Destacamos aqui um período especial da vida de Abdias Nascimento, celebrando os 80 anos do Teatro Experimental do Negro (TEN). Mas, para isso, vamos voltar ao período anterior a criação do TEN, rememorando o Teatro do Sentenciado.
A história do Teatro do Sentenciado começou, oficialmente, quando Abdias Nascimento, na época cabo do exército, foi condenado a dois anos de regime fechado por se recusar a cumprir uma ordem de um superior para datilografar um balancete. Expulso do exército, com recém 29 anos completados, foi condenado à revelia, enquanto viajava pela América do Sul. Acabou preso, cumprindo pena a partir de abril de 1943 na Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida por Carandiru, nome do bairro em que se localizava. Como seu próprio advogado, Abdias conseguiu a extinção de sua pena pelo Superior Tribunal de Justiça e foi liberado em 1944.
No período que passou na cadeia, Abdias escreveu o livro “Submundo: Cadernos de um penitenciário” (Nascimento, 2023), só publicado recentemente. Nele o autor descreveu o dia a dia na prisão, o encontro com outros presos, o trabalho, os espaços da cadeia, o ambiente das celas. No registro que fez das conversas que teve com os outros presos, Abdias buscou conhecer a história dessas pessoas e trouxe não apenas seus crimes. Marcado por reformas demandadas pelo novo Código Penal que entrava em vigor naquele momento, Abdias vive no Carandiru mudanças na vida penitenciária brasileira, principalmente com a chegada de Flamínio Fávero como diretor da unidade. O dr. Flamínio, como escreve Abdias, fundou “O Nosso Jornal” no qual muitos passaram a escrever artigos, contos e poesias. Abdias diz que depois do surgimento do jornal, “deu de surgir ‘homens de letras’ aqui dentro. Folhas, pudicamente enroladas, deram de andar disfarçadas nos bolsos e nas mãos dos meus companheiros” (Nascimento, 2023, p.121). Nesse período, ele relata que escreveu “roteiros sem rota” (Nascimento, 2023, p.187). Por causa deles, ele chegou a ficar preso em sua cela sem poder sair: “eu expliquei-lhe que o papel me havia sido dado pelo companheiro 7054 e que se tratava do meu inofensivo passatempo quando estava sem o que fazer e aborrecido. Não o consegui comover. Ele deu parte de mim. O diretor penal me mandou ‘fechar’” (Nascimento, 2023, p.194-195). O ato de falar era mais uma vez interditado, é a repetição da tentativa de colocar a máscara. A situação se repetiu por causa de uma peça na qual Abdias interpretou José do Patrocínio, deixando barba e bigode crescerem. Porém, alguém o denunciou e ele precisou raspar os pelos. Ele ainda tentou se explicar e, com isso, ficou novamente preso sem poder sair, pois teria se recusado a cumprir a ordem. A peça era “Patrocínio e a República”, escrita por Péricles Stuart Leão, detento 7054, e estreou no Teatro do Sentenciado em 15 de novembro de 1943. Foi a primeira atuação de Abdias, que também codirigiu a peça com o autor.
No geral, dr. Flamínio propunha que os penitenciários pudessem ter maior autonomia nas atividades que desenvolviam. Mas isto não era uma questão apaziguada entre os funcionários do Carandiru, causando atritos. Mesmo assim, o Teatro dos Sentenciados foi inaugurado no dia 7 de setembro daquele 1943, sobre o qual, recordou Abdias:
Foi uma grande festa para nós, os componentes do Teatro. Porque não só demonstramos praticamente as possibilidades artísticas dos sentenciados, exibindo os elementos aproveitáveis que o estabelecimento possuía, como, principalmente, se descortinava o panorama da mais discutida inovação do dr. Flamínio: a fundação de um teatro, no qual as peças fossem representadas pelos próprios sentenciados. Ninguém acreditava que o detento fosse capaz de se conduzir bem no palco. Ou lhe faltaria um dotes para a cena, ou certamente tudo acabaria numa grossa bambochata, em desordem ou qualquer coisa de mau gosto. Nunca em espetáculo pelo menos sofrível. (Nascimento, 2023, p.222-223).
