À chuva, Dominguez Alvarez
Num dia chuvoso, Eduardo saiu pela primeira vez em muitas semanas. A pandemia a isso o obrigara. Era um homem de sessenta e três anos, solitário, metido consigo próprio. Há muito que a mulher morrera e, desde então, isolara-se e era raro encontrar-se com amigos, mas agora, que ficara tanto tempo fechado em casa, sentia-se triste e deprimido, porque costumava passear bem cedo, pela manhã, e gostava de observar a cidade a acordar. E, embora possa parecer estranho, com chuva era ainda melhor. Por isso, ficou muito feliz por no dia do desconfinamento chover uma chuva miudinha, mas bem cadenciada. Normalmente, os seus passeios eram solitários, mas, nesse dia encontrou o Filipe, um velho amigo de infância, aproveitando para pôr a conversa em dia.
– Então, como vai a vida? – perguntou Eduardo.
– Vai bem! E tu, como estás? – quis saber o amigo.
– Vai-se andando, que estes tempos não estão fáceis – queixou-se.
– É verdade! – concordou o Filipe. – Acho isto tudo uma loucura! No nosso tempo era mais tranquilo, nada disto era assim: não existiam estas guerras sem razão nenhuma, como a da Rússia e da Ucrânia, só por uma questão de quererem conquistar um território. E também não existiam pandemias que durassem tanto tempo, como esta do covid-19, um terrível vírus que nos fez usar máscaras, tomar vacinas, e ficar de quarentena, presos em casa.
– Mesmo. Lembras-te de quando éramos crianças e de como éramos mais livres?
– Perfeitamente! Como poderia esquecer a minha própria infância? Nunca me vou esquecer das loucuras que fizemos juntos.
Estiveram muito tempo a conversar, sem repararem nas horas que passaram juntos, à chuva. Foram os dois para casa a rir e a lembrarem-se das loucuras que haviam feito juntos. Ao chegarem a casa do Filipe, despediram-se e Eduardo seguiu o seu caminho, pensando que falar com o amigo lhe fizera bem. Também reconheceu que tinha de estar com os amigos mais vezes e aproveitar melhor a vida, sim, porque, nesse dia, ao abrir a porta, não sentiu o peso da solidão. Ainda lhe bailavam na cabeça as gargalhadas do amigo.
Davi S.;
Iara S.;
Pandora F.
8.º ano
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