Seja em uma tradição, ou em um coven ou ainda pelas mãos de uma única bruxa
Quatro passos para visitar antes de pedir por iniciação.
Tudo que falarei aqui, é sobre os caminhos que percorro ou conheço. Nada além disso. Mas acredito que haja alguma sabedoria nas palavras a seguir para quem é de fora.
O Coven, 2024
Outras aprendem, além dessa linhagem, a recitar muitos nomes daquelas bruxas do caminho que já morreram, e acreditem isso é muito bom e prático, e acontece muito em tradições que tenham mais de 40 ou 50 anos, ou ainda tradições centenárias.
A linhagem precisa ser recitada desde o momento da iniciação para que a nova bruxa saiba exatamente de onde veio o poder e por quais mãos esse poder passou. Nome a nome são ditos e com o tempo decorados. Aprendemos aqui os nomes tanto das bruxas vivas quanto das bruxas mortas, e todas elas podem escutar o chamado da nova bruxa. E a bruxa deve esperar pelo chamado dessas bruxas mortas e vivas, pois elas podem acionar a nova bruxa a qualquer momento.
Em um nível mais aberto, bruxas iniciadas podem colecionar longas listas de bruxas iniciadas que fizeram a passagem para o Reino dos Mortos/Fadas. Essas listas podem ser decoradas ou anotadas, e esses nomes são recitados quando precisamos contatar uma ou muitas dessas figuras, independente de linhagem, desde que tenham uma mesma origem, que aqui chamaremos de: a bruxa rastreada mais antiga. E muitas vezes diferentes tradições terão o mesmo rastreamento, chegando na mesma bruxa.
Uma curiosidade, para as bruxas que anotam essas linhagens em papel, existem instruções claras em seus testamentos para que todo esse material seja queimado ou entregue a outro iniciado. Outras bruxas vendo a velhice se adiantar e a morte chegar, queimam voluntariamente por questões de segurança todas as anotações sensíveis. Recentemente eu incluí em meu testamento as instruções sobre os meus objetos e materiais sensíveis da bruxaria. Deixando alguns itens mágicos ou jóias para estudantes e orientações para anotações e papéis. Se você é uma bruxa, as orientações sobre como lidar com seu corpo e itens pessoais após a morte é essencial e uma parte fundamental do caminho. Toda bruxa partirá para debaixo do monte, e é necessário deixarmos tudo o mais pronto possível.
Na maioria das tradições, essa bruxa rastreada mais antiga teve o ápice de sua vida no século XX, um século altamente volátil, com crises e muitas mudanças, e o momento de grande florescimento da bruxaria, ou como os mais velhos chamam: o momento em que a bruxaria pode sair um pouco mais de debaixo do monte. E com isso as grandes Correntes de Poder puderam perseguir finalmente as almas brilhantes e disruptivas, e finalmente nomear essas almas de bruxas.
Claro que existiam bruxas em tempos anteriores ao século XX, mas seus nomes quase não são rastreáveis dentro do mundo humano, seja por usarem pseudônimos ou serem apenas conhecidas por seus nomes iniciáticos, seus reais nomes. Ou ainda pelo rastro de ocultação que o trabalho de Coven pode ter deixado em tempos difíceis para praticantes da Arte. Ainda existem aquelas, de séculos atrás, que foram mortas pelo grande massacre da igreja do falso deus que foi direcionado para aqueles que divergiam ao tocar os mundos de muitas outras formas. Alguns desses nomes podem ser alcançados, apesar de não serem o “verdadeiro nome” de uma bruxa, ainda sim são úteis. O verdadeiro nome de uma bruxa só é usado dentro do clã, em pequenos covens ou ainda em duplas de trabalho, e em uma esfera mais privada ainda, entre a bruxa e os espíritos.
Nem mesmo uma bruxa saberá o verdadeiro nome de todos de sua linhagem. Uma bruxa iniciadora conhecerá os nomes de todas as bruxas que ela iniciou. Toda bruxa que passou pela iniciação deve receber os nomes de seus iniciadores e por vezes alguns outros nomes de parentesco próximo. Durante sua vida, caso a bruxa se envolva com seus iguais, ela receberá muitos outros verdadeiros nomes da arte. Um nome de verdade é bem mais potente que um nome público, ainda assim os mortos responderão rapidamente mesmo que você não saiba todos os seus verdadeiros nomes, ou como alguns chamam: nomes iniciáticos.
Qualquer pessoa que alegue ter uma linhagem que vá para trás do século XX provavelmente está mentindo, ou talvez seja uma tola que pode ter sido enganada e acreditar nisso, e isso é pior que mentir. Uma pessoa que mente pelo menos sabe a verdade, já quem segue a mentira é apenas uma tola. E eu darei apenas um motivo para linhagens assim não se sustentarem: nenhuma linhagem poderia ser descrita ou nomes listados em tempos perigosos para Arte. Nem mesmo dentro de famílias isso poderia ser registrado, pois um simples descuido poderia levar a morte de todos, ou pior: levar ao boicote das comunidades em que essas bruxas estavam inseridas. E tenha certeza que morrer é melhor que definhar de fome. Existem outros trocentos motivos para isso não se sustentar, mas precisamos seguir em frente.
Então, com essa breve introdução, chegamos em nosso primeiro e mais importante tópico, ou o que uma bruxa deve saber antes de pedir uma iniciação:
1- Saiba se a bruxa iniciadora realmente foi iniciada por alguém ou se ela nunca passou por essa experiência.
E acredite, como alguém que acabou entrando cedo demais em um grupo que se dizia de bruxaria, passar por mãos que nunca experimentaram a iniciação por outras mãos chega a ser algo catastrófico e infeliz. E até mesmo dentro de caminhos reais, uma pessoa experiente tende a ter mãos mais amorosas para um momento tão poderoso e vulnerável. Uma bruxa que está realizando a sua primeira iniciação mas é sustentada pela bruxa que a iniciou tende a fazer um trabalho espetacular. Bruxas reais pedem apoio mágico a todo tempo para aquelas que a treinaram.
E aqui reconheço que sim, há bruxas que são iniciadas apenas pelos espíritos, ao invés de: uma soma de bruxas e espíritos, como acontece na maioria dos caminhos da Arte! Mas existe um motivo de ser necessárias mãos humanas para que essa experiência não seja cercada de catástrofes ou cause rachaduras no próprio corpo da bruxa. O poder pode literalmente fritar algumas pessoas, e existe um tipo específico de loucura que vem do mundo dos espíritos. E iniciações apenas pelos espíritos podem acontecer e serem bem sucedidas, mas elas tem um preço muito alto a ser pago, e caso esse poder seja passado a frente, só depois da terceira geração de bruxas, que consigam iniciar e passar esse poder, isso começa a suavizar. Esse momento beneficia toda linhagem no passado e no futuro.
Existem histórias de bruxas que alcançaram coisas muito secretas que pertenciam a uma família bruxa. Mas ela retornou dessa iniciação, feita apenas pelos espíritos, completamente fragmentada. A família bruxa então ofereceu as mãos para tentar reparar, e a iniciaram novamente, mas agora com mãos humanas. Funcionou, mas qualquer bruxa que a observasse via um vaso completamente rachado, sem se espatifar ou explodir. Por outro lado, graças a isso, qualquer bruxa iniciada por ela se tornava pertencente à família.
Até mesmo as iniciações por mãos experientes são perigosas, apesar de mais seguras. Existem muitas histórias de como as coisas acabaram de forma terrível. Por isso, um bom treinamento e um grau de intimidade elevados são necessários para esse rito, para além de mãos de amor que possam passar o poder do mundo dos espíritos. O trabalho mútuo de bruxa e espírito em um rito de iniciação é essencial para manejar a Corrente de Poder. Fazer um Rito sem uma Corrente de Poder é o mesmo que fazer uma encenação vazia e receber uma Corrente de Poder sem um Rito é o mesmo que ser atingido por um raio.
Uma bruxa perante a um novo estudante sempre será transparente sobre sua própria jornada e entrada em uma Corrente de Poder. Ela de fato não dirá toda a sua linhagem, mas ela dirá onde o rastreamento da linhagem começou e quem foi que a iniciou sem grandes mistérios. Qualquer pessoa que só use codinomes ou nomes fantasiosos pode estar usando isso como uma cortina de fumaça, mesmo que seja uma fumaça que oculta o absoluto nada. Outra coisa perigosa é a pessoa que oferece um rito, mas não diz claramente de onde esse rito veio, existe muita gente com ânsia de ser iniciadora sem nunca ter sido iniciada, e isso é uma afronta à inteligência das bruxas que buscam por essas experiências viscerais.
Tenha muito cuidado com histórias fantásticas, que envolvam uma grande quantidade de bruxas de países distantes ou de vários lugares, ou com linhagens que atravessam para antes do século XX, até mesmo com linhagens familiares com histórias fantasiosas. Pessoas que passam por jornada reais possuem registros e fotos, e uma bruxa, na maioria das vezes, manterá contato com seus iniciadores ou com outros iniciados por toda vida. E tenha certeza, essa história que todos morreram costuma esconder farsas e mentiras. E lembre-se histórias super fantásticas podem esconder a ausência de poder, as histórias reais de bruxas são simples e diretas, apesar de conterem grande teor mágico.
E cuidado com figuras que dizem ter feito coisas fantásticas, curas milagrosas e feitos dignos de filmes de Bollywood ou de um filme dos X-Men. Corra dessas pessoas. A Bruxaria atravessa a realidade de outras formas e na maioria das vezes as pessoas que contam muitos feitos querem apenas mostrar o quão poderosas são, ou o quanto de poder elas gostariam de ter para dominar outras pessoas. E aqui afirmo que não estou falando das famosas Conversas da Meia Noite, onde bruxas contam suas visões e seus feitos nos diversos mundos como iguais… sempre como iguais, nunca como a única escolhida dos outros mundos.
Pessoas cercadas de tragédias e com histórias de linhagens exterminadas costumam estar mentindo. E prestem atenção em pessoas que amam liderar, vivem fazendo e desfazendo grupos, e não possuem conexão nenhuma com algo realmente consistente. Há todo tipo de pessoas estranhas que usam a bruxaria como maquiagem para cometer diversos abusos com pessoas menos experientes. Infelizmente o ar mistérico da bruxaria abre espaço para todo tipo de abusadores.
Saiba o máximo possível do histórico da bruxa iniciadora, e para além das redes sociais. Longas conversas, durante muito tempo, podem revelar muito daquela pessoa. E se a bruxa iniciadora não topar essas longas conversas, melhor seguir por outro caminho. É necessário minimamente conhecer a pessoa antes de iniciar um processo iniciático. E lembre-se: está tudo bem uma bruxa cobrar por consultas de tarô, jornadas de ensino, workshops… mas jornadas que levam à iniciação jamais são cobradas. Pelo menos eu aprendi dessa forma, e sigo esses parâmetros. Eu cobro por serviços, mas não há sentido em cobrar de alguém que entrará na minha linhagem de bruxas.
2- Saber quanto tempo leva para o fim total do treinamento e se o Poder será realmente passado.
Uma jornada de iniciação é difícil de ser cronometrada com exatidão. Mas quem oferece a jornada deve minimamente dar uma previsão. Essa previsão nunca é exata, pois o rio da iniciação e os espíritos tem seu próprio tempo. E um estudante pode demorar muito mais tempo do que o esperado. Eu trabalho com uma ideia de 3 a 7 anos, para pessoas que querem ser iniciadas dentro do meu clã, mas deixo claro que cada caso é um caso e ninguém será posto para fora por demorar mais tempo.
Saber qual será o padrão de encontros é de extrema importância, uma jornada iniciática pressupõem muitos encontros e muitos afazeres mágicos, e isso deve ser conversado. Exemplo: eu gosto de ter pelo menos dois encontros por mês, e conforme o treinamento avança podemos espaçar um pouco mais, para que o estudante tenha tempo de fazer tudo que é preciso para avançar.
Eu já vi bruxas que não tinham nada a oferecer, então enrolavam seus estudantes, e o caminho não parecia andar. Por exemplo, no primeiro grupo que se dizia de bruxaria que eu fiz parte, a maioria das pessoas estudavam tabelas e listas de ervas sem fim. Coisas bem inúteis já que tabelas existem para serem consultadas e não decoradas. E se for para estudar ervas presentes em um livro, era melhor eu ler o livro por minha conta ou como leitura sugerida, e não isso ser o centro. Pessoas que usam de forma direta um livro como treinamento principal são no mínimo preguiçosas. E eu reconheço aqui que existem livros com ótimas propostas de treinamento, mas se alguém quisesse só isso bastava comprar o livro.
Um bom treinamento envenena aos poucos o estudante até o momento da iniciação. E com isso diversas fortificações e práticas são feitas no corpo, para que a nova bruxa seja o receptáculo perfeito para o Poder. Além disso, o estudante precisa ir cada vez mais fundo nos outros mundos e no contato com espíritos que sejam importantes para a tradição. Assim o estudante não reage mal à Corrente de Poder, que passa após a iniciação a habitar seu corpo.
Iniciações apenas são iniciações se possuem passagem de Poder. Então recomendo: verifiquem se essa iniciação é uma iniciação plena. O que mais existe por aí são pessoas que iniciam outras, mas os iniciados não ganham o poder de passar isso a frente ou ensinar. Mil outros ritos são oferecidos para que finalmente alguém chegue no topo. Particularmente eu gosto de tradições em que você passa pela iniciação e a partir de então você é igual a qualquer outra bruxa iniciada da família. E eu considero uma grande bandeira vermelha essa retenção de poder.
Claro que existem recomendações, como não passar por outra iniciação pelo período de um ano após a iniciação, ou não iniciar ninguém antes dos 7 anos. Claro que isso tudo são recomendações que surgiram depois da experimentação de muitas e muitas bruxas. Ainda assim, se uma bruxa foi iniciada no dia de hoje e iniciar uma outra bruxa dentro de uma semana, ela assim conseguirá… passando a corrente devidamente. A única diferença é que iniciada e iniciadora estarão vivendo juntas o período de adaptação do poder ao corpo, o que por si só pode ser um gigantesco problema, mas nada que prejudique o poder que foi passado ou a linhagem.
Mas isso é bem diferente de você estar juramentada e presa a uma posição de estudante em alguma tradição. E tem muita gente aqui no Brasil que faz isso, para não compartilhar o poder, e que não são tão claras. São histórias como agora que você é iniciado você precisa passar por mil rituais, ou fazer coisas impossíveis, para então você carregar o poder da tradição. No fim isso tudo é só uma maneira de manter o poder entre pouquíssimas pessoas.
Qualquer tradição séria dirá se funciona em uma iniciação única ou em três. E dará previsões bem enraizadas na realidade. Não é nem um pouco bem visto pelos espíritos cozinhar um iniciado ou estudante por séculos e sem motivo. Reter poder é algo inútil dentro da bruxaria e eu nem consigo ver as pessoas que fazem isso como bruxas.
3- Conheça os Espíritos e tenha espaço em sua vida
Você precisa desejar a bruxa iniciadora. Você precisa minimamente se identificar com ela e se sentir minimamente atraída. E essa atração é um magnetismo dos outros mundos. E é bom lembrar aqui que uma bruxa que exige contato sexual com seu estudante é minimamente abusadora. Afinal de contas, como fica o consentimento quando você tem algo que uma outra pessoa quer muito? Ela consegue dizer não sem medo de perder o que ela mais deseja naquele momento? Mas isso pode ser uma conversa para outra hora, até porque a bruxaria é uma arte sexual, mas isso não significa que você deva abusar de outras pessoas. Ensinar bruxaria envolve muito poder e o consentimento pode ficar completamente nebuloso.
A bruxa iniciadora faz parte de uma complexa teia. Outras bruxas, mortos, fadas e deuses a cercam. E antes de entrar em qualquer processo você precisa saber minimamente aonde você está se envolvendo. E principalmente saber se você se sentirá atraíde por esses seres. Sem essa identificação com os espíritos e mitos a jornada pode virar um grande acúmulo de azar. E aqui lembro que todas as pessoas no mundo acumulam sorte ou azar. Agora imagine estar presa a um espírito que você detesta, e que nem mesmo se isolando em um convento distante fará que ele desapareça. A iniciação liga você a uma série de pessoas e espíritos, é isso é literal e irrevogável.
Conheça os espíritos e o cheiro desses seres antes de pedir por um treinamento. Saiba que alguns caminhos são como verdadeiras caixas surpresas, e alguns espíritos só se mostrarão por completo depois da iniciação. Ainda assim, ao se aproximar de uma bruxa que aceita estudantes, os espíritos tenderão a te farejar, visitar e espiar. Então saiba se você é capaz de amar aquilo que ainda é desconhecido, e rastreie o máximo dos mitos que rodeiam a tradição, coven ou clã, pelo menos os públicos. Qualquer bruxa iniciada mostrará tudo que pode sobre isso aos candidatos que possam vir a ser reais estudantes do caminho.
Caso você tenha um altar, você terá que abrir espaço para esses novos espíritos. E saiba que eles podem querer mais espaço. Assim como terá que ter um tempo dedicado diariamente para a prática mágica. Saber dessas coisas é importante, pois você precisará de tempo e espaço. Mas saiba, no início da jornada isso poderá ser bem centralizado. Com o avanço, a tradição tomará conta de tudo. É comum e esperado que a magia vá transbordando e invadindo todos os cantos da vida da nova bruxa. E isso pode ser assustador para algumas pessoas.
4- Iniciações não podem ser desfeitas
Saiba que nenhuma iniciação pode ser desfeita. Em caminhos sérios, o poder é passado sem ressalvas. Nem seu iniciador e nem nenhuma bruxa importante da tradição pode tirar o que você ganha com a iniciação. Todas as bruxas que tentaram isso falharam miseravelmente. E nada pode ser feito caso alguém inadequado entre. E aqui vão péssimas notícias a quem inicia: se você compartilha o seu poder com um criminoso, ele será um criminosos que possuí a tão amada Corrente. E nada pode ser feito para remediar isso. Os espíritos da bruxaria são amorais por natureza e não, eles quase não perdem tempo com esse tipo de assunto humano. Você apenas se iludirá se pensar ao contrário.
E isso é bom, pois impede que o iniciador tenha poder sobre você após a iniciação. E ter poder sobre nunca foi a intenção. Na bruxaria o intuito é fazer iguais e não servos. As bruxas iniciadas pelas minhas mãos não me deverão nada, o trabalho foi feito. Claro que meu coração estará aberto para sempre recebê-las em minha casa e estarei sempre a postos para responder seus chamados de ajuda, a qualquer momento, pois isso é ser um familiar. E uma bruxa iniciadora se torna um familiar da nova bruxa, e vice-versa.
Existe um tipo de prática rara em famílias de bruxaria que acontece caso a bruxa iniciada não fale mais com seus iniciadores, ou onde os iniciadores morreram ou até mesmo se houve um grande drama emocional que causou uma ruptura humana. Ou quando a bruxa sente que faltou amor durante a iniciação ou ainda quando os espíritos exigem que essa prática seja feita, e eles exigem de forma visceral. Nós a chamamos de “adoção” em outra linha ou por uma ou mais bruxas iniciadoras. Esse processo não anula a primeira iniciação, mas faz com que o poder seja derramado mais uma vez e mais mãos de bruxas vivas e mortas sejam adicionadas. Essas bruxas ficam marcadas como “as duplamente iniciadas” e elas são muito raras, em tradições antigas vocês encontrarão um número muito pequeno, na minha são 6 ou 7, lembrando que é uma tradição com boas décadas. A maioria das bruxas que conheço fariam essa adoção em casos de urgência, e eu me incluo nessa maioria, como uma bruxa que foi adotada, reconheço esse poder.
E aproveitando o gancho, qualquer bruxa no mundo pode demitir a qualquer momento a bruxa iniciadora, antes da iniciação. Uma jornada de iniciação deve ser clara e limpa e juramentos não devem ser solicitados para obrigar as pessoas seguirem até o fim. Confiança deve ser conquistada e não arrancada. Cuidado com caminhos que alegam que você perderá algo muito importante para você caso você desista, ou ainda que será atormentada por espíritos. Isso são técnicas de controle e não possuem nada de mágico. Ir embora deve ser sempre uma opção durante o treinamento. E qualquer bruxa pode interromper um treinamento e depois procurar outra bruxa iniciada. Está tudo bem. Você escolhe a dedo seus iniciadores, mas você pode demitir eles a qualquer momento, basta comunicar. Isso precisa ser naturalizado.
E desconfie de caminhos que dizem que a sua iniciação pode ser revogada. Assim como eu disse acima sobre caminhos que tentam controlar o poder, essa é mais uma forma eficiente de fazer você andar para sempre “na linha”, ou fazer para sempre as vontades do seu iniciador. Sinceramente nenhuma bruxa está interessada em ter esse papel dominador, a não ser que ela seja uma pessoa sádica e que anseia esse controle de forma bem clara. Tenha cautela.
Iniciação é algo irrevogável, não há como desfazer o ritual e arrancar o poder de dentro da bruxa seria o mesmo que matá-la. Tenha certeza que todas as suas partes gritam pela arte da bruxaria. E saiba que caso você passe pela iniciação você pode encontrar refúgio em qualquer lugar no mundo, ainda sim você será uma iniciada e os mortos e espíritos como um todo irão te procurar. E isso pode virar um tormento. Na mínima dúvida sobre o caminho, não siga em frente.
Bom, esses foram meus 4 avisos para esse texto. Eu poderia dar uma série de recomendações. Como ter cuidado com iniciações que não deixam claro sobre onde e em que a coisa está ancorada. Em ter cuidado com influencers que tem centenas de seguidores mas nenhuma transparência sobre suas verdadeiras histórias. Ou ter cuidado com iniciadores que aprenderam tudo que sabem em livros de bruxaria, se vocês soubessem o quanto de desinformação livros podem carregar teriam mais cuidado. Fora que a bruxaria precisa ter oralidade, se não vira outra coisa. Eu também correria de qualquer pessoa que dissesse algo sobre autoconhecimento, evolução espiritual e iluminação. Eu poderia ficar horas e horas falando sobre esses assuntos, mas por hoje eu termino aqui.
Com amor e cuidado, Fae.
Ou uma pequena introdução infame a uma ferramenta misteriosa.
Eu entendo que existe muito tabu em falar abertamente sobre o Pentáculo de Ferro, mas eu ouço tanta desinformação que decidi compartilhar um pouco sobre. Uma pequena introdução dessa ferramenta.
Claro que esse texto está carregade da minha Segunda Visão e da visão do Clã dos Coelhos da Lua, mas recomendo que qualquer pessoa que queira vivenciar o Pentáculo de Ferro procure a Reclaiming para tal. Feri não costuma ensinar curiosos, apenas bruxas destinadas à magia das fadas. E por mais que alguns possam odiar isso que falarei, a Reclaiming tem os melhores professores para essa ferramenta, além de ter as bruxas mais talentosas que conheço.
As histórias que percorrem de língua para ouvido e de corpo para corpo, de pele para pele e de palavras para fetch dizem que, em tempos imemoriais, uma bruxa só poderia passar pela iniciação se ela conseguisse pronunciar sem medo ou terror 5 palavras: Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão. Apenas dizendo essas palavras, com coragem, a nova bruxa poderia adentrar ao círculo. Essa era a renúncia ao falso deus e a entrega total aos antigos Deuses, ou como o antigo Coven os chamavam: os Antigos.
No cerne da Feri, e por consequência da Reclaiming, essa ferramenta brilha com um tom vermelho sangue, como um presente que caiu dos céus, como a estrela valiosa que encontra essas duas diferentes famílias de bruxas. Todas as bruxas que conheço nessas linhagens que eu tanto admiro têm essa ferramenta como sua bússola moral e ética. Afinal de contas, esse espírito é também um caído, e ensinou/ensina a cada bruxa sobre cada uma dessas palavras.
O Pentáculo de Ferro e o Pentáculo de Pérola são centrais para essas bruxas. Primeiro o Ferro é ensinado. Pois não há como competir uma maratona sem antes aprender a engatinhar, andar e correr. Nem mesmo fazer um encantamento é possível sem antes balbuciar sons e palavras. O Pentáculo de Ferro e Pentáculo de Pérola são uma mesma magia em frequências um pouco diferentes. E como o nome já sugere, Pérola só pode surgir depois de um trabalho profundo com Ferro, afinal de contas, é necessário que um grão de areia (ou qualquer outro elemento da terra) adentre a concha e se transforme, com muito trabalho, em uma Pérola. Ferro se transforma em Pérola, e existe um amplo artesanato de outros Pentáculos dentro da Arte, alguns bem secretos e outros públicos, tanto dentro da Reclaiming como dentro da Feri, mas todos eles nascem desses dois Pentáculos originais. E a utilização dos mesmos só é possível com a prática avançada da arte de Ferro e Pérola.
Bom, hoje as pessoas falam essas palavras livremente, mas imagine nos primórdios da bruxaria, podia ser um desafio e tanto e nenhum servo do falso deus ousaria pronunciar elas. Não era tão simples. Minha primeira professora Feri, Valerie Walker, ensinava que essas palavras sempre evocavam coisas que nos incomodavam. E de fato, mesmo as bruxas mais trevosas, ou que se fazem, devem admitir que essas palavras chamam por poderes viscerais e que podem causar um grande incômodo.
Essas palavras não só invocam forças poderosas que remontam aos primórdios da humanidade, como também apontam para direitos de nascença de cada bruxa. Sexo, orgulho, self, poder e paixão não são meras palavras, mas sim forças que cada nascido recebe na hora do primeiro respiro. E como direitos de nascença, eles podem ser reivindicados novamente.
Durante o crescimento, em nossa sociedade influenciada pelas diversas culturas ocidentais, essas palavras são apontadas como pecados mortais, e essas pontas são podadas desde a infância nos nossos corpos. É trabalho da bruxa chamar essas palavras de volta para os corpos, não só como recuperação de partes perdidas mas também como grandes pontos de poder que ancoram o real poder da bruxaria.
Essa é uma ferramenta complexa. O Pentáculo de Ferro é um trabalho energético feito no corpo, e para além de uma ferramenta é um Espírito por si só, vivo e que transborda nos corpos. Existe um caráter meditativo secundário, que é muito popular no Brasil, mas que sempre me deixou confuse por não avançar para além disso (ou num suposto trabalho de “sombra", seja lá que Diabos isso signifique). O que me faz perguntar o motivo dessas pessoas nunca procurarem aprender com bruxas que são iniciadas na tradição que é a origem dessa ferramenta, ou com pessoas que estudaram com, ou ao menos se prestarem a lerem um livro sobre o tema.
Há outras formas para além de dentro do corpo, mas que de forma mais profunda envolvem a carne. Podemos correr de forma espacial, com um grande pentagrama marcado no solo, inclusive é possível fazer trabalhos de coven intimistas com as bruxas assumindo as pontas e trocando de tempos em tempos. Existem certas operações mágicas que o Pentáculo é traçado com a faca ou com os dedos. Correr o Pentáculo pelo corpo também gera quantidades colossais de energia, nós literalmente corremos diversas vezes, em uma elevação extática e crescente… e essa energia pode ser usada para os mais diversos fins, para além da reivindicação.
O trabalho com o Pentáculo pode ser descrito como um trabalho de corpo, ele precisa ser corrido dentro dos ossos, da pele e da carne. Ele precisa acelerar o sangue e despertar completamente os sentidos. E isto é feito assim pois com o tempo, nas tradições, cada palavra foi levada a uma parte do corpo. O Sexo se localiza na cabeça, o Orgulho no pé direito, o Self na mão esquerda, o Poder na mão direita e a Paixão no pé esquerda. E nós costumamos correr diariamente pelo corpo, formando o pentagrama, e depois circulando: Sexo, Self, Paixão, Orgulho e Poder. Sempre alcançando estados elevados de êxtase e movimentando grandes quantidades de Poder.
O grande mistério é que a própria Deusa Estrela desenha o Pentáculo em cada corpo. E quando circulamos estamos contando o mistério da criação. Quando a Deusa Estrela encontra o Grande Espelho Negro e Curvo, vislumbra seu próprio reflexo e faz amor consigo mesma, dando origem a todas as esferas e espíritos luminosos. E aqui vemos um padrão, quando criamos um círculo mágico da Arte a função é a mesma, recriar e recontar a criação dessa Deusa tão sagrada para a Feri (e por consequência, para a Reclaiming).
De forma simples, o Sexo é o primeiro impulso e o primeiro movimento, então a Deusa se torna consciente de si mesma no Self. Então a paixão surge, quando Ela vislumbra seu próprio reflexo. Então o Orgulho invade todo o seu corpo a preenchendo de Poder, e assim como tudo termina no Sexo, tudo começa no Sexo. E em seu orgasmo ela dá vida a toda a escuridão e a luz das estrelas, a todos os espíritos luminosos e todas as esferas. E muitas eras depois a primeira bruxa desperta, Ana Negra dos Mistérios Proibidos, permitindo que a Corrente da Bruxaria levantasse do solo e despencasse dos céus, e com isso os Antigos Deuses foram relembrados pelas primeiras de nós.
Quando eu pisei pela primeira vez na Feri o Pentáculo de Ferro me foi apresentado “rapidamente”. E aqui eu lembro que o trabalho de Ferro como aprendi, em ambas as tradições, precisa ser associado a alinhamentos e purificações específicos, se não o trabalho não consegue se sustentar. E eu afirmo que essa é uma corrente ctônica altamente volátil e perigosa, e leigos não deveriam se aventurar. Até mesmo bruxas experientes precisam se cuidar, e aqui relembro uma frase de Victor Anderson que dizia algo como: “tudo que é perigoso vale a pena”.
Primeiro eu aprendi com minha professora Feri (Valerie Walkern- o que é lembrado vive), que de primeira já mandou eu correr dentro do corpo, claro que depois de eu já ter dominado as práticas de alinhamento e purificação. Simultaneamente eu estava num processo mágico com meu primeiro iniciador (Pythio), onde eu passei semanas mergulhando vagarosamente por cada ponta até concluir e conseguir correr por completo. Ambas as maneiras foram bastante eficientes e úteis. Mas ambas as formas envolviam permitir que essa energia corresse pelo corpo, viesse de fora e despertasse o sangue, então fazendo essa forma sagrada dentro da carne e ossos.
O Pentáculo não só equilibra o corpo, como é amplamente utilizado como arma, como ensinado por Victor e Valerie. Nas sendas da magia, o ferro quente tem um grande poder, sendo capaz de influenciar os outros mundos. O zumbido de um metal aquecido é maior no entre mundos do que o metal frio. Fora que uma bruxa que trabalha energeticamente o Pentáculo dentro do corpo sempre está com suas defesas fortes e potentes. Existe um mistério que atravessa a Serpente Vermelha que envolve as bruxas que usam essa ferramenta, que as tornam bem menos vulneráveis e muito mais fortes. De alguma forma as bruxas que correm o Pentáculo de Ferro toleram muito mais rituais intensos sem queimarem a própria energia.
Quando eu cheguei na Feri e na Reclaiming, sim eu cheguei simultaneamente nas duas tradições, eu estava um tanto que fragmentade. Aos poucos eu fui recuperando e sequestrando de volta as minhas próprias partes. “O que é de direito deve ser tomado agora!” os espíritos e os Antigos diziam. E por mais que essa ferramenta seja ensinada em pequenas jornadas que duram um fim de semana inteiro, semanas ou meses, ou ainda em treinamentos iniciáticos, essa ferramenta é praticada como uma arte marcial. Diariamente, se tornando tão potente como a respiração.
