IX SVL, 18 e 19 set 2026
Entrada Franca
Dissipando a bruma dos Açores no céu azul da Guanabara: ancestralidade na construção artística de Heitor Villa-Lobos
Resumo
O arquipélago dos Açores, território português em pleno Oceano Atlântico, é conhecido como terra envolta em brumas, e os açorianos sempre olharam para o Brasil como uma terra solar, de oportunidades para uma vida melhor. Informações a respeito da imigração e ancestralidade luso-açoriana da família de Heitor Villa-Lobos estiveram bem guardadas por muito tempo, e relações históricas em conexões artístico-culturais do compositor estão só no começo. Ser Villa-Lobos um luso-brasileiro era uma informação improvável até há pouco tempo, tido como de família espanhola. Também sua consolidada imagem brasileira-carioca faz agora um giro de 180° por caminhos no Rio de Janeiro mais portugueses do que se pensava, sem perder a capoeira, como veremos. Um esforço acadêmico em revisitar a identidade em enlace com a produção musical do compositor é necessário. À luz desse panorama, esta palestra organiza informações e projeta novas inferências que podem ocorrer na prática musical de partes da vasta obra villalobiana.
Teresinha Prada. Bacharel em Violão pela Unesp/Brasil; Mestra em Integração da América Latina, linha Comunicação e Cultura PROLAM USP, Doutora em História da Cultura (FFLCH USP)/Brasil. Realizou estágio Pós-doutoral em Musicologia no Núcleo de Estudos Caravelas da UNL. É Professora Titular da Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Federal de Mato Grosso, atuando na Licenciatura em Música e no Bacharelado em Violão. Autora dos livros "Violão: de Villa-Lobos a Leo Brouwer" e "Gilberto Mendes - vanguarda e utopia nos Mares do Sul".
Além da Influência: Villa-Lobos e Debussy na Construção da Forma a partir do Som
Resumo
Esta palestra propõe uma reavaliação da obra de Heitor Villa-Lobos a partir de uma perspectiva que se afasta deliberadamente das leituras baseadas na noção de influência — em particular, da recorrente associação com Claude Debussy. Em vez de investigar relações de derivação estilística, o presente trabalho parte de uma questão mais fundamental: como a forma musical se constitui a partir do som no contexto do modernismo do início do século XX.
Nesse sentido, Debussy é mobilizado não como modelo ou fonte, mas como ponto de referência para uma concepção em que a forma emerge de qualidades tímbricas, gestos e processos temporais não teleológicos. A partir dessa perspectiva, propõe-se uma escuta de Villa-Lobos que privilegia a organização do material sonoro como princípio estruturante, deslocando o foco de categorias como nacionalismo ou influência para a análise de processos composicionais.
Por meio de exemplos que estabelecem pontes auditivas entre diferentes repertórios — incluindo releituras da tradição francesa —, busca-se evidenciar modos de organização musical que desafiam modelos formais herdados do século XIX. Nesse contexto, aspectos frequentemente descritos como “irregulares” na obra de Villa-Lobos podem ser reinterpretados como manifestações de uma lógica estrutural própria, na qual a forma não precede o som, mas emerge dele.
Ao situar Villa-Lobos nesse quadro, a comunicação propõe uma mudança de perspectiva: de um compositor frequentemente compreendido em termos de identidade ou influência para um agente ativo nas transformações centrais do pensamento musical moderno.
Ricardo Averbach é Diretor de Estudos Orquestrais na Miami University (EUA) e ex-presidente da College Orchestra Directors Association. Com mais de quatro décadas de atuação internacional, regeu orquestras em mais de dezoito países nas Américas e na Europa, incluindo sua atuação como maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. É autor do livro Villa-Lobos and Modernism: The Apotheosis of Cannibal Music (Lexington Books, 2022), no qual propõe uma nova interpretação da obra de Heitor Villa-Lobos a partir do modernismo e da antropofagia cultural. Premiado com o Ohio Governor’s Award e múltiplos reconhecimentos do The American Prize, sua pesquisa e prática artística articulam análise musical, performance e reflexão crítica sobre o repertório sinfônico.
Resumo
Este trabalho, voltado para a técnica composicional de Villa-Lobos , - desenvolvida a partir de 1918, e que permeia a sua obra em todas as décadas subsequentes - , se inscreve na sequência de importantes insights introduzidos por João de Souza Lima (1946), Jamary de Oliveira ( 1989) e Roberto Duarte (2009), com foco especial na discussão da análise proposta por Elliott Antokoletz a respeito da linguagem modal utilizada no Choros nº 10.
