O manifesto de 1º de Novembro de 1925:
ACERCA DA ARCHITECTURA MODERNA
(«Correio da Manhã», 1º de Novembro de 1925 - Reprodução na ortografia original)
O Sr. Gregoire J. Warchavchik, architecto russo diplomado pela Escola de Roma, é um espirito moderno, que sabe sentir com, emoção a vertigem do mundo contemporaneo e que tem sôbre a vida de hoje idéas novas, cuja originalidade não deixa de seduzir e, sobretudo, de interessar as intelligencias fortes. Warchavchik que reside atualmente em S. Paulo, onde exerce sua profissão, escreveu para o «Correio» o artigo seguinte:
A nossa comprehensão de belleza, as nossas exigencias quanto à mesma, fazem parte da ideologia humana e evoluem incessantemente com ella, o que faz com que cada época historica tenha sua logica da belleza. Assim, por exemplo, ao homem moderno, accostumado ás formas e linhas dos objectos familiares que o rodeiam, os mesmos objectos pertencentes às épocas passadas parecem obsoletos e as vezes ridículos.
Observando as machinas do nosso tempo, automoveis, vapores, locomotivas, etc. nellas encontramos a par da racionalidade da construção, também uma belleza de formas e linhas. Verdade é que o progresso é tão rapido que typos de taes machinas, creados ainda hontem, já nos parecem imperfeitos e feios.
Essas machinas são construidas por engenheiros, os quaes ao concebel-as, são guiados apenas pelo principio de economia e commodidade nunca sonhando em imitar algum prototypo. Esta é a razão por que as nossas machinas modernas trazem o verdadeiro cunho do nosso tempo.
A coisa é muito differente quando examinamos as machinas para habitação-edificios. Uma casa é no final das contas, uma machina cujo o aperfeiçoamento technico permitte por exemplo, uma distribuição racional de luz, calor, agua fria e quente, etc. A construcção desses edificios é concebida por engenheiros, tomando-se em consideração o material de construção de nossa época, o cimento armado. Já o esqueleto de um tal edificio poderia ser um monumento caracteristico da architectura moderna, como o são tambem pontes de cimento armado e outros trabalhos, puramente constructivos, do mesmo material.
E esses edificios, uma vez acabados, seriam realmente monumentos de arte da nossa epoca, si o trabalho do engenheiro constructor não se substituisse em seguida pelo architecto decorador. É ahi que, em nome da ARTE, começa a ser sacrificada a arte. O architecto educado no espirito das tradições clássicas, não comprehendendo que o edificio é um organismo constructivo cuja fachada é sua cara, prega uma fachada postiça, imitaçào de algum velho estylo, e chega muitas vezes a sacrificar as nossas commodidades por uma belleza illusoria. Uma bella concepção do engenheiro, uma arrojada sacada de cimento armado, sem columnas ou consolos que a supportem, logo é disfarçada por meio de frageis consolas portiças asseguradas com fios de arame, as quais augmentam inutil e estupidamente tanto o peso como o custo da construcção.
Do mesmo modo cariatidas suspensas, numerosas decorações não constructivas, como tambem abundancia de cornijas que atravessam o edificio, são coisas que se observam a cada passo na construcção de casas nas cidades modernas.
É uma imitação cega da technica da architectura clássica, com essa diferença que o que era tão só uma necessidade constructiva ficou agora um detalhe inutil e absurdo.
As consolas serviam antigamente de vigas para os balcòes, as columnas e cariatidas supportavam realmente as sacadas de pedra. As cornijas serviam de meio esthetico preferido da architectura classica para que o edificio, construido inteiramente de pedra de talho, pudesse parecer mais leve em virtudes de proporções achadas entre as linhas horizontais. Tudo isso era logico e bello, mas não é mais.
O architecto moderno deve estudar a architectura classica para desenvolver seu sentimento esthetico e para que suas composições reflictam o sentimento do equilibrio e medida, sentimentos próprios à natureza humana. Estudando a architectura classica, poderá elle observar quanto os architectos de épocas antigas porém fortes, sabiam corresponder as exigencias daquelles tempos. Nunca nenhum delles pensou em crear um estylo, eram apenas escravos do espírito do seu tempo. Foi assim que se crearam espontaneamente os estylos de architectura conhecidos não somente por monumentos conservados-edificios, como tambem por objectos de uso familiar colleccionados pelos museus. E é de se observar que esses objectos de uso familiar são do mesmo estylo que as casas onde se encontram, havendo entre si perfeita harmonia. Um carro de cerimonia traz as mesmas decorações que a casa de seu dono.