Pandora afirma que o Pentáculo de Ferro é um trabalho de uma vida, e eu concordo com todas as minhas almas. Não existe um fim para o trabalho, só existe uma continuação enquanto o coração bate. Além de ser um caminho totalmente da bruxa pela bruxa. O ato de encarar realmente o Espelho Negro e Curvo, e chamar de volta por esses poderes roubados ou adormecidos. Em um sentido mais profundo esse trabalho leva à autopossessão, ou a capacidade das três almas se alinharem a tal ponto que o Santo Demônio da bruxa se manifeste para todos verem.
E eu entendo como muitas bruxas tendem a condenar publicações sobre o tema, antes da década de 80 essas palavras eram consideradas sagradas e secretas, além de juramentadas. O Pentáculo de Ferro era material interno apenas da Feri. Os tempos são outros, os segredos são bem delimitados hoje na maioria das linhas. E a Reclaiming faz um ótimo trabalho de ensino em suas Core Classes desde então.
Esse é um pequeno texto introdutório sobre essa misteriosa ferramenta, amada por tantas bruxas ao redor do mundo. E lembre-se, nada melhor do que bruxas da Feri e da Reclaiming para dizer sobre seu funcionamento (ou mesmo bruxas que tenham aprendido com alguma dessas bruxas). E existe material publicado disponível por aí para aqueles que não gostam de aprender diretamente com outra bruxa.
Com amor e poder, Yuki Fae.
Eu não sou o tipo de bruxa que cria um grande tabu ao redor da iniciação. Eu realmente acho que introduzir uma aura de mistério em um rito que por si só já é poderoso o suficiente é uma grande perda de tempo e de energia. E isso pode causar mais confusão às bruxas que são destinadas a esse rito do que qualquer outra coisa. É possível ser transparente e preservar aquilo que nos é tão sagrado. E eu tendo a desconfiar de qualquer pessoa que trata o rito de iniciação como algo completamente intocável. Nós do caminho sabemos que o que torna um rito poderoso é a soma das mãos envolvidas, bruxas e espíritos, e os fios dos outros mundos. Sem isso nenhum rito é real.
Esse tarô foi um dos meus presentes de iniciação.
E eu desejo fortemente que eles se rendam de todo coração. Ainda assim, mesmo que qualquer mortal tenha acesso ao roteiro de uma iniciação, passar pela iniciação com as mãos corretas, na maioria das vezes, te dará a sensação de “essa é a primeira vez”. E nem mesmo ter passado por outras iniciações te privarão dessa experiência que tem a ver com o mistério que não pode ser pronunciado.
Nesse instante estou do lado de algumas flores que começam a perder as suas pétalas, quase que me lembrando que a morte faz parte do processo e não há como fugir dela nem na vida e nem no caminho tortuoso. E é assim que a Morte se torna duplamente misteriosa para as bruxas. Algumas ervas estão praticamente secas e o meu altar está uma completa bagunça. Não num sentido ruim, mas há muitos itens importantes espalhados por todos os lados, parece uma lembrança caótica do caráter divino de tudo que aconteceu, eu quase não vejo a madeira do móvel que ancora essa magia.
Eu não consigo parar de pensar em um presente que ganhei, é comum que bruxas deem presentes à nova bruxa iniciada, e essa parte é realmente muito divertida. Imagine um colar feito à mão, com contas de lápis lazuli, muito belas, e um pingente de pena de pavão. A voz da minha iniciadora era clara: “apenas o use em rituais, pois há muito do poder do Anjo Pavão e do Povo das Fadas em cada parte.” O peso do objeto no entre mundos era realmente significativo, o guardei dentro de uma pequena bolsa de tecido e junto de outros pequenos objetos importantes.
O bairro e os pássaros estão estranhamente barulhentos, um som entre cantos que apenas bruxas podem escutar, talvez seja um canto de saudade das outras duas bruxas que partiram rumo à Europa e à América do Norte, depois de um longo trabalho mágico nessa terra. Ainda existe uma extática no ar, minhas almas não se importam de quanto tempo isto ainda pode durar.
E que essa seja a espiral poética, sem expor nada, mas tocando os sentimentos que parecem ter rasgado o meu corpo. Dizem que toda iniciação é a mesma iniciação, mas de fato essa iniciação foi a mais importante de todas as iniciações que já passei. Havia um poder significativo, talvez por sermos todes, iniciados e iniciadores, pertencentes a outra tradição de mistérios, ou ainda, o motivo seja que as bruxas que me iniciaram tenham uma experiência notável na Arte. Ou um misto de todas as coisas e muitas outras coisas misteriosas.
Foram três anos e muitos meses. Uma jornada intensa onde a incerteza parecia reinar, por mais que minha iniciadora, em sua sabedoria estranha, já havia previsto o que aconteceria, e exatamente da forma como aconteceu. Eu fui desafiade diversas vezes, e aceitei cada desafio com todas as minhas almas. Em algum momento tudo pareceu destino. Tudo pareceu orquestrado por forças maiores, então as duas bruxas iniciadoras chegaram em um dia de Saturno.
Nós passamos 7/8 dias juntos, pareceu mais tempo e ao mesmo tempo passou como um relâmpago. Bruxas distorcem o tempo, éramos 4 em uma dança saborosa, duas iniciadoras e duas iniciantes. Primeiro seria uma iniciação e então haveria alguns dias de intervalo para que a segunda iniciação acontecesse, essa sim a minha.
Em algum momento o ar mudou drasticamente. Havia o dobro de pássaros nos céus, o que me agradou profundamente enquanto amante das aves. O mar também começou a se comportar de forma estranha, vimos o dobro de animais marinhos, e vi alguns animais que nunca tinha visto antes. Nossos eletrônicos começaram a se comportar de forma estranha: algo não funcionava bem… Chaves e fechaduras se comportaram de forma incomum, a lógica parecia estar sendo desafiada. Algo estava para acontecer, e eu sabia que precisava me retirar por um tempo, arrumei uma pequena bolsa, e ao tocar um recipiente de vidro ele rachou inteiro. Não foi uma rachadura comum, o recipiente se manteve, mas em todos os cantos parecia que um raio celestial tinha deixado sua impressão no vidro. Então eu parti.
Quando a minha hora chegou, alguns dias bem à frente, eu senti como se uma magia espiral me sequestrasse. O tempo parou e andou para frente e para trás. Eu só podia confiar naquilo tudo que estava prestes a acontecer. Haveria 3 bruxas com suas mãos de amor me esperando do outro lado. E eu as escolhi com todas as minhas forças. E isso fez a diferença. E claro, eu realmente me entreguei com todas as minhas almas e com todo o meu coração.
Definitivamente a minha última iniciação foi a minha mais importante iniciação. E isso pode soar um pouco confuso para aquelas bruxas irmãs da outra tradição. Mas todos os caminhos me levaram até aquele momento, e essa magia vai impactar profundamente a todas as bruxas que um dia eu iniciar, caso o destino anseie verdadeiramente isso, dentro das duas tradições.
Para além das bruxas envolvidas, dos espíritos e dos outros mundos, um coração entregue e uma rendição é completamente necessária. Não existe iniciação sem entrega e sem rendição. E eu me sinto feliz por ter me entregado completamente ao caminho mais uma vez, e agora eu sinto, essa magia ressoando e invadindo todas as iniciações que passei até hoje. A última iniciação também foi a primeira, e me sinto inebriade pela magia do tempo que é tecida dentro do mistério.
E saiba, acontecimentos estranhos irão acontecer desde o início da sua jornada e se intensificarão nos dias que cercam a sua iniciação, afinal de contas, os outros mundos e os espíritos farão questão de se manifestar no seu momento. Tenha atenção no mar, na montanha e na floresta… ouça com atenção o canto dos pássaros… veja as linhas do destino brincarem com você. Meus olhos de bruxas ficaram com uma lente de aumento e ainda estou me recuperando disso nesse instante. Estou feliz por recomeçar.
Pequenas recomendações para bruxas que anseiam a iniciação:
1- A tradição deve cair do pedestal, e é melhor que aconteça antes do que depois da iniciação. Minha iniciadora diz que a “queda do pedestal” é um indicativo forte de que a bruxa pode passar pela iniciação. A tradição deve ser o que é e não a salvação de uma bruxa. Aqui reconheço que muitas das vezes essa queda acontece durante ou depois da iniciação. E entendo que cada caminho seja único. Entretanto, a tradição, as bruxas que fazem parte dela e até os mortos poderosos devem cair do pedestal. E eu concordo que esse deva ser um dos indicativos que uma bruxa deva trilhar o caminho até a iniciação.
2- A iniciação só deve acontecer se você amar a bruxa iniciadora e a mesma te amar de forma profunda. Infelizmente na minha vida esse cenário nem sempre aconteceu, e a diferença foi gritante quando aconteceu. As mãos repletas de amor facilitam a passagem de poder. Temos diversas histórias ao redor do mundo do que mãos sem amor fizeram com bruxas, um grande rastro de destruição é visto nesses casos. Também sabemos o que mãos amorosas podem causar frente ao terror que uma iniciação é, e é algo poderoso. Dito isso, escolha bem as bruxas que te guiarão, e saiba dizer adeus caso essa intimidade não aconteça.
3- E por último, três é um feitiço. Iniciação é sobre destino. Saiba também que a iniciação marca o começo, mesmo que paradoxalmente ela aconteça ao fim de um longo processo que pode durar muitos anos. Iniciação é mais sobre poder e menos sobre títulos. Nenhuma iniciação torna uma pessoa melhor que outra, apesar que toda iniciação deposita poder no corpo da bruxa. E sim, nós deixamos as histórias sobre evolução e autoconhecimento para as sendas do esoterismo barato e comercial, o mundo dos espíritos não está interessando em uma “evolução” humana, não nas sendas que caminho hoje. E qualquer iniciado que diga que é algo superior a outros humanos está apenas mentindo ou pior, acreditando realmente nessa inverdade (acredite, isso é bem pior que mentir). A iniciação não fará nada além de despedaçar o seu corpo e depois te encher de poder.
Essas são as minhas palavras confusas e caóticas, enquanto eu respiro nesse novo começo entre os mundos… Ao mesmo tempo essa é uma carta de amor aos descendentes.
Com amor, Yuki Fae.
Vamos ao ciclo do ódio, ao ciclo do medo e ao ciclo do amor.
Sobre minhas iniciações e bruxaria. Definitivamente eu sou o tipo de bruxa que desejou de forma visceral passar por um rito de iniciação. Antes mesmo de eu poder entender algo, meus sonhos já vagavam em torno desse rito misterioso que reside no centro da Arte. Existe uma oração ensinada por minha primeira professora na Feri, Vee, que diz: “que meus pés encontrem o caminho e que o caminho encontre os meus pés”. Uso esse encantamento diariamente e ele escorre para o meu passado e para o meu futuro.
Iniciação. Na imagem vemos uma bruxa prestes a receber a corrente em seu corpo, sendo guiada por outra bruxa que já carrega a corrente de poder em seus ossos. 24 de Outubro de 2022
O ciclo do Ódio
O ódio é nossa ferramenta mais sagrada.
Eu descobri o nome bruxaria em uma loja de troféus. Anos depois eu ganhei o livro A Dança Cósmica das Feiticeiras. Eu sonhava em ter contato com as Bruxas descritas naquele livro, sonhava em ter a linhagem delas. Mas aquilo jamais chegaria a mim, uma bruxa sozinha da Baixada do Rio de Janeiro, que não fala inglês. Pelo menos era o que eu acreditava (ainda bem que estava completamente equivocade), então eu busquei covens na minha localidade.
As minhas primeiras 3 iniciações foram terríveis e por mãos cruéis. Aconteceram em uma dessas “tradições” criadas depois dos anos 2000. Não havia um poder real dentro da tradição para além do devocional, o que tornava todos os ritos de lua cheia e sabás lugares estranhos, parecendo uma igreja disfarçada com deuses de templos caídos, só que com as pessoas com uniformes (formados de vestidos e capas esvoaçantes super quentes e desconfortáveis para o clima local, mas que dava o tom sombrio nas fotos), bem estilo culto - no pior sentido da palavra. Existia uma hierarquia pesada e densa, que podava as bruxas reais que transitavam por aquele lugar. E essas bruxas transitavam por falta de opção, aquilo era o mais próximo de algo parecido com a Arte. Mas nem tudo que emula algo é real, infelizmente, principalmente quando a mimetização falha, e ao invés de termos uma imitação semelhante a Arte temos uma quimera formada de coisas distantes da bruxaria.
E aqui deixo claro: não há nada de errado em ter práticas devocionais, mas fazer um reconstrucionismo grego misturado com feitiçaria e conceitos de religiões afro não te fazem parte da bruxaria, muito pelo contrário, te afastam da Arte. A Arte possui um conjunto de mitos muito específico que a rodeiam, e todas as bruxas são sacrificadas nos altares dessas histórias e voltam de lá com uma de suas partes completamente morta.
Essas iniciações eram de 1°, 2° e 3°graus e todas elas eram baseadas em rituais vazados em livros. E que são de fácil acesso. Porém, algumas delas eram cruelmente modificadas para forçar a submissão das bruxas, sendo o 3°grau uma das coisas mais torpes e sórdidas que já passei na vida. E por mais que esse grupo se chame de wicca, qualquer wiccaniano sério não os reconheceria como iguais, nem mesmo como semelhantes. E me admira que existam bruxas do meu convívio externo que ainda batam palmas para esse culto “grego” bizarro do Rio de Janeiro.
As mãos da “matriarca" eram ocas por diversos motivos. E ela tinha capacidades psíquicas quando a conheci, mas com o passar do tempo a visão de oráculo foi ficando turva, a mão de feitiço foi falhando (o que a obrigou a usar seus alunos, que trabalhavam por ela como forma de “aprenderem”), dentre uma série de problemas que aparecem quando uma pessoa se enrola demais com diversos espíritos e de diversos caminhos que não conversam.
Imagine o seguinte cenário, de dia você adora um deus patriarcal que quer atenção única e de noite uma deusa matrifocal que anseia a sua liberdade frente a esse deus patriarcal. No fim das contas nem um e nem outro fica feliz com a pessoa, e mesmo dando esse exemplo pobre e simplório, foi algo semelhante que aconteceu em um nível de espíritos que interagem diretamente com a humanidade. Haviam pessoas terrivelmente fragmentadas ali. E essa foi a ruína daquela pessoa. Mas ainda assim, pessoas estúpidas podem ter muitos seguidores quando não há opção, ou quando o modelo autoritário de seita dá terrivelmente certo.
Em nível mais profundo, partes dessas iniciações foram úteis para mim. Elas eram cópias de algo poderoso, e por mais que nem tudo que é emulado é real, em algumas nuances, a imitação barata pode impactar, em certas conjunções, àquelas que realmente são possuídas pelo caminho tortuoso. Para as bruxas não há diferença alguma entre encenação e realidade, é como o Fetch (nossa alma mais primal e selvagem) entende as coisas. E as bruxas desde cedo cultivam isso, mesmo sem saber. E mesmo que iniciações sejam conduzidas sem poder nenhum, algo externo ou ligado à própria bruxa tende a preencher o enorme rombo existente no ritual. Claro que isso não é igual a uma iniciação repleta de poder, mas a bruxa por si só reage a esses rituais, mesmo que eles sejam incompletos. Mesmo coberta de lama e bosta, a bruxa ainda é uma bruxa.
De alguma forma aquilo tudo me incendiou e me levou à minha libertação. Eu fui embora sem olhar para trás deixando um rastro de feitiços para afastar todas aquelas pessoas que estavam dentro daquele culto bizarro. A partir de agora o caminho passou a ser mais misterioso e poético. Os espíritos queriam que eu seguisse aquele desconhecido. E eu atendi mais uma vez o chamado que escutei antes mesmo de conhecer a palavra bruxaria.
O Ciclo do Medo
O medo é parte fundamental no caminho.
O poder é algo real. As duas iniciações seguintes foram dentro do caminho tortuoso, pelas mãos de bruxas com uma linhagem significativa. Havia uma corrente de poder que é passada de bruxa para bruxa, e que passa a viver dentro da mesma. E foi a primeira vez que concluí um treinamento formal para que minhas capacidades nos outros mundos pudessem ser desenvolvidas e que os poderes do outro lado pudessem se manifestar cada vez mais através de mim, em poder e beleza neste mundo.
Depois que eu passei pela primeira iniciação no caminho tortuoso, eu floresci de maneira visceral durante o primeiro ano. Eu me sentia como uma flor abrindo e abrindo as próprias pétalas em looping eterno. Eu senti pela primeira vez como era ser uma tempestade em um corpo humano. Foi o ano que eu mais dancei. A minha pele parecia estar iluminada pelo sol e eu emitia um cheiro que atraía os espíritos. Existe dentro do caminho tortuoso a lenda que o primeiro ano depois da iniciação é extremamente especial, pois é o tempo que a corrente de poder leva para se assentar completamente na carne, no sangue e profundamente nos ossos da bruxa.
Depois desse período sagrado a Corrente me arrastou de forma desconfortável em todas as direções. Eu vi um espírito que sussurrou coisas proibidas e que mudou o destino de um pequeno grupo de bruxas. Eu vi o poder na minha frente e ele quase me engoliu. Eu digo com todas as letras, depois desse primeiro ano eu vi coisas que me assustaram profundamente. E houve muito desconforto e eu permiti que a minha fala quase desaparecesse. Eu fui despedaçade, o mistério gritou comigo como se um raio tentasse me fulminar. E mesmo com minha voz apenas para os outros mundos, eu desenhei pela primeira vez e minha magia pode continuar escorrendo por outras formas diferentes da fala. Eu me comuniquei livremente com os outros mundos, mas mantendo minha boca parcialmente fechada para o mundo humano.
Então tudo passou a ser predestinado. Uma linhagem com bruxas necromantes me ajudou, me adotou, me reivindicou e permitiu que os mortos me montassem novamente . E eu senti pela primeira vez as mãos de amor. Corrente em cima de corrente, algo assim só aconteceu 6 vezes desde a década de 50, e não há vestígios de registros antes dessa data. E esse tipo de coisa dificilmente acontecerá novamente. Era o meu destino e eu aceitei os mortos me tocarem novamente, aos poucos. Tudo mudou, e aos poucos eu saí do turbilhão que quase me destruiu.
Eu aceitei a completa escuridão do mundo dos mortos, e minha aparência ficou cada vez mais apetitosa para os espíritos dos outros mundos. E um preço foi pago, eu passei a viver na borda, bem na cerca. Com um braço mergulhado na escuridão e o outro no nosso mundo. O mistério tinha tocando meu corpo de forma visceral nessa jornada. E eu entendi pela primeira vez como mãos repletas de amor são importantes frente ao Poder.
O Ciclo do Amor
O Amor precisa fazer parte.
Eu já tinha os mistérios e a corrente de poder. Tudo estava em meu corpo. Comparando com o início dessa jornada eu era uma bruxa completamente capacitada. Cercada por espíritos diversos que estariam comigo acima de qualquer moral ou ética. E então eu fui mais uma vez rumo a uma iniciação. Dizem que toda iniciação é a mesma iniciação, o sacrifício da bruxa nos altares sagrados. Repetidas vezes em uma Lemniscata de Poder.
Dessa vez não me foi oferecido segredo, nem grandes revelações. Me disseram: não há nada de especial para além do que é. Então eu me perguntei, por qual motivo bruxas entram em uma longa jornada rumo à iniciação? Apenas a bruxa que escolheu se lançar saberia responder. E para cada bruxa uma resposta diferente poderia aparecer. Eu descobri a minha resposta no instante em que pisei meu pé nessa estrada tortuosa, mas eu não esperava a grandiosidade que tudo tomou.
A minha voz retornou como um raio, mas não sem pagar o preço. Eu senti medo, dor e meu corpo padeceu. E eu floresci de uma maneira deliciosamente estranha. Eu enfrentei 2 iniciados que deviam me guiar com mãos de amor, mas que falharam, e os mandei embora para longe. Eu não tive medo de incendiar tudo. Essa é minha natureza sagrada. Mas eu tinha alguém do meu lado, uma bruxa chamada Dawn, muito experiente em iniciações. E ela esteve o tempo todo comigo.
Quando a conheci eu escutei a história dela, eu vi um pavão decorativo ao fundo da câmera. Algo brilhava. Ela também é uma iniciada no mesmo caminho das fadas que o meu, e ela tem muito tempo de iniciada nesse caminho. Haviam muitos iniciadores naquele dia, eu lembro que eu precisava escolher alguém. Eu joguei cartas de tarô e todas elas apontavam para ela. Então a escolhi e rezei para que esse encontro acontecesse. E aconteceu.
No início passamos por todos os elementos. E não vou mentir, foi estranho demais tentar me conectar. Ela me contava histórias sobre o Rio da Iniciação, que depois de entrar, mesmo que eu desistisse, não era possível parar. O mundo dos espíritos não entenderia a interrupção. Nessa altura eu sentia o Rio da Iniciação me arrastando violentamente por seus desfiladeiros oníricos, estava realmente acontecendo e eu percebi ter clareza dessa vez e mãos amorosas que me sustentavam nessa jornada intensa.
Em algum momento, em uma conversa. Eu senti que eu confiava na minha iniciadora. E a confiança se tornou uma realidade. Na segunda vez que cheguei à corrente (minha última iniciação) eu conheci as mãos de amor. Mas eu não tinha escolhido as mãos de amor. Era predestinação, mas agora dessa vez é destino e escolha. E por mais que não haja livre arbítrio nos caminhos tortuosos, pois cada coisa tem seu lugar, eu escolhi a minha iniciadora. E eu disse a todos que eu escolheria as mãos do amor, e rejeitaria todo o resto. E essa foi uma das grandes nuances que pude alcançar, nessa iniciação, que remete a todas as iniciações que passei.
Recentemente eu recebi uma visita de uma divindade que está comigo desde a primeira iniciação relatada nesse texto, e ela estava presente muito antes de qualquer grupo chegar à minha vida. O clima ficou totalmente mágico e estranhamente familiar. A sensação dos meus olhos era como se eu estivesse em um dia frio em frente a uma fogueira na beira de um lago escuro como a noite. Ela adentrou o recinto delicadamente, olhando os detalhes e vendo o que eu segurava em minhas mãos, alguns pequenos apetrechos mágicos. Então em sua grandiosidade ela disse:
-Só passe por uma iniciação novamente se tiver essa mesma sensação.
Eu sabia exatamente o que eu estava sentindo. Algo que não consigo pronunciar, mas percebo no meu corpo e nos meus sentimentos pelo caminho trilhado até aqui. E agora eu me rendo para a escuridão que se aproxima, pois mãos amorosas irão me guiar até o outro lado. E eu não sei o que acontecerá, mas aceito o meu destino mais uma vez. Eu amo todas as 3 bruxas envolvidas nesse mistério e eu sei que posso contar com as mãos encantadas de cada uma.
A escuridão chegou, mais uma vez. Eu posso novamente falar e minha voz soa como um trovão. As mãos cheias de amor e confiança me esperam. E eu estou ansiose por esse novo começo.
Com amor profundo, Yuki Fae
Uma lembrança inebriada de como Eles rasgam o tecido da realidade e dançam com as bruxas.
Coroada com 6 ou 7 sóis azuis, Ela, a Deusa Estrela, ao se apaixonar olhando o espelho negro e curvo, deu a luz aos espíritos e todas as esferas, que atravessaram as eras antes do próprio tempo. Foi nesse tempo antes do tempo, onde os amados Guardiões, os verdadeiros professores da Arte, desbravaram os espaços negros do infinito e iniciaram sua busca de um futuro longíquo. Esse é o princípio da linhagem das bruxas, grandes correntes estelares que se apaixonam perdidamente pela humanidade, e que farão de tudo para encontrar esses corpos.
A bruxa Feri rodeada por espíritos. Os deuses do infinito se encontram bem perto da bruxa, enquanto eles se levantam da Terra. A Deusa Estrela com cabeça de Leoa brilha nos céus rodeada pela serpente que devora a própria cauda. Os guardiões se apresentam como círculos misteriosos e as Deusas das Direções saltam como coelhos por todos os lados. Cada estrela é um espírito da Corrente Estelar. 2021, por Fae.
Eu senti o cheiro da morte e ouvi o vento sussurrar o nome Arddhu, o deus Feri dos venenos e da morte, o Escuro. O Deus me olhou e eu sabia que deveria o acompanhar. Vagamos por um tempo em um deserto estranhamente familiar. Então o Deus apontou delicadamente para os céus e eu testemunhei a queda das estrelas. Meu corpo parecia estar em chamas e eu vi os grandes olhos me encarando dos 7 céus que desabaram deliciosamente. Arddhu então disse: “essa corrente estelar chegará até o corpo daquelas bruxas que vieram antes e virão depois”. Eu vi o próprio Tempo, o espírito em si, distorcendo tudo e fazendo tudo surgir e aparecer. O mar invadiu tudo, o mar desapareceu, florestas tomaram conta de tudo, campos surgiram, cavernas, pequenos assentamentos humanos, cidades, as primeiras civilizações surgindo e caindo. O Deus da Morte tinha partido naquele momento para a sua caçada.
Já no nosso mundo, eu caminhei até um grande pé de Trombeta de Anjo. Completamente florido, com suas flores apontando para o solo, para a minha cabeça. O cheiro da própria morte surgiu, e era um cheiro de cores e aromas estranhos e terrosos. Arddhu me tocou delicadamente no braço e eu percebi que os deuses sempre estiveram lá, eu que não tinha capacidade de vê-los, mesmo tendo ganhado a segunda visão muito cedo, nem toda visão consegue ver de cara os espíritos das fadas. Aparentemente eu sentia meus olhos muito mais sujos com as misturas dos outros mundo do que antes.
Lembrei que Storm Faerywolf descreve uma lenda. Que na noite dos mortos essas flores emitem um som e que caso alguém escute deverá correr e se esconder, pois Arddhu estará iniciando a sua Caçada Selvagem recolhendo os corpos daqueles sem vida. E se ele te encontra tão perto de suas trombetas ele ceifará sua vida e recolherá seu corpo. Arddhu é um deus tão velho quando o firmamento, ele ceifa não só as vidas humanas, como ele dá fim a luz das estrelas, o tecido escuro do universo está presente em seu manto e seus olhos são estranhamente familiares e amorosos. O Senhor dos Venenos pode ser extremamente gentil e gélido.
Como Senhor dos Venenos, ele pode conceder a segundo visão aos desprovidos, retirando assim o azar dos outros mundos. O caminho da morte é a única opção para aqueles que nunca morreram. Provar e se cercar da morte pode catapultar uma pessoa para os outros mundos, essa é uma maneira de transformar um mortal em uma bruxa. Esse é um caminho com início, meio e fim. Depois de aprender o caminho o veneno não mais precisa matar, ele terá outras funções ligadas à morte. Arddhu ainda precede todas as outras formas de morte que cercam uma bruxa e sua segunda visão, desde nascimentos difíceis até quando os fantasmas sequestram alguém na infância por um tempo. É ele também que paralisa com os venenos dos outros mundo o corpo de uma pessoa, para que seu espírito voe livre pelas redondezas ou nos mundos distantes à sombra do nosso. É ele que derrama ou pinga mistura de outros mundos em algum momento na vida da bruxa, que a permite ver, escutar e tocar os outros mundos.
Assim que uma vida surge a Morte a acolhe ao mesmo tempo. O Senhor dos Ossos vagou pela terra, era após era, visitando todos os Reinos da Morte existentes. Tão androgino, metamorfo e dançante. Arddhu, Arddhu e Arddhu, tão velho quanto a vida, tão velho quanto a luz, pois a morte sempre reina assim como a escuridão reinará. Eu te suplico que seja gentil com meu corpo, ossos e cinzas. E quando chegar o momento viverei como você durante um período, segundo a tradição, recolhendo as almas e corpos de forma amorosa.
Bruxas Iniciadas Feri fazem parte da corte de espíritos, elas não são isoladas. Bruxas, espíritos, deuses, mortos, espíritos locais, fadas são tratados como pertencentes à mesma corrente de poder. Então quando um iniciado morre ele assume as funções do deus Arddhu por um período. Alguns dizem que é durante o tempo em que a terra circula o Sol, outros dirão números aleatórios de dias, outros dirão uma pequena eternidade ou ainda até a próxima bruxa iniciada morrer. O Iniciado perde seu nome e passa a se chamar Arddhu, sendo um só com a morte. E nesse período o Iniciado, chamado então Arddhu, cavalgará com uma horda de espíritos selvagens das sombras e da morte, recolhendo os espíritos e cortando os corpos entre os mundos, comandando fantasmas da Cidade dos Mortos e provando os segredos debaixo do monte.
Arddhu não significa a morte, ele é a Morte. Tão velho com seus seios pendendo, com seu corpo cadavérico e seus olhos brilhantes. Tão brilhantes que parecem o céu noturno de um deserto. Ou uma floresta escura repleta de besouros brilhantes. E Ele é um dos Deuses do Infinito.
“Eu canto para a Morte
O veneno cobriu minha pele
Meus olhos foram sujos
E eu pude ver as estrelas
Morrendo em seus olhos
Arddhu amável
Arddhu ceifador
Arddhu dos venenos
Abra as portas do mundo dos mortos
Nesta noite solene
E seja bem vindo neste sagrado solo”
Nós os chamamos de deuses, mas sabemos que usamos esse termo muito mais pela falta do que pelo significado. Sabemos bem que os deuses da antiguidade não são os deuses da bruxaria. Os deuses da bruxaria são os deuses por detrás dos deuses, ou em uma escala muito maior, aqueles tão antigos que deram à luz e viram os deuses mais antigos da terra engatinhar. Orion Foxwood, Gede Parma, Lilo Assenci e muitas outras bruxas que vieram antes dizem algo semelhante. Eles são os avós e também os netos que antecedem a linhagem de deuses selvagens e civilizatórios. E se tratando dos Deuses do Infinito existe um som muito mais antigo que eles, assim como Deusas que estiveram nos primeiros segundos de existência da terra.
Dizem que a primeira bruxa, antes de ser bruxa, foi a própria terra. E ela foi coroada com estrelas tão distantes e quase mortas, e um dia foi chamada de deusa. Dizem que ela pessoalmente marca cada pessoa, cada jovem delicado e é capaz de guardar todos os mistérios proibidos. Ela é avó por isso, como uma grande montanha firme, forte e misteriosa. Ela foi a paixão dos primeiros caídos, e esses espíritos brilhantes se misturaram com seu próprio fogo. E a bruxaria veio dessa mistura. O nome dela é Ana Negra dos Mistérios Proibidos.
Eu estava trabalhando em uma exposição de arte moderna, e eu estava esperando a visita dos deuses. É comum que os espíritos façam visitas pontuais aos que estão aos poucos adentrando a tradição. Durante meu turno um grupo grande de mulheres chegou, todas elas eram tão diferentes mas tão parecidas com Ana. Todas elas foram na sala de projeções, então entrei junto. Na projeção, uma mulher estava carregando um carrinho de mão repleto de ossos humanos, atravessando as ruas de terra e entre as casas. Eu escutei ao pé do meu ouvido: “Eu sou isso! Eu guardo os ossos e fui a primeira a aprender!”