Em seu livro, ele lembrou ainda como o processo de criação do teatro começou. Péricles e o Dr. Luiz estavam organizando um festival dedicado aqueles que tinham conseguido a prisão condicional. O evento seria visto pelos sentenciados, pelos diretores da unidade e pelo juiz de execuções criminais. Os dois solicitaram a ajuda de Abdias. Começou uma busca por talentos possíveis de serem apresentados no festival. Cantar, tocar violão, fazer comédia. Tudo foi se arranjando. Porém, faltava um espetáculo teatral para incluir no programa do evento. E Abdias relata:
Que apresentar? As peças que possuía biblioteca eram somente coisas séria, para o teatro de verdade. Não para nós, que não tínhamos um artista sequer! Depois, e vestuário? E cenários?
O 54 descobriu que o 7057 era capaz de preparar um texto em poucos minutos. Fizemos-lhe a encomenda de algo curto, capaz de fazer rir. Ele não “dormiu no ponto”. Escreveu um ato cômico: O preguiçoso. Três personagens. (Nascimento, 2023, p.224-225).
Com o texto da peça escrito, o trabalho continuou entre a escolha dos atores, do figurino, do cenário etc. Entre o autor e os atores, muitas discussões aconteceram, a ponto de Abdias pensar que “se aquilo continuasse, era certo não sair espetáculo nenhum” (Nascimento, 2023, p.225). É quando Abdias Nascimento se torna diretor: “ Por sorte, todos pressentiram um fiasco iminente e eminente ante a babélica desinteligência. Resolveram me entregar a responsabilidade da cena” (Nascimento, 2023, p.225). E dessa maneira, aos “trancos e barrancos”, a peça foi apresentada. Dr. Flamínio, então, resolveu criar o Teatro permanentemente no Carandiru, encarregando Abdias e Péricles dessa função. Foi Péricles quem sugeriu que o nome da companhia fosse Teatro Ligeiro do Sentenciado; Abdias apresentou a ideia de ser Comédia Penintenciária. Na discussão do grupo, ficou o nome criado por Péricles, suprimindo o “Ligeiro”. O Teatro encontrou os talentos dentro da prisão. Assim, as peças tinham cantores populares, ilusionista, atores dramáticos e cômico, sapateador, cenógrafo, figurinista e os responsáveis pela manutenção da limpeza. Além deste, para o Teatro acontecer foi importante que autores e compositores também aparecessem. Em dezembro, o grupo estava ensaiando a comédia “Zé Barroco”, com música de Benedito Braga, o detento 7394, e texto do Abdias, que era o detento 49. Eles interromperam a produção para as férias, com o objetivo de retomá-la em janeiro. Esta foi a primeira peça escrita por Abdias. Narrava sua experiência no exército. O texto está perdido e nunca chegou a ser apresentado.
Embora não tenhamos dados específicos, podemos supor que maioria da população carcerária do Carandiru era composta por homens negros. O Teatro do Sentenciado deu àquele espaço um grupo teatral e revelou, entre os presos, múltiplos talentos escondidos, mobilizando a escrita e trazendo-a como um caminho para a constituição de relações, de exposição e de produção de conhecimentos, de potencializar a vida de pessoas negras, muitas vezes reduzidas ao crime. Abdias já se dedicava a isso antes do Teatro, quando ouviu e registrou as histórias de seus colegas de prisão, escrevendo a complexidade de suas vidas, sem reproduzir o discurso comum que os tornava monstros e, sim, humanizando-os. O Teatro foi mais uma ação potente neste sentido.