Manoel Corrêa do Lago é Bacharel em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro . Master in Public Affairs (M.P.A.) pela Universidade de Princeton, e Doutor em Musicologia pela UniRio com Pós-Doutorado no IEB /USP . Anteriormente, havia estudado piano com Madeleine Lipatti e Arnaldo Estrella, teoria musical com Esther Scliar e Annette Dieudonné; e composição e análise com Michel Philippot e Nadia Boulanger.
Publicou papers em diversos periódicos , tais como a Revista Brasileira de Música( UFRJ) , Brasiliana ( ABM) , Latin American Music Review (University of Texas/ Austin), e nos Cahiers Debussy (CNRS – Paris). Em 2009, em colaboração com Sergio Barbosa e Maria Clara Barbosa, coordenou a edição crítica do Guia Prático, de Heitor Villa-Lobos, publicada pela Academia Brasileira de Música e pela FUNARTE. Sua tese de doutorado, O Círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil: Modernismo musical no Rio de Janeiro antes da Semana, recebeu o Prêmio CAPES / Área de Artes sendo publicada em livro em 2010. Em 2011, organizou o livro O Boi no Telhado t – Música brasileira no modernismo francês e, em 2017 o livro Uma outra Missão Francesa – Paul Claudel e Darius Milhaud no Brasil. Em 2023, em co-autoria com Guilherme Bernstein Seixas, publicou o livro Do Tedio de Alvorada ao Uirapuru -Partitura de estudo , uma edição crítica do poema sinfônico Uirapuru, de Villa-Lobos (2023). E em 2024, em co-autoria com Flavia Toni e Camila Fresca , o verbete “Villa-Lobos” para a nova edição da Oxford Bibliography . É membro da Academia Brasileira de Música, ocupando a Cadeira Carlos Gomes.
Recursos composicionais de Heitor Villa-Lobos como paradigmas para Olivier Messiaen e José Antonio de Almeida Prado
Resumo
A conferência "Recursos composicionais de Heitor Villa-Lobos como paradigmas para Olivier Messiaen e José Antonio de Almeida Prado", apresentada por Adriana Lopes da Cunha Moreira, parte da dimensão valorativa da análise musical, ressaltando a abrangência à produção latino-americana.
A interlocução entre Villa-Lobos e Messiaen enfoca a justaposição e sobreposição de ideias musicais baseadas em ritmo, timbre e textura – majoritariamente composta por camadas nas obras do primeiro e heterofônica nas obras sobre cantos de pássaros do segundo. Villa-Lobos integrava elementos da música popular brasileira e influências europeias, enquanto Messiaen reconhecia e admirava a originalidade e a orquestração de Villa-Lobos, considerando-o fonte de inspiração, inclusive registrando influências de recursos composicionais de A prole do bebê n. 2 no Catalogue d’oiseaux.
José Antonio de Almeida Prado, profundo conhecedor das obras de Villa-Lobos e discípulo direto de Messiaen, explora tais recursos com ênfase em ressonâncias e espacialidades sonoras na série Cartas Celestes.
Ao final, processos composicionais como justaposição de ideias curtas, intervalos perfeitos desfocados pela inserção de segundas, sobreposição de camadas com teclas brancas e pretas são especificamente demonstrados em excertos dessas obras. Tais princípios “protoespectrais” permitem ao ouvinte uma experiência auditiva mais ampla e sensível ao espaço acústico como componente essencial da obra musical.
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A musicóloga brasileira Adriana Lopes Moreira é Professora Associada no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e no Programa de Pós-Graduação em Música da ECA-USP, na Universidade de São Paulo (USP), onde leciona desde 2004. É vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais (CRInt-ECA-USP), representante do CMU na CRInt e membro do Conselho do CMU. No âmbito da gestão acadêmica, ao longo dos últimos vinte anos, exerceu as funções de coordenadora de Graduação, Pesquisa e Provas de Competências Específicas, foi vice-coordenadora da Comissão de Pós-Graduação em Música e vice-chefe do Departamento de Música da USP em diferentes gestões.
Com formação em piano e análise musical pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp, Brasil), ministra cursos de análise musical tonal, pós-tonal e espectromorfológica, percepção musical tonal e pós-tonal, música de câmara e história da música do século XX, além de orientar pesquisas que vinculam esses temas ao repertório dos séculos XX e XXI. Os pesquisadores sob sua orientação integram o Grupo de Pesquisa TRAMA: Teoria e Análise Musical, fundado e coordenado por ela desde 2015.
