É um paradoxo central do nosso tempo: nunca foi tão simples compartilhar conteúdos e nunca estivemos tão vigiados e limitados ao fazê-lo. A pirataria, nesse cenário, funciona como uma forma de resistência cotidiana. Uma “contraeconomia afetiva”, como poderíamos dizer livremente a partir de autores como McKenzie Wark.
Wark (2023) argumenta que o conhecimento tende a se tornar propriedade apenas de quem consegue transformá-lo em mercadoria. O hacker – ou aqui, o pirata digital – rompe esse ciclo ao redistribuir o saber, os arquivos, os bits, sem pedir licença. A pirataria, nesse sentido, não é infração: é prática simbólica e política que recusa o monopólio da informação.
Essa recusa está visível em cada um dos relatos do capítulo anterior: o adolescente que aprende inglês com ROMs¹⁴ de jogos e PDFs ilegais; a espectadora que só encontra representatividade em links não-oficiais; a consumidora que desiste de pagar por múltiplas plataformas que prometem muito e entregam pouco. Há aqui o que Jenkins (2015), chamaria de inteligência coletiva, uma rede de usuários que colaboram para manter o acesso vivo, mesmo diante das imposições do mercado.
Mas isso não é apenas uma questão de acesso, é também uma questão de memória. A digitalização de acervos culturais, quando mediada apenas por grandes corporações ou instituições oficiais, produz lacunas tão grandes quanto as que pretendia preencher (THYLSTRUP, 2019). Afinal, o que não se digitaliza “oficialmente”, desaparece?
No Brasil, esse papel informal de preservação sempre teve rosto: a banquinha da esquina que vendia DVDs “duplos” com filmes recém-saídos do cinema, as lan houses em que adolescentes baixavam MP3 e jogos crackeados, os blogs com acervos inteiros de discos e livros digitalizados. A pirataria, em nosso contexto, foi (e continua sendo) uma infraestrutura cultural paralela, que distribui, arquiva, conecta e forma.
Lawrence Lessig, jurista norte-americano e criador do Creative Commons (CC)¹⁵, já havia alertado que o endurecimento das leis de copyright não impedia a cópia, apenas criava uma geração inteira de “infratores” e empurrava o conhecimento para a ilegalidade (LESSIG, 2005). E parece que, no Brasil, essa ilegalidade é muitas vezes o único caminho possível.
Por isso, os comentários citados acima não soam como confissões, mas como testemunhos. A pirataria aqui aparece como um sistema alternativo de circulação, memória e justiça. Uma forma de romper o ciclo do esquecimento forçado imposto pelas lógicas do lucro e da obsolescência programada – ou programática.
Em um mundo em que a cultura é tratada como licença temporária, o pirata, o hacker, por mais controverso que seja, aparece como guardião da permanência. Contra a lógica da exclusividade, ele propõe a da partilha. Contra a rarefação, a abundância. Contra a obliteração silenciosa, a URL de acesso direto. Algo que vai de encontro com o que dizia Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo:
Certa vez, fui questionado por um pesquisador de Cabo Verde: “Como podemos contracolonizar falando a língua do inimigo?”. E respondi: “Vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer desenvolvimento, nós vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus pandêmico e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa é envolvimento”.
Para enfraquecer o desenvolvimento sustentável, nós trouxemos a biointeração; para a coincidência, trouxemos a confluência; para o saber sintético, o saber orgânico; para o transporte, a transfluência; para o dinheiro (ou a troca), o compartilhamento; para a colonização, a contracolonização... e assim por diante (SANTOS, 2023, p. 3).
A proposta deste trabalho é apontar para um movimento amplo: a pirataria como forma difusa, descentralizada e muitas vezes invisível de preservar a cultura frente aos ciclos de esquecimento produzidos por mercados e plataformas. Diante da fragilidade dos sistemas legais de arquivamento, da volatilidade dos streamings, da exclusão econômica e da geopolítica do acesso, a pirataria se transforma em ação curatorial.
É nesse sentido que autores como Bollier, defendem a ideia dos commons digitais: bens culturais compartilhados e protegidos coletivamente fora da lógica de mercado. Para Bollier (2025), o comum não é o que está disponível a todos por concessão do capital, mas aquilo que é mantido vivo por uma comunidade que o considera essencial. A pirataria, quando vista sob essa ótica, pode ser entendida como um esforço de construção de infraestruturas coletivas do saber.
Redes, diretórios, repositórios e até pastas no Google Drive são formas de arquivo não institucional que, ao contrário do que o senso comum sugere, carregam consigo práticas sofisticadas de curadoria, cuidado e memória. Como aponta De Kosnik (2021), os arquivos piratas e de fãs não apenas guardam o que o mercado esqueceu, eles desafiam a própria noção de que só o que é monetizável merece ser preservado.
Projetos como o Internet Archive, a Biblioteca Genesis, o Sci-Hub, os trackers privados de torrents ou mesmo projetos locais de digitalização de livros e filmes brasileiros esquecidos pela indústria (como a Iniciativa de Digitalização de Filmes Brasileiros – IDFB, da ONG Cinelimite, entre outros) formam um ecossistema alternativo de cultura e conhecimento. São espaços construídos por comunidades que se recusam a aceitar o desaparecimento como destino.
A luta por uma cultura livre, portanto, não é contra a remuneração de artistas ou a sustentabilidade da criação, mas contra o modelo restritivo e extrativista de distribuição, que transforma cultura em produto escasso. Quando uma série LGBTQIA+ com protagonista autista some do catálogo do próprio streaming que a produziu, o problema não é apenas de acesso, mas de apagamento. E, nesse contexto, upload e download viram gestos de resistência.
Os princípios de compartilhamento, abertura e descentralização, frequentemente associados à cultura hacker, não são apenas valores abstratos, são a espinha dorsal de um modo de pensar e fazer que se infiltra em múltiplas áreas do conhecimento. São ideias que desafiam hierarquias, rompem cercas e propõem outras formas de circulação do saber. Mais do que se inspirar neles, é urgente tomá-los como base teórico-prática das nossas próprias práticas, especialmente quando falamos de acesso à cultura em tempos de bloqueios e portões fechados. Foletto (2021) chama atenção para dimensões cruciais dessa ética que merecem ser sublinhadas e atualizadas:
[…] o compartilhamento de arquivos na rede continua firme nos guetos hackers e contraculturais, a cultura livre segue como movimento em prol não só de uma cultura, mas também de um conhecimento livre e dos bens comuns; o copyleft se mantém como um dos maiores hacks em mais de três séculos de direitos autorais no Ocidente. O software livre permanece como uma utopia de construção colaborativa e solidária de tecnologias que, por ora, e por um triz, perdeu a chance de ser a realidade global; o remix virou principal forma de criação artística num mundo, que mais conectado do que nunca, não tem mais dúvidas que só se cria recriando (FOLETTO, 2021, p. 12).
É nesse cruzamento entre desejo, necessidade e recusa que a pirataria adquire sua dimensão política. Ela ocupa as brechas deixadas pela legalidade, preserva o que o mercado quer esquecer e constrói, muitas vezes sem saber, uma contramemória digital. Seus arquivos – descentralizados, redundantes, coletivos – são um lembrete de que a cultura pertence a todos. E de que não se apaga um povo que faz backup.