Até poucos anos, o seriado Chaves não integrava nenhuma plataforma de streaming e era disponibilizado no YouTube pelos fãs. Isso mudou em 2020, quando a Televisa⁸ e os herdeiros de Roberto Gómez Bolaños, o Chespirito – que possuem os direitos sobre os roteiros – entraram em um imbróglio durante a renovação de contrato que impediu a transmissão da atração por aproximadamente três anos. Hoje, ainda há quem tente distribuir os episódios na subsidiária da Google, mas os conteúdos são constantemente retirados por direitos autorais.
Em um dos vídeos que compõe uma playlist de alguns episódios divididos em partes, um usuário do YouTube comentou:
Finalmente conseguindo rever! Simplesmente um dos seriados mais queridos do 5º maior país do mundo tinha sido tirado do mapa por causa de briga dos detentores por dinheiro. Agora imagina coisa mais antiga, menos conhecida e de outras culturas.
Outra usuária respondeu:
Nossa, eu estava pensando nisso esses dias. No início do YouTube, eu passava o dia todo vendo Chaves na internet. Tinha playlists com temporadas inteiras, compilados de 4/5 horas de episódios, eu adorava. Fazia maratona. Aí que o YouTube começou a dar strike⁹ por direitos autorais e, entre 2020 e 2023, eu não conseguia achar nem cortes de mais de 2 minutos. Pesquisava pra streaming, não tinha. Até da TV aberta saiu, nem o SBT podia transmitir.
Também nos últimos anos, plataformas como a Max (anteriormente, HBO Max [e posteriormente, novamente, HBO Max])¹⁰ removeram dezenas de títulos originais para evitar o pagamento de direitos residuais a roteiristas e idealizadores. Direitos residuais são os valores que esses profissionais recebem quando uma de suas criações, como programas de TV, é reexibida. Também chamados de direitos conexos, no Brasil, esses pagamentos são feitos quando há reprises, relançamentos, renovações contratuais, mudanças de canal ou disponibilização em outra plataforma.
Em 2022, o site de mídia e entretenimento IGN, operado pela IGN Entertainment Inc., reportou que o motivo pelo qual a, até então, HBO Max retirou 36 títulos do catálogo de streaming foi para evitar o pagamento residual aos criadores das séries e filmes removidos¹¹ (LESTON, 2022). Esse é um dos pontos reivindicados nas pautas da greve de roteiristas que ocorre em Hollywood desde 2023. Vários desses conteúdos – alguns que simplesmente deixaram de existir quando saíram do catálogo – eram produções originais da emissora e, muitos deles, eram séries e filmes criados, escritos por pessoas negras, indígenas e LGBT.
Então não só passamos a ter menos opções do que assistir, como, até na hora de decidir o que sai do ar, outras questões se tornam relevantes no momento da tomada de decisão. Deixando de assistir essas obras, seus criadores também deixam de ganhar dinheiro.
Todo mundo perde.
E o que sobra? Um catálogo enxuto, previsível e lucrativo. Pouquíssimas obras anteriores aos anos 2000.
O crítico de cinema, pesquisador, historiador e professor universitário brasileiro, Waldemar Dalenogare Neto, mais conhecido como Dalenogare, falou abertamente, durante uma live recente (s.d.), em uma de suas redes sociais sobre a praticamente impossibilidade de se realizar um curso de cinema no Brasil sem “piratear”. Segundo ele: “não tem como”, já que, mesmo que se tente por meios legais o quanto puder, é necessário consumir um repertório de filmes clássicos que nem alugar é possível.
Um dos perfis que acompanhava a transmissão escreveu:
Não tem como mesmo! Ainda mais falando especificamente de universidade pública.
Entrei em contato para tentar entender. Se “não tem como”, “o que fazer”?
A gente vai criando mecanismos pra compartilhar filmes e descobrindo novas plataformas pra conseguir ter acesso a essas obras. Mesmo assim, vira e mexe tem clássicos que são simplesmente impossíveis de achar.
E mais:
As questões de distribuição e preservação ficaram ainda mais rigorosas do que já eram com a emergência dos streamings. É algo como uma gentrificação digital e é um bate-cabeça que temos constantemente no curso, meio desesperador, às vezes.
Desesperador.
Um gráfico publicado pela Ampere Analysis (Figura 1), de 2023, relata a quantidade de filmes disponíveis no catálogo de alguns dos principais serviços de streaming de audiovisual – HBO Max, Disney +, Prime Video, Hulu e Netflix – organizados de acordo com a década em que eles foram lançados. A discrepância é gigante.
Figura 1: Gráfico com porcentagem de filmes por década em serviços de streaming
Fonte: Ampere Analysis
Histórias eliminadas porque não geram lucro. Culturas apagadas porque não valem financeiramente. Numa reportagem do L.A. Times, Dennis Doros¹², que se dedica à preservação e restauração e distribuição de filmes, afirmou que:
Há um grande número de filmes que não migraram do VHS para o DVD, para o Blu-ray e para o streaming. Estamos falando de milhares de filmes. Não se trata apenas de cultura cinematográfica – trata-se de preservar um tecido da nossa cultura (ROTTENBERG, 2023).¹³
Então, o que está em questão é algo bem profundo, denso e repleto de camadas. E, há ainda um esquema que simplifica um problema que é amplamente complexo, pois, em suma, nesse cenário com as grandes plataformas apagando da existência séries e filmes, além do óbvio, é plausível que se ninguém “piratear” a obra, ninguém mais assiste. É quase como se estivéssemos retornado à era pré-VHS, na qual, se você perdia um capítulo da novela, só saberia daquele conteúdo se gravasse ou se um vizinho que assistiu te contasse.
Assim, na ausência de preservação oficial, a pirataria se torna o arquivo. É ilegal, sim, porém, muitas vezes, é a única alternativa entre a preservação e a obliteração. Porque, grosso modo, esse apagamento é institucionalizado; quem apaga memória, cultura e história está dentro da lei. Reduzir essa discussão à tentativa de responder se é roubo ou não se mostra rasteiro. Inclusive, pois, se for para tratar de roubo, por que não falar de dados? Das informações que cada pessoa entrega todos os dias em suas redes sociais, nos sites que frequenta, que alimentam algoritmos, inteligências artificiais, e viram produto?
Dados são “coletados” o tempo inteiro. As IAs são desenvolvidas a partir deles, de tudo o que é compartilhado na internet. E o único motivo pelo qual nada disso é considerado roubo é por causa dos termos de uso em letras miúdas. É porque alguém legitimou essas práticas como algo que não é roubo. A diferença é que, em algum momento, você clicou em algo como “aceito as condições”. E, por isso, ninguém chama de roubo. Chamam de “coleta”. Mas quem decide o que é “legítimo” e o que é “clandestino”? O que é “compartilhar” e o que é “furtar”? O que merece ser lembrado e o que pode ser esquecido?
Talvez a grande disputa do futuro não seja sobre quem tem o direito de distribuir cultura. Mas sobre quem tem o poder de decidir o que deve ou não ser conhecido.