Em 1705, o capitão Thomas Green foi sentenciado à morte, acusado de pirataria.
Green e sua tripulação foram detidos sob a acusação de invadir o navio Speedy Return e assassinar o capitão Robert Drummond, da Frota Britânica do Mediterrâneo. Nenhuma das alegações foi comprovada. Nem mesmo a morte da suposta vítima pôde ser confirmada. Ainda assim, o processo judicial se arrastou por dois anos, até que, em 11 de abril de 1705, Thomas foi enforcado. Ficando para a história, uma passagem interessante consta nos autos de seu julgamento. Ele deixou registrado:
Um pirata está em guerra perpétua com todos os indivíduos e todos os estados, cristãos ou infiéis. Os piratas, propriamente, não têm pátria, mas, pela natureza de sua conduta, se separam e renunciam, neste caso, ao benefício de todas as sociedades legítimas (ADAMSON, 2004). ¹
A fala do capitão sintetiza o arquétipo do pirata como figura dissidente e apátrida. Um ser em guerra com o mundo. Um pária por escolha (ou falta dela) que rompe os pactos do convívio social. Essa imagem, com o tempo, foi sendo absorvida e transfigurada pela cultura pop: de bandido errante à fantasia carnavalesca. O pirata virou personagem. Um tipo folclórico, com tapa-olho, perna de pau e papagaio no ombro, que bebe rum, canta alto e navega em busca de tesouros. Mas, precedentemente a esse estereótipo pitoresco, a pirataria possui outro signo. Ela era, talvez, a expressão mais crua de um desejo de autonomia em um mundo engolido pelo império.
A história da pirataria é tão antiga quanto a própria navegação. Registros do século V a.C. já apontam para ataques a embarcações mercantes no Golfo Pérsico e no Mediterrâneo (MARK, 2019). Mas o pirata que ocupa o nosso imaginário contemporâneo tem endereço e época mais definidos: o Caribe, entre os séculos XVI e XVIII. A chamada Época Dourada ou Era de Ouro da Pirataria acompanhou o crescimento do transporte de riquezas no Atlântico (DA COSTA, 2014). Foi quando os mares deixaram de ser temidos como monstros indomáveis e passaram a ser vistos como rotas promissoras – e lucrativas – para a exploração de terras, recursos e pessoas. Porque sim, essa também foi a era dos colonizadores.
Do outro lado dessas grandes navegações imperiais, surgem os piratas, navegadores errantes, muitas vezes de múltiplas nacionalidades, atuando entre as ilhas caribenhas e o Atlântico (DEFOE, 2008). Não eram apenas ladrões, eram também desertores, exilados, degredados, foragidos. Trabalhar em embarcações significava conviver com doenças, fome, pagamentos miseráveis e nenhuma garantia de voltar para casa. Apesar disso, para muitos, a pirataria era o único caminho possível. Uma vida marginal, mas uma forma de vida. Uma tentativa, ainda que arriscada, de existir à margem das estruturas impostas.
Nesse cenário da colonização das Américas, do tráfico transatlântico de escravizados, de guerras e disputas territoriais, os piratas surgem como sujeitos liminares; recusados por um mundo em transformação, criam suas próprias rotas de fuga. A pirataria, portanto, não era só um crime marítimo, era uma resposta desordenada, e às vezes brutal, à ordem violenta dos impérios. Até a Marinha britânica decidir organizar a casa e passar a caçar, prender e executar esses insubmissos.
Não é a intenção sugerir aqui que os piratas do Atlântico foram heróis injustiçados, tampouco mártires da luta anticolonial. A vida real é mais complicada que os roteiros da Disney. Esse período da pirataria (1690–1730) foi um fenômeno multifacetado, com diferentes fases, táticas e personagens (CARTWRIGHT, 2021), mas, justamente por isso, merece ser tratado com mais profundidade do que as caricaturas em que foi traduzido. Afinal, a forma como se representa a transgressão diz muito sobre quem tem o poder de contá-la.
Ramos (2015) e outros historiadores distinguem três categorias principais na pirataria: piratas (propriamente ditos); corsários; e bucaneiros. Todos saqueavam, matavam e praticavam atrocidades – ou seja, no fundo, no fundo, todos eram “piratas” –, porém só um grupo era autorizado a fazê-lo com um selo de legitimidade. Os corsários tinham licença das coroas europeias para agir em nome dos impérios, geralmente eram nobres, oficiais, filhos de famílias importantes. Os bucaneiros, por outro lado, eram refugiados, condenados, pobres. A mesma prática, dois pesos e muitas medidas. A linha entre crime e legalidade era traçada pelo poder.
Então… o que é crime? Aquilo que o império, a autoridade diz que o é?
Talvez. Ou, pelo menos, aquilo que não tem carimbo oficial. Porque nem todo bucaneiro era miserável, nem todo corsário era aristocrata. Mas na hora de contar a história, essas nuances somem. E o que sobra é a versão mais palatável: o pirata romântico, ousado, com sotaque britânico e mapa do tesouro no bolso. Um personagem moldado pela pena de Robert L. Stevenson, em A Ilha do Tesouro (1883), e replicado exaustivamente ao longo do século XX (STEVENSON, 2022).
Mas essa romantização é para poucos: ingleses, franceses, holandeses. Já os navegantes do norte da África, do Oriente Médio ou da Ásia, esses raramente foram celebrados. O pesquisador libanês Nabil Matar resume bem:
Os piratas faziam parte da economia daquele período no Mediterrâneo e eram recompensados por seus esforços em nome de seus respectivos governantes. Portanto, a percepção dos piratas como ‘vilões’ era relativa, já que os piratas de um império eram claramente os ‘heróis aventureiros’ de outro império. ²
A construção simbólica do pirata ocidental esconde mais do que revela. E como toda simplificação histórica, reproduz silenciamentos, apaga complexidades, reforça hierarquias. Não pretendo aprofundar isso agora, todavia é importante deixar no radar.
O que importa aqui é perceber como o imaginário do pirata evoluiu. E como esse senso de aventura e rebeldia foi sendo reconfigurado ao longo do tempo. Do Capitão Gancho ao navio dos Goonies, o pirata virou símbolo de liberdade juvenil, coragem romântica e transgressão domesticada. O exemplo mais emblemático vem de Piratas do Caribe, franquia da Disney, nascida de um parque temático. Jack Sparrow, inspirado em rockstars dos anos 1970, é o ápice desse processo: um anti-herói carismático, anárquico, cool. Um punk higienizado. Um rebelde que vende.
Curiosamente, Sparrow nem deveria ser o protagonista. Mas o público comprou. Comprou tanto que ele virou o rosto da franquia. A rebeldia virou produto. O pirata virou grife, hoje, com filmes, brinquedos, parques, jogos. E o que era, um dia, a negação do sistema virou mascote do próprio. Então, se o pirata virou uma marca registrada, uma franquia milionária, onde foi parar o pirata rebelde?