Prof. Simone Thomé
(simone.thome@ulbra.br)
NESTE CAPÍTULO VOCÊ IRÁ APRENDER:
Como funciona a imunização ativa.
Quais são as características da vacina ideal.
Causas de falhas vacinais e as principais reações vacinais.
INTRODUÇÃO:
A vacinação (ou Imunoprofilaxia) é a estimulação de uma resposta imune contra um patógeno com o objetivo de proteger contra doenças. A Imunidade ativa pode ser adquirida artificialmente com o uso de vacinas e toxoides. Este tipo de imunidade é desenvolvido com a administração de antígenos mortos ou artificialmente enfraquecidos (vacinas) ou toxinas inativadas (toxoides). Estes elementos retém as propriedades antigênicas que estimulam o desenvolvimento da imunidade, mas não podem causar a doença. A prevenção de muitas doenças infecciosas pode ser obtida com a imunização artificial. A imunização com vacinas pode durar por algum tempo, sendo indicado a revacinação.
Em indivíduos idosos ou malnutridos, a produção de linfócitos, especialmente as células B, é reduzida, e as respostas primária e secundária às vacinas podem ser inadequadas.
A imunização pode ser realizada de forma ativa ou passiva. O processo de imunização ativa apresenta várias vantagens quando comparado com a imunização passiva (anticorpos maternos ou soro hiperimune). Entre estas vantagens pode ser citado a produção de imunidade prolongada e a capacidade de estimular um efeito de memória, com potencialização da resposta imune pela injeção repetida de antígenos vacinais ou quando ocorre exposição ao agente infeccioso. Os protocolos de vacinação devem ser personalizados para cada animal, considerando a gravidade da doença, o potencial zoonótico do micróbio, a suscetibilidade e o risco de exposição do animal e as normas legais relacionadas à vacinação.
Os níveis séricos de anticorpos (e, consequentemente, o grau de proteção) conferidos pelos métodos ativos e passivos de imunização.
FONTE: TIZARD, I. R. Imunologia Veterinária . 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2019.
Em cães, a principal via de transferência de imunoglobulinas é o colostro, existindo 2 a 18% de transferência de imunoglobulinas pela placenta. O colostro é o leite produzido no terço final da gestação, rico em imunoglobulinas tipo IgG e células. A transferência de anticorpos maternos para os filhotes pode durar um bom período da amamentação, entretanto tem importância significativa para a imunização nas primeiras 24 horas. O colostro deixa o neonato com títulos de imunoglobulinas quase iguais aos da mãe. Quanto maior a ninhada, menor a quantidade de imunoglobulinas que cada um recebe. Com o tempo, perdem-se em ordem: IgA, IgM e IgG. Estas imunoglobulinas são absorvidas no duodeno e jejuno diretamente para a circulação.
Os neonatos são capazes de reagir imunologicamente a antígenos, porém a resposta é pequena e lenta. Os filhotes que recebem maior quantidade de anticorpos maternos têm maior probabilidade de proteção. O processo de imunização passiva dos filhotes depende da imunidade materna. A titulação da mãe é variável, podendo ser maior quando se realiza a vacinação das fêmeas imediatamente antes da gestação. Importante evitar o uso de vacinas durante a gestação. Apesar de possibilitar o aumento da titulação de anticorpos e transferência pelo colostro, o uso de vacinas modificadas pode desencadear lesões nos fetos por replicação do vírus vacinal.
A titulação de anticorpos maternos em neonatos depende da titulação da mãe e a quantidade recebida durante a amamentação, sendo inversamente proporcional ao tamanho da ninhada.
Os anticorpos e as células recebidos pela placenta e colostro são os responsáveis por proteger imunologicamente os filhotes nas primeiras semanas de vida. A velocidade de declínio dos anticorpos maternos não é homogênea em todos os cães, sendo proporcional à taxa de crescimento. Cães de raças grandes e crescimento rápido perdem anticorpos maternos mais rapidamente. Também há variações em relação à meia-vida dos diferentes anticorpos contra diferentes doenças.
