Arte e Alteridade
De: Ana Luiza Mello e Rosimeri de Oliveira Dias
De: Ana Luiza Mello e Rosimeri de Oliveira Dias
Proposta da Oficina: O encontro se dá entre estudantes de graduação de Pedagogia, a professora proponente da oficina e as crianças de uma turma de 2º ano do Ensino Fundamental de uma escola municipal no estado do Rio de Janeiro, dividindo-se em três momentos. No primeiro, a proposta é encontrar com as crianças e propor produções artísticas coletivas. No segundo momento, nos reunimos, graduandas e oficineira, e problematizamos a experiência e as produções das crianças. No terceiro, produzimos nossas próprias artes coletivas e discutimos como tais movimentos podem mobilizar a atenção no presente, em si e no mundo.
Para produção da oficina Arte e Alteridade, nos encontramos, a proponente da oficina (professora integrante da OFIP e bolsista PROATEC da UERJ) e 6 estudantes de graduação em Pedagogia, inicialmente com uma turma do 2º ano do Ensino Fundamental, com aproximadamente 25 crianças de cerca de 7 anos. Nesse encontro conversamos um pouco trazendo a arte e suas inúmeras formas de manifestação. As crianças falaram sobre as que conheciam e mais gostavam. Falamos também sobre como vivemos em coletivos de seres que se relacionam e que a arte também é fruto dessa rede. Depois brincamos de produzir um desenho coletivo. Em um papel A3, cada um acrescentou livremente partes de um desenho. Um exercício de concentração no agora, de descolamento de expectativas e de abertura para a alteridade. Risadas, elogios, conflitos e negociações se estabeleciam na produção coletiva. No final, fizemos uma roda para inventar uma história, também coletiva, com base na arte produzida.
Saindo do encontro com as crianças, nos reunimos, professoras e licenciandas, para conversar sobre a experiência. Sentimos como a arte pode trazer para o presente, mesmo em cenários onde as múltiplas expressões artísticas podem produzir conflito, contemplação, surpresa, raiva… Algumas vezes, as contribuições dos alunos não eram bem recebidas por outros. Conversávamos sobre o abrir-se para o que é distinto de si, para o diálogo, para perceber como a arte e a alteridade caminham juntas. Segundo Mello et al (2019, p.192) a arte pode ser entendida como um “dispositivo de sensibilização, disparador de deslocamentos e de abertura para a experiência. Como um prolongador de instantes. Para se sentir, para se olhar mais devagar, para se perder e se achar. Pra inventar outras formas de ver e de estar no mundo.” A atenção na experiência estética por vezes é capturada pela frustração gerada no apego às expectativas não cumpridas. Assim, buscamos produzir espaços tempo mais atentos ao presente e que não têm a pretensão de romper com as expectativas, mas deixá-las mais frouxas (Mello et al, 2019). Para que os movimentos imprevisíveis, nas redes que fazemos parte, não nos tire a possibilidade de nos afetar, e quem sabe, nos transformar.
No terceiro momento da oficina, começamos com uma lista de presença na qual, ao invés de escrever nossos nomes, nos desenhamos. Para isso, canetinhas, lápis de cor e outros materiais foram disponibilizados. Algo simples, mas de efeitos muito interessantes. Adultos, quase sempre, perderam o hábito de desenhar, e ainda mais se desenhar, algo tão comum nas crianças. O estranhamento e a novidade podem produzir sensações e deslocamentos de atenção. Para Deleuze e Guattari (1992), a arte pode ser definida justamente como a criação de perceptos e afetos, que se expressam através de sensações que remetem a um devir, um transformar-se.
Em seguida, sentamos em roda e cada integrante da oficina ganhou uma pequena tela, tintas coloridas e pincéis. Foi proposto que todos pintassem livremente. Depois de alguns minutos, sem que houvesse aviso prévio, a proponente da oficina pede para que cada um troque sua tela com a pessoa a sua esquerda. A proposta inesperada gerou reações diversas. Passados mais alguns minutos novamente uma troca foi proposta com a pessoa ao lado. Isso ocorreu suscetivamente, com intervalos de tempo variáveis, até que as telas passassem pelas 7 pessoas que realizavam a oficina. A cada troca, a necessidade de abertura para o novo, para o inacabado, e assim, em meio a muitas risadas e surpresas, uma atenção mobilizada para o presente, para os encontros e deslocamentos. Ao final, analisamos e conversamos sobre as pinturas, nossas intenções primeiras e os caminhos que tomaram. Por fim, sorteamos uma ordem e, de acordo com ela, cada um escolheu uma das pinturas para levar para si.
Referências:
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é filosofia? São Paulo: Editora 34, 1992.
MELLO, A.L.G.D., COSTA, R.L., OLIVEIRA, A.S.O., SILVA, A.C. Experiências com Arte Ambiente Alteridade no CIEP 411. In: DIAS, R. O., RODRIGUES, H. C. B. Escritas de si: Escutas, cartas e formação inventiva de professores entre universidade e escola básica. Rio de Janeiro: Editora Lamparina, 2019.