Freeform, Duy Huynh
Freeform: a irreverência do despertar
Ao olhar para a obra de arte realizada por Duy Huynh, com o nome de Freeform, invadiram-me muitos pensamentos e reflexões.
Na minha opinião, este quadro retrata o sonho e a busca da verdade, através da representação de uma mulher esguia, que parece estar a voar pelo céu durante o pôr do sol, com um lindo “vestido” branco e cuja cauda é formada por pombas, simbolizando, possivelmente, a paz. Trata-se, talvez, de um despertar, mas, de acordo com os meus sentimentos, trata-se mais de sentir: “eu sou…” e ao mesmo tempo “não sou…”, o que sem sempre é muito claro. Não é um começo de um eclipse, mas o fim de um desterro. Então, há uma faísca que surge desse impacto, do ego consigo próprio, um novo princípio que não tem forma nem é objetivo.
Verdade…
A angústia da natureza triangular da vida, em que há um começo, um crescimento, um fim… começa na pura e objetiva ausência do próprio triângulo, porque nada na vida é definitivo, nada é certo. Para alguns, viver e sonhar é bom, mas para a maioria é um pesadelo. Não conseguem simplesmente cair no sono, tm sérios problemas psicológicos, precisam de ser tratados, antes de tudo, por médicos. É verdade também que muitos seguem a via da religião à procura de um caminho para seguir, à procura de uma resposta para as perguntas às quais eles próprios não conseguem responder. De qualquer forma, como não conseguem preencher os espaços em branco da sua vida, contentam-se com o mais fácil, ou seja, fecham-se numa bolha, e acabam por se esquecer da sua própria existência. O terapeuta competente pode ajudar a desenterrar “o cadáver” que há em nós, uma vez que a realidade objetiva do passado permanecerá sempre em nós, mesmo que não o saibamos. Até podemos pensar que estamos bem e essa ilusão nem sequer é questionada. Mas como vamos encontrar “sentido” na vida, quando nem sabemos o que realmente somos? “Quem sou eu?”, “Porque estou aqui?” Perguntas como estas não têm pessoas ou coisas como resposta. Para responder a estas perguntas, temos de recorrer ao passado, desenterrar as profundas raízes que deram origem ao que somos hoje. A resposta, a verdade… está em nós! Se a descobrirmos, tomamos consciência de quem somos e podemos encontrar o nosso caminho. Ou pelo menos saber aquele que não queremos seguir.
Para além de me suscitar estas reflexões, associei a obra de Duy Huynh ao maravilhoso poema de José Régio, “Cântico Negro", que me deixou sem palavras, quando o recitei, pela primeira vez, num evento na Casa da Juventude de Olhão:
"Vem por aqui!", dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos
Há, nos meus olhos, ironias e cansaços
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém
Que eu viva com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos
Se ao que busco saber nenhum de vós respondeis
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos
Redemoinhar aos ventos
Como farrapos, arrastar os pés sangrento
A ir por aí...
Se vim ao mundo
Foi só para deflorar florestas virgens
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada
O mais que faço não vale nada!
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas
Tendes jardins, tendes canteiros
Tendes pátrias, tendes tetos
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios
Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Mas eu, que nunca princípio nem acabo
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"
José Régio, "Cântico Negro", in Poemas de Deus de do Diabo, Almedina, 2020
Carmen S.,
8.º ano
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