Antes de sua prisão, em 1941, Abdias Nascimento havia passado pelo Peru, onde assistiu a peça “O Imperador Jones”, do dramaturgo norte-americano e ganhador do Nobel de Literatura Eugene O’Neil, no Teatro Municipal de Lima. A montagem lhe causou certo espanto: o personagem principal deveria ser um negro, mas era representado por um homem branco pintado de negro, prática que chamamos atualmente de black face. Esse choque o fez pensar que, no Brasil, jamais vira atores negros e/ou atrizes negras protagonizando espetáculos. Será que não havia atores negros e atrizes negras para ocupar esse lugar? Então, depois da experiência que teve com o Teatro do Sentenciado, Abdias decide criar o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944. Nas palavras do próprio Abdias (Nascimento, 2019, p.92-93), “Nosso Teatro seria um laboratório de experimentação cultural e artística, cujo trabalho, ação e produção explícita e claramente enfrentavam a supremacia cultural elitista-arianizante das classes dominantes”. Seu quadro inicial era basicamente formado por operários e empregadas domésticas, moradores/as de favelas e frequentadores de terreiros (Nascimento, 2016).
A peça de estreia foi justamente “O Imperador Jones”, apresentada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, mas apenas por uma noite. A peça seguinte foi “O filho pródigo”, de Lúcio Cardoso, escrita para o TEN e que trouxe Ruth de Souza como protagonista. O TEN passou a estimular a escrita de textos específicos para sua encenação. E seguia cumprindo seu objetivo: colocar negros/as nos centros dos palcos como protagonistas, dando conta de questões de representatividade. Mas não era apenas disso que se tratava. A representatividade avançava para a autoria do texto, o ponto de mirada do que é dito, colocando a intelectualidade negra com suas vozes a dizer o que pensava. E inúmeras outras obras foram apresentadas pelo grupo, trazendo as culturas negras, suas religiões, sua musicalidade para os palcos. “O TEN”, afirma Abdias (Nascimento, 2016, p.162), “inspirou e estimulou a criação de uma literatura dramática baseada na experiência afro-brasileira, dando ao negro a oportunidade de surgir como personagem-herói”. O TEN promoveu a negritude de forma positiva, valorizando seus conhecimentos.
O TEN funcionou de maneira ampla, como um grande centro catalisador de conhecimentos. Além das práticas e técnicas teatrais, havia aulas de introdução cultural, de formação política e, ainda, aulas de alfabetização, chegando a ter mais de 600 estudantes. Outra ação de combate direto ao racismo, que ligava as populações negras à feiura, foi a criação de um concurso de beleza próprio.
Realizou duas Convenções Nacionais do Negro: em 1945, em São Paulo, e, em 1946, no Rio de Janeiro. Também foi o espaço de organização do Comitê Democrático Afro-Brasileiro, criado em 1945. Segundo Moura (2019), o Comitê tinha na linha de frente Solano Trindade, Raimundo Souza Dantas, Aladir Custódio e Corsino de Brito. Foi ali que se desenvolveram os principais projetos sobre as questões raciais apresentados à Assembléia Nacional Constituinte de 1946 pelo senador Hamilton Nogueira (UDN). Infelizmente, somente em 3 de julho de 1951 foi aprovada a Lei nº1.390, conhecida como Lei Afonso Arinos, que tornou contravenção penal a discriminação por preconceito de raça e de cor de pele, mas que deixou a desejar diante das propostas apresentadas pelo Comitê à Constituinte. Em 1950, o TEN realizou o Congresso do Negro Brasileiro.
Desde sua criação, o grupo sofreu críticas, acusado de fazer “racismo às avessas”, ao que rebatia lembrando as muitas companhias exclusivamente formadas com atores e atrizes brancos/as. O incômodo se explicita pelo fato de que “a camada dominante simplesmente considera qualquer movimento de conscientização afro-brasileira como ameaça ou agressão retaliativa” (Nascimento, 2016, p.94). Ter a palavra “negro” em seu nome, demarcava um lugar incômodo para a sociedade brasileira e seu projeto de nação. O TEN fechou em 1961 por dificuldades financeiras.