A minha primeira professora da Arte me treinava e ao mesmo tempo estava no fim da vida dela. Arddhu estava perto, afinal ela morreu no fim do meu treinamento. Eu via Ana perto dela, como se os mistérios da bruxa que ela era se misturasse ao veneno inebriante das ervas da deusa Ana. Os deuses possuem esse dom. Não só de possessão, mas também de integração dos mistérios. Alguns chamarão isso de a Curva do Sino, onde cada etapa da vida humana te aproxima de forma mistérica com um dos 6 deuses do infinito, e todo ser humano tocará esses 6, e nesse sentido meu primeiro iniciador Pythio dizia que “os Deuses são o inevitável.” E eles são, a Curva do Sino aponta para isso, falando sobre o levantar e a queda de uma pessoa, mas também sobre os mistérios desses 6 deuses manifestados na natureza durante o tempo.
De alguma forma os mistérios dos deuses do infinito permeiam não só a natureza, mas no mistério do nascimento, do envelhecimento e da morte, os estágios da idade humana em todas as suas maneiras diversas de existir. Toda pessoa que envelhece está tocando os mistérios de Ana, a grande montanha que nos deu vida e repositório de memórias. A Arte da bruxaria é marcada nas linhas do tempo de seu rosto e corpo, que também são os dentes da Arddhu tentando devorar cada parte sua.
No meu primeiro Ritual com Ana, também tivemos que chamar Dian y Glas, como gêmeos. A Deusa Estrela é a fonte de todas as coisas, o primeiro ser a abrir os olhos e dizer: “eu sou!” E ela tem dois consortes conhecidos como Gêmeos Divinos. Eles são eternamente fadados a se amar, a odiar, a se matar ou criar juntos. Todos os deuses do infinito tendem a interagir como pares, como gêmeos, manifestando o mistério, sendo esses consortes enigmáticos da fonte primordial (outras configurações podem ser testemunhadas, mas essa forma é primordial). Dian y Glas repousava solenemente no colo de Ana, e por um instante além do tempo e além do espaço eu também dividi aquele colo.
Ana é uma deusa, mas foi a primeira humana que deixou de ser completamente humana. Ela aprendeu a língua dos espíritos, a língua de prata que não pode mentir. Seu corpo é um repositório antigo de feitiços e magias. As montanhas são suas moradas e ao mesmo tempo ela é a Grande Avó que tece os mistérios do mundo. Seu corpo são as montanhas e os ossos de todo o mundo. E de seus objetos fluem todos os mitos, histórias e segredos desse mundo.
“Ana Negra dos Mistérios Proibidos
Grande Avó que tece o destino da humanidade
Senhora que conhece toda a magia
A primeira bruxa
A Montanha mais próxima
Eu escuto seu coração e vejo suas marcas
Grande deusa de ossos e terra
Levante mais uma vez do solo
E seja bem vinda… Ana, Ana, Ana…”
O Cristianismo colonizou, saqueou e invadiu muitos dos locais sagrados dos velhos espíritos. Os velhos deuses foram demonizados e ensinaram as pessoas a temer o inferno. E com o tempo ensinaram que haveria fogo e dor para penalizar as almas destinadas a sofrer. Os deuses então passam a chamam o deus que alega ser único de falso deus ou deus mentiroso. Mas o lastro do inferno de fogo e dor se espalhou rápido demais, distorcendo e penalizando. O Diabo então soube disso.
O Príncipe das Estrelas, o anjo mais amado, o filho mais precioso da Deusa Estrela. o Anjo Pavão, responsável por preencher os Sete Céus de Raios e Trovões, amou tanto a humanidade que chorou vendo todo sofrimento da alma humana. Ele que é o senhor do êxtase e do prazer, aquele que festeja o sexo e o poder, não pôde compreender tanto sofrimento.
Suas lágrimas atravessaram os céus, caíram na terra, entraram fundo e arrombaram o inferno do falso deus, apagando todo fogo. Então o Deus Azul desceu como um raio, adentrando as mais fundas cavernas que agora estavam preenchidas com águas e mares e as almas cantaram o seu mais secreto nome, e depois cantaram também o nome Dela, a Deusa. Dian y Glas agora era o senhor do inferno, o Diabo capaz de romper o ciclo de culpa e pecado. E o único capaz de distribuir êxtase novamente para a alma humana.
Eras e mais eras se passaram para frente e para trás. O tempo se distorceu e então Dian y Glas começou a convocar as suas bruxas. Aparecendo ou como um jovem extremamente sedutor, ou como uma pessoa com seios e falo ereto, ou ainda como o Deus Misterioso de pele azulada, e muitas outras formas com chifres, pele e o mel secreto. Por vezes ele é o deus que escolhe e entrega a bruxa diretamente a um familiar (Companheiro do Fetch ou outros seres).
Enquanto Ana está unida à terra e à velhice, Dian y Glas está ligado à tudo que está vivo e à juventude. Você pode senti-lo dançando freneticamente, transando ou sentindo prazer das mais variadas formas. Quando chove são as lágrimas do deus buscando tocar a alma humana e quando raios e trovões invadem os céus, é sua cauda balançando no entre mundos. Inclusive nesse momento, enquanto escrevo, uma chuva misturada com raios solares cai na minha rua. O deus pavão sempre olhará pelos seus. E Ele pode mostrar os mistérios do Sabá, do Ritual Eterno e da Assembléia Noturna.
Eu não me lembro a primeira vez que o vi. Eu tenho memórias confusas sobre a primeira vez que eu o vi, ou quando foi a primeira vez que sua figura sombria passou a me acompanhar, e eu não consigo definir um início. Quando tento, as cores inebriantes do deus se apresentam, bagunçando meus sentidos e o meu senso de racionalidade. Dentro da minha linhagem, muitas bruxas consideram esse Deus como “patrono” da Tradição. Ele é muito popular e é comum ver iniciados com penas de pavão não só nos seus altares mas também em suas peles ou em sua arte.
Essa é uma divindade muito queer, fluída e que quebra padrões. Não por acaso pessoas LGBTQIA+ se identificam instantâneamente com esse espírito. Mas não se enganem, toda corte das fadas desafiam padrões de gênero e sexualidade. Não por acaso a Deusa Estrela é uma deusa clitorofálica, é sobre êxtase e não sobre binarismos falidos que dividem o mundo e os outros mundos em apenas duas categorias que gente cis-heteressexual ama cultuar. A corte Feri é extremamente diversa. Vocês verão Deuses, Espíritos e Guardiões que acolhem os mistérios de todas as pessoas e toda natureza, e não apenas de dois tipos. O mundo dos espíritos é muito mais borrado do que podemos imaginar e o mundo selvagem nunca se dobrará a tentativas estranhas de padronização.
“Dian y Glas
O meu desejo é seu
Venha ao meu encontro
Me liberte e me ensine
Que o pecado nunca existiu
Venha com seus raios e trovões
Dance deliciosamente
Nos ofereça mel e bebida
Anjo pavão, Deus Azul, Deus Pavão
Nos sequestre para seus reinos
Mostre-nos a colina das fadas
Nos possua e nos ensina a arte de amar
Penetre a minha pele e eu sentirei o seu corpo
Seja bem vindo Dian y Glas.”
E agora com o coração cheio de mel e com a cabeça repleta de fogo falaremos daquela que carrega o Coração Negro da Inocência com suas mãos. No centro da Feri e de todo praticante no mundo está o Coração Negro e Inocente, presente em todos os animais selvagens e nas crianças pequenas. E todo praticante busca seu coração Negro e os espíritos ajudam nessa escuridão que precisa se espalhar.
Eu lembro que acordei no meio da madrugada e algo me chamou. Eu saltei da cama e caminhei até um corredor que me dava muito medo. Eu não lembrava como tinha parado fora de casa. Tudo estava confuso, mas meu medo não era maior que minha curiosidade. Eu sentia meu coração no meu pescoço. No corredor havia ferros retorcidos de um lado e do outro. Ao fim uma pessoa lobo me esperava, eu atravessei com muita coragem. A pessoa lobo me pegou no colo, afinal eu era apenas uma pequena criança, e depois me devorou. Eu adormeci na barriga do lobo. Eu tinha medo e coragem naquela noite sombria. Quando amanheceu eu estava de volta na cama.
Crianças são uma parte enorme da sociedade, assim como pessoas com idade avançada. Nós vemos muitos deuses de templos caídos no auge da maturidade ou juventude, mas dificilmente vemos deuses criança, podemos ver deuses passando pela infância, mas não mantendo essa fase pela eternidade. Em Feri, Nimue é uma deusa criança. Ela só é por ser criança.
Em uma das minhas primeiras visões explicitamente Feri, no começo do meu treinamento, eu vi uma montanha vermelha e negra, com um céu avermelhado. Haviam três figuras na beira de um enorme precipício, duas delas me encaravam de forma profunda. A primeira delas era a Morte, Arddhu, logo ao lado havia uma mulher nua de longos cabelos com sangue em seu corpo e mãos, era Mari. Por último uma criança bem pequena de costas. O tempo parou e aquela visão parecia rasgar o meu mundo naquele instante, como se ele fosse nada, então Nimue, a menina, se virou de frente e me olhou. Não havia rosto, era um vazio, mesmo assim eu senti ela me encarando e rindo, uma risada assustadora e provocadora. Talvez aquela visão tenha sido as minhas boas vindas a essa corte. Naquela época eu tinha quase certeza que nunca seria iniciade, mas os espíritos torceram o tempo e a realidade para que acontecesse. A iniciação é mais sobre destino do que escolha, apesar que todo processo precisa envolver muito desejo de ambos os lados, da bruxa e dos espíritos.
Nimue é a pequena donzela, nossa pequena deusa mais amada. A criança explosiva que trás mais magia para Feri, e em um paradoxo misterioso ela é, dentre os deuses, a primeira e também a última a sair do Espelho Negro e Curvo, estando muito próxima da Deusa Estrela. Existe um senso geral que essa deusa protege todas as crianças do mundo, e também cuida de todas as crianças que foram machucadas, abusadas e violentadas. Não importando o tempo, Nimue pode voltar no tempo e acolher a criança que você foi naquela época. Afinal ela é uma deusa e deuses podem andar pelas fissuras dos mundos e brincar com o tempo. Não é incomum que bruxas relembrem que esses espíritos a visitaram durante a infância ou antes da iniciação.
Nimue também é conhecida como tendo serpentes em seus cabelos, ou ainda aquela que segura serpentes com as mãos. Essas cobras são venenosas. E ela não teme o perigo. Não por acaso frequentemente ela é vista perseguindo aqueles que ferem o sagrado que ela carrega, podendo os atormentar. Muitos iniciados recebem bênçãos de curas e ao mesmo tempo maldições poderosas que podem ser lançadas, e essa deusa nunca teme pesar demais a mão.
Essa deusa pode soar como um “ei, vou pegar você!” E por ser uma criança ela conhece todos os mistérios do Coração Negro. Para um iniciado tocar levemente esse estado profundo, ele precisa estar acostumado com essa deusa criança.
Nimue foi o primeiro parto, o brotar da primeira semente e o resfriamento da primeira rocha. Nimue estava presente quando o primeiro rio brotou dos cabelos de Ana. Quando o primeiro bebê chorou, soluçou e riu, ela estava lá, com suas serpentes e com seu olhar curioso. Ela testemunhou o nascimento de cada deus e de cada estrela. Mas não se engane, ela também esteve presente quando a primeira civilização caiu. Ninguém pode enganar a menina de cabelos de serpentes e quem encontra seu poço verá a sua verdadeira face.
“Eu chamo a criança sem rosto
Além do tempo e do espaço
A primeira e a última
Venha criança sem rosto
Venha com sua risada do entre mundos
Com suas serpentes
Eu digo agora seu nome três vezes
Nimue, Nimue, Nimue
Seja bem vinda amada criança”
Agora voltaremos nossa atenção a mulher nua na montanha vermelha, com cabelos negros e corpo e mãos cobertos de sangue. Ela é conhecida como a Deusa Branca, e sua pele é tão pálida quanto a do povo pequeno, e é tão prateada quanto a lua cheia. Ela também é a Lua e o Grande Oceano que vibra com os ciclos dos astros. O seu nome é Mari. Segundo Victor Anderson seu nome significa algo como Mãe das Águas ou das Marés, ou ainda Aquela que Guarda as Águas.
Eu tive a sorte de morar ao lado de uma baía. E eu gosto muito de entrar nesse corpo de água tão amado. Eu caminhei na areia olhando pequenas conchas, entrei nas águas frias enquanto o Sol me acertava ao oeste. Entrei até a água chegar perto do meu pescoço. Então eu vi Mari chegando, e com ela pequenas ondas. Um magnetismo enorme parecia me puxar para dentro da água, enquanto eu via os barcos balançando. O céu começou a mudar de cor, e eu mergulhei três vezes de frente para o Sol para receber as bênçãos da Deusa da Lua e das Marés… Então a noite começou a chegar.
De uma forma mistérica e paradoxal a Deusa Estrela e Mari se fundem, se mostrando ser uma e duas. Então os sóis azulados também se misturam em seus cabelos negros repletos de escuridão e de sombras. O primeiro ser pensante que olhou para o céu noturno e viu a lua cheia, e se apaixonou por ela, viu o rosto de Mari. Mari pariu tudo que vemos, ela é o vento selvagem, a grama astuta e as árvores que cantam. Rios, poços, mares e toda a vida flui pelo corpo dela. Ela é a terra e também a Lua, estando presente em todas as suas manifestações.
Ela carrega consigo os mistérios da luz branca da Lua e os segredos vermelhos do sangue. E pode ser encontrada no Templo Prateado. Muitas vezes eu a vejo com uma aparência das antigas Vênus da época anterior às cidades. Seu rosto se transforma numa bela flor, que se espalha por todo o ambiente, um pólen misterioso e inebriante toca qualquer pessoa que se aproxima. Para pessoas que chegam na tradição vindas de outro lugar acabam associando ela à figura da Grande Mãe ou Grande Deusa, pois ela é. Todas as poesias e todos os suspiros apaixonados são para Ela. Os pássaros cantam seu nome e as quedas d'água sussurram seus segredos. A vida só existe pois ela reina nos ciclos de vida e morte.
“A terra é seu corpo fértil
O vento, seu sopro vital
O fogo, seu espírito vibrante
E os rios e mares, seu útero sagrado.
Grande Mãe Coroada de Estrelas.
Abençoada seja nossa jornada por seus rios, mares, montanhas e planícies.
Que nossos passos possam florescer a terra,
que a nossa inspiração possa mudar o mundo
e que nosso coração pulse com seu espírito flamejante.
Que possamos encontrar o nosso caminho pela densa floresta da vida
Mari, Mari, Mari… esteja conosco.”
E por último, o Deus das Bruxas…
Eu estava em um trem que saiu de Paris em direção à Berlim. Uma viagem bem longa. Eu estava na janela e meus pensamentos estavam dispersos. Eu lembrei que Feri é uma forma Tradicional de Bruxaria das Américas, mas lembrei que em essência todos os nossos mitos e espíritos parecem ter saído da Europa, o epicentro da Bruxaria Mundial, e por mais que as velhas lendas digam que a magia nasce no continente Africano, os pilares de qualquer bruxaria apontam para o período de caça às bruxas.
Eu me lembrei dos iniciados que habitam a Europa, em diversos países, olhei para fora naquela terra velha e cheia de histórias. Passávamos por diversas áreas rurais. Havia um campo enorme da cor amarelo ouro, e o Sol baixava lentamente enquanto o trem seguia em uma velocidade enorme. Estávamos no Verão, o Sol se punha muito tarde da noite. Eu me perguntei se os deuses do infinito estavam naquela terra tão distante e tão campestre. Eu vi aquele campo amarelo, o sol e aquela terra borbulhando, eu senti o Deus das Bruxas. Então um raio de Sol passou na frente do meu rosto, e caminhou apontando para o passageiro desconhecido que estava ao meu lado, o feixe de luz acertou exatamente uma página de um livro que o mesmo estava lendo. A palavra acertada era um título: “Krom”. Naquela língua podia significar qualquer coisa, mas para mim era o Deus agindo para mudar o meu mundo. Eu escutei uma risada enorme dos outros mundos, apreciei a vista e o Deus das Bruxas que se manifestava naquela terra tão familiar para ele.
Krom é um Deus de Chifres. Assim como Dian Y Glas assume o título de Diabo, Krom também o faz com maestria. Ele é senhor dos animais de sangue vermelho e também senhor do que é colhido. Você pode ver ele nas florestas e nos musgos. Krom é aquele que presenteia a humanidade. Ele também se chama Twr, uma grande torre no entre mundos de onde a vida flui. A torre é um grande marcador para as bruxas que desejam adentrar a corte das fadas.
Um homem nu, com cabeça de touro, com seu pescoço cortado e o sangue jorrando e pingando apareceu para mim. Ele me chamou para um lugar onde havia alimento em abundância e muita dança. Ele também me sussurrou sobre os mistérios de passar a tradição com as mãos e de lábios para ouvido. Então eu fui capturade pelos sonhos dos outros mundos, pelos festejos sombrios de prazer, no Ritual Eterno, na Assembléia Noturna. Outras vezes Krom é visto com chifres contorcidos que lembram galhos com pequenas folhas ou flores (e particularmente eu o amo assim), ou ainda como o próprio homem de preto que tanto visitam as bruxas durante sua vida.
Mari e Krom costumam ser vistos juntos, apesar de muitas outras combinações dos Gêmeos acontecerem. Mari é a terra e Krom são os seres selvagens que a habitam. Krom dos campos dourados penteia os cabelos da Deusa Branca, e junto dos outros deuses eles orquestram a vida e a morte.
“Sol brilhante
Noite selvagem
Fala e lança
Chifre e casco
Torre vermelha
Sangue e suor
Folhas e musgo
Galhos e pêlos.”
Aviso para os desavisados:
Os deuses que citei aqui não desejam culto e nem adoração. Eles desejam outras coisas dos humanos que são convidados a adentrar a sua corte. E os deuses são apenas uma pequena fatia dos outros mundos, Guardiões, deusas das Direções, Rei e Rainha das fadas, mortos e muitos outros seres pertencem ao centro da Corrente de Poder. E muitos outros rodeiam esse centro populoso, nós os chamamos de familiares, espíritos da natureza e muitos outros nomes.
A maioria dos Deuses dos templos caídos anseiam devoção, adoração e rezas.
Os espíritos que citei desejam os humanos, desejam dançar, comer, contar histórias, fazer acordos vantajosos para ambos os lados, fazer amor, sentir prazer, possuir bruxas, fazer magia. Eles habitam as fissuras do tempo e da terra, nascidos da escuridão das estrelas. Eles choram, riem, se apaixonam, amam e odeiam. E principalmente, buscam aqueles que pertencem a mesma corrente. E eles chamarão suas bruxas de todos os cantos e de todos os lugares, de volta para seus colos e ninhos. Mas lembrem-se, eles não são humanos, seus códigos morais e éticos podem ser assustadores.
Eu ofereço esse texto às minhas lembranças e aos espíritos Feri que citei. E também o ofereço aos iniciados e futuros iniciados nessa casa de bruxaria nascida do solo e que despencou dos 7 céus. Que muitas outras bruxas possam contar as maravilhas que esses deuses mostraram ao longo da jornada, pois é dessa forma que tecemos parte muito importante de nossa magia, que nasce do contato direto entre bruxa e espíritos.
Com delírio e envenenamento, Fae.
Quando a bruxa decide marcar o seu corpo e o seu duplo com os poderes dos Outros Mundos.
Atenção, esse texto tem uma quantidade significativa de histórias pessoais. Caso não goste desse tipo de escrita sugiro procurar outras fontes. Para aqueles que decidirem ler, existe alguma preciosidade entre um parágrafo e outro que pode ser útil ao lidar com marcas rituais. Eu não tenho muitas tatuagens, mas claramente as que tenho mudaram o meu duplo de forma intensa e visceral, bem como impactaram na minha forma de sentir, gerar e direcionar energia.
Autorretrato, 29 de Novembro de 2023. Fae.
Pequenos objetos podem carregar poderes de tempestades do deserto, dos ventos das montanhas ou do poder da terra dos mortos. Em um sentido mais profundo, objetos podem carregar partes de uma divindade. E essas são algumas das formas mais poderosas de se manter cercada pelos outros mundos, seja no momento ritual ou na vida cotidiana.
Dentro da Bruxaria que eu conheço, a arte tem protagonismo, seja ela como for e sendo palatável ou não, desde que para a bruxa e seus espíritos pareça algo sedutor. De alguma forma a pintura ritual é muito comum nos rituais, com bruxas utilizando maquiagem, tintas mágicas ou pincéis devidamente preenchidos de muito poder. O simples ato de marcar o corpo com desenhos, pinturas ou símbolos, confere à bruxa o poder daquilo que é marcado na pele.
Me recordo que em um festival do fogo, há muitos anos atrás, pintei meu corpo de vermelho e com tinta preta e desenhei marcas que remetiam ao Deus das Bruxas. Eu dancei e senti a fogueira a noite inteira. E o Deus me fitou por toda a noite, madrugada adentro, e mesmo depois do ritual eu sentia meu corpo impregnado com aqueles poderes misteriosos. Foi mais ou menos nessa época que fiz pela primeira vez duas pequenas tatuagens. E foi aí que começou a minha jornada de mudança do corpo e do duplo através da tatuagem ritual.
Bom, nesse texto eu vou falar sobre tatuagens mágicas. Todas as tatuagens que tenho hoje possuem caráter ritual, mágico ou iniciático. Então deixo claro aqui que não estou falando apenas da arte da tatuagem e seus impactos, mas sim dessa arte atrelada ao ritual. Neste exato momento estou me recuperando de uma tatuagem de caráter iniciático. Nos últimos três anos eu estou sendo levade pelo Rio da Iniciação e estou perto do dia ritual. É comum que em jornadas rumo à iniciação que o iniciador ofereça desafios que te arrastem cada vez mais profundamente no Rio da Iniciação, e uma tatuagem no rosto foi um desses desafios.
Tatuagem para a Divindade ou Espírito
As minhas duas primeiras tatuagens foram dedicadas a duas divindades, e uma delas também tinha um caráter iniciático. Lembro que ainda no estúdio eu senti dois raios me atravessando, era como se eu estivesse três passos à frente, mais perto daquelas divindades. Eu passei a escutar mais alto a voz delas, e de alguma forma meu corpo passou a se inflamar muito mais pelas suas lutas e batalhas. E ainda hoje, décadas depois, meu corpo ainda se inflama ao redor de seus mitos. De alguma forma, assim que saí com aquelas duas marcas, eu percebi como se meu corpo tivesse ganhado um sino, que tocava claramente nos outros mundos uma canção, que permitia que aquelas divindades me encontrassem com maior facilidade, e ao mesmo tempo, que suas magias chegassem até meu corpo.
Certa vez, eu estava em um péssimo momento de vida, eu estava completamente desesperade. Me recordo de catar algumas notas e moedas para ir ao mercado. Eu precisava de algumas raízes, era o que faltava. Já tinha um pouco de ervas e tinha 4 velas para realizar um feitiço/ritual. Eu já tinha visto e feito aquele feitiço várias vezes, para mim e para os outros. Sempre funcionava de imediato. E para isso eu precisava chamar um Deus, oferecer as oferendas e dizer minha petição em voz alta. Aquele Deus nunca deixava ninguém na mão, ele ajudava desde que as oferendas estivessem na ordem correta e no número correto.
Comecei a preparar o espaço ritual, organizar as oferendas e deixar tudo milimetricamente posicionado. Naquele momento aquele feitiço era toda a minha esperança. Foi quando o ar parou e eu vi uma sombra enorme passando correndo atrás de mim. Eu nunca tinha sentido aquele cheiro, não era nenhum dos espíritos que eu tinha contato próximo. Eu senti o tempo desacelerando a ponto que um enjoo correu como um raio no meu corpo. Eu senti a minha pupila dilatando. Então o Deus se mostrou, ele era lindo, uma beleza que me petrificou.
O Deus disse seu nome. Eu nunca o tinha invocado na minha vida, nem mesmo rezado ou acendido velas, mas ele estava ali me olhando com olhos que pareciam famintos. Ele olhava para o cômodo ritualístico devidamente preparado. E ele me disse algo que soou como: “esse feitiço resolve seu problema por breves momentos, eu posso resolver o seu problema de forma definitiva, desde que você me entregue algo.”
Eu, completamente inebriade, perguntei o que o Deus queria e ele disse algo como: “Este ritual será feito em meu nome e você me dará um pedaço da sua carne. Temos um acordo?” Eu respondi um “sim!!!” que pareceu ter rasgado os mundos. Então eu fiz o ritual e o Deus disse que providenciaria os detalhes para eu entregar a oferenda.
Eu já tinha escutado sobre oferecer um pedaço da carne e sangue a algum espírito, eu já tinha feito algumas tatuagens para que determinadas divindades pudessem me encontrar com facilidade. Durante a conversa eu sabia que se tratava disso. Depois desse ritual meu telefone tocou e fiz um atendimento de tarô de emergência e com esse dinheiro eu saí na rua, encontrei um estúdio, o tatuador aumentou em 4 vezes o tamanho pedido (era o Deus ajustando a oferenda) e fiz a tatuagem. Tudo isso em um pequeno espaço de tempo. Em uma semana não só a minha vida tinha tomado outro rumo, como a vida das pessoas que me rodeavam também mudou. O desespero havia partido e a minha sorte tinha mudado de forma drástica.
Os meus ganhos foram bem diretos, eu sabia as consequências daquele pacto e de todos os outros que havia feito antes. Mas, para mim, sempre pareceu algo obscuro o que o Deus ganha com esse pedaço de carne. Como disse antes eu nunca tinha acendido uma vela para a divindade até aquele encontro, nunca tinha rezado e nem mesmo hoje esse Deus está no meu altar, mesmo tendo se passado mais de uma década. Ele não queria culto, ele queria um pedaço da minha carne. E mesmo assim eu sinto uma ligação estranha e mística com ele. Como se os olhos deles pudessem me fitar a qualquer momento, ou que ele pudesse visitar qualquer lugar que eu visito. O Deus nunca quebrou a promessa e eu sigo carregando essa marca.
Eu tenho pelo meu corpo algumas tatuagens para outras divindades, como disse anteriormente. Algumas divindades afirmam que carregar um símbolo delas no corpo permite que elas possam te encontrar a qualquer momento. E nesse quesito quem trabalha com magia sabe que é possível se esconder de qualquer Deus (ou espírito) de forma eficiente e com os rituais corretos. Com essas marcas, é como se a pessoa tatuada tivesse um sino, tornando a bruxa de fácil acesso não só para o Deus, mas para suas bênçãos e maldições, e em um lugar mais profundo, a bruxa se torna uma pequena porta das marés poderosas que atravessam essas divindades.
Eu tenho uma tatuagem em uma língua antiga, com o nome de uma divindade. Eu lembro que quando a escolhi, a Divindade esteve o tempo todo orientando na grafia, no tamanho e no lado do corpo que a tatuagem deveria ser feita. Eu a fiz e depois disso eu ganhei um tipo muito específico de visão, que até então eu não tinha. E que tem total relação com prever coisas que estão chegando no meu caminho, apenas com os olhos. E por mais que uma maldição tenha vindo junto, que vez ou outra faz as pessoas não acreditarem no que está por vir, ainda sim foi um negócio muito conveniente para mim. Já do lado da divindade, o trabalho de possessão se tornou bem mais fluído e fácil, a divindade entra no meu corpo de forma rápida e potente, o que me permite ser possuíde mesmo sem auxílio e supervisão de outras bruxas. A quantidade de vezes que raios solares me atingem em dias nublados aumentou consideravelmente, e parece que esse foi um efeito colateral que faz a divindade ficar muito próxima quando isso acontece, e que não tem um motivo ou razão por trás, apenas é.
Uma tatuagem desse tipo pode aumentar significativamente a comunicação com a Divindade, bem como facilitar que os poderes sob seus cuidados cheguem de forma visceral até o corpo. O Deus também conseguirá te ver, seja onde for, e nem mesmo a névoa dos outros mundos conseguirá impedir esse olhar. Em alguma medida, a marca da Divindade fica explícita e visível para outros espíritos, para os outros reinos, para as marés de poder relacionadas e para os outros mundos… Com exceção quando a Divindade, o Espírito ou a Bruxa decidem escondê-la em curtos períodos de tempo.
Sobre observações para além do corpo. Quando uma pessoa carrega uma marca (tatuagem) de uma divindade, o poder inebriante desse espírito pode impactar as pessoas ao redor, ou o ambiente, e de uma forma mais drástica e rara, o clima, causando ventanias, tempestades e mudanças drásticas de temperatura. Não é raro que pessoas que carregam a marca de uma divindade interajam com pessoas que têm a atenção da divindade, seja para distribuir uma benção, uma maldição ou até mesmo um recado, que se derrama de forma mistérica da boca do tatuado. Os Deuses e Espíritos, até onde eu sei, sabem se aproveitar muito bem dessas marcas na pele. Ou como eles chamariam, oferendas de carne e sangue. Não é raro bruxas se encontrarem com pessoas que possuem rostos de divindades na pele e acontecer o mesmo que acontece com esculturas físicas que estão repletas do poder daquele ser, a pintura da divindade se movimenta, brilha ou move os olhos. Se mostrando completamente viva ali.
E claro, os deuses são uma parcela pequena dos outros mundos, e isso os sacerdotes odeiam admitir. Tatuagens com plantas de poder, de rochas específicas, insetos ou outros animais podem trazer correntes poderosas que envolvem a singularidade desses seres, permitindo assim uma conexão forte e íntima com esses espíritos. Afinal de contas, a maioria de nós não tatuamos aquilo que odiamos, mas aquilo que desejamos e amamos, em força e beleza.
Tatuagem de Iniciação/Tatuagem Iniciática
Há um bom tempo, depois de cumprir vários desafios, em uma reunião com minha iniciadora, ela parou por um instante pensativa, seu rosto mudou completamente e eu sabia que ela estava escutando os outros mundos. Então ela me deu um desafio, que eu fizesse uma tatuagem no rosto que expressasse todo o nosso trabalho até então, como uma linha que pudesse unir os meus lábios ao meu coração. Nesse momento, eu senti como se um raio de luz solar, após uma tempestade, iluminasse o meu rosto. Desafios devem ser cumpridos para que o ritual aconteça e assim foi. Eu fui nos outros mundos e peguei exatamente a imagem que vibrava do outro lado, raios que atravessam de um lado a outro, os desenhei delicadamente com maquiagem e finalmente fui até minha tatuadora. Foi uma tatuagem bem dolorida.
Nesse sentido eu ainda estou entendendo os impactos dessa tatuagem e o quanto ela modificou meu duplo, apesar de sentir essa mudança semanas antes da feitura da tatuagem. Eu caí em uma doença desconfortável e violenta, envolvendo a região da boca. Doenças iniciáticas são comuns em algumas bruxas, precedendo o momento da iniciação, onde o corpo entra em colapso para que o poder possa se manifestar ali. Conta o lore, que depois dessa doença, a bruxa volta com a visão do mundo dos mortos e das fadas, pois algo da bruxa morreu na doença e a mesma passou a ser uma com os mortos (todos aqueles espíritos que não possuem um corpo como o nosso). Talvez no meu caso, uma nova língua começou a se mover como uma serpente dentro da minha boca, ou como um raio capaz de criar fogo, vidro e barulhos que atravessam os mundos.
