fim determinados — concepção que, em si, representa uma oposição à ideia de raiz, que remete a uma origem una, e, portanto, segundo Glissant (1990), totalitária. A partir, então, das proposições e percursos conceituais desses autores, será possível, em um segundo momento do minicurso, perceber a maneira como, nas narrativas de Clarice Lispector, os procedimentos (Chklovski, 1917) adotados pela autora possibilitam uma leitura fundada na abertura para a construção de relações diferentes, que sejam menos enraizadas na noção de Eu, comumente soerguida e sustentada pela linguagem convencional. A análise de tais procedimentos, sustenta, por efeito de sugestão, a conclusão para a qual se encaminha o minicurso: a de que pensar novas formas de relação envolve pensar novas formas de se relacionar com esse grande Outro que é a linguagem.
CURRÍCULO LITERÁRIO E FORMAÇÃO DE LEITORES
Denise Guilherme Viotto (PUC - SP)
Resumo: O presente minicurso tem como objetivo promover uma reflexão sobre as escolhas para as leituras literárias realizadas pelas escolas dentro da perspectiva de construção de um currículo literário para a Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Sabemos que, muitas instituições educativas fazem a seleção de livros para leitura com seus alunos ao longo do ano. Essa lista de obras, chamada em alguns casos de paradidáticas, integra parte do trabalho curricular de Língua Portuguesa e também de outras disciplinas - quando realizados projetos interdisciplinares. No caso das instituições de ensino públicas, essa seleção vem atrelada a programas de governo que formam comitês técnicos para a definição de títulos que serão comprados em larga escala, em nível municipal, estadual e federal. É a partir desse corpus que os professores fazem suas leituras com seus alunos. Ou seja: há uma particularidade nessa seleção que envolve uma curadoria que precede o trabalho do educador. Isso também é muito comum nas redes privadas de ensino. Diante deste cenário, cabem aqui algumas perguntas: Afinal, o que torna um livro para crianças e jovens melhor do que outro? Como escolhemos as obras que serão lidas, pensando na formação do leitor literário? Que critérios nos ajudam a refletir sobre as relações que podemos estabelecer entre os livros que lemos? Sendo assim, esse minicurso pretende focar na análise de um conjunto de obras de literatura infantil observando possíveis relações que podem ser estabelecidas entre elas, à luz da estética da recepção, com base nos estudos de Maria Nikolajeva. No primeiro dia, iremos identificar juntos, possíveis critérios para a escolha de livros, considerando a qualidade, a bibliodiversidade, a progressão e a continuidade entre o conjunto das obras escolhidas. No segundo dia, em grupos, os participantes serão convidados a identificar as estéticas literárias presentes nas obras selecionadas e suas possibilidades de apreciação.
Minicursos - Grupo 4
RECUPERAÇÃO DA EXPERIÊNCIA: A RESISTÊNCIA (ANTI-)MODERNA À MODERNIDADE PELO PROCEDIMENTO ECFRÁSTICO EM METAMORFOSES, DE JORGE DE SENA
Marina Campanhã Cury Sotine (UNESP-SJRP)