A titulação de anticorpos maternos protege os filhotes por algumas semanas, porém interferem na resposta imunológica do filhote por neutralizarem os antígenos vacinais. Esta interferência depende da quantidade de anticorpos maternos recebidos pelo filhote e a meia-vida destes anticorpos. A presença de anticorpos maternos pode ser considerada a causa principal de interferência na resposta imune dos filhotes. Para melhor resposta dos filhotes às vacinas convencionais (vivas modificadas e inativadas), deve ocorrer a diminuição da concentração de anticorpos maternos. Os filhotes são considerados suscetíveis aos agentes infecciosos até que seu esquema de primovacinação tenha sido finalizado, o que deve ocorrer entre a 14a e a 16a semana de vida.
Leitura Recomendada:
A interferência dos anticorpos maternos com as vacinas varia de acordo com o tipo de vacina utilizada. Comumente as vacinas vivas modificadas sofrem maior interferência dos anticorpos maternos do que as vacinas inativadas. Os mecanismos responsáveis por esta interferência incluem a neutralização dos agentes vivos atenuados das vacinas pelos anticorpos maternos, a interferência na replicação do agente viral ou a pouca quantidade de antígenos vacinais para estimular a resposta pelos linfócitos B. A produção de vacinas leva em consideração esta interferência e adota estratégias específicas como alta massa antigênica, uso de agentes de maior virulência ou vias alternativas que minimizam as interferências dos anticorpos maternos, como a via intranasal.
Os anticorpos maternos tabém interferem nas vacinas inativadas ("mascaramento antigênico”). Para desencadear o “mascaramento antigênico” é necessário elevada quantidade de anticorpos maternos. Os anticorpos maternos circulantes cobrem os epítopos antigênicos das vacinas prejudicando a apresentação antigênica e consequente desenvolvimento de imunidade. A utilização de vacinas de alto título (carga antigênica) ou, ainda, acrescidas de adjuvantes são meios de tentar contornar essa interferência. Além disso, a titulação de anticorpos maternos em decréscimo, não é esperado que esta menor quantidade seja capaz de interferir na imunização de vacinas inativadas após o animal ter atingido a idade de 6 a 9 semanas de vida. Mesmo na ausência da interferência dos anticorpos maternos, são necessárias 2 doses de vacinas inativadas para se promover imunidade protetora eficiente.
Leitura Recomendada:
As vacinas podem ser consideradas procedimento essencial na prevenção e no controle de doenças. O desenvolvimento de vacinas bem-sucedidas e seguras tem o objetivo de auxiliar na indução de imunidade protetora de vida longa. O sistema imune inato inicia a reação contra os antígenos vacinais e ativa a imunidade adaptativa. Vacinas são produtos biológicos com a finalidade de estimular a resposta imune ativa no hospedeiro. Os avanços no desenvolvimento e na produção de vacinas geraram grandes melhorias de segurança e eficácia. O surgimento de novas vacinas comerciais, com tecnologias diversificadas, implica na necessidade de entendimento do clínico veterinário em relação à parâmetros de eficácia, efeitos colaterais e novas questões em relação às vacinas já estabelecidas no mercado.
O sistema imune reconhece antígenos presentes nas vacinas. Algumas tecnologias mais recentes favorecem o reconhecimento de moléculas antigênicas. Este antígeno ou molécula antigênica inicia o desencadeamento de uma resposta imunológica. Existem dois tipos principais de vacinas:
Vacinas vivas atenuadas ou modificadas: estas se replicam dentro do indivíduo; após a aplicação, os microorganismos vivos disseminam-se para os órgãos e tecidos linfoides mimetizando uma infecção natural. O sítio e a via de administração não interferem significativamente na disseminação do antígeno. Para causar a resposta imune, o antígeno deve ser replicar in vivo. Desta maneira, a presença de anticorpos maternos limita a replicação e o desenvolvimento de imunidade. A quantidade de anticorpo com capacidade de interferir na vacinação é inferior à quantidade necessária para prevenir a infecção causada pelo antígeno adquirido naturalmente com a doença. O ideal é aguardar um decréscimo na titulação de anticorpos maternos antes da aplicação da vacina. Entretanto, esta medida pode aumentar a vulnerabilidade dos filhotes, aumentando a suscetibilidade às doenças. Uma recomendação é a aplicação de três doses da vacina, com intervalos de 3 a 4 semanas entre elas.
Vacinas não replicantes: estas não se replicam dentro do indivíduo; Incluem vacinas de subunidades (proteínas, polissacarídios, glicoconjugados ou microrganismos inativados que ainda contêm moléculas padrão com capacidade de iniciar uma resposta inata). Pelo fato de não ocorrer a replicação do antígeno, estas vacinas causam a ativação da resposta inata no local de inoculação. O sítio e a via de administração podem resultar em diferenças nas respostas imunes. A maioria das vacinas não replicantes inclui um adjuvante para disparar uma ativação suficiente do sistema imune inato.