Seus trabalhos de pesquisa têm sido publicados em periódicos científicos e apresentados em congressos nacionais e internacionais. Entre 2011 e 2015, foi editora-chefe das publicações da ANPPOM, que incluem a série Pesquisa em Música no Brasil a Revista OPUS, a qual atingiu o nível A1 em sua gestão. A partir dessa experiência, passou a integrar os Conselhos Editoriais de periódicos como Súmula: Revista de Teoría y Análisis Musical (SATMUS, Espanha, 2022-), Vórtex (UNESPAR, 2024-), OPUS (ANPPOM, 2015-), ORFEU (UDESC, 2015-), Revista Música (USP, 2015-), Art Research Journal (ARJ, Brasil, 2012-17) e Caravelas, Núcleo de Estudos da História da Música Luso-Brasileira (UNL, 2012).
Nos últimos quinze anos, tem coordenado congressos que promovem a interlocução entre as pesquisas brasileiras e as de outros países, como os Encontros Internacionais de Teoria e Análise Musical (EITAM, 2009-19), bem como a área de Teoria e Análise no congresso anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM, 2010-). Ela também tem participado de atividades promovidas pela Associação Brasileira de Teoria e Análise Musical (TeMA). Em workshops, tem ministrado propostas didáticas para o ensino e a prática rítmica, vinculadas à proposta “Gramani Rhythmics, in a project by Adriana Lopes Moreira”. Em congressos, suas conferências e palestras têm abordado análises de obras musicais compostas nos séculos XX e XXI, com foco especial naquelas que combinam elementos de diversas tendências estéticas.
Heitor Villa-Lobos e Andrés Segovia
Resumo
Heitor Villa-Lobos e Andrés Segovia mantiveram um longo relacionamento. Conheceram-se em Paris na década de 1920, corresponderam-se frequentemente e passaram tempo juntos em Paris, Nova York, Montevidéu, entre outros lugares. Villa-Lobos compôs suas contribuições mais importantes para a literatura do violão para Segovia — os doze Estudos, os cinco Prelúdios e o Concerto— mas Segovia nunca interpretou todas essas peças e gravou um número ainda menor delas. Eles mantiveram o que foi, em muitos aspectos, um forte relacionamento profissional e pessoal, conforme documentado em sua correspondência. Em cartas a outros compositores, no entanto, o violonista criticava o compositor e sua música, as vezes de uma maneira dura. Qual era a natureza exata desse relacionamento? Como ele impactou a composição e a interpretação dessa música?
Esta apresentação explora as conexões entre o compositor, o violonista e a música para violão. Um exame de sua correspondência revela aspectos importantes do relacionamento entre eles e o desenvolvimento dessa música, assim como o fazem as cartas trocadas entre Segovia e o compositor mexicano Manuel Ponce, nas quais o violonista discute Villa-Lobos e sua obra. Por meio dessas correspondências, bem como de entrevistas com a cantora e violonista Olga Praguer de Coelho — que manteve um forte vínculo com ambos os artistas — delineia-se uma imagem do relacionamento pessoal e profissional desses dois grandes mestres, bem como da evolução da música para violão.
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Thomas George Caracas Garcia, professor de etnomusicologia, violonista e luthier, integra o corpo docente da Miami University. Especialista em música brasileira e portuguesa, apresentou-se nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil, em diversas instituições culturais, incluindo o Carnegie Hall, o Alice Tully Hall e o Merkin Concert Hall em Nova York; o Museu Villa-Lobos e o Museu da República no Rio de Janeiro; a Salle Bulgaria em Sófia; o Palácio de Monserrate em Sintra, Portugal; o festival "Fiato Al Brasile" em Faenza, Itália; o Music Hall em Cincinnati e o Rock and Roll Hall of Fame em Cleveland. Apresentou-se com artistas vencedores do Grammy, como Wynton Marsalis, Paquito D'Rivera, Nestor Torres e Jessica Rivera, e foi a atração de abertura para Bob Dylan. O jornal Duma, de Sófia (Bulgária), escreveu: "Um solista brilhante, Thomas Garcia conquistou o público desde as primeiras notas de sua apresentação, com seu som límpido e timbre caloroso".
