IX SVL, 18 e 19 set 2026
Teresinha Prada - Dissipando a bruma dos Açores no céu azul da Guanabara: ancestralidade na construção artística de Heitor Villa-Lobos
Resumo: O arquipélago dos Açores, território português em pleno Oceano Atlântico, é conhecido como terra envolta em brumas, e os açorianos sempre olharam para o Brasil como uma terra solar, de oportunidades para uma vida melhor. Informações a respeito da imigração e ancestralidade luso-açoriana da família de Heitor Villa-Lobos estiveram bem guardadas por muito tempo, e relações históricas em conexões artístico-culturais do compositor estão só no começo. Ser Villa-Lobos um luso-brasileiro era uma informação improvável até há pouco tempo, tido como de família espanhola. Também sua consolidada imagem brasileira-carioca faz agora um giro de 180° por caminhos no Rio de Janeiro mais portugueses do que se pensava, sem perder a capoeira, como veremos. Um esforço acadêmico em revisitar a identidade em enlace com a produção musical do compositor é necessário. À luz desse panorama, esta palestra organiza informações e projeta novas inferências que podem ocorrer na prática musical de partes da vasta obra villalobiana.
Ricardo Averbach - Além da Influência: Villa-Lobos e Debussy na Construção da Forma a partir do Som
Resumo: Esta palestra propõe uma reavaliação da obra de Heitor Villa-Lobos a partir de uma perspectiva que se afasta deliberadamente das leituras baseadas na noção de influência — em particular, da recorrente associação com Claude Debussy. Em vez de investigar relações de derivação estilística, o presente trabalho parte de uma questão mais fundamental: como a forma musical se constitui a partir do som no contexto do modernismo do início do século XX.
Nesse sentido, Debussy é mobilizado não como modelo ou fonte, mas como ponto de referência para uma concepção em que a forma emerge de qualidades tímbricas, gestos e processos temporais não teleológicos. A partir dessa perspectiva, propõe-se uma escuta de Villa-Lobos que privilegia a organização do material sonoro como princípio estruturante, deslocando o foco de categorias como nacionalismo ou influência para a análise de processos composicionais.
Por meio de exemplos que estabelecem pontes auditivas entre diferentes repertórios — incluindo releituras da tradição francesa —, busca-se evidenciar modos de organização musical que desafiam modelos formais herdados do século XIX. Nesse contexto, aspectos frequentemente descritos como “irregulares” na obra de Villa-Lobos podem ser reinterpretados como manifestações de uma lógica estrutural própria, na qual a forma não precede o som, mas emerge dele.
Ao situar Villa-Lobos nesse quadro, a comunicação propõe uma mudança de perspectiva: de um compositor frequentemente compreendido em termos de identidade ou influência para um agente ativo nas transformações centrais do pensamento musical moderno.
Manoel Correa do Lago - Modalismo cromático: alguns aspectos da técnica villa-lobiana
Resumo: Este trabalho, voltado para a técnica composicional de Villa-Lobos, - desenvolvida a partir de 1918, e que permeia a sua obra em todas as décadas subsequentes -, se inscreve na sequência de importantes insights introduzidos por João de Souza Lima (1946), Jamary de Oliveira (1989) e Roberto Duarte (2009), com foco especial na discussão da análise proposta por Elliott Antokoletz a respeito da linguagem modal utilizada no Choros nº 10.
Adriana Lopes Moreira - Recursos composicionais de Heitor Villa-Lobos como paradigmas para Olivier Messiaen e José Antonio de Almeida Prado
Resumo: A conferência "Recursos composicionais de Heitor Villa-Lobos como paradigmas para Olivier Messiaen e José Antonio de Almeida Prado", apresentada por Adriana Lopes da Cunha Moreira, parte da dimensão valorativa da análise musical, ressaltando a abrangência à produção latino-americana.
A interlocução entre Villa-Lobos e Messiaen enfoca a justaposição e sobreposição de ideias musicais baseadas em ritmo, timbre e textura – majoritariamente composta por camadas nas obras do primeiro e heterofônica nas obras sobre cantos de pássaros do segundo. Villa-Lobos integrava elementos da música popular brasileira e influências europeias, enquanto Messiaen reconhecia e admirava a originalidade e a orquestração de Villa-Lobos, considerando-o fonte de inspiração, inclusive registrando influências de recursos composicionais de A prole do bebê n. 2 no Catalogue d’oiseaux.
José Antonio de Almeida Prado, profundo conhecedor das obras de Villa-Lobos e discípulo direto de Messiaen, explora tais recursos com ênfase em ressonâncias e espacialidades sonoras na série Cartas Celestes.
Ao final, processos composicionais como justaposição de ideias curtas, intervalos perfeitos desfocados pela inserção de segundas, sobreposição de camadas com teclas brancas e pretas são especificamente demonstrados em excertos dessas obras. Tais princípios “protoespectrais” permitem ao ouvinte uma experiência auditiva mais ampla e sensível ao espaço acústico como componente essencial da obra musical.
Thomas George Caracas Garcia - Heitor Villa-Lobos e Andrés Segovia
Resumo: Heitor Villa-Lobos e Andrés Segovia mantiveram um longo relacionamento. Conheceram-se em Paris na década de 1920, corresponderam-se frequentemente e passaram tempo juntos em Paris, Nova York, Montevidéu, entre outros lugares. Villa-Lobos compôs suas contribuições mais importantes para a literatura do violão para Segovia — os doze Estudos, os cinco Prelúdios e o Concerto— mas Segovia nunca interpretou todas essas peças e gravou um número ainda menor delas. Eles mantiveram o que foi, em muitos aspectos, um forte relacionamento profissional e pessoal, conforme documentado em sua correspondência. Em cartas a outros compositores, no entanto, o violonista criticava o compositor e sua música, as vezes de uma maneira dura. Qual era a natureza exata desse relacionamento? Como ele impactou a composição e a interpretação dessa música?