Os dois principais fatores que determinam o uso de uma vacina são a segurança e a eficácia. Devemos sempre ter certeza de que os riscos da vacinação não são maiores do que aqueles associados às chances de contrair a doença.
Devemos considerar que nem sempre as vacinas são eficazes. Algumas vacinas podem induzir imunidade protetora fraca ou nula. Algumas características deve ser consideradas para eficácia da vacina:
Segura: não pode induzir a doença ou causar a morte do paciente;
Protetora: deve proteger contra a doença, expondo o indivíduo ao patógeno e induzindo a formação de anticorpos;
Proteção sustentada: com duração de meses ou anos;
Induzir anticorpos neutralizantes: alguns patógenos infectam células que não podem ser substituídas (como por exemplo os neurônios). Os anticorpos neutralizantes são essenciais para prevenir a infecção destas células;
Induzir células T protetoras: alguns patógenos (intracelulares) são atacados mais eficazmente com respostas mediadas por células;
Considerações práticas: baixo custo por dose, estabilidade biológica, facilidade de administração, poucos efeitos colaterais.
Leitura Recomendada:
Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação.
As vacinas de uso veterinário devem ser divididas em categorias com base na importância.
Vacinas essenciais: necessárias por protegerem contra doenças comuns e perigosas e porque sua não administração coloca os animais em risco significativo de adoecer ou morrer. Estas vacinas podem variar de acordo com as condições locais e o risco da doença.
Vacinas opcionais: essas vacinas são direcionadas a doenças cujos riscos associados à não vacinação são baixos. Em muitos casos, os riscos dessas doenças são determinados pela localização ou estilo de vida de um animal. O uso das vacinas opcionais deve ser determinado por um médico veterinário conforme o risco de exposição.
Vacinas que podem não ter aplicação rotineira, mas podem ser utilizadas em circunstâncias especiais: são vacinas destinadas a doenças de pouca importância clínica ou cujos riscos não são significativamente maiores do que os benefícios.
É comum utilizar combinações de microrganismos em uma única vacina, sendo esta denominada vacina polivalente. As combinações podem ser utilizadas quando o diagnóstico preciso não é possível e protegem os animais contra diversos agentes infecciosos com menos esforços. As vacinas nunca devem ser misturadas indiscriminadamente, já que um componente pode dominar a mistura ou interferir na resposta aos demais componentes. As vacinas de comercialização aprovada, fornecidas por fabricantes confiáveis, geralmente conferem proteção satisfatória contra todos os componentes.
Bovinos: rinotraqueíte infecciosa bovina (BHV1), vírus da diarreia bovina (BVD), parainfluenza 3 (P13)
Cães: vírus da cinomose canina, adenovírus canino do tipo 1, adenovírus canino do tipo 2, parvovírus canino 2, vírus da parainfluenza canina, bacterina de Leptospira e raiva.
Gatos: Panleucopenia, Rinotraqueíte e Calicivirose
As vacinas podem ser de diversos tipos: por organismos vivos, inativados, modificados, subunidades purificadas, produtos recombinantes, DNA vacinal (do antígeno). Os vírus são tradicionalmente atenuados pelo crescimento seletivo em células não humanas. Dentre as categorias de vacinas empregadas em medicina veterinária, podem-se destacar as vacinas inativadas (mortas), as vacinas atenuadas (vivas modificadas), as vacinas obtidas por recombinação genética e as vacinas de DNA.
DNA recombinante
Subunidades purificadas
Vacina recombinante
DNA Vacinal
Os vírus vivos (atenuados ou em bactérias vivas), induzem a resposta imune. Os vírus mortos precisam ser aplicados com adjuvantes, que auxiliam a produção da resposta imune (fosfato de alumínio, hidróxido de alumínio, alume, frações de bactérias, adjuvante completo de Freund – não deve ser usado em animais de produção).