Garcia possui doutorado em Prática de Performance Histórica pela Duke University, mestrado em Musicologia pela University of Massachusetts e diplomas de performance pela Juilliard School. Suas publicações incluem artigos sobre a história do violão e a música luso-brasileira em periódicos como Luso-Brazilian Review, Veduta (Portugal) e Journal of Popular Culture, entre muitos outros, além de diversos capítulos de livros e verbetes de enciclopédias. Ele contribuiu com um capítulo sobre o músico brasileiro Jacob do Bandolim para o livro premiado Mazel Tov, Amigos!: Jews and Popular Music in the Americas, obra que recebeu um prêmio da Society for Ethnomusicology por suas contribuições aos estudos da música judaica. É coautor do livro Choro: A Social History of a Brazilian Popular Music, editor da antologia Global Popular Music e, mais recentemente, editor do catálogo em inglês do Museu Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Atua em bancas de mestrado e doutorado na Universidade de Aveiro (Portugal), onde também trabalhou como pesquisador do EcoMusic, um projeto dedicado à preservação e revitalização da música folclórica e popular portuguesa. Garcia apresenta-se utilizando violões experimentais de sua própria criação e construção.
Villa-Lobos, vida e obra: Processos de pesquisa e de escrita para uma nova biografia do compositor
Resumo
Entre o final de 2019 e meados de 2026, dediquei-me ao projeto de escrever uma biografia de Heitor Villa-Lobos. O objetivo inicial era reunir, numa obra recente, informações atualizadas sobre a vida do compositor, e relacioná-las com sua trajetória profissional e sua produção composicional.
Nesta palestra procurarei explicitar como se deu o processo: desde a escolha do personagem a ser biografado, passando pela pesquisa e pela estruturação da obra (partes, capítulos, subseções). Serão abordadas questões como: o que o trabalho se propõe e o que não se propõe a fazer? Qual o equilíbrio entre a vida e a obra numa biografia? Como foi o trabalho com a bibliografia disponível e as fontes primárias? Quais foram os principais dilemas da pesquisa e decisões textuais de cunho narrativo? O que se espera que uma nova biografia de Villa-Lobos traga ao público leigo e aos pesquisadores de sua obra?
Camila Fresca é doutora e mestra em Musicologia pela ECA-USP. Bacharel em História (FFLCH-USP) e Comunicação Social (PUC-SP) é curadora da Estação Motiva Cultural (Sala São Paulo) além de atuar como jornalista e pesquisadora. É autora dos livros Festival de Inverno de Campos do Jordão – 50 anos (Editora da Osesp, 2019) e Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro (Annablume, 2010). Em 2011 dirigiu o CD Flausino Vale e o violino brasileiro (Petrobras/Selo Clássicos), do violinista e maestro Cláudio Cruz, vencedor do Prêmio Bravo! Prime 2011 na categoria música erudita. É uma das idealizadoras do box Toda Semana – música e literatura na Semana de Arte Moderna, lançado pelo Selo Sesc em fevereiro de 2022. É autora de uma biografia sobre o compositor Heitor Villa-Lobos (no prelo / Editora Todavia), que é também tema de seu pós-doutorado no Instituto de Estudos Brasileiros da USP.
Diálogos entre Villa-Lobos e Paris a partir dos documentos do dossiê Villa-Lobos no Fonds Montpensier (BnF)
Resumo
A recepção de Heitor Villa-Lobos na capital francesa nos anos 1920 constitui um dos episódios mais complexos da historiografia do compositor. Esta palestra propõe discutir a circulação e o impacto de Villa-Lobos em Paris a partir de uma investigação no Acervo Montpensier da Biblioteca Nacional da França (Fonds Montpensier - Bibliothèque nationale de France - BnF). O estudo debruça-se sobre o mapeamento, o levantamento e a tradução das críticas musicais e crônicas da imprensa francesa da época guardadas nesse importante fundo documental. O objetivo é examinar como a intelectualidade e a crítica europeias decodificaram o discurso estético de Villa-Lobos, com especial atenção à articulação entre as estratégias de representação identitária do Brasil em sua obra e sua valoração técnica. Ao mesmo tempo, o acesso a novos documentos permite reavaliar o impacto do composiitor brasileiro no grande centro difusor de tendências no cenário musical internacional, destacando a importância da sua atuação entre grandes compositores do período.
A partir do cruzamento dessas fontes primárias, iluminam-se as tensões e os pontos de contato entre a trajetória do compositor e a produção da crítica francesa do período, desvelando como essa interação foi fundamental na sedimentação de sua imagem pública e o orientou no desenvolvimento de sua técnica composicional nas décadas seguintes.
Gabriel Ferrão Moreira é Professor de Teoria Musical e Musicologia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e, atualmente, atua como pesquisador de pós-doutorado na Sorbonne Université, junto ao laboratório IReMus, em Paris. É Doutor em Música (área de Análise) pela Universidade de São Paulo (USP). Desenvolve pesquisas voltadas à musicologia histórica, análise musical e circulação cultural, com especial ênfase na obra de Heitor Villa-Lobos, suas relações com a França e o mapeamento de acervos e fontes primárias internacionais.