A criação do TEN, de certa forma, provoca os ideais da Semana de Arte Moderna de 1922, realizando seu propósito de deglutir a nós mesmo, colocando negros/as encenando suas próprias histórias, superando exotismo e folclorização, reafirmando a herança e as tradições afro-brasileiras. Talvez, nada tão “antropofágico” tenha acontecido no teatro brasileiro até então. Infelizmente, em um país que promulgava sua pseudo democracia racial, as questões raciais não apareceram dentre aquelas levantadas pelos modernistas. O TEN fez parte dos movimentos de modernização do teatro nacional. Assim também, apontamos a importância de sua criação como uma forma de aquilombamento, estratégia usada desde o início da colonização por negros/as na resistência e na luta.
Em 1951, Abdias escreveu a peça Sortilégio (2022), tida como um marco na discussão da temática racial e da identidade afro-diaspórica brasileira. O teatrólogo Jessé Oliveira (2022, p.108) diz que foi uma espécie de culminância do projeto do TEN “de empretecimento da dramaturgia e da encenação de modo pleno”. O texto foi censurado por sete anos, sendo considerado imoral e de estimular ódio entre as raças. Em 1957, estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, demarcando “uma nova fase para a dramaturgia negra brasileira, onde o protagonismo, em todas as esferas criativas, estaria nas mãos de artistas negros” (Oliveira, 2022, p.110). Traduzida para o inglês, a peça foi produzida nos Estados Unidos, em 1971, na Universidade do Estado de Nova Iorque e, em 1975, no Inner City Cultural Center, em Los Angeles. Depois de uma temporada na Nigéria, enquanto foi professor visitante da Universidade de Ifé, em 1978, Abdias escreveu uma segunda versão da peça, compondo, inclusive, novas letras de canções, que, depois, foram musicadas por Nei Lopes. Em 2013, ocorreu uma apresentação do espetáculo no Festival de Herança Negra, em Lagos (Nigéria). E, em 2014, outra apresentação na Brown University, em Providence (EUA). O texto ainda teve a realização de algumas leituras dramáticas. Mas, observando a importância da peça para o teatro brasileiro, pela sua dimensão histórica e no que representa, podemos afirmar que Sortilégio deveria ter montagens frequentes e ser tão popular quanto outras peças que ganham montagens constantes no cenário do teatro nacional. Da mesma forma, o livro “Dramas para Negros e Prólogo para Brancos”, uma antologia das peças apresentadas no TEN, com organização de Abdias Nascimento e publicação da própria organização, não tem reedição e é considerado livro raro, chegando a custar mais de R$1300 e aparecendo em sites de leilão.
Tanto anteriores quanto posteriores ao TEN, outros grupos de teatro e também de dança negros fazem parte da história da arte brasileira, chegando aos dias de hoje. Arthur Rocha, Solano Trindade, Rosário Fusco, Mercedes Batista. O Bando de Teatro Olodum, Cia. dos Comuns, grupo Caixa-Preta, Cia. de Arte Negra Cabeça Feita, Os Crespos, Cia. Abdias Nascimento… Assim, com Abdias (Nascimento, 2016, p.166), afirmamos que “todos esses grupos, pessoas, energias e realizações estão comprometidos, são cúmplices, numa mesma tarefa histórica que é a continuidade do processo de libertação da raça, estabelecido no Brasil pelos primeiros africanos que pisaram o chão do país”.
Texto escrito por Perseu Silva.
Referências bibliográficas
NASCIMENTO, Abdias. Submundo: Cadernos de um penitenciário. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
______. Sortilégio. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiros, 2022.
______. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Editora Perspectiva, 2016.
OLIVEIRA, Jessé. Sortilégio para o devir do teatro negro. In: NASCIMENTO, Abdias. Sortilégio. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiros, 2022, p.107-126.