Encontrarão os nossos filhos a mesma harmonia entre os últimos typos de automoveis e aeroplanos de um lado e a architectura das nossas casas do outro? Não, e esta harmonia não poderá existir emquanto o homem moderno continue a sentir-se em salões estylo Luiz tal ou sem salas de jantar estylo Renaissence, e não ponha de lado os velhos methodos de decoração das construcções.
Vejam as classicas pilastras, com capiteis e vasos, extendidas até o último andar de um arranha-ceo, numa rua estreita das nossas cidades! É uma monstruosidade esthetica! O olhar não pode abranger de um golpe a enorme pilastra, vê-se a base e não se pode ver o alto. Exemplos semelhantes não faltam.
O homem moderno, num meio de estylos antiquados, deve sentir-se como num baile fantaziado. Um jazz-band com as danças modernas num estylo Luiz XV, um aparelho de telephonia sem fio num salão estylo Renaissence, é o mesmo absurdo como se os fabricantes de automoveis, em busca de novas formas para as machinas, resolvessem adoptar a forma de carro dos papas do secolo XIV. Para que a nossa architectura tenha seu cunho original, como o têm as nossas machinas, o archi
tecto moderno deve não somente deixar de copiar os velhos estylos, como tambem deixar de pensar no estylo. O caracter da nossa architectura, como das outras artes, não pode ser propriamente um estylo para nós, os contemporaneos, mas sim para as gerações que nos succederão.
A nossa architectura deve ser apenas racional, deve basear-se apenas na logica e esta logica devemos oppôl-a aos que estão procurando por força imitar na construcção algum estylo. É muito provável que este ponto de vista encontre uma opposição encarniçada por parte dos adeptos da rotina. Mas tambem os primeiros architectos do estylo Renaissence, bem como os trabalhadores desconhecidos que crearam o estylo gothico, os quais nada procuravam senão o elemento logico tiveram que sofrer uma crítica impiedosa de seus contemporaneos. Isso não impediu que suas obras constituissem monumentos que illustrem agora os albuns de historia da arte.
Aos nossos industriaes, propulsores do progresso techico, incumbe o papel dos Medici na época da Renascença e dos Luizes da França. Os princípios da grande industria, a estandardisação de portas e janelas, em vez de prejudicar a architectura moderna, só poderá ajudar o architecto a crear o que, no futuro, se chamava o estylo do nosso tempo. O architecto sera forçado a pensar com maior intensidade sua attenção não ficará presa pelas decorações de janelas e portas, buscas de proporções, etc. As partes estandardisadas do edificio são como tons de musica dos quaes o compositor constroe um edificio musical.
Construir uma casa a mais comoda e barata possível, eis o que deve preocupar o architecto constructor da nossa época de pequeno capitalismo, onde à questão de economia predomina todas as mais. A belleza da fachada tem que resultar da racionalidade do plano da disposição interior, como a forma da machina é determinada pelo mechanismo que é sua alma.
O architecto moderno deve amar sua época, com suas grandes manifestações do espirito humano como a arte do pintor moderno, compositor moderno ou poeta moderno, deve conhecer a vida de todas as camadas da sociedade. Tomando por base o material de construcção de que dispomos, estudando-o e conhecendo-o como os velhos mestres conheciam sua pedra, não receiando exhibil-o no seu melhor aspecto do ponto de vista de estatica, fazendo reflectir em suas obras as idéias do nosso tempo, a nossa lógica, o architecto moderno saberá communicar á architectura um cunho original, cunho nosso, o qual será talvez tão differente do classico como este o é do gothico.
Abaixo as decorações absurdas e viva a construcção logica eis a divisa que deve ser adoptada pelo architecto moderno.
Arquiteto Gregori Ilych Warchavchik
Odessa - Ucrânia, 1896 / São Paulo - Brasil, 1972.
Residência Luiz da Silva Prado
Participantes do Congresso da Habitação de 1931 em frente à residência projetada por Gregori Warchavchik.
Vila Operária da Gamboa
Rio de Janeiro , 1934 - Projeto de Gregori Warchavchik e Lúcio Costa.
Fotografia: Arquivo Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Vídeos sobre Gregori Warchavchik:
Mais vídeos:
http://vimeo.com/25620264 - Warchavchik - Uma História (aprox. 50min)
http://vimeo.com/12672932 - Casa Modernista da Rua Santa Cruz (aprox. 2min)
http://vimeo.com/44400048 - Casa Modernista 80 anos (aprox. 9min)