Esta apresentação explora as conexões entre o compositor, o violonista e a música para violão. Um exame de sua correspondência revela aspectos importantes do relacionamento entre eles e o desenvolvimento dessa música, assim como o fazem as cartas trocadas entre Segovia e o compositor mexicano Manuel Ponce, nas quais o violonista discute Villa-Lobos e sua obra. Por meio dessas correspondências, bem como de entrevistas com a cantora e violonista Olga Praguer de Coelho — que manteve um forte vínculo com ambos os artistas — delineia-se uma imagem do relacionamento pessoal e profissional desses dois grandes mestres, bem como da evolução da música para violão.
Camila Fresca - Villa-Lobos, vida e obra: Processos de pesquisa e de escrita para uma nova biografia do compositor
Resumo: Entre o final de 2019 e meados de 2026, dediquei-me ao projeto de escrever uma biografia de Heitor Villa-Lobos. O objetivo inicial era reunir, numa obra recente, informações atualizadas sobre a vida do compositor, e relacioná-las com sua trajetória profissional e sua produção composicional.
Nesta palestra procurarei explicitar como se deu o processo: desde a escolha do personagem a ser biografado, passando pela pesquisa e pela estruturação da obra (partes, capítulos, subseções). Serão abordadas questões como: o que o trabalho se propõe e o que não se propõe a fazer? Qual o equilíbrio entre a vida e a obra numa biografia? Como foi o trabalho com a bibliografia disponível e as fontes primárias? Quais foram os principais dilemas da pesquisa e decisões textuais de cunho narrativo? O que se espera que uma nova biografia de Villa-Lobos traga ao público leigo e aos pesquisadores de sua obra?
Gabriel Ferrão Moreira - Diálogos entre Villa-Lobos e Paris a partir dos documentos do dossiê Villa-Lobos no Fonds Montpensier (BnF)
Resumo: A recepção de Heitor Villa-Lobos na capital francesa nos anos 1920 constitui um dos episódios mais complexos da historiografia do compositor. Esta palestra propõe discutir a circulação e o impacto de Villa-Lobos em Paris a partir de uma investigação no Acervo Montpensier da Biblioteca Nacional da França (Fonds Montpensier - Bibliothèque nationale de France - BnF). O estudo debruça-se sobre o mapeamento, o levantamento e a tradução das críticas musicais e crônicas da imprensa francesa da época guardadas nesse importante fundo documental. O objetivo é examinar como a intelectualidade e a crítica europeias decodificaram o discurso estético de Villa-Lobos, com especial atenção à articulação entre as estratégias de representação identitária do Brasil em sua obra e sua valoração técnica. Ao mesmo tempo, o acesso a novos documentos permite reavaliar o impacto do compositor brasileiro no grande centro difusor de tendências no cenário musical internacional, destacando a importância da sua atuação entre grandes compositores do período.
A partir do cruzamento dessas fontes primárias, iluminam-se as tensões e os pontos de contato entre a trajetória do compositor e a produção da crítica francesa do período, desvelando como essa interação foi fundamental na sedimentação de sua imagem pública e o orientou no desenvolvimento de sua técnica composicional nas décadas seguintes.
Nahim Marun
nahim.marun@unesp.br | Universidade Estadual Paulista - Instituto de Artes
Resumo: Este estudo apresenta alguns aspectos da trajetória artística da pianista brasileira Virgínia Veloso Guerra, destacando seu papel como intérprete, compositora, divulgadora do repertório moderno francês e figura central do primeiro movimento modernista no Rio de Janeiro. Criada em um ambiente de intensa vivência musical, tornou-se conhecida por estrear obras de Debussy, Milhaud e outros compositores, estabelecendo posteriormente sua carreira em Paris. O texto também aborda a tradição das dedicatórias musicais, incluindo as homenagens de Villa-Lobos, e sua possível relação com a personalidade artística da pianista. Sua suíte para piano Com as Crianças (1913), composta aos dezessete anos, revela traços modernistas precoces por meio de uma linguagem harmônica inovadora e de uma escrita timbrística refinada. O estudo propõe uma reavaliação crítica de sua contribuição, enfatizando seu papel na circulação de ideias estéticas entre o Brasil e a Europa e na consolidação da modernidade musical brasileira.
Palavras-chave: Virgínia Veloso Guerra; modernismo; piano; música brasileira; performance.
Charlotte Riom
charlotteriom@gmail.com | FGV
Resumo: Na década de 1920, a música de Heitor Villa-Lobos começa a ser reconhecida internacionalmente, especialmente nos Estados Unidos e na França. Diversos fatores contribuíram para esse reconhecimento, entre eles a circulação de artistas e obras, que favoreceu encontros e projetos de colaboração entre músicos, coreógrafos e instituições artísticas.
Nesse contexto, a dança desempenhou um papel importante. A companhia dos Ballets Russos, de Sergei Diaghilev, realizou turnês na América do Sul no início do século XX, especialmente em 1913 e 1917, contribuindo para a difusão de novas estéticas coreográficas e musicais. Além disso, a Semana de Arte Moderna, organizada em São Paulo em 1922, constitui um marco fundador para a arte moderna brasileira. O evento propôs um projeto de modernização e nacionalização da arte, no qual Villa-Lobos participou ativamente, entrando em contato com importantes mecenas e empreendedores culturais que apoiaram a divulgação de sua obra.
A produção inovadora de Villa-Lobos despertou rapidamente a atenção do mundo da dança na América do Norte e na Europa. Entre aproximadamente 33 e 42 anos, ele atravessa o que pode ser considerado a fase modernista de sua obra, marcada especialmente pela série Choros e pelas estadias em Paris, onde esteve em duas ocasiões.
Nosso estudo tem como objetivo mostrar como a dança constituiu um vetor de reconhecimento da música modernista de Villa-Lobos nos Estados Unidos. Em um primeiro momento, analisaremos os elementos que possibilitaram esse reconhecimento. Para isso, revisitamos brevemente o contexto dos Estados Unidos na década de 1920, um período de efervescência econômica e cultural após a Primeira Guerra Mundial, particularmente propício à exploração das raízes culturais do país, especialmente afro-americanas.
