Para entendermos o que é patrimônio, precisamos compreender o que é Cultura e o que é Identidade, pois é a partir do entendimento desses conceitos que podemos compreender a dimensão do Patrimônio Cultural.
Com estudos na área de Ciências Humanas, desde o século XIX as definições do conceito Cultura são muitos. Não podemos compreender a cultura a partir de uma determinada realidade, a cultura é constituída por toda diversidade de um povo, e, por esse motivo, está em constante transformação, se reestruturando no cotidiano. Vale ressaltar que a cultura não se limita apenas a um lugar ou a uma camada social, ela permeia em toda sociedade. Em outras palavras, a “[...] cultura abrange todas as realizações materiais e os aspectos espirituais de um povo. Ou seja, é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no plano concreto ou imaterial [...]” (SILVA e SILVA, 2006)
A identidade é a mescla de diversas diretrizes formadas por um sistema de representações sociais. Ela é estabelecida através de comparações com outras identidade, pois acabamos nos identificando conforme a observação de outras identidades. A identidade brasileira, por exemplo, para Darcy Ribeiro se deu a partir da junção de vários povos. Porém, cada região possui características próprias, bem como, os estados e municípios. (MOURA, 2016; RIBEIRO, 1995)
Com o processo de globalização podemos compreender outras identidades culturais e notar o que nos identifica, diferenciando uma cultura da outra, estabelecendo uma visão ampliada das múltiplas diferenças culturais.
“Patrimônio é o símbolo de uma vivência que é temporária, mas que se torna eterna através de seus bens/monumentos patrimoniais, traz em si um elemento identitário muito forte, construindo um conjunto de imaginários que nos diz quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir”. (LOPIS, 2017, p. 12)
Atualmente o conceito de patrimônio vem sido bastante discutido devido à urgência na salvaguarda de elementos patrimoniais, como também pela depredação cotidiana de patrimônios materiais devido ao crescimento urbano e turístico. O aumento do fluxo turístico e o crescimento urbano, precisam se ajustar ao patrimônio existente, visto que, os elementos patrimoniais são a representação da história e da identidade local. A salvaguarda dos bens patrimoniais visa sua difusão para gerações futuras e o entendimento da história em seu próprio tempo. (HARTOG, 2013; LOPIS, 2017)
Com a Constituição de 1937, instituiu-se através do Decreto-Lei nº 25 de novembro de 1937, condições legais de preservação cultural por meio da criação do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “Nesse período, a preocupação do Estado com essa preservação derivava de uma preocupação maior, a de criar uma identidade nacional” (SILVA e SILVA, 2006). Porém, foi a partir da Constituição de 1988 no Art. 216, que a cultura e os bens materiais foram explicitamente mencionados e “hoje os termos de regulamentação do serviço do patrimônio cultural” estão “atualmente centralizados no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)”. (SILVA e SILVA, 2006; MOURA, 2016)
Podemos observar abaixo que o Art. 216 abrange tanto patrimônio material, quanto patrimônio imaterial. Patrimônios esses que serão explanados mais adiante.
Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
O patrimônio material pode ser definido, grosso modo, como um bem tangível/concreto, ou seja, o patrimônio que é palpável. Porém, essa é uma explicação simples demais para uma área tão ampla como a do Patrimônio Cultural.
O patrimônio material brasileiro é constituído por um grupo de bem culturais, esses bens culturais são definidos de acordo com sua "classe", de acordo com os Livros do Tombo . No total são 4 Livros do Tombo, sendo eles: o Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; Livro do Tombo Histórico; Livro do Tombo das Belas Artes; e o Livro do Tombo das Artes Aplicadas.
O patrimônio material pode se encaixar nas categorias de bens móveis e bens imóveis, como por exemplo:
Bens móveis:
Bens imóveis:
A Igreja Nossa Senhora dos Remédios construída no período de 1737-1748 é um exemplo de patrimônio material da categoria de bem imóvel.
Foto: Ana Carolina GamaJá os canhões Vickers Armstrong utilizados durante a ocupação americana em Fernando de Noronha no período da Segunda Guerra Mundial, são patrimônios materiais da categoria de bem móvel.
Foto: acervo ATDEFNOs patrimônios imateriais são bens intangíveis, ou seja, impalpável. O patrimônio imaterial não pode ser tocado, pois, se trata de práticas e campos da vida social de grupos ou indivíduos como elementos da sua identidade, passando de geração a geração. Vale a pena ressaltar que por se tratar de identidade e cultura, o patrimônio imaterial também pode ter uma renovação ao longo do tempo devido o encontro com diversos outros patrimônios imateriais. Temos como exemplo o carnaval pernambucano que vem se renovando ao longo de sua existência, mudando sutilmente a forma de brincar ou a adição de novas letras de música, porém, a essência é a mesma: o Frevo. O frevo é característica única do povo pernambucano e é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro desde 2007, e Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2012.
Assim como o patrimônio material, o patrimônio imaterial possui 4 Livros, chamados de Livros de Registo, sendo eles: o Livro de Registro dos Saberes; o Livro de Registro das Celebrações; o Livro de Registro das Formas de Expressão; e o Livro de Registro dos Lugares.
Maracatu Nação Noronha e pastorinhas em Fernando de Noronha, respectivamente.
Fotos: ATDEFNExite um debate sobre a perspectiva integradora do Patrimônio Cultural, perspectiva essa que busca entender os reais motivos e sentidos da divisão entre os patrimônios materiais e imateriais, indagado sobre a real necessidade dessa dicotomia patrimonial.
"A divisão entre patrimônio material e imaterial é, conceitualmente, enganosa, posto que qualquer intervenção na materialidade de um bem cultural provocará modificações na sua imaterialidade. Além disso, essa divisão artificial implica uma política institucional que promove uma distribuição desigual de recursos". (CHUVA, 2012, p. 162)
A noção de patrimônio não pode ser singular justamente pelo fato se tratar de algo atribuído pelos homens, pois devemos considerar a pluralidade das lutas de representação para cada povo e as diferentes apropriações dessa mesma noção. Márcia Chuva nos dá o exemplo de uma cidade tombada apenas como patrimônio cultural material, se pensarmos apenas na materialidade, descartamos os moradores e a prática imaterial daquele espaço. "Se essa população for expulsa do sítio tombado, cabe perguntar o que exatamente se pretendia preservar naquele amontoado de pedra e cal". (CHUVA, 2012, p. 163)
O debate sobre a perspectiva integradora do Patrimônio Cultural nos remete a noção do que há "por trás" do bem material, nos fazendo refletir sobre o sentimento e a imaterialidade que os bens materiais dos mais diversos povos carregam consigo.
Referências
CHUVA, M. Por uma história da noção de patrimônio cultural no Brasil. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 34, 2012.
HARTOG, F. Tempo e patrimônio. Varia hist. [online]. 2006, vol.22. Disponível em:
< http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-87752006000200002&script=sci_abstract&tlng=pt >
LOPIS, E. A. Patrimônio histórico cultural: preservar ou transformar? Uma questão conflituosa. Revista Mosaico, vol. 8, n. 12, 2017.
MOURA, C. A. da S. de. Educação Patrimonial: (re) conhecer para preservar Ipojuca e Vicência (PE). 1.ed. Recife: Bureau de Cultura, 2016
RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1995.
SILVA, K. V.; SILVA, M. H. (Org.). Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Editora Contexto, 2006.
SILVA, M. B. L. e. Fernando de Noronha: Cinco séculos de História. 2 ed. Recife: Editora Universitária UFPE, 2013.