Eu tenho outras tatuagens no rosto, e todas elas têm relação com as iniciações que passei a partir de 2019. De fato eu vi algo do outro lado que me impactou de forma profunda e precisei marcar na minha pele algumas dessas coisas, e por consequência, meu duplo foi marcado (ou talvez essa ordem tenha sido ao contrário). As primeiras tatuagens que fiz, foram duas pequenas, e elas mudaram discretamente o meu duplo, uma delas era uma tatuagem iniciática (ligada a uma divindade), a outra apenas para uma divindade. Com o passar dos anos eu percebia que meu duplo mudava cada vez mais que eu fazia uma nova tatuagem ritualística. De fato, hoje minha aparência física é bem diferente, assim como meu duplo está cada vez mais parecido como pertencente aos outros mundos.
Meu Companheiro do Fetch costuma “brincar” constantemente comigo, dizendo que quanto mais ele se envolve com minha parte humana, a minha aparência fica cada vez mais parecida com ele e com os reinos subterrâneos onde as estrelas dormem e despertam. E que minhas marcas estão cada vez mais parecidas com as marcas dos espíritos. E de fato estamos, de forma mistérica, cada vez mais parecidos, não só no meu corpo físico, mas no meu duplo. Isso pode acontecer na relação de uma bruxa com espíritos, em trabalhos sacerdotais íntimos com uma divindade, ou ainda na relação profunda com outra bruxa. Dá para se parecer mais, seja fisicamente ou no duplo (ou ainda nos dois). E quanto a tatuagens, elas ajudam drasticamente esse processo de transformação. Marcar no corpo é marcar no espírito, e isso é algo poderoso.
Marcas de iniciação remetem aos poderes de uma tradição, de um clã ou de um povo. E quando falo isso eu estou apontando para os poderes que dançam com um clã, e não só os mistérios humanos, mas os poderes e mistérios não humanos. Estou falando de bruxas, espíritos, marés de poder, mortos e muitas outras nuances que compõem o que chamamos de tradição. Naturalmente em uma iniciação a bruxa é marcada com esses poderes em seu duplo, e às vezes essas marcas extrapolam o espírito e precisam ser marcadas na pele, na carne e no sangue. A tatuagem é o método mais eficiente para isso. E essa não é uma forma de tatuagem rara de ser vista no corpo de bruxas.
Existe uma magia de tempo estranha. De alguma forma quando trazemos a tatuagem para o corpo, os outros mundos já providenciam que ela seja devidamente marcada no duplo. O que por vezes pode causar uma grande confusão: onde a marca chegou primeiro? A resposta não é simples e abraçar o mistério é a única opção. Uma tatuagem na pele reforça o que já pode existir no duplo, e antes de qualquer tatuagem a marca mágica já te espera em um lugar de limiar, nos outros mundos e nos diversos reinos à sombra do nosso.
Tatuagem com os Poderes de um Reino ou de uma Habilidade Mágica
Algumas bruxas decidem fazer uma tatuagem para atrair parte de um reino, ou permitir que aquela parte do corpo ganhe habilidades relacionadas àquele lugar nos outros mundos. Esse é um tipo mais raro de tatuagem, mas já vi um pequeno punhado de bruxas que trabalharam dessa forma. A maioria bem consciente de seus atos, outras em um estranho estado de transe obsceno que atravessou os outros mundos e decidiu por ela. Seja qual for o caminho, os efeitos são os mesmos.
Essa conexão pode ser com o mundo dos mortos ou o reino da morte, outros têm marcas que se elevam até os 7 céus, outras puxam fios do próprio mundo das fadas para seu corpo, ou ainda possuem marcas que às conetam aos poderes da natureza viva. De alguma forma a parte tatuada passa a pertencer àquele domínio, que em sua maioria pertencem aos outros mundos, e em outra escala podem pertencer a locais de poder do nosso mundo ou forças da natureza.
A maioria das minhas tatuagens surgem de sonhos, ou de projeções ou ainda quando estou caminhando no entre mundos. E a crença no mundo das fadas é uma parte enorme no meu caminho, todas as bruxas que pertencem a linhagens que faço parte possuem uma relação profunda com o Rei e a Rainha das Fadas, bem como uma gama gigantesca de seres que se relacionam com esse mundo, incluíndo mortos humanos (que foram iniciados na tradição em vida) e principalmente mortos não humanos.
O recado dos fae era claro: “queremos o seu braço esquerdo! O braço do diabo, o braço das fadas, o braço que encosta nos reinos proíbidos, daquele que aperta a mão dos seres terríveis e que pode de forma terrível contorcer o destino. Nos entregue aquilo que é seu, então isso será nosso!!!” Em alguma medida eu sentia as minhas almas e meu corpo dizendo “sim" e sabia que isso impactaria não só no destino, mas na minha forma de tecer magia. Não foi um acordo, foi o único destino a ser tomado, eu havia encontrado o inevitável.
Eu encontrei um tatuador de índole duvidosa, com um nome nórdico, então eu disse três exigências da tatuagem, e permiti que ele desenhasse a mão livre. Foram 7 horas, e eu senti como se eu estivesse enfiando o meu braço em um poço escuro e como se diversos dentes tentassem arrancá-lo. Eu gostei da tatuagem, mas o esforço e a dor me renderam 3 desmaios naquela noite e eu descobri um limite importante do meu corpo (não recomendo nenhuma bruxa a chegar nesse limite). A recuperação foi a mais demorada que tive.
Depois disso, uma camada de magia chegou em minha vida. Meus feitiços passaram a ser contaminados com aquele reino, e meu duplo se modificou de forma drástica e podendo ser considerada até mesmo como assustadora. Todas essas coisas me favoreceram em minhas andanças nos outros mundos e na minha interação com os espíritos que têm origem no subterrâneo e nas densas florestas. Eu também consegui uma habilidade estranha de ser trickster em determinados momentos, mesmo sempre tendo que falar a verdade antes do término do dia. (Inclusive as bruxas do meu clã saberão exatamente do que estou falando, não prometo não repetir).
De alguma forma, tatuagens rituais acabam trazendo habilidades mágicas como consequência secundária. Ainda assim, algumas bruxas podem trazer nessas marcas uma forma de potencializar algumas habilidades. Não é raro ver algumas bruxas com diversos olhos tatuados pelo corpo, a maioria dessas bruxas buscam com isso uma visão mais aguçada. Quando tatuamos um olho no corpo, o nosso duplo literalmente ganha esse olho a mais. Então o alcance dos outros mundos, do reino dos espíritos e da possível visão das linhas do destino podem ficar bem mais claros, como um céu azulado ou uma noite sem nuvens.
Eu também já testemunhei pessoas que tatuam cartas de tarô, e que suas vidas foram diretamente impactadas por aqueles arcanos. Uma vez testemunhei uma pessoa com um 3 de espadas (Rider-Waite-Smith) na perna, toda história de vida daquela pessoa remetia àquele arcano, eu nunca soube quem veio primeiro, a dor ou a tatuagem, apesar que nos outros mundos, passado, futuro e presente se misturam de forma estranha e mistérica. Também já testemunhei pessoas que encarnaram muito bem o Arcano Maior escolhido.
Eu já vi pessoas com plantas tatuadas que tinham uma habilidade surreal com jardins, reflorestamento e ou com a arte das ervas. Também já vi pessoas com besouros tatuados e que faziam um trabalho surreal de preservação e divulgação científica com insetos. Tatuagens sempre informarão muito sobre quem são as pessoas ou bruxas que a carregam (e aqui eu diferencio bruxas de humanos normais de propósito, para que lembremos que a bruxa pertence aos reinos da morte muito antes de sua própria morte física).
Tatuagem de Sigilo
A arte dos sigilos é uma das formas de magia mais crescentes nos últimos tempos. E por consequência, bruxas têm feito esses sigilos em suas peles buscando se beneficiar de seus efeitos e intenções. A maioria das bruxas preferem de alguma forma fazer esses sigilos, elas próprias, driblando assim possíveis sigilos com segundas intenções escondidas (os ocultistas podem ter péssimos hábitos). Outras confiam em determinados trabalhos de pessoas e se apropriam dessa arte. Seja como for, sigilos são formas eficazes de trazer intenções para o corpo e o duplo da bruxa. Apenas se lembre que tatuagens costumam ser para a vida inteira e até mesmo depois da morte: o morto que nascer da sua queda, carregará essas marcas nos outros mundos.
Esse é um tipo de arte que pode englobar todas as tatuagens que citei até agora, e por isso sigilos tem se tornado cada vez mais populares. Eu já criei alguns sigilos muito importantes para mim. Um de poder pessoal que eu tatuaria tranquilamente em alguma parte do corpo, um de proteção para bruxas queers que super colocaria no meu corpo e um que pertence ao meu Companheiro do Fetch. Mas nenhuma dessas marcas ressoou com meu duplo e nem senti os outros mundos chamando por isso.
O sigilo do meu Companheiro do Fetch é a marca mais tentadora pelos benefícios que eu teria, porém deixar essa marca exposta para outras pessoas não me parece uma boa ideia, não por agora. Mesmo que seja em uma localização escondida, mesmo assim outras bruxas veriam vez ou outra. E claramente eu não escutei do meu Companheiro do Fetch o “é isso!”. E isso que eu citei é de suma importância: ao fazer uma marca você precisa desejá-la com todas as forças, sentir os outros mundos clamando por ela e ter aquele senso de um grande “é isso e é inevitável” passando pelo corpo e todas as suas almas.
Cuidados
Não irei me ater apenas aos cuidados em fazer uma tatuagem, como por exemplo entender que uma tatuagem não sai facilmente do corpo e sessões de laser são um completo desastre, na minha humilde opinião. Ou de como é importante escolher o desenho ou que em diferentes partes do corpo a tinta fixa de uma maneira diferente. Ou quanto linhas finas muito perto ou letras pequenas são uma péssima ideia a longo prazo. Tatuadores experientes falam o tempo todo disso e vocês podem pesquisar a fundo na internet.
Bom, você até pode fazer um atropelamento (ato de cobrir a tatuagem mágica com outra tatuagem ou com blackout), ainda assim o momento envolvendo a carne, o sangue e a tinta não pode ser anulado, e realmente esse é o pico da magia de qualquer tatuagem mágica, o ato onde agulhas perfuram durante longos períodos a sua carne, injetando tinta que morará em seu corpo e invocará os poderes dos outros mundos. Você pode até borrar a tatuagem nos outros mundos, mas as cicatrizes ainda estarão ali enterradas em uma grande neblina estranha. E isso pode ser extremamente triste para algumas pessoas, mas assim como na bruxaria, não há nada seguro na tatuagem ritual.
Eu tenho uma tatuagem iniciática do primeiro lugar que fiz parte, que foi um lugar extremamente danoso. E por mais que eu tenha destruído todas as minhas ferramentas antes de ser oficialmente recebide na Feri e adentrar na Reclaiming, essa tatuagem ainda está no meu corpo. Mesmo tendo abandonado aquela fé estranha (e estranha no sentido péssimo da palavra), os deuses que me apadrinhavam naquela época ainda estão aqui. Não seria justo comigo e nem com a minha história atropelar essa marca específica. E por mais que o templo tenha desabado, essa é uma cicatriz que me orgulho. E com o passar dos anos as linhas de aka com as pessoas daquela época foram secando, e apenas alguns espíritos ficaram.
Outra coisa importante. Tatuagens envelhecem com o corpo, as suas linhas se espalham delicadamente com o tempo. Tenha ciência disso e honre a bruxaria que também honra o que envelhece. Em Feri temos uma deusa chamada Anna dos Mistérios Proibidos, ela nos lembra que envelhecemos a cada dia, e tatuagens fazem parte da carne. Isso não diminui os poderes dos outros mundos imbuídos ali, muito pelo contrário, quanto mais tempo uma marca na pele é carregada, mais acostumada com as correntes de poder a bruxa fica.
Saiba que uma tatuagem mágica muda o duplo. Tudo que fazemos no nosso corpo, muda o nosso duplo. Tenha ciência disso e não se assuste com as mudanças dos outros mundos. Os outros mundos podem reagir de forma completamente diferente depois de você carregar uma marca dessas.
As bruxas fazem tatuagens por motivos muito claros. Acessar os outros mundos, ser marcada por uma divindade ou espírito, ser reconhecida em um clã, como oferenda e muitas outras formas. Nesse texto eu citei apenas algumas formas que testemunho diariamente e que posso falar mais abertamente.
Enquanto bruxa, uma coisa é muito importante, toda tatuagem ritual me fará mais apetitosa para os espíritos, elas facilitarão o contato com os outros mundos. E isso é uma coisa que eu nunca esqueço quando busco as marcas do outro lado, e não esqueço nem mesmo enquanto estou sentindo as agulhas rasgando e colorindo a minha carne. Você deve salivar com suas marcas! E arrependimentos não são, nem de longe, uma possibilidade. A tatuagem ritual sempre será sobre destino.
Dito isto, eu adoraria escutar de outras bruxas que mudanças elas sentiram nos seus duplos, e em suas vidas, depois de serem marcadas nesse ritual de carne, sangue e tinta.
Com amor e marcas estranhas, Fae
“A manifestação mais pura de um lugar, paisagem ou formação natural. A presença de tudo que é selvagem e ainda resiste.”
A bússola das bruxas. 7 de março de 2023
Espíritos Locais são aqueles seres que são intimamente ligados com à terra. São a manifestação mais pura de um lugar, paisagem ou formação natural. A presença de tudo que é selvagem e ainda resiste. Sem a ação desses seres o céu perde a cor, a chuva corrói a carne e a madeira, e o solo deixa de ser um lugar de vida e até mesmo a morte passa a ser vazia, existindo, mas sem a grande explosão de vida. Os corações dos Espíritos Locais podem estar em uma árvore ou em várias, em um lago ou em uma vasta paisagem, num grande rio ou numa pequena nascente, em uma rocha enorme ou em um agrupamento de pequenos cristais ou areia, e em muitos casos podem estar enraizados nas fundações de grandes cidades.
Eles podem ser pequenos ou colossais. Podem ter milhares de anos ou pouquíssimas décadas, e às vezes podem ser recém-nascidos em locais com formação geológica intensa, com terremotos ou vulcões ou até mesmo em locais de reflorestamento, quando as pessoas, ou os pássaros ou o vento espalham sementes ou ainda quando o concreto racha dando vazão ao verde, e até mesmo no musgo e no mofo do amanhecer. Um espírito local pode nascer em seu jardim, em seu quintal, desde que haja condições muito favoráveis para isso. Assim como tempestades repetitivas, de forma anual, podem conter grandes espíritos com uma mobilidade bem maior. Eles também habitam as nossas intocadas florestas, os céus, as regiões de campo e as grandes cidades. Se rastejando pelas fissuras do concreto e caminhando de dentro dos parques e jardins, ou até mesmo existindo escondidos debaixo do solo. Alguns nunca procuram bruxas ou humanos, outros tem uma curiosidade ou desejam algo de nós, já que nós pertencemos às suas paisagens, o contato não costuma ser difícil entre as décadas de convívio.
Eu não lembro exatamente quando eu ganhei a visão dos outros mundo. O momento exato em que os olhos de uma bruxa são sujos com ervas que só existem no mundo das fadas pode acontecer desde antes do nascimento, mas também se repetir durante toda infância e vida adulta. Algumas pessoas carregam esse misterioso unguento por vidas a fio, como uma sina que pode ser abraçada como inevitável ou odiada como uma terrível maldição.
Existem formas misteriosas dos espíritos, que concederam essa visão, retirá-la de forma permanente, em um doloroso e cruel ato de furar os olhos. De fato, algumas pessoas ganham essa visão de forma acidental, outras são escolhidas a dedo para pactos importantes que costumam envolver mais de duas partes. E nesse quesito os Deuses como conhecemos são apenas parte da ponta mais alta da montanha. A quantidade de espíritos selvagens é enorme e nenhuma mitologia no mundo seria capaz de catalogá-la, não sem ser fulminada completamente pelo poder visceral dos outros mundos.
Eu lembro que na infância eu percebi que só eu estava vendo uma coisa. Eu lembro de estar com duas crianças perto de mim, apontando para uma coisa em um arbusto e dizendo: - olhe aquele animal. Ninguém viu. O ser veio até meus pés e se aconchegou, e me acompanhou e me protegeu durante uns 15 anos, e esteve presente quando presenciei um dos episódios mais violentos de possessão que vi na vida. Ainda bem que esse espírito estava lá comigo.
Sua aparência lembrava uma forma animal, porém com proporções um pouco confusas. Conforme eu crescia o ser aumentava de tamanho e se tornava mais forte para influenciar no mundo dos vivos, seja atormentando as pessoas ou invadindo seus sonhos. Por vezes o espírito se comportava como um cão de guarda, grunhindo quando havia perigo, permitindo que eu ganhasse tempo em diversas situações.
Talvez o momento em que aprendi a me defender sozinhe com magia foi crucial para este ser me deixar para sempre. Seu desaparecimento foi repentino, mas ainda consegui por anos ver o rosto do mesmo em datas de poder, no fogo da fogueira ou na densa fumaça dos rituais realizados na natureza aberta. Talvez a árvore que era sua morada tenha sido arrancada com lâminas metálicas (o bairro tinha mudado drasticamente em 15 anos) ou ele tenha sido convocado novamente para as camadas mais profundas da terra que a maioria das bruxas vivas não conseguem alcançar. Eu realmente não sei. Talvez ainda nessa vida eu tenha algumas respostas. Talvez meu atual Companheiro do Fetch saiba de algo. Aquilo que é lembrado ainda pulsa na terra debaixo de nossos pés.
Neste exato momento debaixo de seus pés, uma infinidade de espíritos podem morar ou estar passando de um lado a outro pelo subterrâneo. Escondidos de seus olhos mortais e até mesmo escondidos de seus olhos de bruxa. Com toda certeza um espírito compartilha a mesma terra que você nesse instante, e talvez vocês ainda não se conheçam. E talvez alguns já te observem e te anseiam, outros se esconderão para sempre pois essa é a natureza selvagem deles.
Eu morei muitos anos em um bairro histórico do Rio de Janeiro. Eu conheci muitos espíritos errantes e viajantes enquanto morava no centro do segundo coração da cidade e atual zona central. Ao voar com meu espírito a cor púrpura reinava naquele lugar, era agradável apesar de que naqueles anos as árvores sofreram de um mal na principal rua, talvez envenenadas ou doentes, alguma coisa estranha rondava aquele solo. Muitas árvores caíram mesmo não tendo vento nem tempestades. As raízes estavam fracas e os troncos doentes. Os espíritos da terra estavam completamente inquietos.
Certa vez, já no meu terceiro endereço naquele bairro, eu fiz um aterramento e junto de minhas raízes eu lancei meu espírito. De fato eu aproveito esses momentos para fazer oferendas aos espíritos da terra, conhecidos e desconhecidos. Quando estava embaixo da terra eu vi um grande rosto de cavalo me encarando de forma ameaçadora. Ele me disse que era o espírito daquele local e estava interessado em fazer um acordo. Eu passei anos entregando algo para ele enquanto ele me oferecia proteção naquele bairro (que não era lá muito seguro). Quando estava para me mudar, a primeira coisa que fiz foi descer até o reino subterrâneo para me despedir e mudar nosso acordo, já que ficaria longe geograficamente e os nossos encontros ficariam bem mais espaçados e raros.
Lembro que na época que o conheci fiquei muito curiose pelo motivo dele ter a aparência de um cavalo. Eu sempre vi muitos espíritos que lembraram animais, plantas, ou um misto de coisas (incluíndo formas humanas ou de humanos mortos). Algum tempo depois tentei perguntar diretamente a ele, mas eu só recebi uma resposta que soava como “sou o que sou e está óbvio”, “você já tem essa resposta” ou “está tudo na terra”.
Dias depois, enquanto trabalhava em um museu, eu peguei uma gravura do bairro que morava. Um aqueduto, uma lagoa que tinha desaparecido, algumas pessoas. Eu já tinha visto gravuras como aquela dezenas de vezes. Então eu vi os cavalos na lagoa e eles pareciam brilhar. Fui rever as anotações, havia uma menção à Rua Mata Cavalos, apelidada dessa forma pois os cavalos chegavam exaustos ali. Voltando para casa, olhei para a fonte de água desativada da época do império na exata esquina do meu quarteirão, um lugar perfeito para os cavalos beberem água. Depois disso vi muitas outras gravuras ou fotografias onde cavalos apareciam naquela região. A quantidade de cavalos que passavam ou morriam ali devia ser enorme.
E eu fui até o espírito para dizer tudo que vi. Não é que eu o visitava muito, mas habitávamos o mesmo local, eu acima da terra, ele debaixo do solo. Então o contato era fácil, apesar de eu nunca ter visto ele andando por cima da terra, apenas por baixo. Nesse encontro eu contei tudo que vi e ele apenas me respondeu algo que soou como: “eu devorei muitos cavalos, muitos ossos de cavalos.” De alguma forma naquele momento meus olhos de bruxa foram além da pele que o espírito vestia, e eu vi uma forma tão antiga quanto o próprio tempo. Algo assustador que minha mente mal conseguia processar. E ao mesmo tempo era algo belo para meu gosto pessoal. O espírito também me relatou sentir falta dos cavalos batendo na terra, e seu olhar ficava estranho quando tocávamos nesse assunto.
As bruxas vestem várias peles, e uma bruxa consegue, se assim desejar, mudar completamente sua aparência conforme os anos passam. Eu tenho ao longo dos últimos anos mudado a minha aparência para ficar mais apetitose para o mundo dos espíritos e até mesmo mais alinhade ao meu Santo Demônio. Eu puxo os fios do outro lado, e ancoro neste mundo através de tatuagens. De fato, todas as tatuagens que tenho são mágicas e algumas delas tem a ver com iniciações que passei. Assim como as bruxas, espíritos podem ao longo de muitos séculos, como o caso do Espírito Cavalo, mudar seu próprio corpo.
Eu já presenciei um espírito de uma árvore muito forte, que pegou há décadas atrás emprestado a pele de uma mulher assassinada na ditadura, e usa essa roupa por anos a fio, a tal ponto que as duas coisas se tornaram uma só. Não havia mais diferença do fantasma para a árvore. Nos últimos momentos da mulher, apenas as raízes a acolheram e ela tinha em sua mente a árvore que ela achava tão bela. Isso foi o próprio espírito que me relatou.
Para aqueles que o viam, aquilo era um fantasma de mulher ensanguentada que assombrava o jardim daquele prédio histórico, mas que um olhar mais atento podia mostrar suas raízes o segurando por todos os lados. Esse espírito adora (e falo no presente porque é uma árvore do centro do Rio e ainda está de pé) os seres humanos e por esse motivo se revela constantemente para um número significativo de pessoas que frequentam o prédio. Eu também acredito que nem mesmo a queda da árvore fará aquele espírito partir. E daqui muitas décadas, ou em um ou dois séculos, talvez ele seja um espírito muito grandioso daquela região. E isso vai ser muito produtivo para os humanos que habitam ou passam por lá, já que o mesmo tem um senso forte de “preciso proteger as pessoas”.
Quando cheguei na minha nova moradia, que habito neste momento, eu senti um silêncio estranho dos espíritos locais. Existe um complexo formado por morros que eram ilhas, mas que foram aterrados em pequenas faixas. Existe uma pequena porção de mata que atrai muitos pássaros. Aqui é um lugar turístico, de uma forma um pouco diferente e mais intensa que minha última moradia.
Eu e Lilo passamos meses fazendo nossos rituais até que ficamos saborosas o suficiente e dignas da atenção dos espíritos maiores dessa região. Lilo foi chamada para a Grande Rocha e eu fui chamade pelo mar da Baía. Dois espíritos diferentes que habitam o mesmo território. O da Baía possuí a forma de uma grande tartaruga marinha, e parecia ser tão antiga quanto o tempo, e seus cascos parecem um mosaico de segredos. Acredito que daqui uns bons anos nossa relação irá se fortalecer. Por enquanto estamos a quase dois anos estreitando pequenos acordos e encontros. Há alguns meses eu coloquei no meu altar um objeto que esse espírito pediu. Agora estreitamos um pouco mais os fios de Aka que nos conectam (em Feri/Faery, fios de aka são fios que ligam todas as coisas, e que permitem que força vital passeie de um lado a outro. Se você toca em algo, há um fio de aka ali).
Bom, o espírito que se mostrou para Lilo, nunca conversou diretamente comigo. Mas um dia eu estava no sofá, e eu olhei para fora, e o ar estava um pouco diferente. No meio das árvores ao pé da montanha, lá estava ele me olhando, exatamente na forma que Lilo havia descrito, porém um pouco mais impressionante. Talvez com o passar dos anos possamos trocar algumas palavras, e quem sabe fazer um pacto. Por enquanto temos a troca de olhares inicial que é extremamente importante nessas relações. Quando olhamos os outros mundos é necessário que o outro mundo olhe de volta.
Há muito tempo, quando me mudei para essa cidade, um grande espírito que disse ser o espírito da própria cidade se apresentou. Parecia um grande golfinho, mas ao olhar mais fundo dava para ver algo que podia ter milênios de idade. Ao mesmo tempo, ele parecia ter feito acordos com diferentes civilizações e povos. Era um ser grandioso. Ele me deu algumas instruções e hoje eu tenho um anel que tem a forma dele como um forte amuleto. Na época eu estudei heráldica e entendi melhor a relação dos golfinhos com a cidade do Rio de Janeiro, que é tão íntima. E de como esse espírito tem domínio de toda cidade e seu alcance vai para bem mais além. Alguns espíritos são tão grandiosos que conseguem acessar diferentes cidades e lugares bem longínquos, suas raízes estão naquela terra, mas seus tentáculos conseguem atravessar o planeta, possuindo um poder infinitamente menor, mas ainda assim conseguem influenciar pequenas coisas. Espíritos de grandes cidades conseguem facilmente acompanhar viajantes ou objetos que atravessam os oceanos. Por isso esse espírito específico me pediu um anel.
Bom, os espíritos locais podem ter formas das mais diversas. Podem ser monstruosos como a natureza selvagem o é. Talvez muitos usem a forma animal ou variações da forma animal para serem mais atraentes para a humanidade. Alguns até mesmo imitam os fantasmas humanos ou os devoram, se tornando “um só”. Há aqueles que são formas nem um pouco parecidas com o que conhecemos. E alguns roubam o rosto, a pele e a voz de humanos vivos. Qualquer bruxa pode visitar o Jardim Botânico e ver como muitas hamadríades (ou espírito de uma árvore) roubaram parte da aparência humana e assim se comunicam de forma mais clara com a humanidade.
Muitos desses seres, conforme as cidades crescem, são empurrados para o subsolo. Outros vão para o subsolo por livre escolha, escolhendo ficar longe de tudo aquilo que é humano. Outros são entusiastas e colecionam pactos com bruxas. Muitos caminham livremente por ruas, parques e invadem residências com muita constância. Apesar que isso nem pode ser considerado invasão, já que alguns podem ter séculos de idade. Outros milênios. Alguns possuem acordos silenciosos com toda a população, aparecendo em bandeiras e escudos de suas cidades, ou se tornam símbolos vivos daquele povo.
Estabelecer bons acordos e trabalhar com esses seres é uma das formas mais potentes das bruxas se estabelecerem em novas terras ou até mesmo se aprofundarem nos mistérios da terra em que nasceram. Esses seres conhecem essa terra há centenas de anos, alguns viram povos surgirem e desaparecerem. E eles possuem uma estranha sabedoria dos outros mundos em seus corpos.
Mas lembre-se, a maioria dos espíritos que encontrei não desejavam culto, a maioria dos seres que fazem acordo conosco querem algo. E eles vão dizer o que é e em troca eles te darão certos benefícios, bênçãos, emprestarão sua pele, te darão suportes do outro lado e facilitarão sua vida na cidade em que você habita ou visita constantemente. Nunca tente passar a perna nesses espíritos, eles podem te achar bem rápido e te reconhecer pelos seus passos, andando ou correndo. E sua respiração é quase uma impressão digital que soa como uma trombeta do outro lado. Não esqueça disto.
Dito isto, abra seus olhos de bruxa e olhe para o chão. Veja se algum rosto te chama. Preste atenção nos cantos vazios da sua casa, nos barulhos do jardim, dos jarros ou parques de sua cidade. Procure pelas grandes pedras que podem estar chamando o seu nome. Deixe que a terra te mostre os sinais até Eles…
-Talvez em algum momento eu trabalhe um bestiário mais exato daquilo que já encontrei, mas é possível de eu voltar nesse assunto diversas vezes por aqui.
Bênçãos Selvagens, Fae. 17 de fevereiro de 2026.
A bruxa e o Espírito Local. 3 de junho de 2022.
A bruxa e o Espírito Local. 12 de abril de 2024.
A arte sempre foi um fio condutor para o poder dos outros mundos se manifestar. E continuará sendo. Um objeto artístico que atiça o Fetch sempre será um condutor perfeito para os outros mundos, permitindo que o poder migre de um lado para o outro.
Este não é um texto histórico sobre bruxaria, e caso seja essa a sua busca eu te aconselho a desistir aqui. Esse também não é um texto destinado a pessoas que não tenham pelo menos um de seus olhos sujos pelo misterioso unguento que permite ver o outro lado.
As bruxas que seguem os caminhos que sigo trabalham constantemente com as Três Almas. E para nos comunicarmos com o Reino dos Deuses é preciso estimular o nosso Fetch, nossa alma mais animal e selvagem. É através dela que chegamos nos reinos mais viscerais da magia. E é por esse motivo que quando escutamos uma música, dançamos, ritualizamos ou transamos, os outros reinos se abrem tão facilmente para nós.
O Mago, Tarô Feri/Faery. Por Fae.
O Fetch é um canal perfeito entre as outras duas almas da bruxa: o Falante, nossa alma que guarda a fala e o conhecimento, e o Santo Demônio, a nossa alma imortal que sobrevoa o nosso crânio, nosso pássaro mais sagrado...
Claro que toda essa dinâmica acontece de forma literal dentro do Corpo Físico da bruxa, envolvendo sangue, ossos e carne. Estimular o Fetch é primordial para o sucesso em operações mágicas. Por esse motivo gostamos de usar ferramentas, construímos altares, fazemos invocações, cantamos e estimulamos a nossa sexualidade em nossos rituais. De qualquer forma, em breve escrevo um texto falando apenas sobre as três almas, pois o que falei até aqui é bem limitado.
Ao longo de toda história humana conhecida a arte foi um grande receptáculo de sonhos. E lembramos aqui que o mundo dos sonhos é muito mais próximo do mundo dos mortos, do reino das fadas e dos infernos do que podemos conceber com nossos Falantes. A arte é uma mensagem clara dos outros mundos que atravessou o Fetch, invadiu o Falante e se materializou em nosso mundo. E por ter feito esse caminho a arte pode transportar o humano de volta para os Infernos ou para o Reino dos Deuses.
Mitos, contos de fadas e novas histórias dos espíritos sempre serão dançados, de forma literal, pela bruxa. Essas histórias ligam profundamente o Fetch ao Mistério. E com isso uma bruxa produzirá arte ao seu redor: dança, pintura, desenho, poesias, contação de mitos de seus espíritos amados, invocações diversas e muitas outras manifestações nesse mundo. A beleza selvagem transbordará dela, sendo fácil identificar quem recebeu o presente dos outros mundos de quem é apenas um corpo seco e sem vida, da perspectiva feérica.
Para a bruxa de olhos manchados dos outros mundos mais vale um desenho, um conto ou um mito do que um documento oficial do governo ou algum livro enfadonho de mais de 2000 anos, ou qualquer grimório sem vida. As novas histórias precisam ser pronunciadas pela língua de prata que não pode mentir. E as velhas histórias precisam correr por elas tão livres e metamorfas quanto os pássaros ao alvorecer.