Resumo: Publicado em 1963, Metamorfoses é uma coletânea de poemas do poeta português Jorge de Sena, resultado do desejo do autor de "meditar poeticamente no sentido de determinados objetos estéticos" (Sena, p. 151). A meditação desejada por Sena é feita, principalmente, por meio do exercício ecfrástico, o qual, por definição, é uma “representação verbal de uma representação visual” (Heffernan, 1993, p. 3). No caso de Metamorfoses, essa representação verbal de representações visuais é feita por intermédio do discurso poético. Os poemas de Metamorfoses são emparelhados com as fotografias das respectivas obras de arte e, graças à técnica da écfrase, animam essas imagens estáticas, conferindo-lhes vivacidade e transformando-as em "pinturas que falam" por meio da transfiguração midiática pela poesia. O autor, dessa forma, resgata a experiência sensorial e emocional do interlocutor diante de objetos estéticos e o desautomatiza pelo exercício poético, colocando em xeque a automatização da Modernidade, que fragmenta a experiência humana em vivências isoladas e desenraizadas. Com esse propósito, o projeto tem como objetivo analisar quatro poemas da coleção: "Pietà de Avignon", "A Nave de Alcobaça", "'A Cadeira Amarela', de Van Gogh" e "Dançarino de Brunei". A intenção é investigar o processo das écfrases e como esses textos atuam em oposição à Modernidade, recuperando a experiência humana (Erfahrung), empobrecida pela vida moderna. Isso será feito principalmente com base nas obras do ensaísta e filósofo alemão Walter Benjamin. A proposta de minicurso em questão pretende analisar a utilização da técnica écfrase, explorando como a écfrase cria uma tensão entre tradição e modernidade. Além disso, examinará a influência da modernidade e como a instauração da técnica contribuiu para a decadência da experiência. Também buscará compreender como a estruturação das obras em Metamorfoses contribui para a ressignificação das artes visuais e a recuperação da experiência, promovendo um diálogo entre tradição e modernidade. Para alcançar esses objetivos, serão utilizados textos teóricos de Walter Benjamin (1987, 2000, 2013, 1975) para examinar a questão da Modernidade, conectando o papel das artes literárias a ideias de literatura, poesia e resistência desenvolvidas por Bosi (1977). Além disso, os textos de Maria Lúcia Outeiro (2011), Berman (2007), Giddens (1991) e Hobsbawn (2005) serão explorados para uma análise mais profunda sobre a questão da Modernidade. No que diz respeito aos estudos sobre Jorge de Sena, as obras de Jorge Fazenda Lourenço (1998, 1995, 1987) serão consideradas para análises sobre Metamorfoses e a biografia do autor. Quanto à investigação sobre écfrases, serão estudados Hansen (2006), Heffernan (1993) e Panagiotidou (2022), com o objetivo de traçar um panorama histórico breve sobre o procedimento écfrase na literatura. Além disso, dado que a écfrase envolve a transposição de obras de arte pictóricas para forma poética, serão analisados Cavalcanti (1967), Argan e Fagiolo (1992) e Gombrich (2000) para estabelecer um embasamento teórico sólido sobre as estéticas das artes escolhidas por Sena. Para as análises descritivas e interpretativas dos poemas selecionados, Candido (1996, 2000) será utilizado como referencial teórico para o desenvolvimento da dissertação de análise poética, enquanto Goldstein (1985) fornecerá base para a compreensão das estruturas formais no estudo da poesia. Os dois encontros serão organizados de maneira a trabalhar, no primeiro encontro, o referencial teórico pelo qual realizaremos a leitura dos poemas a fim de, no segundo encontro, propor a leitura e análise descritiva e interpretativa dos poemas selecionados. Os conteúdos serão apresentados de maneira expositiva, contando com o uso de computador e projetor, de forma a reproduzir com eficiência as imagens nas quais os poemas se baseiam.