Propomos também, de forma inédita, um paralelo entre Villa-Lobos e o pensamento de Alexander von Humboldt, autor de Cosmos, best-seller da época traduzido para várias línguas. Por meio de suas expedições, Humboldt elaborou uma nova compreensão da natureza como sistema interconectado, influenciando a ciência, mas também as artes e o pensamento moderno. Inserido na herança do romantismo e pós-romantismo, Villa-Lobos desenvolveu uma percepção sensível da natureza, mobilizando procedimentos estéticos e técnicas musicais modernas. Em sua obra, a relação com a natureza − presente em poemas sinfônicos e adaptada para o balé − se associa à construção de uma identidade nacional, refletida em novas sonoridades e vocabulário musical, como choros e saudade.
Em seguida, analisaremos brevemente o pleno desenvolvimento da personalidade artística de Villa-Lobos na década de 1920. Impressões e críticas de figuras importantes do mundo musical, como Henri Prunières, Irving Schwerke e Florent Schmitt, ajudam a compreender a recepção de sua música e a percepção que seus contemporâneos tinham de sua obra e personalidade.
No segundo momento, examinaremos a interpretação da obra de Villa-Lobos nos Estados Unidos pela dança e os mecanismos de difusão artística. Uma primeira tentativa de colaboração ocorreu em 1925 com o coreógrafo Adolph Bolm, antigo dançarino dos Ballets Russos, para O Carnaval das Crianças, combinando dança, música e figurinos, com a participação de Di Cavalcanti, mas o projeto não teve continuidade.
Mais tarde, a colaboração se concretizou com as Danças Africanas, interpretada por Bolm em Chicago, em setembro de 1931. A obra foi reorganizada por Villa-Lobos para pequeno conjunto, adaptando a composição originalmente escrita para piano durante sua estadia nas Ilhas Barbados em 1912 e transcrita em 1922 para octeto, com o objetivo de ser apresentada na Semana de Arte Moderna. A escolha dessa peça pelo coreógrafo não foi casual, refletindo a afirmação de um estilo específico do compositor.
Trazemos ainda informações inéditas: uma carta de 1926 de Thomas Fisher, secretário da Chicago Allied Arts, menciona Villa-Lobos na lista de compositores que supostamente trabalhariam em balés para a companhia. Após 1927 − provavelmente em 1929, após turnês de Ruth Page na Europa e Japão −, a companhia apresentou uma coreografia baseada em Saudades das Selvas Brasileiras, obra em duas peças para piano de Villa-Lobos. A coreografia teria sido criada por Ruth Page, com Bentley Stone no papel principal. A obra foi composta em Paris, durante o segundo período do compositor na cidade, e apresentada na Salle Gaveau em 7 de dezembro de 1927 pela pianista franco-americana Aline van Barentzen.
Daniela Lucatelle Bartoloni
daniela.bartoloni@unesp.br | Universidade Estadual Paulista - Instituto de Arte
Nahim Marun
nahim.marun@unesp.br | Universidade Estadual Paulista - Instituto de Artes
Resumo: Este artigo apresenta uma análise comparativa entre o Estudo nº 9 para violão de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e sua transcrição para piano realizada por José Vieira Brandão (1911-2002), com o objetivo de investigar as estratégias adotadas pelo transcritor na adaptação da obra ao novo meio instrumental. O artigo investiga também as relações entre análise musical e prática interpretativa, buscando compreender de que modo a escrita violonística é reconfigurada na versão pianística. Parte-se da premissa de que a transcrição não constitui apenas um processo de adaptação técnica, mas uma reinterpretação estética com implicações diretas para a construção interpretativa ao piano. A metodologia fundamenta-se na análise comparativa das partituras. A análise revela que Brandão não se limitou a uma transcrição literal, mas produziu uma reelaboração idiomática que expande consideravelmente a obra original.
Palavras-chave: transcrição musical; análise e performance; Heitor Villa-Lobos.
Debora Cristina Carminato Rodrigues
debora.carminato@gmail.com | Faculdade Santa Marcelina - ECA-USP
Resumo: Este trabalho tem como intuito investigar o berimbau como tópica, que são figuras musicais interpretadas como elementos retóricos de expressão a partir de convenções culturais estabelecidas na música (RATNER, 1980), alcançando, e aparecendo como memória auditiva e menções sonoras em outros estilos musicais, ou manifestações culturais, diferentes daqueles em que são comumente encontrados, como por exemplo na música instrumental e de concerto, onde não é tão comum encontrar referências sonoras ao berimbau. Utilizando, para isso, a análise de exemplos de músicas compostas por Heitor Villa-Lobos, onde o berimbau aparece como tópica, trazendo para a expressão musical em questão, seus significados e referências implícitos.
Palavras-chave: berimbau, tópica, capoeira, referência, citações.
José de Carvalho Oliveira
josedecarvalhosax@mail.com | Universidade de São Paulo - ECA/USP
Resumo: A presença recorrente do saxofone na obra de Heitor Villa-Lobos ultrapassa a função de simples recurso de instrumentação. Entre 1912 e 1932, período de maior incidência do instrumento na produção do compositor, o saxofone participa de formações camerísticas, obras orquestrais e passagens solísticas, assumindo funções harmônicas, texturais, tímbricas e narrativas. Este artigo investiga, sob a perspectiva da musicologia analítica, como o instrumento atua na mediação entre representações do primitivismo e do moderno, tomando como polos interpretativos o “índio feio”, do poema sinfônico Uirapuru (1917), e o “capadócio”, de Bachianas Brasileiras n. 2 (1930). A abordagem articula análise de conjuntos, textura, gesto, semiótica musical, teoria das tópicas e teoria da marcação, conforme o referencial proposto por Straus, Berry, Agawu, Tarasti, Hatten, Salles e Piedade. A discussão considera ainda três manifestações de representação onomatopaica: a paisagem sonora inicial de Uirapuru, a figura melódica do canto da ave e a construção mecânico-orquestral de O Trenzinho do Caipira. Sustenta-se que a plasticidade do timbre do saxofone permite ao instrumento ocupar posições semanticamente contrastantes: em Uirapuru, ele marca alteridade, corporeidade e tensão no espaço mítico da floresta; em Bachianas Brasileiras n. 2, projeta urbanidade, ambiguidade e mobilidade social na figura do capadócio. Essa dupla inscrição oferece uma chave para futuras análises da presença do saxofone nos Choros, nos quais o instrumento pode participar da negociação entre tradição popular, experimentalismo modernista e construção musical da brasilidade.