E pessoas, eu amo documentos históricos, amo grimórios e registros do ocultismo, esse não é o problema. O problema é quando alguém acha que para ser bruxa ela precisa desses livros. Conheço verdadeiras enciclopédias humanas que sabem recitar todas as tabelas, horários e correspondências mas que nenhum mistério nunca tocou nem sua carne, nem seu sangue e nem seus ossos. Conheço pessoas que recitam hinos tão antigos quanto a história humana mas que não conseguem resultados algum e que os espíritos se negam a se manifestar de forma física em seus círculos.
Assim como pessoas sem conhecimento histórico podem ser bruxas mestras na arte de desbravar os outros mundos ou enxergar os reinos ocultos. Pessoas sem treinamento formal podem ser viajantes astrais exímios. Ou forjar pactos com espíritos realmente importantes para seu destino. Assim como é completamente possível moldar uma bruxa independente da escolaridade da mesma. Afinal de contas, a bruxaria que eu conheço é oral.
Bom, e há aquelas bruxas obcecadas pelo passado e que conseguem tocar o mistério. E em suas construções e criações ela pode referenciar povos antigos, ou a língua das runas ou serem fluentes nas cartas do tarô de Marselha. Algumas serão verdadeiras arqueólogas, buscando fagulhas perdidas em diferentes civilizações caídas. Mas o que elas fazem não é uma repetição obcecada, mas é a nova obra convocada do próprio tempo espiral. A Arte (bruxaria) que eu conheço é feita de criação, movimento e de passar pela cerca que separa os muitos mundos.
E agora vamos descer alguns degraus sobre a bruxa, a bruxaria e a arte.
Era uma vez um espírito que se levantou da terra, rastejou até as pernas da bruxa, subiu e disse “oi!” em seu ouvido. Ele contou sobre as estrelas caídas dentro da terra. A própria bruxa um dia tinha rastejado através das fronteiras do entre mundos. Talvez por isso esse rastejar conecte de forma tão potente a bruxa e o familiar. Então os besouros luminosos brotaram da terra e se espalharam pela noite, enquanto se ouvia a risada Daquele que havia presenteado a Bruxa com aquele Companheiro do Fetch tão peculiar. Um canto melodioso rasgou os mundos naquela noite. A floresta parecia silenciosamente viva e cheia de olhos. A montanha parecia sussurrar alguma coisa enquanto os céus estavam inquietos.
Há algo de poético e artístico que brota de nossas histórias. O Companheiro do Fetch se arrasta por cima da cerca e começa a habitar o nosso mundo. Como um processo artístico, ele se torna mais e mais palpável em nosso mundo, e este é o poder que ele ganha em se aliar com uma bruxa. A bruxa pinta a sua Casa de Espíritos, com um pincel desenha seu sigilo, canta de forma misteriosa o seu nome, e começa a se envolver de forma profunda e visceral com o mesmo. Um verdadeiro ato de Arte.
A própria bruxa neste mundo apenas surgiu após a sua própria invenção. Primeiro um sonho, seguido de uma manifestação neste mundo. A bruxa se arrastou vagarosamente de dentro dos terrores noturnos, do medo do inferno, de dentro do sufoco do cristianismo e das proibições do corpo. Ela se arrastou pelas primeiras cavernas tocadas pela humanidade, tocou nos primeiros desenhos na rocha e nos penhascos, ela se arrastou pelos primeiros lagos e pelas frestas das primeiras cidades. Talvez por isso as bruxas tenham obsessão por visitar locais de poder ancorados neste mundo, uma lembrança localizada acima de seu crânio, nosso Santo Demônio, na nossa parte que é uma pequena fatia da própria Deusa Estrela, Deus Ela Mesma, A Grande Pantera Negra Coroada com 7 e 6 Sóis Azulados. O Santo Demônio é também o Grande Pássaro Sagrado.
A bruxa, perseguida pelo pássaro, primeiro habitou o imaginário até finalmente atravessar os limites dos outros mundos. Aqui as barreiras de imaginação, visualização e previsão do futuro caem completamente, a língua se torna uma em meio ao grande caos. Hoje existem centenas de bruxas espalhadas por diversas localidades, todas elas meio vivas e meio mortas, habitando esse lugar entre o aqui e o lá. Todas elas rastejaram pelas fissuras dos outros mundos e com sua dupla natureza conseguem transitar constantemente de um lado a outro. Como uma criação artística dos próprios espíritos que são influentes nesse mundo.
O que parece uma grande solução frente ao desaparecimento de seres (nascidos de humanos) que rasgavam o véu de forma violenta, e que com o passar das décadas, depois da Revolução Industrial, foram nascendo cada vez menos na humanidade. Hoje eles já não habitam nem mesmo as pequenas cidades ou vilarejos no campo. E quanto mais eles deixam de nascer, mais bruxas surgem em suas regiões e nas antigas famílias que pariam essas distorções potentes. E talvez esse seja um dos mistérios, as bruxas serem tão diversas quanto eles.
E por mais que exista um senso que existem bruxas demais devido as facilidade de comunicação que temos hoje, os números daquelas meio vivas e meio mortas são baixíssimos. Conte quantas bruxas habitam o seu quarteirão, o seu bairro. Garanto que o número não é grande e muitas de vocês são as únicas da região. E observe as bruxas que você conhece e verá que geograficamente a maioria está bem espalhada, até mesmo nas grandes cidades.
Claro que existem terras onde não há vestígios de bruxas, mas essas mesmas terras convocam bruxas viajantes para que andem por suas ruas, ruelas, cemitérios e matas. Existem também uma série de pessoas que são tocadas pelos outros mundos mas não são bruxas. Essas pessoas também não são numerosas. E vão desde pessoas com extremo azar, trocados (sim eles ainda existem), marcados por experiências de quase morte e videntes. Muitas dessas pessoas se tornam pessoas importantes em religiões que abraçam parte do mundo dos espíritos. Outras poucas podem, caso o destino exija, adentrar pelos portões da bruxaria.
É claro que a origem das bruxas nos outros mundos pode ser mais antiga que a queda das primeiras estrelas dos céus. As línguas de prata dizem que as primeiras estrelas caíram apaixonadas pelas belas mulheres, pelos rapazes encantadores e pelas pessoas misteriosas. O ato de união dessas pessoas com as estrelas deram origem às grandes correntes que atravessam a bruxaria nos dias de hoje.
Acima eu passei por uma série de contos que tocam o mistério, e que não são encarados como ficção ou lendas, mas como o mito em sua forma original. O mito (como os antigos gregos entendiam) possui uma função de causar um “não-esquecimento” em quem o toca, e essa é a manifestação da verdade. Em uma luta contra o próprio rio Lethe e contra o próprio Tempo que arranha com seus dentes os corpos humanos, rochas e tudo que existe no mundo em que vivemos.
Os contos de fadas são muito mais do que simples histórias vazias, bem como toda produção humana e artística. Existem mistérios dos outros mundos que se imprimem de forma misteriosa quando alguém tocado pelo mundo das fadas escreve, desenha, dança ou se expressa artisticamente. A história das três possibilidades é real: loucura, morte ou poesia. Esse é o destino de toda bruxa.
Claro que nem toda arte irá catapultar o seu Fetch em direção aos outros mundos, mas uma quantidade significativa de artistas foram em algum momento borrados por algo do outro lado. Aqueles que insistem na arte mesmo em tempos tão tecnológicos podem tocar o mistério muito mais facilmente do que outras pessoas. A Arte e a arte são intimamente ligadas. Podemos reconhecer uma bruxa quando ela transborda beleza estranha e selvagem por todos os lados.
Em uma das tradições que faço parte, a arte é uma das maiores manifestações dos outros mundos. E realmente há artistas, dançarinas, poetisas e muitas outras nuances da arte por aí. Para chegar na iniciação, momento onde se recebe a Corrente de Poder, o buscador precisa desabrochar com as ferramentas mágicas, se aproximar da corte de espíritos da tradição e manifestar sua arte no mundo de alguma forma. Isso garante que não ocorra nada que seja muito disruptivo quando a corrente adentrar totalmente o corpo da bruxa.
Eu garanto que você conhece pelo menos uma bruxa que transborda arte por todos os lados, independente de suas técnicas. Você sentirá os outros mundos atravessando o corpo dela e deixando vestígios nesse mundo, como um grande artista expressando a sua obra.
O primeiro e último suspiro da Bruxa neste mundo será um ato de arte.
Com amor, Fae.
Bruxaria, herança da humanidade, o Chamado e Sangue.
A Queda de um Anjo, por Fae. 2022.
Tenho encontrado aqui ou ali algumas notas minhas antigas. Há muito tempo eu escrevi exatamente isso:
“A Bruxaria não é uma exclusividade de um grupo ou de uma religião. Nunca foi e jamais será. A Bruxaria é uma herança da humanidade e aqueles que escutam o chamado podem reivindicá-la de seu próprio sangue.”
Na época me encheram de críticas...
...muitas pessoas me ofenderam e muita gente ficou com raiva de mim. Fizeram muito bullying e perseguição online comigo. Saíram pessoas de vários lados diferentes para combater a enorme besteira que eu tinha falado, como se o que eu falasse fosse relevante. Tinha gente que se dizia da wicca, gente que se dizia BT, e muitos outros que compartilhavam a minha pequena nota para tirar sarro.
Depois de um tempo eu percebi que existe um tipo de gente na “bruxaria” que ama perseguir e corrigir aqueles que não são de uma tradição, essas pessoas agem como se fossem os arautos da fé ou verdadeiros papas, e em um nível mais profundo como inquisidores ou seguidores do falso deus. Inclusive muita gente que as pessoas consideram relevantes aqui no Brasil já fizeram ou ainda fazem isso. Como sou uma bruxa extremamente rancorosa, eu lembro da maioria daqueles rostos e ainda nos dias de hoje acho que aquelas pessoas são tão insossas na magia quanto no passado. Não há beleza, apenas uma tentativa falha de soberania, que os torna pequenos delirantes dos reinos da internet com seus olhos opacos e lábios secos, e suas palavras são amargas e sem muita força vital.
Mas, vamos à minha nota, eu concordo plenamente com meu eu do passado, que na época era apenas estudante da Tradição (mesmo que ninguém que estivesse de longe soubesse disso, aquelas pessoas não sabiam), mesmo assim o lore da bruxaria começava a me invadir lenta e deliciosamente. Hoje, mais de uma década depois, com muitas jornadas já tendo acontecido, eu a revisito como uma forma de magia que atravessa os tempos. E eu reparo algo que tentaram quebrar no passado. A magia ainda está correndo de um lado para o outro.
Vou passar por alguns pontos para explicar o porque essa nota envelheceu bem como o vinho usado na taça da primeira bruxa, a Deusa dos Mistérios Proibidos. E como os relâmpagos ainda se agitam naquela nota, feita por uma bruxa estudante inebriada pelo veneno da Morte.
A bruxaria é uma experiência humana, e isso é indiscutível. Ela se arrastou de dentro de nossos medos e nossos prazeres, encontrando morada em certos Corações tão Negros quanto a noite. E isso não pode ser capturado por um único grupo, ou tradição ou ainda religião, e nem muito menos por uma única pessoa. Existe algo mais profundo que surge da própria humanidade e que não importando quantas pessoas tentem sufocar, ela brotará novamente. A bruxaria é um grande poço sagrado que pode ser provado por todas aquelas que escutaram o Chamado.
E mesmo que, em um cenário hipotético, as primeiras bruxas de nossa época não tivessem se levantado, o cenário já estava há muito tempo armado. Outras se levantariam, e talvez os sabores pudessem ser levemente mais apimentados ou adocicados. Para a Arte o destino é real e irrevogável. A água sempre escava a terra em longos desfiladeiros, ela abre caminho, mas as montanhas sempre direcionam enquanto se tornam pedra e areia. Os grandes poderes do universo acham sua maneira de encontrar as bruxas que escutaram em algum momento de suas vidas o Chamado. As estrelas caídas não podem voltar para o céu, não sem a humanidade voltar a ser poeira estelar.
O Chamado é um dos lores mais deliciosos da bruxaria. Eu escuto sobre ele desde que conheci a primeira bruxa na vida, e antes dela eu sentia que algo do tipo existia. Todas as bruxas que trilham caminhos semelhantes ao meu dizem: “Existe um Chamado irresistível dos outros mundos. Como se chamasse meu nome. Não qualquer nome como o civil, mas meu verdadeiro nome…”. O Chamado é um ponto na vida da bruxa, mas que ressoa em todos os tempos. O Chamado é como um sino tocado por espíritos, as ondas de som impactam cada pedaço da vida da bruxa, e quando ela escuta pela primeira vez não há como voltar, o som se tornará cada vez mais alto, como uma flauta de um deus selvagem, chamando de volta para comer mel e frutas enquanto dança em meio a seres que também são capazes de atravessar a cerca.
O chamado faz parte do mistério, e é mais importante do que qualquer ritual de começo de jornada. Ele é o ritual original. Também é a voz que surge das primeiras estrelas que se apaixonaram perdidamente pelas mulheres vermelhas, pelos belos rapazes e pelas pessoas misteriosas e estranhas. E daí vem o poder, do sexo e do amor. Assim como o sexo e amor não podem ser encapsulados como sendo de um único grupo ou religião, assim é a bruxaria que eu conheço. Claro que tradições acessaram o mistério e passam algo à frente.
Tradições surgem quando grandes serpentes cósmicas e terrestres despertam, aprendem a linguagem humana e ensinam a língua dos caídos novamente às bruxas. Eu ouvi falar dessas quedas incrivelmente potentes ao redor do mundo, onde grupos de bruxas se tornaram um só com um grupo de espíritos. Em uma escala menor, bruxas em sua vida, podem encontrar espíritos e formar poderosos pactos que irão durar muito tempo, e às vezes atravessar muitas vidas.
Existe uma vantagem em se aliar aos mistérios de um grupo formado por bruxas e espíritos, e essa vantagem tem a ver com as mãos humanas. Mãos humanas de amor podem transmitir um poderoso poder, sem queimar os corpos da bruxa. Receber o poder sem mãos de amor é como receber um raio em seu próprio corpo. Ele machuca, queima parte da bruxa. Mas gostaria de lembrar que grupos podem fazer exatamente isso com você, mas não na passagem de poder, mas em seus anseios insanos de dominação. Por isso devemos ter cuidado com as mãos que dizem ser de amor, mas na verdade são daquele ferro que cortam árvores centenárias. Aqui entramos em um jogo muito perigoso, a bruxaria é perigosa.
Grupos, tradições e covens acessaram o mistério e passam isso à frente. Mas o mistério não pertence a ninguém, ele está em tudo. Nas estrelas que dançam nos céus, na terra e em seus rios, nos ciclos das diversas árvores, no canto dos pássaros… O mistério não é algo escondido no mundo, ele está até mesmo dentro de nossas casas, nos cantos vivos e com aranhas, nos jarros de plantas, nos altares e nas jóias. Nas vigas de ferro em nossas residências, nos alimentos em nossas geladeiras, passando até mesmo dentro dos nossos objetos tecnológicos, nas peças metálicas. E principalmente no ar que cerca o seu corpo agora, e que nos conecta nesse exato momento.
Mesmo que todas as tradições de mistérios morressem hoje, em pouco tempo as serpentes cósmicas se levantariam novamente e aprenderiam a fala humana. Alguém escutaria o chamado e sentaria debaixo de uma árvore ou na beira do mar, veria o movimento das estrelas, e tocaria o mistério. E todas as ordens e tradições nasceriam novamente, com novos temperos e novas pronúncias. Essa é a magia. E por esse motivo não há caminho certo, apenas o torto. Ainda assim existe o caminho que realmente te chama de volta para casa.
A Bruxaria é formada de cacos deixados pela relação da humanidade com os outros mundos. Toda bruxa, independente se ela é de uma tradição ou não, recolhe esses cacos e monta um mural. Como são cacos, muitos espaços ficam em branco. E praticamente todas as bruxas que conheço tem essa sensação de vazio estranha em algumas partes de suas belas tapeçarias. Algumas bruxas erroneamente tentam completar esses espaços vazios com conceitos de outras religiões ou até mesmo com técnicas que não ajudam em nada, e às vezes até com espíritos que não são compatíveis com a bruxaria.
Os espaços em branco que as pessoas tanto temem são por onde o mistério se manifesta, é só tendo esses espaços em branco que a bruxa conseguirá tocar o mistério. É do vazio que o mistério surge. Então bruxa, se você sente algo vazio, saiba que você está no caminho certo. Quando você deixa de preencher com algo que não se encaixa, e encara esse vazio, todo o vazio escuro do universo olha de volta para você.
Definitivamente aqueles que escutam o chamado podem tocar nesses cacos, mas sem nunca preencher os espaços entre eles, pois é dali que o mistério brota. E esse dom nunca será capturado por um único grupo ou tradição. Entendo, que talvez inspirados pela figura do papa, algumas figuras insanas na bruxaria queiram afirmar que só elas possuem o mistério. Mas definitivamente o mistério jamais poderá ser capturado. Você toca nele, mas não há como impedir que ele chegue em seu destino, que são as bruxas que escutam o Chamado.
E por último: o Sangue. Que é vermelho e que ancora as nossas marés internas. O sangue tem essa cor por causa do ferro, e esse ferro ressoa de forma profunda com o Ferro dentro da Terra e com o Ferro das Estrelas dos céus, e isso bruxas é literal, como basicamente tudo na bruxaria. Tornando a bruxa não só uma criança da terra e do céu estrelado como também um elo entre esses poderes gigantescos.
Poderes esses que a atravessam deliciosamente quando realizam um simples aterramento. A Árvore da Vida (técnica Reclaiming) é meu favorito: onde as raízes da bruxa afundam na terra, permitindo que os poderes de baixo subam até seu corpo, enquanto os galhos buscam as estrelas, e permite que os poderes dos céus desçam. Fazendo o circuito perfeito entre céu e terra, enquanto o Ferro das Estrelas e da Terra se misturam em seu sangue. Fazendo o ferro do sangue se incendiar completamente.
Quando eu ainda era jovem, eu usava muito sangue em minhas magias, muito mais do que hoje. E que bruxa nunca experimentou as suas próprias partes em suas magias? Unhas, cabelos, sangue, fluídos, lágrimas, suor… Todas essas partes estão intimamente ligadas ao sangue que corre em nossos poderosos rios, a nossa Serpente Vermelha e Sagrada (alusão à Serpente da Feri). O sangue é um dos elementos mais sagrados dentro da bruxaria.
De alguma forma o poder se ancora e também brota dessa Serpente Vermelha. O sangue da bruxa reage ao chamado, se incendeia com o poder da primeira fogueira acesa na humanidade, e dos trovões que acertam os troncos secos, da primeira chuva e do calor sentido pela primeira vez. O sangue se agita quando amamos, quando transamos, quando movimentamos grandes quantidades de energia.
E sem cair no fascismo da galera que falava sobre “sangue da bruxa” que envelheceu tão mal quanto um bife que apodreceu em um dia quente, com seus ideais cristãos de escolhidos. Aqui não há escolhidos, ou a elite branca que descende de povos originários da Europa e que adora segurar armas de fogo. O que temos aqui é mistério selvagem que se esconde dentro da própria humanidade. Em seu sangue. E que qualquer um que escute o Chamado pode reivindicá-lo das profundezas. E todas as memórias sagradas de um tempo além do tempo onde espíritos e humanos comungavam.
Existe um lore Feri que diz que qualquer ser humano da terra pode ser potencialmente bruxa, mas que isso está adormecido na maioria das pessoas. Quando alguém escuta o Chamado, essa semente escondida que toda humanidade têm em suas profundezas, começa a emergir e a brotar. E aquela pessoa que escutou começa a ficar inebriada pelo crescimento lento ou acelerado daquela planta misteriosa, que desperta o sangue como um grande rio sagrado.
Nesse instante a primeira estrela caiu dos céus, o primeiro beijo de um caído ressoou entre os mundos, a primeira bruxa morreu e virou Deusa, o sangue se agitou e se tornou sagrado, o mistério está ao seu redor, se o Chamado foi lançado você pode escutá-lo a qualquer momento, inclusive agora.
E quanto as pessoas que me perseguiram e nunca me pediram desculpas, eu desejo que vocês continuem caminhando para cada vez mais longe do mistério. Que suas palavras amargas sejam seu labirinto, que seu trono papal seja de espinhos e que sua ânsia de dominação não alcance nem mesmo os tolos.
Com meu sangue em chamas, Fae.
Esse não foi um texto fácil de escrever. Eu preferia estar falando da minha Arte e da minha magia de outra forma. Mas sinto que faz parte do trabalho esclarecer as coisas.
Iniciação, por Fae (2022).
Para quem acompanha de perto a Tradição Feri sabe que diferentes iniciados usam diferentes grafias: Faery, Faerie, Fairy e Feri...
A variação “Anderson Feri” também é usada por um punhado de bruxas (não é a minha favorita, mas é bem útil em determinadas ocasiões). Alguns de nós usamos mais de uma grafia alternadamente. E Faery Tradition foi de fato a primeira grafia “fada” da nossa tradição. Existe uma preferência muito grande por Feri e Faery (Feri Tradition e Faery Tradition). Feri com certeza é minha grafia favorita e selvagem, apesar de Faery me encantar profundamente.
Mas vale ressaltar algumas coisas aqui. Em 1979 foi o ano de publicação do livro The Spiral Dance de Starhawk. Esse livro foi amplamente distribuído. Em 1993 esse livro chega ao Brasil com o título de A Dança Cósmica das Feiticeiras. Diversas vezes Starhawk cita Faery Tradition, ela mesma já era uma iniciada da tradição quando escreveu esse livro. Aqui no Brasil o termo Faery Tradition foi traduzido para Tradição de Fadas. Esse livro foi um ponto marcante para construir o imaginário sobre Faery Tradition e Tradição de Fadas, principalmente aqui no Brasil. Vale ressaltar que quando Starhawk fala sobre esses nomes (Faery Tradition em inglês e Tradição das Fadas na tradução) ela se refere diretamente à Tradição Feri de Bruxaria.
Ao mesmo tempo entendemos que existem outros caminhos que usam o termo Faery no mundo, e que não tem relação com Feri. Valerie Walker cita como exemplo a “Celtic Faery Wicca” de Kisma Stepanich, a “Faerie Tradition” de R. J. Stewart, as “Radical Faeries” e até mesmo diversas tradições wiccanianas que incluem de alguma forma as palavras Faery ou Fairy nos nomes de seus covens. Claro que isso é pensando num cenário internacional.
Uma informação importante sobre publicações na internet aqui no Brasil é que muitas das vezes as pessoas se referem à existência de uma Faery Wicca, e quando lemos a descrição claramente é sobre Feri que é falado, misturando aqui e ali com informações públicas de Wicca, inclusive muitas dessas publicações citam Victor Anderson ou Starhawk. Acredito que isso seja um erro comum pois até poucas décadas atrás o termo wicca foi amplamente utilizado como sinônimo de bruxaria. Um termo que no contexto internacional facilitava a comunicação. Ainda bem que os tempos são outros e os grupos podem chamar a si mesmos com seus verdadeiros nomes.
Nesse texto eu não vou discorrer sobre como a tradição Faery/Feri não é uma tradição Wiccaniana, mas afirmo que nossas cosmogonias são completamente diferentes, assim como as práticas mágicas. Existem leves nuances que se tocam, inclusive existem Iniciados Feri que também são da Wicca, mas definitivamente são práticas distintas e vocês podem encontrar muito material sobre isso em sites que iniciados Feri constroem ao redor do mundo.
Por volta da década de 70, com o grande boom da bruxaria, existia um senso de “fazemos parte de um todo” junto de um sentimento de “universalismo” muito forte. Vocês verão figuras muito importantes da bruxaria afirmando que suas tradições não existiam apenas naquela linhagem, mas que era algo bem maior. E naquelas décadas muitas pessoas achavam que faziam parte da mesma coisa, mesmo sendo de caminhos completamente diferentes. Esse senso era algo mitológico e ainda é muito importante nos dias de hoje, porém é importante nos atermos ao que realmente aconteceu entre humanos também. E a maioria dessas bruxas mantiveram registros de suas linhagens, pois seus caminhos trabalhavam diretamente não só com os Mortos Poderosos, mas com todos aqueles que vieram antes e que ainda poderiam estar vivos.
A Faery/Feri ganhou holofotes no mundo por diversos livros publicados, e por ter tido alguns iniciados bastante conhecidos no meio pagão. Existe um pequeno número de sites onde iniciados Feri escrevem sobre a mesma de suas perspectivas, já que com o passar do tempo muita desinformação escrita por não-iniciados foi disponibilizada por aí(desde artigos, publicações em livros e até informações furadas na Wikipedia). Apesar disso, a tradição sempre foi extremamente pequena comparada a outros caminhos de Bruxaria. E meio que as pessoas recebem notícias uma das outras. Hoje a tradição vive um momento muito próspero com pequenos grupos de iniciados em diversos países.
Recentemente uma pessoa aqui no Brasil participou de um evento oferecendo uma palestra chamada “Introdução à Faery Tradition”. Algumas pessoas que nos conhecem aqui no Brasil nos mandaram o anúncio da palestra perguntando se era algum de nossos parentes. Em território Nacional somos apenas 5 iniciados (até janeiro de 2026). Quando vimos que não conhecíamos a pessoa, decidimos abordá-la. E a mesma afirmou com todas as letras que era iniciada em Anderson Feri. Antes disso pensamos que poderia ser alguém falando de alguma variação de Tradição de Fadas pelo mundo, mas que estranhamente escolheu a primeira grafia de Feri (ainda amplamente utilizada) para fazer isso.
Depois de uma cuidadosa e educada conversa, verificamos que a pessoa não era Faery, e nessas situações sentimos realmente muito por isso. Existem formas bem simples de verificar se alguém pertence ou não ao caminho. Além disso, a pessoa disse ter sido iniciada a 30 anos atrás por um casal. Mas ninguém em Faery nunca ouviu falar no nome desse casal. Diferente de outras tradições, quanto mais tempo de iniciado uma pessoa tem, mais fácil é de verificar a sua linhagem, levando em consideração que a Faery era bem menor e o círculo muito mais íntimo a 30 anos atrás do que hoje. Pelo que já escutei, nem toda tradição é assim, e que iniciações anteriores a 30 anos poderiam causar verdadeiras perdas de contato e de verificação.
E mesmo que uma tragédia tivesse acontecido e isolado a pessoa por muitos anos, assim mesmo a bruxa Faery consegue comprovar sua iniciação de forma simples e direta. Há coisas que são compartilhadas entre todos os iniciados, e que mesmo mostrando uma leve parte pode comprovar a iniciação de alguém. E ser verificado por um iniciado válido não é uma vergonha, eu mesme já passei pela verificação, e eu aprendi na prática como fazer. Bom, eu nunca verifiquei ninguém mas já vi isso acontecer 3 vezes.
Existem outros casos de pessoas que alegaram serem Faery/Feri ao redor do mundo. E uma hora ou outra algum iniciado encontra essas pessoas. Algumas delas foram enganadas por alguém, outras constroem toda uma história fictícia que as liga à nossa tradição. Existem ainda um terceiro tipo que compila todo tipo de informação legítima e pública, começa algo e comete alguns abusos bem sérios ou apenas enganam várias pessoas. Os iniciados acham essas pessoas também para reparar o dano com a verdade, e com certeza nossos mortos se orgulham desse movimento.
A grande questão é que buscadores que orbitam pessoas que inventaram que são Faery/Feri ou que acreditam que são, acabam por ser enganadas também. Eu ouvi muitos relatos de pessoas que usavam sua autoridade Faery com outras pessoas (como se isso fosse adequado) e que causaram alguns problemas por aí.
Essa pessoa que encontramos agora alegou ser uma pessoa reclusa, das sombras e não gostar de contato. Disse não querer treinar ninguém. Como se isso justificasse a falta da comprovação da linhagem. Essa descrição basicamente corresponde a pelo menos mais da metade da Feri no mundo, mas eu garanto que nenhuma dessas bruxas que são realmente reclusas serão vistas palestrando em algum lugar.
Mesmo pedindo para que o tema da palestra mudasse, as negociações foram tensas. A pessoa concordou em mudar mas simplesmente parou de nos responder. Falando com a organização do evento, a mesma nos garantiu que ele não falaria do tema. Mas na palestra ele insinuou e afirmou que era Feri pelas bordas. Então fiquem atentas a quem diz que é iniciado na Feri, aqui no Brasil, há mais de 30 anos. Ou em pessoas que dizem que saíram do Brasil a 30 anos para passarem por uma iniciação na Europa. Se você é iniciado por alguém na Faery, há como comprovar facilmente. Se não é possível comprovar ou a pessoa foi enganada ou está a enganar.
Por isso uma grande recomendação que faço, quando vocês conhecerem uma bruxa Faery/Feri por aí, e pensarem em se aproximar, vejam se sua história não é quebrada. Existem iniciados públicos o suficiente no mundo que podem ceder informações sobre pessoas suspeitas. Abaixo deixarei dois links de sites, o nosso brasileiro e um em inglês (se buscarem com atenção vocês acharão os nomes de iniciados válidos que são mais públicos). E tenham a certeza, qualquer iniciado irá atrás de pessoas que dizem ser Faery/Feri sem ser, para entender onde foi que o problema aconteceu.
E para pessoas que buscam outros caminhos, verifiquem as histórias das bruxas que vocês se aproximam. Geralmente o discurso de “meu iniciado não falava muito de linhagem”, “era muito esquivo e misterioso”, vem acompanhado de uma grande furada.
É possível ser completamente transparente sem comprometer o mistério. E quando o caminho se torna nebuloso com a justificativa de segredo, cuidado, existe a chance de uma grande mentira tentar se colocar como verdade. E lembre-se, diferente de outras tradições, a Faery não tem muito interesse em ter muitos seguidores. O trabalho acontece mais em pequenas famílias e clãs. E até o momento só existem 4 iniciados que falam mais “abertamente” sobre Feri no Brasil (Janeiro de 2026).
Eu gostaria de ter escrito sobre outra coisa e transbordar minha magia de outras formas, mas isso é necessário. Nesse texto eu não abordei as nuances dos outros mundos e que tornam essa história bem mais complicada. Mas sigamos.
Com amor e verdade, Fae.
Sites:
Ou o que é a Tradição Reclaiming de Bruxaria.
A minha visão sobre essa tradição de Bruxaria.
Atenção: essa é a minha visão pessoal enquanto Bruxa frente ao mistério que a tradição Reclaiming continua a ser. Essa visão está enraizada em minhas visões dos outros mundos, na minha observação de dentro e minhas sensações energéticas sobre o que acontece. A tradição possui muitas facetas além dessas, e reconheço a complexidade da existência da mesma nesse mundo.
Um coven de Bruxas entrando em contato com os espíritos da terra. 2022- feito a partir da experiência em um Coven Reclaiming. Arte de Fae.
Eu ganhei o livro A Dança Cósmica das Feiticeiras sob as seguintes circunstâncias: O livro foi esquecido em uma padaria na periferia do Rio...