A CONSTRUÇÃO DA REFERÊNCIA DÊITICA EM TEXTOS MULTISSEMIÓTICOS
Maria Santos (UNESP-SJRP) e Thaís Santos (UNESP-SJRP)
Resumo: O objetivo do minicurso é investigar a construção da referência dêitica em textos multissemióticos, analisando a relação entre as partes verbais e imagéticas dos textos, e compreender as funções discursivas da dêixis na construção de sentidos, proporcionando uma compreensão aprofundada da importância da dêixis na construção de sentido e na coesão textual. O objeto de ensino será a referência dêitica em textos multissemióticos, especificamente em cartazes de campanhas socioeducativas. A Linguística Textual tem impulsionado os estudos da referenciação e dos processos referenciais, essenciais para a coerência e coesão textual. A dêixis, como processo referencial, permite o apontamento ao objeto de discurso e a construção de sentido em textos multissemióticos, onde a interação entre as partes verbal e imagética é crucial. Este minicurso se justifica pela necessidade de expandir a análise da dêixis de textos verbais para textos verbo-imagéticos, contribuindo para a compreensão de sua importância em diferentes contextos comunicativos. Este minicurso baseia-se nos pressupostos teóricos de Cavalcante (2000, 2005, 2011), Ciulla (2002, 2008), Fonseca (1989) e Leal (2015). Na análise de textos multissemióticos, especialmente cartazes de campanhas socioeducativas, serão abordados conceitos de Cavalcante (2010), Fávero e Koch (2012), Koch (2015), Koch e Elias (2008, 2016), e Mondada e Dubois (2017). Os conteúdos a serem desenvolvidos são os conceitos de texto e contexto, referente e referenciação, os processos referenciais e déixis, na linguística textual. Além da análise de textos multissemióticos, sua definição e a interação entre partes verbal e imagética, a construção da referência dêitica, a classificação dêitica e a análise de dêixis em cartazes de campanhas socioeducativas. Os materiais utilizados serão projetor e computador para exibição de slides e análise de textos, além de cartazes de campanhas socioeducativas selecionados para análise. O método de trabalho será, na primeira parte (1h30), a apresentação teórica sobre referenciação e dêixis e a discussão sobre textos multissemióticos e suas características e, na segunda parte (1h30), análise prática de cartazes de campanhas socioeducativas, discussão em grupo sobre a construção da referência dêitica e reflexão sobre as funções discursivas da dêixis nos textos analisados.
TÓPICOS EM SINTAXE FORMAL DO ADJETIVO
Ryan Martinez (UFSCar)
Resumo: O curso tem por objetivo apresentar um panorama de questões formais na sintaxe do adjetivo que vêm sendo estudadas para diversas línguas (particularmente português, francês, italiano, grego e coreano) pela ótica do Léxico-Gramática. O Léxico-Gramática é uma abordagem descritiva baseada na teoria sintática transformacional do estruturalista Zellig Harris. Essa abordagem procura estabelecer taxonomias sintático-semânticas dos predicados em língua natural com base em suas propriedades formais. O curso justifica-se por disseminar as problemáticas de pesquisa e os resultados que esses trabalhos, pouco conhecidos dos linguistas brasileiros, alcançaram para a compreensão do adjetivo ao longo de mais de cinco décadas de estudos. O curso se dividirá em três partes de aproximadamente 1 hora cada. Na introdução, serão brevemente apresentados o Léxico-Gramática como abordagem teórico-metodológica e os assuntos comumente discutidos na bibliografia que trata de adjetivos sob essa abordagem. Nas partes subsequentes, serão enfocados dois assuntos que têm centralidade nessa bibliografia. Primeiramente, discutiremos o papel dos chamados nomes apropriados na classificação dos adjetivos, isto é, nomes altamente redundantes (como “comportamento” em “O comportamento do João é agressivo”) que podem geralmente ser omitidos (“O João é agressivo”) ou reestruturados (“O João é agressivo em seu comportamento”). O segundo tópico será a variabilidade dos argumentos oracionais do adjetivo, quer em posição de sujeito (exemplo: “É bom que a Maria tenha vindo”) ou de complemento (“A Maria está inclinada a mudar de emprego”), bem como algumas operações que se dão sobre essas orações, como a elevação de objeto (“É interessante fazer isso” = “Isso é interessante de fazer”), elevação de sujeito (“É gentil que a Maria faça isso” = “A Maria foi gentil em fazer isso”) e certas duplicações de argumento (“É gentil da parte da Mariai que elai faça isso”). Espera-se que essas reflexões possam ser incorporadas a trabalhos acadêmicos em andamento que adotem os mais variados enfoques ao oferecer testes formais para a observação do comportamento dos adjetivos, bem como contribuir para o repertório científico de professores de língua e tradutores.