Palavras-chave: Heitor Villa-Lobos; saxofone; onomatopeia; tópicas musicais; narratividade; modernismo brasileiro.
Gabriel Ferrão Moreira
gfmoreira88@gmail.com | UNILA\USP\Sorbonne Université
Resumo: Este artigo propõe uma releitura da recepção parisiense de Heitor Villa-Lobos por meio dos arquivos do Fonds Montpensier da Biblioteca National da França (BnF). Enquanto a crítica brasileira o acusava de promover um "exotismo de exportação" desprovido de rigor, a análise dos recortes de imprensa relativos aos concertos na Salle Gaveau em 1927 revela uma recepção francesa muito mais complexa.Ao confrontar essas fontes, este estudo demonstra que a crítica parisiense valorizava a originalidade composicional e a estrutura de suas obras, matizando, assim, a ideia de uma sedução baseada em um superficial apelo ao pitoresco. Além disso, a existência de críticos franceses céticos prova que a adesão do público não repousava, necessariamente, sobre um apetite ingênuo pelo exotismo. Críticas posteriores confirmam a consagração duradoura do compositor, demonstrando que seu sucesso na Europa durante o entreguerras não foi um fenômeno de moda passageiro, mas o estabelecimento definitivo de sua estatura como compositor moderno no cenário internacional.
Palavras-chave: Crítica Musical; Musicologia; Inventário; Música Brasileira; Exotismo; França.
Felipe Ionescu Botelho
ibfelipe@gmail.com | USP
Ana Carolina Maeda Andrade
anamaeda@usp.br | USP
Resumo: Este artigo investiga confluências composicionais e rítmicas afro-brasileiras entre Heitor Villa-Lobos (1887–1959) e Moacir Santos (1926–2006). A análise concentra-se em obras de Villa-Lobos — com foco especialmente em Xangô, parte do ciclo Canções Típicas Brasileiras, além de Estrela é Lua Nova, parte do mesmo conjunto de canções, e em peças de Moacir Santos vinculadas ao álbum Coisas, especialmente Coisa n. 3, além de Coisa n. 5/Nanã. Investigamos as confluências entre os procedimentos composicionais de ambos os compositores dentro desse recorte abordando ostinatos, contrametricidade, textura por camadas, harmonias quartais e percussivização de instrumentos melódicos, além das tópicas. Conclui-se que ambos transformam materiais heterogêneos da cultura musical brasileira em arquiteturas autônomas nas quais timbre, ritmo e acompanhamento participam diretamente da forma.
Palavras-chave: Villa-Lobos; Moacir Santos; música brasileira; tópicas afro-brasileiras; orquestração.
Paulo E. Flores
USP
Resumo: Neste artigo buscaremos analisar a hipótese de um modelo composicional utilizado por Villa-Lobos em algumas de suas obras, baseado na sobreposição de escalas pentatônicas separadas por intervalos de semitom ou de trítono, procedimento que parece conduzir à organização de estruturas decatônicas características de sua linguagem. Sua utilização aproxima-se do conceito de topografia instrumental, no qual o caminho gestual percorrido no instrumento passa a determinar a ação composicional, explorando, neste caso, o deslocamento entre as teclas brancas e pretas do piano.
Essa hipótese nasceu da análise de Choros nº 2, composto em 1924, em Paris, realizada na dissertação de mestrado do autor. A partir dessa constatação, a investigação foi ampliada para obras anteriores ao Choros nº 2, buscando identificar as possíveis origens desse procedimento composicional e compreender como Villa-Lobos foi organizando esse material ao longo de sua prática criativa.
Como continuidade dessa pesquisa, propomos agora um estudo das obras posteriores ao Choros nº 2, com ênfase na série Choros, que parece constituir um dos espaços mais férteis para as experimentações do compositor. Em uma investigação un passant, já foi possível identificar indícios desse procedimento em Choros nº 7 e Choros nº 8, análises que serão aprofundadas com o objetivo de verificar a recorrência e a consistência dessa hipótese composicional.
Palavras-chave: Villa-Lobos; processo composicional; escalas decatônicas; sobreposiçôes; topografia instrumental.
Gleysser Menezes
gleysserm87@gmail.com | Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo/ESMAE - Porto
Resumo: Este trabalho apresenta o desenvolvimento de transcrições de obras de Heitor Villa-Lobos para saxofone alto, com foco no Prelúdio nº 3 (1940) e no Schottish Choro (1908-1912), originalmente compostas para violão solo. O objetivo principal é expandir o repertório do saxofone e investigar a transposição de linguagens idiomáticas entre instrumentos de cordas dedilhadas e de sopro. Adicionalmente, integra-se ao projeto uma peça inédita, Eu e Villa-Lobos em Santos, para duo de saxofones (alto e tenor) do compositor Beetholven Cunha (2026), inspirada na estética villalobiana da Seresta nº 10 (1926). Os procedimentos metodológicos de transcrição musical exigiram adaptações estruturais devido às limitações de extensão do saxofone alto, incluindo readequações tonais, deslocamentos de oitava e seleção de alturas para a síntese harmônica de acordes complexos. Conclui-se que o processo transcritivo transcende a mera conversão de notas, configurando-se como um ato hermenêutico e técnico que preserva a identidade estética da obra original enquanto explora as potencialidades do novo instrumento.
Palavras-chave: Transcrição Musical; Heitor Villa-Lobos; Saxofone Alto; Adaptação Idiomática.
Eduardo dos Santos Oliveira Júnior
profedujr26@gmail.com | Universidade de São Paulo - ECA/USP
Resumo: O presente artigo propõe uma análise da obra pianística de Heitor Villa-Lobos destinada ao universo infantil, com o objetivo de evidenciar um léxico composicional associado à representação da infância. Para tanto, parte-se da teoria das tópicas, inicialmente discutida por Ratner (1980), e posteriormente desenvolvida no contexto da música brasileira por Piedade (2023), e aplicada à obra de Villa-Lobos por Salles (2018). A partir desse referencial, o estudo investiga a retórica dos recursos composicionais recorrentes na produção pianística do compositor, considerando elementos associados ao universo infantil e sua articulação na construção de significados musicais. Busca-se, assim, compreender de que maneira esses recursos contribuem para a caracterização da infância enquanto elemento retórico na linguagem composicional villalobiana.
