Diversidade e Singularidades
De: Ana Luiza Mello e Rosimeri de Oliveira Dias
De: Ana Luiza Mello e Rosimeri de Oliveira Dias
Proposta da Oficina: O encontro se dá entre estudantes de graduação de Pedagogia, a professora proponente da oficina e as crianças de uma turma de 2º ano do Ensino Fundamental de uma escola municipal no estado do Rio de Janeiro, dividindo-se em três momentos. No primeiro, nos equipamos e pensamos em modos de (pesquisa-)intervenção, a fim de visibilizar a diversidade e problematizar as maneiras de lidar com ela, já que a proposta desta oficina foi um pedido da escola, em função da turma vir apresentando frequentes episódios de racismo e gordofobia. No segundo momento, nos encontramos com as crianças e conversamos sobre as singularidades dos corpos e dos modos de ser, propondo leituras coletivas, análise de imagens e produções estéticas. No terceiro momento, nos reunimos, graduandas e oficineira, e analisamos a experiência vivenciada.
A proposta desta oficina surge a partir de um pedido realizado pela coordenação da escola para trabalharmos questões ligadas à diversidade e preconceito, já que a turma com que temos nos encontrado nas oficinas anteriores vinha apresentando frequentes episódios de racismo e gordofobia. Para isso, nos reunimos, a proponente da oficina (professora integrante da OFIP e bolsista PROATEC da UERJ) e 8 estudantes de graduação em Pedagogia, para pensar de que modos poderíamos abordar tais questões e que materiais poderiam nos ajudar. Nos questionamos como crianças tão pequenas, de cerca de 7 anos, já reproduzem opressões e normatividades e como isso pode impactar os modos de ver a si e ao outro de toda turma que convive diariamente.
Fomos explorar a sala de leitura da escola a fim de buscar ferramentas que nos ajudassem. Um livro que chamou nossa atenção foi “Nosso corpo é demais”, de Tyler Feder (2022). Com cenas muito bonitas e sensíveis, o livro traz uma enorme diversidade de corpos, de diferentes formatos, cores, tamanhos, idades, com marcas, pelos, cicatrizes, rugas, estrias, tatuagens, deficiências, manchas e estilos, exercendo as atividades mais variadas. Um livro que desafia estereótipos em uma infinidade de detalhes e subversões provocativas das normalidades instituídas.
Decidimos trabalhar com o livro na turma e no final incluir alguma atividade envolvendo a arte, como costumamos fazer em nossas oficinas. Como usamos muitos lápis de cor, lembramos da expressão “cor de pele”, diversas vezes repetida e problematizada em sala de aula, para se referir ao lápis beje. Decidimos então levar um estojo com diversos tons de pele, dos mais retintos aos mais claros, rosados, amarelados, avermelhados, e propor que eles observassem a própria mão e a desenhassem, fazendo o contorno, e reproduzindo todos os detalhes, marcas, dobras, unhas e cores.
Na semana seguinte, encontramos a turma do 2º ano do Ensino Fundamental, com aproximadamente 25 crianças. Começamos nosso encontro lendo o livro selecionado, “Nosso corpo é demais”, que também foi projetado na tela presente na sala, facilitando a visualização de todos. Estranhamentos foram surgindo e muitos se manifestavam sobre as cenas retratadas: Pode bailarina gorda? E velha? E velha de tatuagem! Homem bailarino? Ih, olha a moça com cabelo no sovaco! Eu já vi gente com a pele manchada assim! A cada colocação, nós, e as próprias crianças, íamos problematizando os preceitos e reforçando a ideia de que nossas diferenças são inúmeras e não são um problema, são elas que nos tornam únicos. Cada pessoa é uma composição de inúmeros e minúsculos detalhes que não devem se submeter a um padrão monótono e pré estabelecido pra ser considerado bonito ou certo. Muitos questionamentos foram levantados e o debate se estendeu. No final fizemos uma atividade de reconhecimento dos formatos, marcas e cores que podemos ter. Pedimos que cada aluno desenhasse sua mão em uma folha de papel, contornando ao redor dela, observando e desenhando cada parte, marca e detalhe, para em seguida escolher, no estojo de tons de pele que trouxemos, o(s) lápis que acreditasse ser o mais próximo de sua cor para pintar. Todos os lápis foram usados. A variedade de mãos produzidas, tão únicas e específicas, ajudou a visibilizar a singularidade de cada ser e a diversidade de qualquer coletivo.
No terceiro momento, nos reunimos, professores e licenciandas, para conversar sobre a experiência. Sentimos que as crianças que mobilizam discursos preconceituosos ainda carregam poucos embasamentos, e estão repetindo falas, quase sempre de contextos familiares ou midiáticos. Problematizar esses discursos e afirmar outros modos de ser e estar no mundo, no cotidiano, pode ser capaz de criar espaços-tempo de resistência e produção de deslocamentos e reposicionamentos.
No final da oficina, sugerimos que cada participante escrevesse um pouco em seu diário de campo (LOURAU, 1993), adotado desde oficinas anteriores. Como nos coloca as autoras Maria Livia do Nascimento e Flavia Cristina Lemos (2020, p.243), “escrever para pensar, escrever como criação, escrever como estratégia de análise, escrever como ato político e ético, eis a proposta da análise institucional ao lançar a ferramenta: diário de campo como uma tática de luta e de produção de saberes”. Para problematizarmos as normatividades e preconceitos na escola, intervindo sem cair em armadilhas representacionais ou moralistas, os diários podem se constituir como dispositivos de resistência aos modos hegemônicos e coloniais de fazer pesquisa-intervenção (ROCHA; AGUIAR, 2003). No final do período separado para a escrita, conversamos um pouco mais, já sob efeito desta, e algumas compartilharam trechos de seus diários.
Referências:
FEDER, T. Nosso corpo é demais. Trad. Laura Folgueira. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2022.
LOURAU, R. Análise Institucional e práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ, 1993.
NASCIMENTO, M.L.do; LEMOS, F.C.S. A pesquisa-intervenção em psicologia: os usos do diário de campo. Barbarói, Santa Cruz do Sul, n. 57, p.239-253, jul./dez. 2020.
ROCHA, M. L.; AGUIAR, K. Pesquisa-intervenção e a produção de novas análises. Revista Psicologia Ciência e Profissão, nº 4, ano 23, 2003.