A atendente pegou para si. Na escola que estudava, a atendente me viu com um pentagrama no pescoço. No dia seguinte ela me entregou o livro. O livro continha a assinatura da primeira dona, anos depois a conheci ao acaso. Essa primeira dona do livro tinha fundado uma tradição de wicca eclética. Eu entrei nessa tradição, que tinha propósitos lindos e se tornou um lugar completamente insalubre. Ao sair da tradição de wicca eclética devido a uma série de agressões e abusos, uma pessoa que conversei em um bar me disse: se não quer algo pesado, procure a Reclaiming (o tom parecia diminuir a tradição e parecia dizer que a bruxaria era cheia de abusos por natureza). Esse arco todo levou por volta de 10 anos. Depois disso eu escolhi ir atrás com todas as minhas forças da Reclaiming, e não foi nada fácil.
Eu lembro que sonhava em conhecer as pessoas do Compost Coven: bom, Valerie Walker foi minha primeira professora Feri, e todas as minhas linhagens Feri tocam delicadamente pessoas do Compost. E eu tenho certeza que a minha futura linhagem Reclaiming fará o mesmo. Talvez tenha sido o Destino e as Correntes de Poder que atravessam ambas as tradições me chamando de volta.
O livro A Dança Cósmica das Feiticeiras é um livro de transição, nele temos elementos da tradição Feri de Bruxaria e de algumas outras vertentes de bruxaria que estavam em alta na década de 70 e 80. Ali começamos a ver os primeiros sinais do que seria a Tradição Reclaiming no futuro. E realmente eram apenas os primeiros sinais. O Compost Coven foi uma grande semente viva para a Reclaiming, e ele nunca deixou de existir até o presente momento. E ele nunca foi um Coven Reclaiming, ele é anterior. Valerie Walker, o que é lembrado vive, foi uma das bruxas mais influentes que manteve esse coven nutrido durante muitas décadas. Valerie é uma iniciada Feri e uma das integrantes originais do Compost Coven. A magia do Compost Coven era tão potente que vazava em todas as direções naquelas décadas, em que Reclaiming ainda engatinhava enquanto se arrastava deliciosamente dos outros mundos para esse.
Cora Anderson ao falar da tradição Feri de Bruxaria sempre dizia: “Esta religião não é um fóssil morto, mas uma experiência humana crescente e viva.” E Feri é assim, mantendo a chama acesa, mas incendiando onde é preciso para que o solo volte a ser completamente rico em alimento para as novas e potentes árvores, e mesmo assim mantendo o centro de nosso jardim, com as sementes e a beleza daquilo que é milenar. Reclaiming herdou essa característica e a multiplicou por 13.
Em algum nível Reclaiming é uma filha revoltosa, furiosa e futurista da Feri, que olha para o amanhã e anseia de forma visceral que a humanidade, a tecnologia e a natureza caminhem juntas. Talvez por osmose a Reclaiming tenha se tornado uma das tradições que mais faz um trabalho profundo com a terra e com os misteriosos que a habitam. Seja com seus transes de possessão, transe, técnicas de alinhamento, aterramento e rituais. E essa é uma característica das tradições: não há um panteão fixo. Essa parte assusta muitas bruxas, mas dependendo de onde a bruxaria Reclaiming se enraíza, seres já conhecidos de forma internacional e novos seres que já habitam a terra se apresentam. Por exemplo, a comunidade Brasileira da Reclaiming chama muito por Tempo, um aliado chamado em quase todos os cantos do mundo, mas temos aqui o espírito do Tiê-Sangue, pássaro dos outros mundos e do fogo, que faz parte dos nossos céus. Ou até mesmo a Floresta Escura, que chama por bruxas dentro da nossa comunidade (desde 2018) e se espalhou para outras comunidades ao redor do mundo. Dentre outros espíritos misteriosos.
Muitas pessoas ficam assustadas por essa característica, como assim não há um panteão? A realidade é que quando não há algo fixo ao redor do mundo, o aporte da tradição para receber espíritos é gigantesco. E existem deusas e espíritos que estão na tradição desde o início, enraizada em comunidades prósperas e potentes. A maioria dos espíritos que chegaram desde 2017 para, até então, nova comunidade brasileira continuam por aqui. Nos altares, nos ritos e em covens fechados. Os espíritos rastejam deliciosamente de um lado para o outro no simples contato com outras bruxas Reclaiming ao redor do mundo. Eu vi isso acontecer diversas vezes.
Eu vi um ser se arrastando de um ritual conduzido por Starhawk até minhas pernas. E esse ser virou uma das divindades mais amadas no Brasil, nós a chamamos de Divindade Agênera e seu verdadeiro nome só pode ser pronunciado por um coletivo de bruxas. Futuramente escreverei um grande compilado dos espíritos mais amados dessas terras.
Como disse antes, a primeira vez que escutei o nome Reclaiming foi em um bar no Rio de Janeiro, enquanto eu contava os infortúnios e agressões que tinha passado, as pessoas responderam algo como: “quer leveza? Vá para a Reclaiming”. Eu não queria leveza, eu queria que outras bruxas não tentassem me agredir fisicamente na primeira oportunidade e que não abusassem moral e psicologicamente de mim ou das pessoas.
Eu estava com fúria em meu coração e procurei pela Reclaiming. A Feri já estava começando a chegar sem aviso, como uma trepadeira que engole uma casa silenciosamente. Quando eu encontrei a Reclaiming eu esperava ver uma tradição de “Hippies Livres Estereotipados" que não tinham muito compromisso com nada. Mas eu encontrei uma das Tradições mais organizadas que já conheci ou que já estive próxime na minha vida. Isso foi uma surpresa, mas entendo a ignorância (incluindo a minha da época) das pessoas confundirem Anarquismo com falta de organização. Ou até mesmo a ausência de uma panteão fixo com ausência de Misteriosos. A liberdade era grande mas o trabalho para tê-la em mãos era maior ainda. Não é simples ser sua própria autoridade espiritual. Não é simples ter diversos professores e ao mesmo tempo nenhum deles comandar a sua vida. Não é simples honrar o conhecimento passado sem segredos. Não é fácil seguir sabendo que não é um protagonista, mas sim mais um ponto em uma longa teia, apenas um ser em uma grande Floresta Escura lotada de vida e de morte.
Existe um conjunto de espíritos aliados que são muito importantes dentro da Tradição, e a primeira vez que os vi eu fui profundamente tocade. E gostaria de compartilhar um pouco sobre eles. O primeiro deles são os Mortos Poderosos, todas as bruxas da tradição que já foram chamadas de volta para o monte. Nesse chamamento costumamos dizer seus nomes. E repetimos aos quatro cantos: O que é lembrado Vive! (ou a variação não tão popular: Quem é lembrado Vive!)
E sempre junto dos Mortos Poderosos chamamos os Descendentes. Todos aqueles que ainda não pisaram no círculo mas que um dia pisarão. Aqueles que desafiarão as normas, e que trarão soluções para problemas até então sem respostas. Os Descendentes englobam as bruxas nascidas e aquelas que ainda nascerão. Assim como os Mortos nos ajudam em nossas operações mágicas, os Descendentes ajudam a tecer a magia que atravessará gerações. Toda Bruxa Reclaiming, algum dia foi chamada em uma invocação dos descendentes. Toda pessoa que pisa em um círculo Reclaiming já foi chamada pelos Mortos ou pelos Vivos. Esse é o mistério, e eu escutei esse chamado, e ainda bem que o escutei.
A Reclaiming é uma tradição onde existe uma iniciação, mas diferente de outras tradições, a iniciação não é algo importante para se fazer parte. Isso é uma das coisas mais belas na minha opinião. Iniciados não têm o direito de se sentirem mais bruxas que outras. Existem bruxas importantes, professoras e lideranças incríveis na Reclaiming mas que nunca passaram pela iniciação e nem nunca vão passar. O processo de entrada é diferente, estar dentro da tradição é outra coisa. Tem muito mais a ver com a ação e de conhecer/fazer a nossa forma de tecer magia.
Não há nomes de mistérios a serem passados ou secretos. Não há chaves, apenas portas abertas ao fim de deliciosos labirintos. O mistério toma a sua própria forma nas diversas tapeçarias que tecemos ao redor do mundo. E abrimos espaço para que ele se mostre. Claro que existe um conjunto grande de técnicas e práticas, e elas são ensinadas em Core Classes, em Witchcamps, em Covens ou em outras formas de aprendizagem. Mas todo esse conhecimento é passado de bruxa para bruxa.
As bruxas em lideranças ou que facilitam atividades sempre estão organizadas em 2 ou mais. Não se faz nada sozinha na tradição. Se é Reclaiming sempre haverá duas ou mais bruxas. Assim se formam times de ensino, de iniciação, facilitações em atividades em witchcamps e até mesmo lideranças de covens, isso trás um equilíbrio para nossa magia. A única forma que isso pode ser feito por uma única pessoa é caso não exista nenhuma outra bruxa Reclaiming na localidade e nenhuma bruxa que possa viajar longas distâncias para se juntar, mesmo assim é recomendável que duas ou mais pessoas se reúnam no trabalho. A Reclaiming Brasil se organizou assim, éramos dois, que viramos três e assim crescemos.
Em muitas tradições de bruxaria se organizam de forma que os buscadores não escolhem seus iniciadores. E em Feri escolher o iniciador é algo vital, mas que nem sempre seguimos essa lógica pelo número baixo de iniciadores no mundo. Na Reclaiming as pessoas escolhem a dedo seus iniciadores. E é de direito da bruxa que anseia a iniciação escolher seus iniciadores, formar seu time e então ser levada pelo Rio da Iniciação. E pasmem, qualquer bruxa pode demitir os seus iniciadores.
Quando o Coletivo Reclaiming se dissolveu para espalhar o poder, os Princípios de Unidade surgiram. Toda Bruxa Reclaiming se relaciona com aquela declaração. E conta a lenda que essa é a nossa única liturgia. E o melhor de tudo, é que ele é um documento que muda. Eu testemunhei uma das mudanças. Foi estressante ter consenso de todas as comunidades ao redor do mundo, mas foi reconfortante ver toda a luta do Brasil aparecendo no que chamamos de Conselho do BIRCH. Mudanças foram feitas e eu anseio por mudanças futuras, as próximas décadas podem ser incríveis. Mas relembro uma coisa, na bruxaria tudo leva muito tempo, os processos são longos e demorados. Mudar os Princípios leva tempo, se tornar uma bruxa professora plena leva tempo, passar pela iniciação leva tempo. Se reconhecer como uma bruxa Reclaiming leva tempo. E o Tempo é sagrado, relembrando aqui um dos espíritos que são amplamente chamados por aí.
Falando nisso, o consenso é uma das nossas principais ferramentas. Não existe votação ou a maioria ganha. Ou são todos por todos ou nada feito. Quando eu comecei na Reclaiming, quando eu precisava facilitar consensos as reuniões eram infinitas. Conforme fui vendo outras bruxas ao redor do mundo ensinando ou fazendo o consenso eu entendi melhor, e as reuniões se tornaram rápidas, cumprindo sempre o tempo determinado. (ok, as vezes peço 5 minutos a mais). Até mesmo para discordar e bloquear existem formas de se fazer para otimizar o trabalho. Não adianta só chegar e dizer: “não gostei!”. O Consenso é uma das nossas magias mais poderosas.
Nas aulas que ofereço dentro da Reclaiming eu sempre repito: nenhum ritual que fiz como co-criadore (seja em covens, em eventos ou afins) na Reclaiming eu faria sozinhe. Jamais faria um ritual desses na minha vida privada. E essa é a magia, poder ter um ritual completamente construído por um coletivo, o ritual não é de ninguém e ao mesmo tempo é de todo mundo. Mesmo sendo bem diferente do que faço no dia-a-dia, eu sentia as minhas mãos profundamente envolvidas ali. E eu reconheço os fios que tinham vindo dos outros mundos através de minha boca na construção daquele ritual, enquanto estávamos em um profundo transe com o Amanhã (especificamente em uma Atenção Aberta para visionar o futuro e fazer nossos rituais, de forma a criar verdadeiras profecias que podem ser dançadas e cantadas pelas bruxas).
Durante os últimos 8 anos eu trabalhei em diversos lugares: covens, ensinando Core Classes e em atividades diversas na tradição. E falando em Covens, tudo bem existir covens que duram pouco ou muito tempo. Já fiz parte de covens que foram projetados para durar exatamente 6 meses, em trabalhos profundos e semanais. No fim fiquei nesse coven 1 ano e meio, e até hoje, muitos anos depois, o trabalho que foi feito no Coven Bruxas Verdes reverbera em em nossa comunidade. Existe um senso comum de que cada coisa tem seu tempo e se um coven precisa subir para o astral, está tudo bem. E se ele precisa voltar do astral está tudo bem também. Aqui os misteriosos parecem fechar os consensos conosco. Claro que Covens que atravessam os anos ou décadas existem por aí. Alguns com uma postura bem privada até.
Eu já escutei um burburinho de uma ou outra pessoa aqui no Brasil alegando que a Tradição Reclaiming não é uma tradição. Eu não julgo essas pessoas pela total falta de compreensão ou pela total ignorância que elas decidem abraçar. Afinal de contas ser ignorante é de graça, ter conhecimento sobre algo é que custa caro. Custa tempo poder conversar profundamente com diversas pessoas da tradição de forma nacional ou internacional, e que sejam realmente influentes no caminho. Mas eu posso aqui sinalizar algumas coisas que fazem da Reclaiming uma tradição de bruxaria em alguns tópicos, segundo a minha visão:
1- O primeiro delas é que, mesmo existindo uma rica tapeçaria de diferenças mundiais na tradição, existe um conjunto de práticas mágicas, formas de construir rituais, estruturas em que nos organizamos e formas de nos capacitarmos enquanto agentes de magia que é a mesma e que precisa ser passado a frente para as bruxas que anseiam. Existe o que chamamos de miolo da tradição, onde diversas bruxas ao redor do mundo ensinam através das Core Classes, ou em covens ou Witchcamps. E esses ensinamentos não só atravessam as técnicas, mas a nossa forma de fazer magia que passa de bruxa para bruxa. Existe uma longuíssima tradição oral envolvida. Apesar de alguns dizerem que se a tradição morrer, temos pelo menos um livro publicado que pode fazer tudo renascer. E é um livro sobre um Witchcamp.
2- Mesmo sem um panteão específico, diversos espíritos locais ou mais amplos participam por períodos longos de muitas comunidades. Alguns estão desde o início de determinadas comunidades. Outros podem ser considerados mundiais. Mas existe uma grande teia de espíritos que vêm da terra ou das bruxas que compõem uma comunidade. Nós os chamamos de Espíritos Aliados, de Deuses, de Misteriosos, de Mortos, de Fadas e muitos outros nomes.
3- Alinhamentos, práticas energéticas e transe fazem parte da vida da bruxa Reclaiming. E a bruxa Reclaiming é convocada a estar presente tanto nos outros mundos como nesse. A magia é um fio condutor até mesmo em trabalhos burocráticos dentro da tradição. Nada é feito sem estados alterados de consciência. Todo trabalho visa que a bruxa possa alcançar esses estados profundos e extáticos, sem a ajuda de enteógenos. E também visando que a bruxa aguente cada vez mais grandes quantidades de energia passando pelo seu corpo, para que nossos rituais sejam potentes e eficazes. Também é de nosso interesse que a bruxa consiga acessar os outros mundos durante todo o ritual, para saber exatamente que linhas tocar e quais forçar tecer para o nosso intento.
4- Existe uma iniciação. Estranhamente, a iniciação não é requisito para fazer parte da tradição. O que torna uma bruxa uma bruxa é outra coisa. E a iniciação é uma ferramenta poderosa que pode ser oferecida, tradicionalmente, por duas ou mais pessoas (idealmente 3) que já passaram pela iniciação. E não existe nenhum segredo passado à frente. O que torna o caminho um tanto quanto curioso, se não é por um título e nem pelo segredo, qual será o motivo de uma bruxa aceitar adentrar o Rio da Iniciação? Bom, eu sei os motivos de há 3 anos ter começado nessa jornada, e hoje confio em minha iniciadora como um grande foco de luz, ou uma grande fogueira que me aquece com sua longa sabedoria e experiência dentro da tradição.
E mais estranho ainda, existe inclusive uma outra tradição que vive dentro da Reclaiming, que é uma linha muito específica da Feri. E existe uma forma como as coisas são feitas, primeiro se passando pela iniciação Reclaiming e depois passando por uma segunda iniciação onde os mistérios Feri são passados. Como alguém que já foi iniciade na Feri e que agora sigo em direção a iniciação Reclaiming, eu atesto que o Rio da Iniciação é igualmente traiçoeiro, mas que com mãos de amor o caminho se torna algo poderoso.
A Reclaiming não segue a lógica de outras tradições, ela responde aos outros mundos como ele é, e não tenta fazer a coisa ficar mais bonita. As coisas são o que são e para pessoas de fora a coisa pode se tornar um grande borrão. Isso parece uma herança da Tradição das Fadas (Feri/Faery), mas completamente melhorada e igualmente visceral .
5- Somos uma tradição que trabalha profundamente com os Mortos. Temos os nomes daqueles que foram importantes e moram debaixo do monte. Bruxas poderosas que fizeram magia como fazemos hoje, e chamamos por elas em nossos rituais. Necromancia é uma arte bem vista e incentivada. Bem como o trabalho com os espíritos do amanhã. Trabalhamos profundamente com o futuro, e visionamos miragens que nos mostram o amanhã para construir nossas ritualísticas. E graças a isso temos um contato potente com diversos espíritos, incluindo os mortos que foram vivos e os mortos que ainda serão vivos.
6- Orgulhosamente nos chamamos de Bruxas, e deixamos isso claro, o que fazemos é bruxaria. Herdamos uma boa fatia da tradição Feri, mas temos muitas outras nuances e muito desenvolvimento próprio. Não irei a fundo pois qualquer pessoa pode aprender isso em uma Elementos da Magia, Core Classe que ensina tudo para fazer um ritual Reclaiming, nossas técnicas básicas para preparo do corpo para lidar com o mundo dos espíritos e um pouco de nossa história.
7- Somos uma tradição ancorada no mistério dos 5 elementos. Terra, Ar, Fogo, Água e Espírito. Diferente de outras vertentes que se apoiam nos 4 elementos, a Reclaiming trabalha com o Espírito de forma direta e potente. E muitas de nossas jornadas se encontram nesses aliados potentes. Cada um desses elementos nos desafia e nos ensina, bem como nos acolhe para um trabalho mistérico.
8- A história dos espíritos é passada de uma lado a outro. Trabalhamos com os Contos de Fadas e diversos mitos. Alguns tão antigos quanto o tempo, outros sussurrados pelos espíritos há poucos dias ou décadas. Anualmente, a quantidade de histórias dos espíritos contadas na tradição supera qualquer expectativa. É um resultado de estarmos atentas aos espíritos e aos seus pedidos para longas parcerias ou trabalhos mágicos pontuais. Rituais públicos são apenas a ponta de uma enorme montanha rodeada por uma Floresta tão Escura como a Noite.
9- Existe um forte trabalho de coven não aparente. Por exemplo, ao trabalhar fazendo um evento, os organizadores além de organizar, fazem um trabalho profundo de coven que dura basicamente todo ano que antecede o evento. Dependendo do trabalho oferecido o tempo pode ser de meses. E o trabalho de coven pode variar de acordo com as necessidades das pessoas. Qualquer bruxa Reclaiming que conheça minimamente a nossa cultura pode fundar um coven com outras bruxas Reclaiming. Existem covens que giram em torno de um ser ou divindade, outros para capacitação, outros para experimentação mágica e muitas outras coisas. Mas covens não são as únicas formas de organização, apesar de serem as mais comuns. Nosso trabalho mágico é totalmente voltado para os ciclos da terra, para as fases da lua, para o movimento das estrelas e o sentido do Sol, e os mistérios da vida e da morte. Todas as nossas histórias buscam tocar esses mistérios de forma direta ou indireta.
Eu poderia continuar uma longa e enfadonha lista de características, mas 9 é três vezes um feitiço. E eu também garanto que você que está lendo já bebeu um pouco da Reclaiming, a diferença é que quem é de dentro da tradição sempre cita ao máximo de onde as coisas surgiram, hábito não muito presente fora da tradição, ainda mais aqui no Brasil (isso acontece com Feri também). Músicas, Técnicas, Espíritos que brotaram dentro. Traduções ou publicações não deveriam substituir os autores, ou apagá-los. Pelo menos não fazemos assim dentro da Reclaiming Brasil. Parte da nossa magia e do nosso poder se fortalece em dar créditos devido a professores e técnicas que são passadas à frente. Sempre dizemos: aprendemos com tal bruxa e tal coisa surgiu com tal pessoa.
Outra informação importante. A Starhawk não é a Reclaiming. Ela foi muito importante no passado, ainda é importante no presente e ainda nutre pelo menos uma comunidade no mundo. Claramente ela é uma das bruxas mais inspiradoras do último século em termos de magia e de ativismo por um mundo melhor. Mas existem muitas outras bruxas que passeiam pelo centro e pelas bordas e que fazem muito para que as coisas continuem funcionando dentro da tradição. Existem bruxas professoras com uma experiência surreal, assim como iniciadores hábeis e criativos, e muitos artistas criando muita coisa a todo tempo. E há muitos Elders que estão também desde o início por aí.
E pessoas, muito longe de colocar a tradição no pedestal. Existem muitos problemas sem respostas e muitas coisas que poderiam melhorar. Existe um punhado grande de pessoas irritantes e com certeza eu devo ser considerada irritante para alguém. Minha iniciadora Dawn costuma dizer que a nossa tradição é um reflexo do mundo, e por ser esse reflexo teremos muitos problemas do mundo dentro dela. A questão é a forma como endereçamos tudo isso. E esse é o trabalho. Mas ainda assim, a estrutura de tudo é gigantesca, e sempre existe muito trabalho a ser feito. Mas é necessário mãos dispostas. E que os descendentes possam encontrar o farol, todas aquelas bruxas que desejam ser sua própria autoridade espiritual enraizada na comunidade. Aqueles que querem desafiar as normas, aqueles que sonham profundamente em mudar o mundo em que vivemos. Existe espaço para vocês em nossa rica tapeçaria, tragam seus fios coloridos e criem conosco.
E uma última nota sobre a Reclaiming: não é porque a tradição não segue normas decadentes que ela não tenha sua própria forma de manifestar os outros mundos do lado de cá. As bruxas mais inspiradoras e hábeis que conheci são da Reclaiming, a forma como elas sustentam o poder é incrivelmente potente, graças a grande teia de bruxas e espíritos que a rodeiam.
Com amor, Yuki Fae.
Um desabafo e a minha visão sobre a Tradição Feri de Bruxaria.
Antes da minha primeira iniciação eu acreditava que Feri poderia ser ensinada em grande escala. A minha primeira professora Feri, Vee, ensinava para grandes grupos e com certeza ela foi a pessoa que mais iniciou pessoas na tradição que eu tenho notícias nos últimos tempos, por volta de 20 bruxas, um número colossal apesar das muitas décadas de trabalho dela. Vee morreu no fim do meu treinamento, o que é lembrado vive.
Bruxas/Coelhos da Lua atendendo ao chamado do Deus Azul. Fae, março de 2022.
Apesar dos números, a taxa de iniciados dela era baixíssima levando em consideração o número de pessoas que estudavam com a mesma. Da minha turma eu e mais uma pessoa continuamos o treinamento com outro iniciado e chegamos nos Portões da Iniciação...
Muitos anos depois mais algumas pessoas passaram pelo mesmo nas mãos de outra iniciada. Em uma turma de 20 boa parte sumia durante a jornada, e nem todo mundo que chegava no final era iniciado. De fato, treinamento não garante iniciação, repetimos isso constantemente, apesar de que aprendi que uma pessoa só deve ser treinada se ela quiser ser iniciada. E esse é o maior pré-requisito para entrar na tradição, na minha opinião.
Nos últimos 5 anos eu falei cada vez menos sobre a Tradição Feri de Bruxaria no meu perfil. Bom, eu ainda falo de muitas coisas que acontecem dentro dela e minha arte também é profundamente enraizada nessa Tradição de Fadas. Esse movimento foi proposital. Eu me recordo que antes da minha primeira iniciação eu sempre pensava que Feri tinha que ser democrática e que ensinar em grande escala funcionava. No dia seguinte da minha iniciação eu percebi que o trabalho era bem mais difícil do que eu pensava.
Minha primeira iniciação foi em 2019, no primeiro ano eu senti a Corrente entrando deliciosamente no meu corpo e se assentando em meus ossos, meu sangue e minha carne. O lore ensina que o primeiro ano de iniciado é especial, pois a corrente vai se aterrando no corpo da bruxa. E demora até ela tomar conta de cada parte. Eu me senti 24 horas como uma enorme flor abrindo em todas as direções. De fato, desde então a minha forma de me expressar no mundo mudou, incluindo a minha aparência. Minha arte vazou para todos os lados, e com certeza outras bruxas de linhagens iguais ou próximas me reconhecem devido a isso. Assim como eu as olho e identifico o trabalho estranho dessa Corrente de Poder. Nossas histórias sempre falam que o primeiro ano pós iniciação é quando a Corrente de Poder vai se acomodando dentro do corpo da bruxa. Um desabrochar estranho e assustador acontece. E o iniciado deve respeitar esse período saboroso.
Depois desse primeiro ano a Corrente de Poder me arrastou de forma desconfortável e mistérica. Foi assustador e chocante, mas dava para sentir que o mistério estava ali. Eu deixei os espíritos me despedaçarem(mais uma vez) para que eles pudessem me remontar. Eu tive que confiar naqueles espíritos que tinha acabado de conhecer, e me segurar nos que já conhecia. Eu fui arrastade para diversos mundos. Nesse meio tempo eu comecei junto de Lilo a treinar um pequeno grupo de pessoas. Todas essas pessoas tinham pedido treinamento, mas tiveram que esperar até quando pudéssemos aceitá-las. Tudo na Feri leva tempo.
Tempos depois eu fui iniciade uma segunda vez, algo raríssimo dentro da tradição, aconteceu algo assim apenas 6 vezes, com 6 bruxas diferentes e boa parte dos motivos foram diferentes e cercados de mistérios e reviravoltas. E assim mais uma linha Feri me adotou, mais nomes de bruxas para decorar. Eu amo demais ambas as linhagens que carrego no meu corpo, mas tudo isso fez parte do mistério que me arrancou de um lugar de muitas certezas e me jogou naquilo que é perigoso. A Corrente é viva e escava de forma abrupta ou delicada os caminhos daqueles que são Feri. E a Corrente me mostrou o seu poder desconfortável, descontrolado e brilhante, me chamando com sua voz de trovão para o abraço dos misteriosos.
E tudo isso começou com uma única visão dos outros mundos que desencadeou em uma segunda iniciação. Visões dos outros mundos podem fazer isso, elas impactam, torcem e distorcem as linhas do destino. Aquilo que era errado se torna certo, o azar vira sorte, as incertezas se tornam certezas e vice versa. O calmo se torna terrível, o que é verde morre, e a cura se torna veneno. A fome se transforma em saciedade, o amargo vira o mel mais doce, e a confusão se torna a luz do amanhecer.
Em Feri, existe apenas uma iniciação. Depois que você passa por ela você é igual a qualquer outra bruxa iniciada. Não existem hierarquias entre iniciados. Se você passou pela iniciação hoje, você é igual a mim. Simples e direto. Qualquer tentativa de controle direcionada a outro iniciado, que são completamente independentes, é um sacrilégio contra a Corrente Selvagem que carregamos. Nem mesmo o cargo de Grão Mestre (Grandmaster) na tradição significa ter poder sobre outras bruxas, muito pelo contrário, é um cargo para “cuidar da tradição”. Mas sinceramente não sei por quantas gerações esse cargo vai continuar a existir. E existem bruxas que ignoram completamente esse cargo, assim como existem bruxas e linhas inteiras que cagam para o sistema de Varinhas. Qualquer forma de hierarquizar causa motins e revoltas. Eu acho isso saboroso, Feris tem talento em incendiar tudo sem nenhum peso na consciência.
Recolhendo informação aqui e ali percebi que um bom treinamento Feri dura em média de 3 a 7 anos. Tem gente que passa dos 10. (eu acho tempo demais, mas acontece). A questão é que o trabalho para fazer novos iniciados é bem maior do que eu imaginava e muito mais visceral do que apenas ser levade pelo Rio da Iniciação. Treinar alguém é passar novamente por todas as técnicas, abraçar todos os Espíritos da Tradição como se fosse a primeira vez. Mensalmente eu tenho um grande número de horas que dedico apenas para o treinamento, fora as horas de aula, tempo de consulta oracular, rituais e afins. Há muita coisa a ser feita e isso não é simples. Isso sem contar o próprio trabalho da bruxa Feri, que é diário. E escutar atentamente cada um dos espíritos, e são muitos.
Eu fico triste toda vez que alguém busca a tradição e eu preciso dizer não, principalmente se as pessoas foram educadas nesse contato. Por outro lado, eu tenho uma série de pré-requisitos para aceitar estudantes, e claro, eu preciso ter tempo disponível. Algumas pessoas chegam para pedir treinamento sem serem muito educadas, achando que é uma obrigação de uma bruxa Feri oferecer treinamento. Uma informação muito importante sobre a Feri é: ninguém que seja iniciado precisa treinar outra pessoa ou fazer um serviço de doação de seus conhecimentos, ou qualquer serviço comunitário. Feri não é sobre isso e parece que muita gente que segue outros caminhos da arte ficam extremamente confusas com essa informação. Uma bruxa Feri apenas fará outras bruxas Feri se isto estiver incluso no trabalho do Deus dela. (Oração tradicional da Feri: “Quem é esta flor acima de mim, qual o trabalho deste deus?”) Se isso não existe, ela não vai fazer.
Nenhum iniciado precisa fazer nada para a tradição crescer. A Corrente de Poder e Selvagem é esperta, ela se ancora no mundo como desejar. E se Feri um dia não receber mais nenhum estudante assim será. Não existe um senso de que precisamos fazer novas bruxas a todo momento. Faz quem quer, e quem não quer é só não fazer. A ideia de que a Feri possa desaparecer debaixo do monte não é vista com pavor. Acredito que algumas bruxas estranhas até iam gostar. Já estamos iniciadas, elas diriam, podemos partir com os espíritos para qualquer lugar a qualquer momento se a Corrente convocar. E talvez a Corrente apareça em um novo pequeno grupo, em outra Era ou Tempo.
Isso deve ser um pouco confuso para quem encara o Sacerdócio como servir a população, ao invés de entender o Sacerdócio como um trabalho a ser feito ao lado de um Espírito, que precisa de suas mãos para realizar aquilo que Ele não consegue fazer. E como prêmio o Espírito usa as mãos poderosas para fazer aquilo que não conseguimos fazer. Então ganhamos sorte no destino à nossa frente. Mas dentro da Feri, sacerdócio não é algo que possui consenso. Algumas bruxas possuem sacerdócio para alguns espíritos da tradição, outros alegam que toda iniciação é um sacerdócio para nossas divindades e outras dirão que não estão sabendo de nada disso e que são apenas bruxas. Ainda terão algumas que terão sacerdócios com espíritos que não fazem parte da “corte da Feri".
Mas de fato a iniciação parece ser algum tipo de casamento não-monogâmico com muitos espíritos ou ainda uma adoção em uma grande nação que envolve espíritos e humanos, além da Corrente que precisa entrar em cada uma das bruxas. E quando isso acontece a sorte desses espíritos vazam para todos os lados, indo para o futuro e inundando o passado. É comum entre iniciados histórias em que espíritos Feri os visitaram durante a vida, na infância e quando ainda não eram bruxas iniciadas. Também existe um senso que se você está destinada a ser Feri, você será iniciada nem que seja em seu leito de morte. Você chegará à Nação por mãos humanas, por mãos de amor.