Palavras-chave: Heitor Villa-Lobos. Cirandas. Tópicas. Retórica. Infância.
André Álcman Damasceno
andre.alcman@uece.br | Universidade Estadual do Ceará (UECE)
Resumo: Neste texto analiso a inserção de Villa-Lobos ao Modernismo e a construção social da legitimidade estética de sua obra. Para isso, em um primeiro momento, caracterizo o Modernismo brasileiro como uma visão de mundo à maneira de Goldmann (1959 e 1979), cuja sua estrutura significante seria a ida ao povo (MARTINS, 1987). Nesta perspectiva, o Modernismo é tipificado em cinco tipos ideais: esteticista, ufanista, polemicista, programático e o romântico, junto aos principais nomes do movimento, entre eles Villa-Lobos, associado ao último. Em um segundo momento, aprofundo a legitimidade estética da música de Villa-Lobos, dentro do Modernismo, a partir dos confrontos na imprensa entre os defensores de sua música versus seus detratores (de acordo com a disputa entre “modernistas” e “passadistas”), do apoio de mecenas e de músicos com reconhecimento internacional. Neste contexto, a legitimidade estética da música villalobiana processou-se a partir da assimilação das liberdades harmônicas e rítmicas da música moderna até o progressivo desenvolvimento, desde o início de sua trajetória, de uma linguagem musical que transfigura no formato erudito os elementos da música popular.
Palavras-chave: Villa-Lobos; Modernismo; Visão de Mundo; Legitimidade Estética.
Letícia Porto Ribeiro
leticia.porto@ufac.br | Universidade Federal do Acre
Leonardo Vieira Feichas
leonardo.feichas@unb.br | Universidade de Brasília
Resumo: Pretendemos, neste artigo, realizar um estudo preliminar do ethos transmitido a respeito de Flausino Valle (1894-1954) em diversos veículos de imprensa em diferentes anos, antes e após seu falecimento de forma a compreender como se consolidou a imagem de “Paganini Brasileiro”, apelido dado por Heitor Villa-Lobos. Utilizaremos como base teórica a noção de ethos como compreendida por Dominique Maingueneau. Esse autor (2020) relaciona a ideia de ethos com a persuasão e com as formas por meio das quais o “destinatário atribui a um locutor inscrito no mundo, fora de sua enunciação, traços que são, na realidade, intradiscursivos, pois associados à maneira com que ele está falando” (MAINGUENEAU, 2020, p. 13). O ethos emanaria do “mostrado” – a legitimação do enunciado seria dada pela articulação das proposições e da evidência de uma corporalidade que ocorre no “próprio movimento de leitura” (MAINGUENEAU, 2008, p. 53). O autor (2018) utiliza como ponto de partida Aristóteles, que afirma que o ethos é a tentativa de causar boa impressão pela forma de construção do discurso, de criar uma boa imagem de si com o objetivo de conquistar a confiança do público – isso seria conseguido por meio de três qualidades: phronesis (prudência), a arete (virtude) e a eunoia (benevolência). Para isso, o sujeito pode utilizar a fala, o tom, as roupas e os gestos, entre outros. Maingueneau ressalta ainda que o destinatário, ou seja, o público para quem a mensagem é direcionada, identifica e interpreta o ethos de acordo com um conjunto de representações sociais e de estereótipos, “que a enunciação contribui para reforçar ou transformar” (MAINGUENEAU, 2008, p. 65). Em nosso estudo, portando, analisaremos como os enunciados construíram imagens diferentes de Valle e como, após a afirmação de Heitor Villa-Lobos (em 1947) de que ele seria o “Paganini brasileiro”, essa imagem foi redesenhada e Valle ganhou cada vez maior fama, principalmente após seu falecimento. Analisaremos matérias e divulgações escritas sobre Valle ao longo de diversos anos a partir de 1937, além de duas sem data. O que pudemos perceber é que as matérias e divulgações de eventos que incluíam Flausino Valle lhe dedicaram, com o tempo, cada vez maior atenção, sendo que a expressão “Paganini Brasileiro” e sua ligação com Villa-Lobos são, com o tempo, cada vez mais citadas. Percebemos, igualmente, uma certa imagem de “gênio incompreendido/desvalorizado” por parte dos jornalistas em relação à Valle. Trata-se de um “estudo preliminar” devido ao fato de termos acesso a um material inédito que ainda não pode ser totalmente acessado e que propiciará mais possibilidades de análises.
Palavras-chave: Imprensa. Flausino Valle. Villa-Lobos. Paganino Brasileiro. Ethos. Maingueneau.