Leitura Recomendada:
Novas diretrizes vacinais para cães uma abordagem técnica e ética
As vacinas são, em sua maioria, administrada pela via injetável (subcutânea ou intramuscular). No momento da aplicação, o médico veterinário deve estar atento e ter o cuidado para não causar lesão ou infecção. As agulhas devem ser novas e a pele no local da aplicação deve ser limpo e seco. O uso excessivo do álcool para desinfecção deve ser evitado. A comercialização das vacinas é realizada em doses padronizadas, não sendo formuladas de acordo com o peso ou idade do animal. A quantidade de antígeno deve ser suficiente para estimular as células do sistema imune e desencadear uma resposta imunológica. Esta abordagem é ideal para um pequeno número de animais e doenças em que a imunidade sistêmica é importante.
Em algumas doenças, a imunidade sistêmica não é tão importante quanto a imunidade de superfície e a administração no sítio de possíveis invasões é mais adequada. Por isso, existem as vacinas intranasais (rinotraqueíte infecciosa bovina, parainfluenza 3, rinotraqueíte e infecções por Bordetella bronchiseptica, coronavírus e calicivírus de gatos, parainfluenza e infecção por Bordetella de cães). Esses métodos de administração exigem a manipulação individual de cada animal. Quando o número de animais for grande, outros métodos devem ser empregados, como a aerossolização das vacinas ou administração na ração ou na água.
As vacinas devem ser mantidas em temperatura ideal de armazenamento (geralmente entre 2 e 8℃); estes produtos não podem ser congelados ou posicionados próximo ao compartimento do congelador e a temperatura do congelador deve ser monitorada regularmente.
As vacinas liofilizadas devem ser reconstituídas imediatamente antes do uso com o diluente ou vacina líquida apropriada administrada simultaneamente (de acordo com as recomendações do fabricante);
As vacinas só devem ser misturadas na mesma seringa se for especificado como aceitável pelo fabricante;
As seringas e agulhas não devem ser reutilizadas;
Os locais de injeção não devem ser esterilizados com álcool ou outro desinfetante, pois isso pode inativar as vacinas vacinas vivas modificadas;
Anotações no prontuário devem incluir: nome da vacina, lote ou número de série, data de validade e fabricante, e local e via de administração da vacina;
FATORES DO HOSPEDEIRO
Administração em animais passivamente protegidos (no caso dos filhotes que recebem anticorpos através do leite materno com interferência das imunoglobulinas maternas).
A vacina pode ter sido administrada antes da imunização passiva.
Variação biológica individual, uma vez que cada indivíduo responde de uma maneira.
O animal pode não responder à vacina por apresentar imunossupressão (imunodeficiências).
Vacinação tardia, quando o animal já estava infectado (doença em incubação na época da vacina).
Pirexia ou hipotermia.
Idade: muito jovem ou muito idoso.
Prenhez, Estresse, Anestesia.
Uso de drogas citotóxicas ou glicocorticóides.
FATORES DA VACINA
Morte de bactérias vivas (falhas no transporte ou armazenamento das vacinas, como por estocagem imprópria e falta de refrigeração)
Vacina inadequada
Utilização de cepa ou organismo errado.
Utilização de antígenos não protetores, não produzindo anticorpos.
Atenuação excessiva.
Inativação na manipulação.
Não protegem 100% da população (varia de 65 a 95%, de acordo com a morbidade da doença).
Desinfetantes utilizados nas seringas e agulhas.
FATORES IATROGÊNICOS:
Uso de via errada (como no caso de vacinas contra bactérias entéricas que precisam ser administradas por via oral; prefere-se a via IM para raiva e complexo respiratório felino).
Mistura imprópria dos produtos.
Uso concomitante de soro hiperimune.
Uso concomitante de antibióticos.
Administração muito frequente (menos de duas semanas de intervalo entre doses produz bloqueio por interferon).
Desinfecção da pele (fator incerto).
A vacinação nem sempre é um procedimento inofensivo e muitas vezes a administração vacinal está associada a efeitos colaterais indesejáveis. O tutor do animal deve estar ciente dos riscos e benefícios envolvidos antes de autorizar a vacinação. Muitas vezes, os riscos de ocorrência de eventos adversos pode ser considerado maior nos animais de pequeno porte. O reconhecimento das reações pós-vacinais
Febre, mal estar, inflamação ou dor podem ocorrer normalmente após vacinação;
Evento adverso à vacina é qualquer efeito colateral indesejável e não esperado associado à administração de um produto, incluindo qualquer dano, toxicidade ou reação de hipersensibilidade associada à vacinação.
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