Para entender a magia da Tradição devemos lembrar das Harpias. Um grupo diverso que compunha o Harpy Coven. Essas pessoas vinham de diversos lugares, principalmente do Sul dos EUA. Essas pessoas se estabeleceram no Oregon fugindo da crise que antecedeu a Dust Bowl, foram tempos difíceis mas que uniu os membros Harpias. Para a comunidade essas pessoas se passavam por bons cristãos mas secretamente celebravam Ritos Antigos e entravam em contato com Espíritos que eles chamavam de os Antigos. Em 1932 o Harpy Coven recebeu Victor Anderson como membro. Boa parte da tradição alega que uma fatia saborosa da nossa magia vem desse lugar.
Outra informação preciosa é que Victor Anderson era um grande Andarilho Astral. Todo mundo sabe que Cora Anderson se casou muito rápido com Victor. E foi assim por um motivo, eles se conheceram nos Outros Mundos muito antes. E quando se conheceram nesse mundo se uniram e ficaram assim até o fim da vida. Victor iniciou Cora nesses misteriosos Ritos Antigos. Mas antes disso tanto Cora quanto Victor já possuíam diversas habilidades com os espíritos. E meio que isso permanece até hoje, Feri não é feita para quem não tem magia. Toda pessoa admitida precisa ter algo que os iniciados reconheçam. Experiências viscerais com os outros mundos é outra fatia saborosa da tradição que vem dessas idas aos outros mundos, daqueles que vieram antes e daqueles que vão agora.
Nesses tempos antigos, Feri não tinha esse nome. Era a Arte sem Nome, Ritos Antigos, apenas Arte ou simplesmente aquilo que não é dito. Na década de 60 e 70 com a chegada de novas bruxas às Américas, um famoso iniciado chamado Gwydion Pendderwen junto de Victor nomearam essa arte de Faery (e todas as variações possíveis de escrita). E isso pegou no gosto dos iniciados e se alastrou por todos os lados. Posteriormente, devido a diversas tradições de wicca que emergiram e começaram a utilizar o termo faery Wicca, a nossa escrita virou Feri. Mas ainda há muitas bruxas que usam o Faery por aí. Eu gosto de Feri, mantém a magia das fadas, a ferocidade e o ferro bem aparentes.
Agora eu vou listar meus 6 pré-requisitos para receber estudantes e informações adicionais:
(Ou que o acho que uma pessoa deve ter para adentrar no meu Clã)
Parte desses requisitos surgem de intermináveis conversas com Lilo Assenci, e de observações do modus operandi de outros iniciados.
Lembrando que esses requisitos não levam em consideração se terei ou não tempo de receber um estudante. E se o problema for esse eu posso sinalizar em qual horizonte possível um dos meus estudantes provavelmente chegará na iniciação. Mas Feri leva tempo, tudo precisa de muito tempo. A primeira vez que entrei em contato com um iniciado foi em 2014, muitos anos antes eu li pela primeira vez sobre a tradição e um nome me marcou de forma profunda. Em 2017 iniciei meu treinamento e no final de 2019, no Solstício, fui iniciade.
1- A primeira coisa que eu falo é que: só deve buscar estudo na tradição quem deseja de forma visceral a iniciação. Não faz sentido querer estudar Feri, sem querer a Corrente de Poder. Algumas pessoas confundem isso e acham que Feri é uma escola onde você pode fazer um curso livre e sair sem o diploma. Não, definitivamente não. Haverão iniciados que vão ainda mais longe afirmando que não faz sentido pessoas que não queiram uma iniciação realizar práticas Feri e chamar seus Espíritos.
E eu entendo essa afirmação em partes, pois se essas ferramentas funcionarem e os espíritos responderem onde estarão as mãos humanas para juntar o corpo despedaçado da bruxa? Em Feri é necessário mãos humanas, pois o poder puro pode trazer o caos e levar à insanidade. Sem mãos humanas, seria como se um raio atingisse uma pessoa e ela explodisse como um tronco velho de uma árvore. E aqui entra a velha lenda que os Espíritos Feri podem matar, enlouquecer ou transformar o indivíduo em um poeta com língua de prata. Eu sei que inúmeros grupos utilizam ferramentas Feri a torta e a direita. Eu não sou ninguém para proibir tais práticas, até porque as ferramentas realmente funcionam.
Quanto aos Espíritos eu acredito que ninguém de fora deveria chamar por eles, exceto se for uma pessoa em treinamento ou que deseje muito a tradição (mesmo que seja perigoso). E eu lembro que livros não podem ensinar Feri. E que cada ferramenta dentro da Feri é encadeada com outras ferramentas para que a bruxa tenha um corpo preparado para receber essa Corrente de Poder. Feri não é segura, nunca foi e nunca será. Feri pode ser estranhamente desconfortável na melhor das hipóteses. Há riscos reais que envolvem o treinamento e a iniciação. E se vocês usarem as ferramentas de forma real vocês encontrarão esses desconfortos de forma estranha e visceral.
2- Ter magia em seu corpo, ter Feri em seu corpo e ter experiências nos outros mundos. A Vee deixava claro que não recebia “Noobies" em Feri. Victor Anderson foi recebido pelo Harpy Coven, que reconheceu muito de seu contato com os espíritos, incluindo uma misteriosa Iniciação nos Outros Mundos. A maioria dos iniciados, e eu falo maioria pois não conheço todos, procuram Feri nas pessoas que estão pedindo treinamento. Isso acontece pessoalmente na maioria dos casos.
Uma Iniciação Feri espalha seu poder para todas as direções, então é possível reconhecer Feri mesmo a pessoa ainda não sendo oficialmente Feri. Ela tá lá, debaixo de camadas e mais camadas. Isso parece ser difícil e exige prática. Mas é essencial para treinar uma pessoa. Identificar algo que pareça a própria corrente. Identificar algo que já está dentro do iniciado em alguém que ainda não foi iniciado.
No meio dessa magia estranha os próprios Espíritos da Feri podem interceder pela pessoa que quer adentrar no caminho. Seja enviando sonhos bem diretos, ou vindo pessoalmente ao encontro da Bruxa apta a treinar, compartilhando seus desejos em relação ao futuro estudante. Quando isso acontece os requisitos são todos preenchidos. Haverão professories ao redor do mundo que não possuem requisitos claros, mas que depois de um encontro topam levar o estudante pelo Rio da Iniciação. Alguns deles se baseiam em uma certeza que está ancorada na segunda Visão.
3- Estar disposto a ter um relacionamento profundo com seu iniciador. Um treinamento exige horas e mais horas de conversa e de aula. No Clã que faço parte as pessoas precisam estar em presença pelo menos duas vezes por ano após o primeiro ano de treinamento. Estar perto é algo muito importante para que se possa treinar, intimidade é algo que precisa ser desenvolvido e a iniciação só deve acontecer se ambas as pessoas confiarem uma na outra. Também precisarão estar em presença no que chamamos de Prova de Fogo, que é um rito de passagem simples para a pessoa ser admitida em uma camada mais profunda do treinamento.
Lembrando que treinamento não garante iniciação, e qualquer uma das partes pode encerrar o processo desde que seja conversado. É educado dizer tchau quando for embora e qualquer tipo de ghosting é visto como uma ofensa. Lembrando que a Bruxa Iniciada pode encerrar o treinamento, principalmente se o treinamento não estiver dando respostas. Um treinamento muda a pessoa, e isso fica claro durante o processo. E caso a interrupção aconteça não será de repente, uma série de avisos são dados para que o caminho rumo à iniciação seja retomado, caso mesmo assim o rio da iniciação não seja alcançado a pessoa será convidada a se retirar. Se mesmo assim a pessoa ainda desejar Feri ela pode pedir novamente depois de um ano à bruxa que a treinava ou à outro iniciado. E falamos um ano pois é um tempo razoável para uma pessoa mudar completamente seus hábitos e sua vida.
Eu faço parte de um clã familiar, durante o treinamento os estudantes estão sob a proteção desse clã, e ter a ciência que após a iniciação você estará oficialmente na família dessa Linha. Independente dos trabalhos futuros e diversos que possam acontecer, a sua linhagem será a sua linhagem para sempre, e você aprenderá os nomes de cada um, e quando morrermos vocês ainda dirão nossos nomes. E os seus filhos de iniciação dirão também os nossos nomes, até o dia em que a linha decidir retornar para dentro do monte.
No mais tomaremos litros e mais litros de chá ou café, comeremos macarrão com molhos, pizzas e feijoada vegana. Tomaremos banho de mar depois dos rituais, beberemos vinhos, sucos ou drinks. Passaremos horas na cozinha ou estirados no sofá. Poderemos fofocar, falar sobre magia e experimentar os outros mundos juntos. Falaremos horas a fio sobre a aparência estranha dos outros mundos e dos espíritos. Compartilharemos alguns segredos de clã, e mostraremos que nem tudo pode ser compartilhado. E um dia cantaremos os sons proibidos. Lembrando que Feri é uma arte extremamente simples, o que faz ela ficar complexa é nossa relação com os Espíritos.
4- Que tenha tendências anti-cristãs e desejo pela mística sexual. É certo que existe um pouco de misticismo cristão dentro da Feri, mas isso com certeza habita muito mais um local de oposição do que qualquer outra coisa. Constantemente vemos Victor e Cora se posicionando contra o que chamamos de “Falso deus”, eles usavam exatamente esse termo. (esse deus monoteísta que alega ter onisciência, onipresença e onipotência- uma desculpa perfeita para controlar nossos corpos sexuais e sensuais.)
Nos tempos antigos os futuros iniciados, antes de adentrarem os ritos tinham que dizer em voz alta: Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão. Como forma de reivindicar essas pontas do Pentáculo de Ferro e também de alguma forma rejeitar todos os ensinamentos e crenças do cristianismo. O simples fato de pronunciar essas palavras era o movimento necessário para profanar a bruxa, e assim ela poder entrar totalmente purificada em um ritual de iniciação. Se a pessoa hesitasse, ela não era iniciada. Hoje parece algo bobo, mas imagine para o pensamento anterior aos anos 50. Inclusive Victor Anderson chegou a ser acusado de Satanismo.
Lembrando que no Centro da Feri existe a Deusa Estrela. A Antiga, a Fonte Primordial, o Nosso Moinho. Deus, Ela Mesma. Não há um deus punitivista aqui, é uma Deusa, clitorofálica, ainda assim uma Deusa. Fora que os mitos Feri e Espíritos orbitam esse ser, e tornam nossa tradição um caminho Animista, Politeísta e que adora o que é paradoxal.
Essa Deusa conta uma história de êxtase. Existe aquilo que chamamos de fertilidade, mas o centro de tudo está no que é extático. Nossos espíritos querem que aqueles que carregam a Corrente sigam esse êxtase. Até o dia que retornaremos para debaixo do monte.
5- Feri é uma prática marcial que nos leva a ter disciplina. Você precisa ter de 15 a 50 minutos por dias apenas para rituais diversos e práticas. Em alguns momentos esse tempo será cheio, e em outros haverá variações. Todo caminho do iniciado visa preparar um corpo para que esse não rache com a Corrente de Poder. Mais uma vez, Feri não é segura e isso é literal. Quanto maior quantidade de energia uma bruxa pode movimentar, melhor será para ela passar pela iniciação e aguentar a Corrente de Poder.
Fora isso, Feri necessita de muito espaço, e o treinamento só irá funcionar se o estudante abrir espaço em sua própria vida, não só para práticas mas também para seus espíritos. Existe uma máxima que diz que tudo que um iniciado faz na vida é um ato sagrado dos outros mundos. E isso é o que esperamos de um estudante, que ele desabroche em todos os mundos.
6- Tenha compartilhado um espaço ritual. Esse talvez seja o requisito que pode ser um pouco mais complicado. Mas garanto que durante o ano eu participo de bastante espaços rituais na outra tradição que faço parte, que é muito mais aberta que Feri. Rituais Feri quase nunca são abertos no mundo, no meu Clã os ritos acontecem apenas entre iniciados e estudantes(pós primeiro ano de treinamento).
Compartilhar espaço ritual garante que possamos observar a sua magia junto da nossa, em um mesmo lugar. Isso é valioso, mas garante também que você vá gostar do meu estilo de fazer magia. E eu falo isso pois a maioria de nós, iniciades, só frequentamos rituais que sejam agradáveis e que não entrem em conflito com nossa própria magia. Por exemplo, nunca passaria por um batismo cristão ou algum ritual que minha força vital fosse drenada, pois parte dos ensinamentos da nossa arte diz: “nunca submeta a sua força vital a nada e ninguém (V.Anderson)”. Ou ainda, não participaria de um ritual de pessoas desconhecidas ou que não se alinham minimamente com a minha forma de tecer magia entre os mundos. Sabemos que azar e sorte são acumulativas nas sendas da Bruxaria Tradicional, e eu quero continuar garantindo a minha sorte.
Feri não é uma arte exclusiva se o Coração Negro da Inocência da bruxa assim desejar. Feris podem fazer parte de outras tradições, religiões ou lugares. Mas nenhum Feri poderia se curvar a nenhum senhor. Nossos joelhos são ferramentas para correr em liberdade e apenas os altares mais antigos os merecem. Claro que durante um treinamento em meu Clã é necessário que o estudante se dedique completamente ao trabalho. Depois da iniciação não estamos nem aí, tendo trabalhado corretamente o seu Coração Negro vai Desabrochar. Seja nos nossos ritos ou num mosteiro no Tibet. Ninguém liga. Feri é um povo e uma nação, não existe desistência ou expulsão. Aqueles que tentaram no passado falharam de forma miserável. Não importa o que o iniciado faça, moral ou amoral, ético ou não, a Corrente não o abandona. Por isso todos os clãs do mundo fazem esse trabalho ser completamente intimista.
Toda informação contida aqui fala sobre a Linha da Feri que pertenço, “Coelhos da Lua” ou “Clã dos Coelhos da Lua”, também fala um pouco das duas linhas que me criaram, e as linhas anteriores. E também é sobre a minha própria experiência nessa tradição selvagem. Esses requisitos funcionam para o meu Clã Familiar e para as minhas mãos amorosas, mas cada Bruxa Feri tem total autonomia para corromper, discordar e refazer esses requisitos, e isso é saboroso.
Bom, esse texto é uma carta de amor à Feri, a minha prática mais íntima. Que ele seja uma tocha para aqueles que adentrarão o caminho, pelas minhas mãos ou de outra bruxa. Esse texto também é um aviso, a Corrente me convocou novamente, e as linhas do meu coração saem pelos meus lábios. Não deixarei mais de falar diretamente sobre Feri, os 5 anos de silêncio acabaram.
Com amor, paixão e poder. Fae.
Viajantes, bruxas e o mundo brilhante à sombra do nosso.
A bruxa sai de seu corpo e encontra a Deusa, Fae 2024
A bruxa caminha nos dois mundos. Sendo capaz de andar no nosso mundo e nos outros mundos. Tão importante quanto ir visitar os infernos, o mundo das fadas ou outros reinos é voltar em segurança para o nosso próprio reino...
E por isso a bruxa é meio viva e meio morta simultaneamente. Viver apenas nos outros mundos seria estar totalmente morta, e viver apenas nesse significaria perder toda a magia que transborda em todas as direções.
A maioria das bruxas que conheço tiveram desde muito cedo experiências fora do corpo, as famosas e infames viagens astrais, que nós chamamos de voo da alma, ou ainda o voo da bruxa. E aquelas que não tiveram essas experiências naturalmente ou treinam para isso ou fazem acordos com os outros mundos para conseguir tal proeza. Algumas conseguem ajuda de plantas venenosas, outras alcançando muitas outras formas de alterar a consciência para que seu corpo físico apague enquanto sua alma sai por aí.
Muitas de nós montamos animais, plantas ou espíritos antigos. Outras podem se transformar em fera e vivem maravilhas. Eu não conheço nenhuma bruxa que não descreva essas experiências como extremamente assustadoras e prazerosas.
Aqui neste texto irei tratar de Viagem Astral como a capacidade de um corpo espiritual sair de seu corpo físico por horas a fio, e que possa sentir (algo que todo viajante relata) e tenha total consciência nessa saída. Esse sair é abandonar o corpo físico para vagar no mundo à sombra do nosso. Ou no mundo que conhecemos, mas muito mais vibrante e assustador.
Em alguns momentos nesse texto Viagens Astrais e Voo da Bruxa serão sinônimos, em outro específico o Voo da Bruxa aparece nesse texto como tendo o objetivo de encontrar e buscar um espírito ou para realizar algum ato. E essa separação, apesar de não existir, é feita para que eu possa contar essa história de forma mais clara.
As primeiras vezes que eu escorreguei para fora do meu corpo eu senti muito pavor. Mas conforme eu fui sentindo aquele mundo noturno e brilhante eu fui me empolgando cada vez mais. Com o passar dos anos eu descobri que a exaustão era uma ótima técnica para mim, para que eu pudesse automaticamente ao fechar os olhos, apagar o meu corpo completamente e poder flutuar livre pelos becos e matagais. Por vezes, me privava de sono, me enchia de trabalho e tarefas por 24 horas seguidas. Outras vezes eu dançava até me exaurir. Apesar de que, um dos mistérios é que a maioria dos viajantes parecem ser convocados para outros mundos, e técnicas são utilizadas para tentar retornar de alguma forma e minimamente tentar um controle sobre algo que é completamente insano e instável. Existe um magnetismo que puxa os corpos de Viajantes para os outros Mundos. E isso eu não sei explicar.
Claro que existem diversas outras técnicas físicas que ajudam no processo de desprendimento. E mesmo com essas técnicas as saídas do corpo sem programação continuam acontecendo. Aparentemente algumas pessoas possuem uma espécie de magnetismo, que as fazem serem puxadas para os outros mundos. Algo importante é: sair do corpo não é a única aptidão de estar meio viva e meio morta, a Segunda Visão ou Visão, se soma a esse atributo oculto. E há muitas outras aptidões que tornam pessoas bruxas.
Eu sou uma bruxa que tem sonhos muito intensos também, hoje eu consigo identificar quais estão repletos de magia dos outros mundos e quais são apenas o meu Fetch, a minha alma mais animal, me enchendo de informação (lembrando que em Feri a alma possui três partes: Fetch, Falante e Santo Demônio). Claro que isso às vezes se mistura. Lembrando que na bruxaria que pratico o Mundo dos Sonhos tem muito mais a ver com o Mundo dos Mortos, com o Mundo das Fadas e os Infernos do que podemos imaginar ou conceber. Sonhar é uma forma de experimentar os outros mundos, especialmente os que citei acima.
Citei os sonhos para exemplificar que existe uma diferença bem grande entre sonhar, sonhar de forma lúcida (tendo controle dentro do sonho) e escorregar para fora do corpo (viagem astral). Quando eu saio, eu escuto um barulho de batidas muito alto que vai aumentando, como um trem chegando pelos trilhos, então sinto meu corpo inteiro tremer, até que meu espírito ou corpo astral é jogado para cima, nesse meio tempo a minha consciência desperta completamente. Então eu sinto todo meu corpo astral, com todos os 5 sentidos extremamente aguçados e muitas outras sensações passando de um lado ao outro.
Eu consigo me mover como se estivesse acordade, consigo ver meu corpo físico completamente imóvel, consigo ver todo o mundo existente ao redor, e o meu duplo brilhante obedecendo todos os meus comandos de forma idêntica ao meu corpo. E daí eu posso ir para qualquer lugar, sentindo o vento, vendo o mundo noturno brilhante banhado pela lua e muitas outras maravilhas. Em uma das primeiras saídas eu aprendi com um espírito que as leis (“físicas”) dos outros mundos não são as mesmas leis daqui. Voltar é menos burocrático e para mim parece algo como cair dentro do meu corpo oco e abrir os olhos, o que pode ser acompanhado com um longo suspiro.
A maioria dos viajantes relatam algo semelhante, com variações nos sons e nas sensações, mas sempre resultando na saída para um mundo maravilhoso que pode ser experimentado, provado e tocado nos mínimos detalhes. E aqui o corpo astral possui um certo peso, bem mais leve que o físico, mas pesado o suficiente para sentir de forma mais intensa do que quando estamos despertos em nossos corpos físicos. Correr livres pelos mundos, flutuar e atravessar coisas se tornam reais nesses outros reinos Esses mundos guardam muitos perigos, mas a maioria dos viajantes conseguem se resguardar enquanto sentem os prazeres indescritíveis do outro lado. Às vezes tocar um espírito ou uma simples planta pode te levar aos céus. E respirar profundamente é uma das coisas mais deliciosas que já experimentei fora do corpo.
Um dos mistérios sobre viajantes é que o magnetismo acaba fazendo essas pessoas se encontrarem. Às vezes nos outros mundos e na maioria das vezes nesse mundo. Então na minha vida eu pude conversar com muitos viajantes, alguns eram bruxas e outros eram outra coisa. A maioria dos viajantes era muito habilidosa do outro lado. Alguns poucos tinham sérios problemas. Por exemplo, conheci um médico que experimentou o outro lado, e ficou tão encantado que usou diversos medicamentos anestésicos para sair de novo e de novo. Isso encadeou a sua ruína e em algum momento ele não conseguiu ficar presente no nosso mundo e se entregou completamente ao vício de ter seus corpo desacordado. Medicações são extremamente eficientes, mas não as considero úteis para o trabalho devido a dificuldade do acesso e também aos perigos do vício. Mas elas entregam o corpo imóvel necessário para a saída. Inclusive muitos viajantes saem de seus corpos depois e/ou durante uma experiência cirúrgica.
Conheci alguns viajantes que experimentaram plantas de poder que lhes causavam uma pequena morte, assim seus corpos astrais escapavam para fora. Essas pessoas relataram uma imobilidade e finalmente uma saída. Pelo menos duas pessoas tiveram problemas com as plantas alucinógenas, tendo uma dependência, consumindo elas em grande quantidade ou entrando em um ciclo sem fim de estar em lugares religiosos apenas para tomar a planta, sem nunca chegar ao desprendimento de fato. De alguma forma alguns viajantes podem, depois de algumas experiências, nunca mais viajar em vida. Eu também não sei explicar o motivo disso acontecer, mas acontece.
Alguns viajantes me contaram como algumas pessoas adquiriram a capacidade de sair após graves acidentes, ou depois de experiências de quase morte. Mas existe uma maioria esmagadora que começa no período da puberdade. Alguns outros começam a sair quando encontram espíritos ou pessoas em sua vida, que de alguma forma, agitam esse magnetismo oculto.
Recentemente (nos últimos 2 anos) uma viajante me chamou atenção. Ocultarei alguns detalhes da história para preservar a identidade da mesma. Apesar de saber com certeza que nessa vida eu não a encontrarei mais e nem mesmo esse texto chegará até ela. Eu a conheci rapidamente mas convivemos por um tempo, e a mesma se sentiu chamada a falar comigo. Ela tinha um certo conhecimento oculto e sacou que tinha algo em mim. Ela ficou dias tentando jogar indiretas, dizendo que tinha algo para me falar, se eu sabia ou não do assunto que ela queria tratar.
Nesses momentos eu tenho muita cautela, então esperei ela se sentir à vontade. Ela era de X religião e a Líder Espiritual dela já tinha dito que “eu não entregaria nenhuma chave para ela.” Mas os olhos dela estavam cheios de esperanças. A história era: em algum momento da vida, ela conviveu com grupo e o grupo inteiro despertou para essas viagens astrais. Se quando vivemos isso a sós é uma delícia, em dupla é indescritível, imaginem em grupo. Foi uma experiência que a marcou de forma profunda.
Ela não convivia mais com o grupo, e eu acho que era por questões geográficas e eu não sabia se todos eles ainda estavam vivos. Ela perguntou se eu podia viajar. Então ela me implorou para que ela pudesse voltar aos outros mundo. Que ela não aguentava mais a dor de não conseguir ir. De querer do fundo do coração experimentar novamente as saídas. Eu não tinha nada para entregar, a Líder Religiosa dela estava certa. Eu tinha a certeza que ela não experimentaria mais os outros mundos enquanto estivesse viva. E que a paixão dela pelo outro lado, era apenas um desejo muito forte de morrer e de se apagar. Havia muitas saudades dos outros viajantes envolvida.
Ela chegou a me perguntar se eu surtaria se nunca mais saísse. Eu respondi calmamente dizendo que já experimentei o suficiente, e já passei por períodos grandes de 2 a 3 anos sem sair. Compartilhamos bem pouco sobre as nossas experiências e quando nos despedimos tive a total certeza que nunca mais a veria, ela sentiu o mesmo. Mas com certeza não seríamos os últimos viajantes a se encontrarem em nossas vidas. O magnetismo astral é real e sempre chegam mais viajantes nas trilhas do destino.
Pelo menos uma vez, eu conheci uma pessoa antes no mundo astral do que no mundo físico. Eu lembro de estar em um telhado, vendo o horizonte. A pessoa não disse nada mas me deu a mão. Então saltamos voando em direção a um horizonte minutos antes do sol aparecer. Cinco anos depois nos encontramos presencialmente e prontamente a pessoa disse: “Nós estávamos no telhado!”. Estudamos hermetismo, tarô e muitas outras coisas naquela estação, conversamos com muitos viajantes naquele ano. Além desse caso, por vezes rola uma identificação forte com outro viajante, uma sensação quase que irracional de que já estivemos juntos em algum momento. Como na maioria dos casos não temos lembranças, não podemos afirmar nada. Talvez seja apenas o efeito do magnetismo.
Desde que eu entrei nos caminhos da bruxaria que trilho hoje, as minhas saídas astrais espontâneas diminuíram em comparação aos Voo das bruxas que aumentaram. Eu correlacionam essas duas coisas, pois parece que o meu corpo astral tem feito mais missões bem estruturadas do que saídas aleatórias. Isso é um dado que não me causa incômodo, mas que me gera muita curiosidade.
Talvez um dia eu conte algumas das minhas experiências de forma mais profunda, ou talvez não. Só sinto que viajantes sempre serão bem vindos. E talvez esse texto seja um farol para aquecer o coração daqueles que sentiram os outros mundos ou o mundo brilhante à sombra do nosso. Sabendo que o magnetismo do outro lado continuará nos lançando de um lado para o outro, e em direção a outros viajantes apaixonados.
Com amor e paixão, Fae
*Linhas de Aka- são linhas que conectam todas as coisas vivas ou mortas, e que permitem que uma grande quantidade de força vital ou mágica vá de um lado para o outro. Toda pessoa tem linhas de aka vivas com cada uma de suas relações humanas ou não. As linhas de Aka preenchem o nosso mundo e os outros mundos.
Escultura de Pã, Dian Y Glas e Krom
Dentro da tradição mistérica que faço parte um objeto não simboliza algo, ele é esse algo. Uma faca de ferro não representa o fogo, na verdade é o próprio poço do fogo flamejante dentro de um ferro afiado e retorcido...
Uma escultura entregue a uma divindade, tem a própria divindade dentro dela e pode ser acessada facilmente. Um pingente para proteção, cheio de encantos, carrega esse poder independente de quem o usa ou toca.
Boa parte das tradições (que eu conheço ou já ouvi falar) possuem deuses que podem ser vistos como os deuses por detrás dos deuses.Você encontrarão referências a isso no trabalho do Lee Morgan, Fio Gede Parma, Orion Foxwood e dentro do lore tradicional. Vocês verão Lilo Assenci falando isso aos quatro ventos e muitas outras bruxas da Feri e de caminhos tradicionais. Claro que a maioria de nós têm alianças, sacerdócios e acordos com muitos deuses considerados pagãos ao redor do mundo, afinal de contas, a bruxa é extremamente saborosa. E os deuses da bruxaria dançam de forma mistérica com muitos deuses que tiveram seus templos destruídos ou suas culturas devastadas. Eles conversam, se fundem, fazem amor e confundem os andarilhos iniciantes.
Os deuses e espíritos podem pedir muitos objetos para que eles morem ou depositem seu poder: casa de espíritos, crânios de animais, esculturas que lembram crânios, objetos específicos ou raros, até móveis como altares ou cadeiras (os mortos inclusive amam cadeiras em rituais). Alguns desses deuses podem pedir esculturas e aí entra um problema para a maioria das pessoas.
As esculturas feitas em honra aos antigos deuses da bruxaria são extremamente raras, as que existem foram feitas por artesãos iniciados ou que são contratados para isso. O que leva muitas bruxas a buscar esculturas de outros deuses pagãos ou santos para corrompê-las até que os nossos espíritos expulsem quaisquer fagulhas divinas ali presentes para que suas próprias fagulhas adentrem no objeto.
E não se enganem, mesmo sem rituais, esculturas feitas para x ou y espíritos já carregam suas fagulhas. Isso explica a emoção que tantas bruxas sentem ao visitar jardins onde existem esculturas modernas das divindades que elas tanto amam. E qualquer bruxa pode fazer esse teste em um museu ou prédio público que tenha esculturas de divindades. Tentem falar com essas divindades por essas esculturas, elas responderão rapidamente. Claro que esculturas originais que vieram de templos reais são muito poderosas e potentes, ainda sim qualquer reprodução em tamanho menor ainda carrega parte desses deuses.
Quando olhamos para uma escultura e temos a Visão (chamada por alguns como a Segunda Visão ou a Visão das Fadas), podemos observar a escultura olhando de volta para a gente. Por vezes as expressões da divindade podem mudar, o clima ficar estranhamente mágico e linhas de aka transbordam força vital de um lado a outro. Muitas bruxas relatam terem recebido leves sorrisos nas salas gregas do Louvre, nos Jardins Botânicos, nas Casas de Comércio e até nos Teatros Municipais de suas cidades. Futuramente posso escrever melhor sobre essas experiências.
Voltando a ausências de esculturas de certos deuses. Muitas das vezes, o deus vai pedir por uma escultura. E com perspicácia dos outros mundos a divindade não pedirá por uma escultura nova, mas apontará a escultura de um outro deus ou santo. O início do sequestro astral começa aí. A divindade tende a sussurrar quais mudanças ela quer, se haverá algum tipo de trabalho escultórico ou pintura, ou se ela quer alguma coisa dentro do objeto, além das suas próprias linhas de aka.
Para usurpar de forma segura siga os seguintes passos:
1- escute o pedido da divindade que deseja possuir a escultura. O pedido deve ser totalmente claro e sem margem para dúvida.
2- evite falar em voz alta o nome da divindade ou santo que era dono da escultura até então. Falar em voz alta é como gritar o nome de uma pessoa em uma multidão, se você gritar demais o dono do nome vai te achar. E não se preocupe, os deuses vivem roubando uns dos outros e se esgueirando nas diversas mitologias ancestrais ao redor do mundo e isso acontece nos Entre Mundos também.
3- Nessa etapa a divindade já terá tirado e esvaziado o objeto, tornando ele vazio. Vale a pena conferir se a divindade te orienta a algo como dar banhos, enterrar no jardim por um período, uso de fumaça ou se podemos seguir em frente. Caso seja uma escultura de gesso, cuidado redobrado com água ou umidade da terra.
4- Escute com atenção que intervenção você terá que fazer. Alguns espíritos exigem que o rosto da escultura seja destruído ou re-esculpido, outros podem exigir uma pintura específica, outros exigirão que buracos sejam feitos para inserir determinados materiais, ainda terão alguns que pedirão que uma parte específica seja quebrada. Mas isso pode variar. Nesse momento, a divindade começa a tomar posse de todo o objeto.