Loque Arcanjo Júnior
loque.arcanjo@uemg.br | Universidade do Estado de Minas Gerais
Resumo: O presente artigo analisa a construção dos imaginários sobre Heitor Villa-Lobos e sua obra a partir da convergência e das tensões entre dois importantes projetos intelectuais que marcaram a musicologia latino-americana das décadas de 1930 e 1940: o nacionalismo musical formulado por Mário de Andrade e o Americanismo Musical desenvolvido por Francisco Curt Lange. Parte-se da hipótese de que a consolidação da imagem artística de Villa-Lobos deve ser compreendida por meio das redes intelectuais estabelecidas entre Brasil e América Latina, nas quais Curt Lange desempenhou papel decisivo como mediador cultural e articulador da circulação continental de ideias, obras e músicos. A pesquisa fundamenta-se na análise de correspondências entre Villa-Lobos e Curt Lange, e entre Curt Lange e Mário de Andrade, preservadas no Acervo Curt Lange da Universidade Federal de Minas Gerais, além de periódicos, relatórios, textos críticos e documentos produzidos no âmbito do Americanismo Musical. As cartas são interpretadas como práticas de sociabilidade intelectual que evidenciam estratégias de legitimação, circulação de repertórios e construção de prestígio artístico, aproximações, distanciamentos, construção de afetos e desafetos. Elas demonstram que Lange ultrapassou a função de divulgador da obra do compositor brasileiro para assumir o papel de formulador de uma narrativa continental da música moderna, ao tentar inserir Villa-Lobos em um projeto mais amplo de integração cultural latino-americana. O estudo situa esse diálogo no contexto das transformações políticas e culturais promovidas pelo Estado Novo, marcado pela criação do Ministério da Educação e Saúde, dirigido por Gustavo Capanema, e do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), sob a liderança de Rodrigo Melo Franco de Andrade. Nesse cenário, patrimônio, modernismo e nacionalismo integraram um mesmo projeto de construção simbólica da identidade brasileira e dialoga com a produção musical das Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. Embora a historiografia tenha privilegiado as relações entre arquitetura, artes plásticas e patrimônio, sintetizadas na expressão "pedra e cal", permanece pouco explorada a contribuição da musicologia para esse processo. Essa perspectiva orientou as políticas patrimoniais do SPHAN e influenciou decisivamente as investigações de Curt Lange, que reinterpretou a produção musical colonial como patrimônio artístico continental e evidência da originalidade cultural latino-americana. A análise das correspondências demonstra ainda como Villa-Lobos participou dessa construção simbólica. Em carta autobiográfica enviada a Curt Lange em 1940, o compositor afirma que, embora conhecesse diversos autores europeus, reconhecia em Johann Sebastian Bach sua principal influência, justificando essa escolha por identificar afinidades entre a música bachiana e os cantos dos caipiras ouvidos em Minas Gerais durante a infância. Além de uma memória autobiográfica, essa narrativa constitui uma elaboração identitária que aproxima Bach, o barroco mineiro e a cultura popular musical brasileira, reproduzindo o imaginário modernista que conciliava tradição europeia e experiência cultural brasileira. Essa interpretação permite acrescentar elemento cultural as Bachianas Brasileiras. Compreendidas como resultado da admiração de Villa-Lobos por Bach ou de sua formação musical, essas obras passaram a ser analisadas de modo sistemático pela literatura recente e são aqui inseridas no contexto das políticas culturais do Estado Novo. Produzidas entre as décadas de 1930 e 1940, simultaneamente à atuação do compositor na Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA), as Bachianas articulam tradição europeia, cultura popular e patrimônio histórico em uma linguagem musical voltada à representação da identidade nacional, pois diversas manifestações musicais populares são articuladas a construção de uma musicalidade bachiana. A dedicatória da Bachianas Brasileiras nº 7 a Gustavo Capanema e o emprego de transcrições bachianas também utilizadas nos cantos orfeônico reforçam as aproximações entre criação artística, educação musical e política cultural. Conclui-se que a musica de Heitor Villa-Lobos dialoga com a intersecção entre diferentes projetos intelectuais que atuavam em escalas distintas, porém complementares. Entre nacionalismo, patrimônio e americanismo, Villa-Lobos emerge como figura central de uma sofisticada construção de memória que articulou modernismo, políticas culturais, musicologia e diplomacia intelectual na definição da identidade musical brasileira e latino-americana entre 1930 e 1945. Ao evidenciar o papel das redes intelectuais latino-americanas nesse processo, a pesquisa pode ampliar a compreensão da consagração nacional e internacional do compositor e se propõe a contribuir para os estudos sobre patrimônio, história da música e circulação transnacional das ideias.
Palavras-chave: Heitor Villa-Lobos; Mário de Andrade; Curt Lange; Nacionalismo Musical; Americanismo Musical.
Prof. Dr. Lars Hoefs
larshoefs@hotmail.com | Universidade Estadual de Campinas
Resumo: Villa-Lobos foi extraordinariamente prolífico e compôs para uma grande variedade de gêneros, e algumas de suas obras ainda não receberam a devida atenção por parte de intérpretes e pesquisadores. Magdalena é uma dessas obras: fascinante e pouco provável dentro do catálogo de Villa-Lobos, Magdalena é um musical da Broadway em língua inglesa, encomendado pela Los Angeles Light Opera, posteriormente apresentado em São Francisco e levado à Broadway, em Nova York. O espetáculo foi um sucesso em 1948, permanecendo em cartaz durante o verão na Califórnia e por cerca de três meses em Nova York, após o que permaneceu esquecido por décadas.
Magdalena apresenta grande interesse para a pesquisa sobre Villa-Lobos. Grande parte de seu material musical deriva de obras já existentes do compositor, especialmente as peças para piano Ciclo brasileiro, II. Impressões seresteiras (1937), Valsa da dor (1932), A maré encheu, de Guia Prático, 1º volume, 2º caderno (193?), bem como Bachianas Brasileiras nº 4: II. Coral (Canto do Sertão) (1941). Embora seja fácil criticar esse processo de reutilização ou lamentar as alterações realizadas nessas obras originais, é, na verdade, fascinante observar como essas peças foram reapropriadas para o musical da Broadway, produzindo resultados inteiramente diferentes e igualmente eficazes. Além disso, uma quantidade significativa de música original foi composta especialmente para Magdalena, e o resultado é extraordinário.
A compreensão da história e da gênese do projeto explica o caráter de pastiche do musical: a ideia original e, de fato, o contrato inicial estipulava que os norte-americanos Robert Wright e George Forrest escreveriam as letras e adaptariam a música de Villa-Lobos para um musical de palco, seguindo o modelo empregado por eles na adaptação da música de Edvard Grieg para Song of Norway. Wright e Forrest obtiveram e estudaram o máximo possível da obra de Villa-Lobos e prepararam diversas de suas composições para uma possível adaptação. Quando Villa-Lobos os encontrou em Nova York, e eles cantaram e tocaram suas músicas ao piano, o compositor ficou perplexo — claramente, não tinha conhecimento do que constava no contrato ou acordo. Depois que seus agentes lhe explicaram os detalhes, Villa-Lobos voltou-se para os dois homens e disse: “Mas Grieg está morto, e eu estou vivo. Não podemos compor a opereta juntos? Usem seus livros de ‘X’, toquem e cantem para mim o que quiserem — e como quiserem utilizá-lo. Se eu controlar os direitos autorais, eu os concedo a vocês e nós o recompomos juntos. Se eu não puder ceder os direitos autorais, escreverei para vocês uma peça original no mesmo estilo, da qual vocês gostarão ainda mais. Venham, ‘Bobo’ e ‘Shetty’, sentem-se à esquerda e à direita de Villa-Lobos. Vamos criar juntos a música de Magdalena”. E, durante sete semanas, os três criaram o musical Magdalena sem compartilhar uma língua em comum, com Villa-Lobos ensinando-lhes, ao longo do processo, um português funcional! (Wright; Forrest, 1989).
Após as bem-sucedidas temporadas de Magdalena em 1948, a obra permaneceu negligenciada por décadas. O maestro André Kostelanetz gravou uma suíte orquestral composta por músicas extraídas do musical com a New York Philharmonic, em um LP da CBS Masterworks, na década de 1970. Em 1989, a partitura completa do musical foi finalmente gravada, também pela CBS Records, desta vez pela Orchestra New England, sob a regência de Evans Haile. Mais recentemente, já no século XXI, algumas produções completas foram realizadas: em 2010, no Théâtre du Châtelet, em Paris, sob a regência de Sébastien Rouland; e, em 2012, naquela que deve ter sido a primeira montagem realizada no Brasil, uma versão em língua portuguesa apresentada no Theatro Municipal de São Paulo, sob a regência de Luis Gustavo Petri.
Fascinado pela história e pelo resultado do único musical da Broadway de Villa-Lobos, estou atualmente trabalhando na elaboração de arranjos de partes da partitura para uma versão camerística a ser apresentada no Villa-Lobos International Chamber Music Festival, no sul da Califórnia. Estão em andamento novos arranjos de Bon Soir, Paris; The Singing Tree; Food for Thought; The Emerald; Magdalena; The Seed of God; e de outros números do musical. Esses novos arranjos estão sendo concebidos para uma formação bastante reduzida, composta por soprano, violoncelo e piano, e serão incluídos na programação dos concertos da 12ª edição anual do Villa-Lobos International Chamber Music Festival, a serem realizados em janeiro e fevereiro de 2027, em Carlsbad, Coronado e Encinitas, na Califórnia. Em uma etapa posterior, espero também reimaginar integralmente o enredo e a narrativa do musical original, simplificando-os de modo a adequá-los a uma versão camerística de formação reduzida.
Cleisson Melo
cleisson.castro@professor.ufcg.edu.br | UFCG
Resumo: A obra de Heitor Villa-Lobos, especialmente as Bachianas Brasileiras nº 5, tem sido amplamente investigada por estudos históricos, estilísticos, formais, harmônicos, intertextuais e interpretativos, dentre tantas outras abordagens. A Ária (Cantilena), primeiro movimento da obra, ocupa posição destacada nesse campo de investigações por articular a tradição bachiniana, diferentes referências às práticas musicais brasileiras, a voz solista e uma formação instrumental constituída por oito violoncelos. A diversidade de produção bibliográfica no entorno desta obra confirma sua relevância para os estudos sobre Villa-Lobos, e mantém abertas algumas questões relacionadas à articulação entre pensamento composicional, significação e subjetividade. Tendo este primeiro movimento (Ária – Cantilena) como recorte analítico, este trabalho pretende investigar como as relações internas da composição participam da constituição e da transformação de um sujeito musical, tomando a Semiótica Existencial como base e a Hermenêutica do Sujeito como interlocução teórica.
É neste sentido que entendemos que a noção de arquiteturas emocionais pode orientar essa investigação. A arquitetura é compreendida em seu sentido projetivo e relacional como o pensamento que estabelece condições de sustentação, articulação, circulação e transformação no contexto de uma obra. Sua realização musical envolve a maneira como materiais, o tecido musical, texturas, contrastes e signos culturais são concebidos em suas relações e passam a constituir um discurso musical. A dimensão emocional dessa arquitetura situa-se no campo existencial e axiológico em que corporeidade, identidade, memória, pertencimento e valores culturais participam da significação. Em diálogo com Zbikowski (2010), ela será observada nas transformações dos materiais pelas quais se reorganizam tensões, expectativas, continuidades e valores no discurso musical.
O sujeito musical não deve ser visto primariamente como uma instância anterior à obra, nem como simples projeção do compositor, do intérprete ou do ouvinte. Ele se constitui na própria atividade semiótica, à medida que material sonoro, gestos, vocalidade, convenções musicais e memória cultural estabelecem relações capazes de produzir diferentes posições de enunciação. A concepção desenvolvida por Cumming (2000), retomada por Taylor (2022), permite compreendê-lo como uma qualidade emergente da integração de diferentes indícios de subjetividade, sem se reduzir a qualquer um deles. Assim, signo e sujeito emergem de maneira relacional, enquanto as qualidades afetivas reconhecidas na música configuram possibilidades de significação entre organização musical, estruturação, corporalidade e horizonte cultural.
No modelo Z de Tarasti (2012, 2015), o sujeito se constitui na dinâmica entre quatro modos de ser: moi 1, relacionado ao corpo, ao impulso e à energia cinética; moi 2, associado à pessoa, à identidade e à actorialidade; soi 2, correspondente às práticas, aos gêneros e às convenções socialmente compartilhadas; e soi 1, ligado aos valores e aos horizontes simbólicos. A flexibilidade do modelo permite reconhecer diferentes predominâncias, cruzamentos e movimentos diretos entre essas dimensões. As relações entre esses modos constituem um campo dinâmico no qual o sujeito musical adquire presença, identidade e valor.
A Hermenêutica do Sujeito de Foucault (2006) oferece um fundamento para compreender essa dinâmica como processo de subjetivação. Para Foucault, o sujeito constitui-se pelos modos como age, se conduz e estabelece relações consigo, com o outro, com o corpo e com o discurso. Essa perspectiva contribui para observar o sujeito musical como uma posição continuamente elaborada pelas relações que o tornam possível. Em diálogo com o modelo Z, a subjetivação pode ser observada nas mudanças de predominância e nos cruzamentos entre corporeidade, identidade, práticas e valores. Assim, o sujeito musical manifesta-se no próprio percurso em que essas dimensões se articulam e transformam suas condições de presença.
A análise acompanha materiais reconhecíveis em suas sucessivas cadeias de aparecimento, observando os traços que preservam sua identidade e aqueles que, a cada reapresentação, modificam sua função actorial e axiológica. O procedimento dialoga com Salles (2020), onde na Sinfonia n. 4, mostra que as unidades temáticas extrapolam funções predeterminadas, ao reaparecerem em diferentes movimentos e contextos, adquirem novos valores narrativos e significações culturais. Desta forma, as relações interoceptivas permitem seguir os desdobramentos do signo na composição, enquanto as relações exteroceptivas situam seus vínculos com gêneros, práticas, discursos e memórias culturais. O modelo Z organiza a leitura desses cruzamentos e permite compreender como eles modificam posições de enunciação.
Observando a Ária, o vocalise inicial sobre a vogal “A”, a entrada do poema de Ruth Valadares Corrêa e a retomada em bocca chiusa configuram diferentes condições de enunciação de uma identidade vocal que se constitui ao se transformar. A respiração, a ressonância e a continuidade do gesto melódico aproximam o vocalise do domínio de moi 1; a estabilização da identidade melódica predomina o moi 2, enquanto a técnica do canto lírico e as convenções da cantilena demonstram práticas relacionadas ao soi 2 e a memória bachiniana atravessa o acontecimento a partir do soi 1. A entrada do poema reorganiza essa presença ao vinculá-la à palavra, à prosódia e ao universo imagético da natureza, da ausência, da memória e da saudade. Na bocca chiusa, a identidade melódica retorna modificada pela experiência da palavra, conservando a memória do discurso sob outra materialidade.
A relação entre soprano e violoncelos participa do mesmo processo. Quando um gesto é prolongado, compartilhado ou retomado pelo conjunto instrumental, seus traços de identidade passam a atravessar diferentes materialidades sonoras. O signo permanece reconhecível, enquanto sua localização actorial e suas relações com o tecido instrumental são reconfiguradas. Cada reaparição constitui uma reenunciação na qual o signo acumula memória e novas funções actoriais e axiológicas.
Assim, o sujeito musical constitui-se no percurso em que os signos conservam traços de identidade enquanto mudam de materialidade, posição enunciativa, função actorial e valoração cultural. É nesse percurso que se evidencia a arquitetura emocional da obra. Essa observação através da Ária evidencia, assim, um pensamento composicional no qual corpo, linguagem, materialidade instrumental e memória cultural funcionam como condições de constituição e transformação do sujeito musical.
Palavras-chave: Heitor Villa-Lobos; arquiteturas emocionais; sujeito musical; Semiótica Existencial; Hermenêutica do Sujeito.
Hugo Eustáquio de Faria Pinheiro
hugo.pinheiro@ufam.gov.br | Universidade Federal do Amazonas – FAARTES/UFAM
Resumo: Este artigo analisa a escrita orquestral de Villa-Lobos para metais graves - trombones e tuba, na série Chôros, destacando sua capacidade de inovar a tradição da escrita orquestral de compositores brasileiros anteriores. Ao integrar influências da música popular urbana com sua experiência como músico de orquestra e autodidata, Villa-Lobos desenvolveu uma abordagem criativo-expressiva que ampliou a idiomática orquestral dos metais graves, transformando a tradicional escrita homofônica em blocos de reforço rítmico-harmônico em uma elaboração arrojada, elevando estes instrumentos a um papel de protagonismo na orquestra. A presente pesquisa adota uma metodologia qualitativa de caráter analítico-descritivo, fundamentada na análise musical e no levantamento histórico-documental, fornecendo um panorama histórico da evolução da escrita para metais graves (trombones e tuba) na orquestra, tanto no contexto europeu quanto brasileiro. Serão evidenciados elementos inovadores da escrita orquestral de Villa-Lobos, notadamente na série Chôros, onde ele explora recursos como o uso de surdinas, glissandos e outros efeitos, além da complexidade rítmica marcada por elementos da música brasileira tais como polirritmia, síncopes e ostinatos. O caráter inovador da série Chôros ampliou significativamente as possibilidades idiomáticas dos metais graves na música orquestral brasileira.
Palavras-chave: metais graves; orquestra; Choros de Villa-Lobos; música brasileira.
Paulo E. Flores
USP
Resumo: Minha relação com Choros nº2 de 1924 para flauta e clarinete em Lá de Villa Lobos é bem antiga, são 30 anos de convivência com ele. Em 1995 o trabalhei como um mote de aprendizado e desenvolvimento no universo da grafia musical digital e sua veracidade numa resposta auditiva via MIDI (Musical Instrument Digital Interface). Com esse intuito fiz um arranjo para uma realidade que, acredito, até Villa gostaria, uma formação jazz combo com flauta, 2 saxofones alto, 1 tenor, piano, guitarra, contrabaixo e bateria, achando e abrindo espaço para um chorus de improvisação dentro da sua estrutura. Essa era a formação que possuía na época, com a Cambanda Jazz Combo, grupo que criei dentro do Conservatório de Tatuí, para o desenvolvimento e a pesquisa de repertório, onde pude traçar os paralelos sonoros que buscava. Foram muitos caminhos com essa música, como verão adiante, porém, agora quero me ater um pouco ao título deste artigo e as minhas análises atuais, onde encontrei estruturas seriais através da sobreposição de materiais escalares e rítmicos.
Considerando a possibilidade desse choro ser uma divisor de águas em relação a suas obras anteriores, fiz uma análise apurada dele tendo como ótica essa premissa composicional, bem como, uma busca em obras anteriores, pesquisa essa ainda em andamento devido a quantidade de obras escritas até 1924, para encontrar esses padrões seriais e talvez descobrir o início da utilização desta técnica. Aqui traço esse paralelo de realidades sobrepostas com minhas práticas composicionais e a busca do surrealismo sonoro na obra de Villa, onde encontro grande similaridade com meu trabalho.
Palavras-Chave: Análise Musical; Villa-Lobos; Serialismo; Surrealismo; Choros nº 2; Sobreposição musical; Polimodalismo; Polirritmia.