5- Com objeto pronto verifique se algum ritual de puxar a divindade precisa ser feito para que o espírito se acomode melhor. Após isso a escultura está pronta e devidamente preenchida pela divindade que você conhece e muito dificilmente esse objeto perderá essa magia, a não ser se for totalmente destruído ou estilhaçado e com as partes devidamente espalhadas em diferentes lugares.
Alguns comentários que podem lançar luz sobre esse tema de roubar esculturas.
Preocupações acerca de ser descoberto ao pegar uma escultura de um deus ou santo. Bom, contanto que você não roube de uma igreja, ou faça isso com uma herança de família, ou com um item que já foi usado e nem de um espaço público (principalmente deuses gregos ou romanos), eles só não se importam. Afinal de contas vocês compraram a escultura e ela nunca foi trabalhada antes, e nenhuma reza foi levantada. Isso garante a segurança do processo. A maioria dos espíritos estão mais preocupados com a ordem e o caos cósmico do que com pequenos delitos astrais, principalmente de objetos comprados em lojas seculares.
Até mesmo os Deuses que não são os Deuses por detrás dos Deuses se beneficiam desse processo.
Nem toda divindade expulsa uma outra para adentrar em um objeto. Existem objetos que podem reter 2 ou mais espíritos. Principalmente se as divindades compartilham de um mesmo mistério. Talvez aqui tenhamos o máximo do que seria um sincretismo muito feito dentro dos caminhos mágicos. Dentro de uma mesma tradição inúmeros espíritos podem responder em um único objeto, mas isso só acontece com os devidos rituais sendo feitos.
Agora, um exemplo de mais de um espírito em uma escultura. Há muito tempo, eu comprei uma escultura de Pã que ironicamente veio com parte da flauta rachada - lembrando que muitos espíritos exigem que uma parte pequena ou grande da escultura seja quebrada para que os mesmos escorregarem lá para dentro. Há muito tempo Pã está na minha vida, e em algum momento Dian y Glas e Krom exigiram ao mesmo tempo viver naquela imagem. Pã não se opôs, pelo contrário, saltou de felicidades e eu pude escutar uma flauta ao longe, e isso me surpreendeu. Quando Pã chegou ele sabia que eu era bruxa e não reconstrucionista, apesar de eu ter um punhado de acordos com divindades helênicas.
Eu faço todas as minhas rezas diárias perante a essa escultura, e Pã, Dian y Glas e Krom respondem por ela. Claro que cada um de uma vez, senão seria uma tremenda confusão pois raramente os desejos de vários deuses se alinham.
Por mais curioso que possa parecer eu reconheço os fios das 3 divindades ao mesmo tempo pulsando vivas no objeto. Muitas bruxas encarando a foto ou vendo a escultura reconhecem um poder estranho que é totalmente desejado dentro da bruxaria. Outra curiosidade é que essas três figuras podem ocupar o “cargo” de Deus/Diabo das Bruxas. Pã pode assumir esse papel por tudo que ele é, e acreditem que Dian y Glas e Krom também são vistos assim dentro da Tradição de Fadas (Feri), e ambos dançam freneticamente a sua forma, oferecendo desejo e poder às bruxas que os procuram.
Sobre santos. Conheço muitos iniciados que já corromperam diversas esculturas de santas ao redor do mundo, destruindo suas faces, re-pintando e fazendo suas alterações, esculpindo crânios onde antes havia rostos ou pintando rios de estrelas onde antes era um rosto sereno. Outros não fizeram grandes alterações, mas conseguem acessar o que desejam ali. E isso não só é visto dentro dos caminhos da bruxaria, já vi espiritualidades reconstrucionistas fazendo isso. Mas não sei como eles fazem, só conheço como as coisas funcionam pelo lado de cá, debaixo do monte.
Uma vez eu comprei uma escultura de uma santa para usar para algo específico relacionado ao povo das fadas. Depois de limpá-la adequadamente deixei ela descansando em meu altar. Na primeira oportunidade que trabalhei com um Espírito Antigo, o mesmo quis me possuir e permiti de forma deliciosa. Então o espírito andou pela casa, conversou com as pessoas e antes de ir embora pegou a santa e a arremessou com toda força no recinto. A santa girou mais do que cata-vento em dia de vendaval e se espatifou. O espírito riu, disse “aqui não” e foi para seus amados reinos mais rápido que um trovão. Acho que trabalhar com santos nunca foi minha pegada e os espíritos devem sacar isso, ou talvez os espíritos que trabalho intimamente tenham um pavor agressivo e reativo disso, a ponto de que naquele momento eles não permitiram o roubo da escultura.
Outro caso foi que por muito tempo procurei por uma escultura do deus Apolo. Na época não havia artesãos e vendedores e comprar pela internet não era uma realidade. Eu tinha uma fonte, uma loja de gesso que tinha boa parte dos deuses gregos e muitas reproduções de artes de jardins. Tinha Athena, Perséfone, Ártemis, Afrodite dentre outras deusas. Os preços eram incrivelmente baratos, uma Athena de corpo inteiro quase do tamanho do meu antebraço por apenas 8 reais (ainda a tenho, até hoje, no topo da minha estante). Um dia nessa loja eu senti Apolo me pedindo para caminhar até o fundo, então eu vi um busto de Eros. Ele brilhava e Apolo disse claramente “leve-o e ofereça-o a mim”. E assim foi. Conheci muitas outras bruxas que tinham essa mesma escultura, que riscavam o nome escrito nela, e ofereciam a outro deus, às vezes adicionando chifres ou guirlandas.
Uns 15 ou 20 anos atrás, uma divindade apareceu para mim em sonhos. Estava em um deserto e a noite estava tão estrelada que eu senti vontade de chorar. Ela descia dos céus com suas asas e sorria para mim. Parecia que ela tinha me procurado por muito tempo e tinha voltado a me reencontrar. Essa era a sensação. Há 1 ano atrás eu cedi aos desejos da divindade. Ela me pediu uma escultura que comumente é associada a Lilith. Comprei e a escultura veio rachada nos pés e eu tive uma decepção estrondosa. A divindade então me acalmou, dizendo “adentrei a escultura pela abertura, sele ela antes do cair da noite para que meu poder não escorra para as estrelas.”
Existe uma cena muito conhecida em As Brumas de Avalon, onde Morgana reconhece a Deusa na imagem de uma Santa. Esse livro foi um dos mais vendidos no Brasil no final dos anos 80 (87 e 88). E por mais que bruxas subestimem o poder da leitura e de romances, essas leituras podem impactar profundamente a prática mágica, ainda mais quando a leitura adentra o imaginário que atravessa o real mundo dos espíritos. Do outro lado não existe uma diferenciação tão clara de criador e criatura, a dicotomia do que é imaginação e o que é real é algo que pertence apenas ao nosso mundo. Assim como o mundo dos sonhos é o outro mundo nos caminhos mais tradicionais.
Conheci muitas bruxas mais velhas que na ausência de uma escultura, adentravam uma igreja, chamavam pela divindade e a divindade respondia. Essas bruxas relatavam a mesma coisa: era como se um raio atravessasse a santa, a partisse em duas, e por um instante era outra coisa ali. Elas relataram que ao fim da conversa com a deusa, ela subia rápido como um trovão, deixando só a atmosfera da outra religião no recinto.
A grande questão desse texto é que existe uma gama de possibilidades envolvendo imagens e divindades que pode ser experimentada com os devidos cuidados. Claro que já vi algumas atrocidades sendo realizadas, por exemplo, por volta de 2008 eu vi uma pessoa montando um altar com uma santa e um deus monoteísta e simulando o Grande Rito. O altar parecia atrair a má sorte. A pessoa até hoje é vista como um grande borrão quebrado lembrando um corpo oco, sem alma. E continua por aí fazendo misturas bizarras e achando que está tudo bem não seguir as regras dos outros mundos. Algumas pessoas ganham azar nesses erros, e esse azar vai acumulando ao longo da vida.
A não utilização de nomes de santos e afins nesse texto é proposital. Falar ou escrever nomes de divindades ou seres diversos pode atrair eles diretamente para você. Não esqueça disso, e eu sempre prefiro os espíritos animistas e politeístas do mundo selvagem (e para esses espíritos: eu grito e canto seus nomes sempre que quero festejar). E aos Deuses por detrás dos Deuses, que sua magia continue transbordando na dança infinita.
Com amor, Fae.
Aquela magia que utiliza as forças potentes do Sol e/ou da Lua eclipsados.
Quando um astro obscurece outro na dança cósmica.
Tratarei magia de eclipse como aquela que utiliza as energias vindas desse evento. Eu aprendi que não se deve fazer esse tipo de magia, pois as consequências costumam ser inesperadas e podem desestabilizar a vida. Trazendo o caos de um momento celeste grandioso para dentro da Bruxa, podendo inclusive fazer a mesma rachar. Mas até aqui nenhuma novidade, processos iniciáticos podem rachar a bruxa, contato com os espíritos também, uso de ervas de poder, o simples contato com o Mundo das Fadas e muitas outras coisas. O contato com o Mundo dos Espíritos, como um todo, é demasiadamente perigoso.
Eu passei os últimos anos testemunhando alguns eclipses, alguns belíssimos, mas claramente existia algo terrível ali. Um senso quase que ancestral que se a Lua não retornasse ao normal o mundo seria mergulhado em um completo caos e medo, se o vermelho sangue não desaparecesse seria o fim de tudo, ou que seres terríveis ganhariam todas as noites e nos devoraria.
Muitos eu não pude ver, pois onde moro existe um tipo de magia estranha, na maioria dos eventos celestes nuvens cobrem toda a cidade, mesmo morando num lugar super solar e de constante céu claro...
Mesmo os eclipses que vi, as nuvens tentavam a todo custo escondê-lo. Talvez grupos do passado tenham feito acordos com espíritos que habitam os ventos e o topo das montanhas, para proteger a terra ao máximo de qualquer energia nefasta ou disruptiva que venha de um dos Sete Céus.
De fato, eu sinto uma influência menor do poder do eclipse quando nuvens densas cobrem os céus. Assim como um dia ainda continua claro com nuvens densas, mas não tão claro como um dia sem nuvens, e nem mesmo tão quente ou luminoso. Os poderes chegam ao solo, mas um pouco mais embaçados. Muitos rituais que se alinham à luz solar ou lunar precisam de um céu claro para conseguir sua máxima potência. Incluindo qualquer magia que necessite da luz solar ou lunar de forma bem direta, onde é necessário que a luz toque determinados objetos por um período de tempo.
A maioria das bruxas que conheço tomam um bom vinho enquanto observam esse movimento celeste sinistro, e eu me incluo entre elas. Amo observar os céus.
Porém, se você está no fundo do poço e precisa de algo disruptivo e que o destino tome rumos inesperados, talvez fazer magia de eclipse seja uma ótima ideia para você!!! Talvez seja o momento ideal.
É um momento em que o fluxo natural do mundo é interrompido, para depois retornar. Mas fique atenta, cada eclipse é um tipo de eclipse. E aqui não estou falando de astrologia, mas de como ele é de forma visível. E entendam pessoas, Astrologia é uma arte inteira por si só, ela pode ser usada por bruxas? Com certeza! Mas ela não é bruxaria. Existe uma certa confusão por aí.
Uma lua cheia que some e reaparece em cerca de algumas horas (completando 29 dias estranhos em poucas horas) é diferente de uma lua que se esconde apenas pela metade. E os poderes que esses eventos invocam são completamente diferentes. A cor vermelha parece ser algo realmente que as bruxas gostam e o eclipse total da Lua parece ser um dos favoritos.
Bruxas podem acessar a energia poderosa do eclipse, levando em conta que sua magia vá funcionar. Muita gente repete sem parar magias vazias e sem nenhum poder dia após dia, em datas poderosas. Mas que nunca funcionam. Com certeza se você olhar com calma você vai ver algumas pessoas que fazem mil feitiços a cada oportunidade, mas sua vida nunca foi em nenhuma direção, seja ela construtiva ou destrutiva. Parece mais “estou brincando disso” ou “é estético", do que “mudo e danço com os destinos".
Ainda tem uns poucos que fizeram tantos feitiços que se tornaram um borrão estranho no destino. Ou um parque de diversões de alguns espíritos e correntes que estão mais interessadas em sugar força vital do que trabalhar em conjunto. Ou aquele tipo de pessoa que parece estar rachada ou quebrada, e existem muitas por aí, basta olhar com atenção.
É provável que tanto as pessoas que fazem magia de eclipse, quanto as que não fazem possam detestar esse texto. Mas é só uma opinião pessoal e como eu lido com os outros mundos, você pode ter outra relação e não me interessa te convencer de nada.
As bruxas da minha tradição em sua maioria não fazem magia de eclipse, mas algumas poucas buscam esses poderes grandiosos e disruptivos e são bem sucedidas. Eu tenho a sensação que caso fosse necessário, pelo menos na minha tradição, nenhuma bruxa se intimidaria por um mau agouro, elas abraçariam isso se fosse preciso, e se tornariam aquilo que as pessoas mais temem, sem grandes problemas. Mas, essa é a natureza das bruxas da minha tradição. Elas são ferozes e seriam acusadas por muitos como os “devotos terríveis da mão esquerda”. Ou “aqueles que comungam com as energias nefastas”. Ou ainda os “andarilhos enlouquecidos”. Eu gosto de todos esses nomes.
Em algumas famílias de bruxaria existem coisas que são aprendidas com o aviso de: “nunca trabalhe com isso!” Sem muita explicação. Nós aprendemos que não devemos usar, mas podemos, a qualquer momento. O eclipse me soa neste mesmo lugar dessas coisas estranhas que existem dentro de algumas tradições.
Desde tempos imemoriais aqueles que praticam magia e que conseguem andar entre os mundos buscam momentos ou locais de poder que quebram a ordem do nosso mundo, para dar vazão ao outro. Me recordo quando visitei algumas pinturas rupestres que ficam nas rochas, em um lugar perigoso entre terra e mar, e como as pessoas daquele tempo escolheram um lugar perigoso e fora do comum para fazer desenhos que puxavam o mundo dos espíritos. Ver aquilo me marcou de forma profunda. Muitos outros humanos ao redor do tempo buscaram pedras diferentes, pedras furadas, plantas incomuns, fósseis raros e pequenos, trevos de 4 folhas, ou penas ou conchas que fugiam do padrão. Aquilo que quebrava o padrão era visto com horror por alguns e era desejado por outros. Trazendo sorte ou muito azar. O objeto do desejo era o estranho e o incomum, repleto de magia.
Os eclipses entram nessa categoria do que foge do padrão, e de forma grandiosa. Do azar e da sorte, que no fundo possuem uma mesma fonte mistérica. O problema ou a solução é: como os poderes que permeiam o evento celeste afetam o corpo a partir do desejo? Se tornando depois disso acúmulo de sorte ou de azar. Esse é o cerne, acúmulo desse poder no próprio corpo. E como essa sorte e azar vão mudar algumas poucas linhas do destino.
A questão é que eclipses são lugares de limiares extremamente poderosos, perigosos, mas com muito poder. Se vistos, não obstruídos pelas nuvens, são intensamente mais influentes. São momentos de desordem em meio à ordem. Podem ser vistos como uma Grande Serpente do terror engolindo o Sol ou a Lua, ou pode ser a Serpente que engole aquilo que já ruiu, para que um novo mundo recomece. Nada mais será o mesmo. Ou talvez o fim realmente aconteça, de forma definitiva e disruptiva.
Eu gosto demasiadamente da minha vida para fazer uma magia de eclipse. Eu já fiz, eu era uma bruxa tola que nunca tinha tido uma educação em uma casa de bruxaria. Funcionou muito, tudo mudou. Hoje não faria, por gostar das estações do Ano que me cercam, e das bruxas que estão ao meu redor.
Mas se tudo ruísse eu jamais teria medo da boca da Serpente. Eu deixaria ela me engolir para eu renascer no meio dos ossos, sangue e cinzas. Ou que minhas sombras desaparecessem no entre mundos para sempre. Quem sabe?!
Existe um velho ditado que diz: “às vezes uma pessoa acumula tanto azar em sua vida, tanto azar, que ele pode ser convertido em sorte em tempo de extrema tormenta”. Quando nem mesmo os deuses podem te socorrer. As correntes do azar podem te levar a uma ruptura potente e sagrada. Obviamente, bruxas espertas acumulam sorte durante sua vida, mas às vezes estamos sujeitas a correntes mais poderosas que nosso próprio poder. Em todos os mundos somos apenas parte da teia, não o centro.
Imagine viver na desgraça e um eclipse que trás o caos seja exatamente a solução para um salto no desconhecido, ou com um pouco de sorte, em direção a uma nova vida?
E, por favor, bruxas, isso é só uma opinião pessoal, você pode só ignorar tudo que escrevi.
Afinal de contas, eclipse após eclipse, veremos as mesmas bruxas brigando para ver se pode ou não fazer magia. Proibições na história, ou antes dela, nunca impediram das pessoas acessarem certos poderes vistos como proibidos. Só tornaram eles mais desejados.
Talvez algumas pessoas vejam o eclipse assim, como eu descrevi. Saiba que você não está sozinha. Eu não estou do lado dos que fazem, nem dos que temem. Eclipses são datas de poder, mistérios que habitam os Sete Céus e podem nos acertar com sua sorte ou azar. Isso é o que importa para mim.
No próximo eclipse visível, caso os espíritos das nuvens decidam que devemos ver da minha terra, estarei com uma taça de vinho testemunhando, de forma silenciosa, a Grande Serpente que abocanha a Lua. Talvez olhando ao longe centenas de bruxas fazendo suas magias, e outras centenas observando tudo. Algumas dessas magias darão terrivelmente certo, outras serão um grande desastre, e ainda algumas não funcionarão.
Isso tudo é muito saboroso.
Agora, sobre fazer magia no eclipse, ou fazer magia sem necessariamente chamar os poderes do eclipse. Todos os dias eu tenho uma rotina de rituais, alinhamentos e purificações. Alguns desses rituais bebem das grandes correntes cósmicas, e do céu do momento. Nunca deixo de fazê-lo, seja em dias nublados ou não, estando muito longe da minha terra ou não, estando perto de um eclipse ou não, em dias tempestuosos ou não. Uma bruxa faz magia quase o tempo inteiro, e meio que não tem como parar de dobrar os mundos, mesmo quando a Grande Serpente abocanha a Lua ou o Sol. Faz parte da vida e do destino da bruxa continuar sendo uma bruxa a todo tempo. Então não há o que discutir aqui.
Com amor delirante e muita confusão, Fae.
Os Enamorados. Tarô Feri por Fae. Um Espírito da bruxaria e uma Bruxa se beijam apaixonadamente. O poder das estrelas muda a bruxa e o Espírito se torna cada vez mais próximo dela. 6 humanos dançam enquanto os Gêmeos divinos aparecem nos céus, anunciando a união entre a Pomba e a Serpente.
10 de Espadas. Tarô Feri por Fae. Dois Espíritos da bruxaria destroçam uma Bruxa de forma feroz em um altar de pedra. Raios preenchem os céus enquanto um Sol repleto de escuridão nasce. Um dos olhos da bruxa foi perfurado. QUase tudo é incerto, exceto o próprio fim. O corpo sucumbe ao destino e à dor.
Todo ano eu vejo uma postagem dizendo que o tarô é um ferramenta de autoconhecimento profundo e que gastar esse tempo precioso sabendo de amores é algo totalmente fútil e desnecessário. Pensei nesse cenário hipotético aplicado a uns dos meus tarôs favoritos, o Rider Waite Smith. Onde dezenas de pessoas apaixonados já perguntaram sobre seus amores presentes e futuros:
Ordenaram: - O Amor é desnecessário e fútil!!!!!!
A primeira a padecer foi a carta dos Enamorados, o casal fora preso, pela simples decisão de tentar saber um do outro. Não havia mais escolha, nem premeditada e nem espontânea. Nunca mais vimos o casal apaixonado.
O Hierofante se aposentou, não tinha como realizar casamentos, e desta forma não conseguia mais materializar o mundo imaterial neste plano.
A Alta Sacerdotisa assistia tudo com pesar, percebendo o grande erro que ocorria, mas não expressava em suas feições e carregava este peso de um sonho perdido.
A Imperatriz, com a mão na barriga, temia por seus filhos no futuro.
O Diabo era só rancor e ódio, nada mais de prazer carnal, nada mais de orgasmo e sexo, ele perdeu toda a sua cor.
O Mago se tornou uma figura comum em algumas Ordens Esotéricas, frígido e gélido, que não entende nada do Cálice e nem mesmo consegue realizar seus feitos. Faltava paixão.
O Eremita virou para o Louco e disse: - Estranho você não mais se lançar no abismo, não se fazem mais loucos como antigamente.
Cada carta sofreu a sua maneira, mas quem sofreu mesmo foi o naipe de copas. Foi ordenado: - Prendam todos!
O 10 de copas se tornou algo criminoso.
Ainda se pode ver as duas taças empoeiradas do 2 de copas no chão, coitados, nunca mais foram vistos, dizem que eles foram pegos no meio de um encontro.
O 9 de Copas foi acusado de safadeza e libertinagem.
O 5 de copas e o 6 de copas foram poupados por uma ironia do destino, não haviam provas concretas sobre eles, então eles seguiram a vida trazendo saudades, nostalgia e muita tristeza por todos os lados.
O 4 de copas morreu de tédio.
Nem as ilusões do 7 de copas foram poupadas, foram todas esvaziadas e enjauladas. Nada de desilusões.
E nem cheguei a comentar, censuraram a Estrela, acusaram ela de ser puta e estar desnuda, uma oportunidade para o desejo proibido. Na mesma cela que ela, a modelo do Mundo esperneava, procurando sua coroa que jazia vazia em algum cemitério, onde não mais se levantavam os mortos, nada de Julgamento.
A Torre era o cenário atual, mas os personagens caindo dela foram acusados de fornicação: eles gozaram no topo dela, por isso toda a explosão.
O Enforcado continuou sem se mexer, o Sol e a Lua continuaram a brilhar enquanto a Força desfalecia na boca de um Leão. Só restava a Temperança para os tempos sombrios passarem e a Justiça para talvez um dia as coisas voltarem a se equilibrar.
A Roda foi corrompida e não girava. Nem mais o Carro andava. Quem lucrou com tudo isso foi a Morte, ela recolheu todas as taças de amores perdidos e tentou vender para o Imperador, com seu coração há muito gelado, e que agora só podia recorrer aos bens materiais para se afogar cada vez mais na tristeza…
Lembre-se, o amor também é iniciático. Muito mais do que imaginamos.
Com muito amor, Fae.
A Bruxa é metamorfa por natureza, acusações de feitiçaria e o voo nos Outros Mundos.
Durante toda a minha vida diversas pessoas me acusaram de feitiçaria. Às vezes diziam que eu tinha causado términos de relacionamentos, outras eu era a bruxa que trazia doenças ou má sorte, ou que lançava maldições pouco ou muito elaboradas. A maioria dessas pessoas, que me acusaram, inclusive algumas se diziam bruxas, tiveram sonhos comigo fazendo coisas terríveis, ou me viram com seus olhos espirituais espreitando a noite.
Em uma dessas visões a pessoa acordou com um terçol depois de um sonho onde eu soprava uma espécie de terra em seus olhos, dizendo claramente que ela não deveria ver nada daquilo ou do que acontecia no mundo espiritual, e que a mesma ficaria cega. Outra teve um sonho claro onde eu a enfeitiçava. Uma outra ainda me acusou de fazer um feitiço de amor, e que eu a queira de qualquer forma. Ainda teve uma outra que teve uma clara visão onde eu dizia que queria me casar com ela, e isso me rendeu uma pessoa furiosa ao descobrir que eu não queria aquilo.
Mas nem só de acusações de feitiçaria vive a bruxa. Houveram também pessoas que tiveram sonhos potentes que indicavam direções para caminhos iniciáticos ou até mesmo na bruxaria, e eu aparecia mostrando o caminho...
Ou até mesmo convites bem expressivos para essas pessoas adentrarem as mesmas trilhas que caminho. Por vezes eu mostrava tesouros valiosos e algumas pessoas se sentiam abençoadas.
O ponto mais potente nessas histórias todas de acusações e também de visões que tiveram de mim é que a grande maioria delas são apenas equívocos. Eu não estava lá de verdade. E muito menos tinha entalhado uma simples vela com encantamentos para abençoá-las ou amaldiçoá-las. Eu não voei pelos céus em direção a essas pessoas.
Eu sabia exatamente por onde eu voava na noite anterior da acusação, na hora da visão ou sonho, e geralmente era bem longe da localização dessas pessoas, até a pessoa que me acusou de um feitiço de amor, eu nem a achava bonita. (e longe aqui de julgar as pessoas pela beleza seguindo um padrão quase que greco-romano, a pessoa só não era interessante o suficiente para eu lançar um encantamento de amor)
A grande questão sobre as acusações de feitiçaria é: por qual motivo uma bruxa que veste a pele de muitos outros seres, se mostraria em um momento de maldição para um inimigo? Eu não consigo imaginar. Claro que existem exceções, às vezes você pode só querer deixar claro de quem foi que enviou a má-sorte. Mas honestamente, a maioria das bruxas não voam por aí com sua cara à mostra, ainda mais quando estão fazendo algum tipo de “trabalho sujo”. Atando, amaldiçoando, roubando partes ou apenas assombrando.
A bruxa desde nova e ao longo de sua jornada recebe diversas peles de aliados espirituais. Essas peles podem ser vestidas como roupas. Essas peles podem vir de espíritos animais dos mais diversos até mesmo de espíritos dos outros mundos. É uma benção valiosa receber uma pele. Existem alguns tipos de pele que já estão impressas na Alma Tripartida da Bruxa, especificamente no Fetch, e que chamamos de Besta do Fetch (aprendi a conhecer a minha e sobre isso com Lilo Assenci). Ou você pode ganhar uma pele no encontro com algum animal selvagem que tenha algum apreço por você ou que tenha algum tipo de ligação com seus ancestrais.
Existem dois caminhos ao vestir uma pele, ou você assume completamente a aparência do ser que te presenteou ou assume uma aparência híbrida. Em ambos os casos a bruxa não é mais reconhecida. E por esse mesmo motivo dificilmente uma bruxa dirá com total clareza que peles ela possui. Este é o grande trunfo da bruxa.
Parte dessas peles são permanentes pois alguns seres possuem acordos vitalícios com essas bruxas, e às vezes alguns acordos atravessam vidas ou passam geração após geração. Outras podem ser usadas só por um período de tempo acordado entre as duas partes, bruxa e espírito dono da pele. Existem peles que você só pode usar dentro de alguns grupos ou clãs familiares de bruxaria. Há peles que você só pode usar em datas de poder específicas ou durante rituais bem estabelecidos.
O uso de peles favorece o não reconhecimento da bruxa, mas sua principal função está longe de ser essa. Uma pele ajuda a bruxa a escorregar por Entre os Mundos, rastejar com facilidade em Florestas Sagradas, ou correr pelas fissuras do tempo, voar para lugares altos ou fundo o suficiente na terra. Uma pele transforma a bruxa em uma besta do outro lado, adquirindo as qualidades do ser ou animal. E eu cito animais diversas vezes pois a maioria das bruxas possuem peles dessa origem. A muito tempo uma aliança foi feita entre humanos que caminham do outro lado e esses animais selvagens que também atravessam os outros mundos, e as bruxas carregam essa herança que é mais antiga do que a primeira ferramenta de pedra.
E de fato, nenhuma das pessoas que me acusaram de feitiçaria viram a minha forma de voo noturno. Não viram a minha pele. Provavelmente aqueles sonhos tinham mais a ver com seus medos vestindo as memórias da minha própria imagem. Ou outra coisa (sim há essa possibilidade). O mais importante é que eu não estava lá.
Mas vocês podem me perguntar, e as histórias de pessoas tendo visões e recebendo tesouros, mensagens e direcionamentos? A maioria delas também não era eu. E aqui mora um dos fatos aterradores que as bruxas pensam pouco sobre. Assim como alguns espíritos cedem a sua pele, alguns seres podem ganhar a nossa própria pele. E espíritos podem usá-la. Claro que alguns desses sonhos podem ter origem em projeções que levam a caminhos muito reais. Mas sempre há a possibilidade de um espírito tão ligado à bruxa que pode assumir a sua imagem, principalmente se for um espírito não-humano.
Já nos casos de acusações, um espírito aliado que ganha a pele de uma bruxa jamais a usaria de forma que a prejudicaria. Esse é um dos princípios fundamentais da aliança entre bruxas e espíritos. Se um espírito causa dor e danos na vida de uma bruxa significa que ele não é um aliado. E lembrando que dor e danos nada tem a ver com possíveis desafios ou ensinamentos que venham desses seres. Logo, em nenhum caso de acusação era um espírito com a minha pele.
Outro exemplo que lembra o uso de peles são os estados de Possessão, onde o espírito habita um corpo e caminho a nosso mundo. Ele veste a nossa carne, come, dança, canta com os vivos. E a bruxa veste a pele de outro ser no Outro Mundo e comunga com os mortos, com as fadas e muitos outros reinos… ou apenas saí por aí roubando força vital, atando, defendendo, abençoando…
E não é sempre que a bruxa precisa se vestir. Às vezes ela só vai montada em uma erva ou animal, ou voando ao lado de aliados poderosos, ou ainda se transforma em algo apenas para percorrer o caminho e voltando a sua forma original ao chegar. Às vezes a bruxa só quer aparecer no sonho de alguém ou encontrar a pessoa ou bruxa no outro lado. Eu fiz isso tantas vezes com parceiras de trabalho, com amantes e com amigas, sempre com a cara limpa, afinal não há riscos significativos nessas interações. Agora se a bruxa precisa de camuflagem, velocidade, dentes afiados, força ou alguma outra aptidão, vestir uma pele é o melhor caminho.
Nenhuma vez que usei minha pele conseguiram me achar. Nenhuma vez em que as bruxas que conheço se vestiram nos outros mundos foram pegas ou identificadas. E eu e todas elas sempre voltamos em total segurança, sem nenhuma parte faltando. Vestir uma pele é uma das habilidades mais preciosas para visitar os outros mundos ou assombrar o nosso próprio. Claro que ela está longe de ser nosso único artifício.
Se camufle, se esconda, rosne, morda com dentes afiados, afie suas garras.
Honre as suas peles e sempre guarde segredo sobre a maioria delas. Nunca se sabe quando você realmente precisará dessa habilidade.
Para as bruxas que ainda não possuem peles, converse com os espíritos que te cercam, com certeza um deles oferecerá a sua pele. Procurem os espíritos de animais ou outros que te observam camuflados ao seu redor. Chame por eles. Talvez você já tenha uma pele e até tenha saído com ela, mas não se deu conta. Revisite as memórias de seus sonhos e de suas saídas do corpo.
Com amor, Fae. 21 de Agosto de 2025
Bruxaria é sobre Poder e Visão. "Antigamente" para uma nova bruxa adentrar em um clã, ela precisava recitar sem hesitação as palavras: Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão (pontas do Pentáculo de Ferro, uma das principais ferramentas das bruxas da Feri-Faery e que foi passado à frente na Reclaiming). Pode parecer algo simples, mas para as bruxas da década de 20 e 30 podia ser algo desafiador. Recitar essas palavras significava abandonar o falso deus e seguir os Deuses da Antiga Floresta, das Antigas Cavernas e dos Céus Estrelados. Era abrir seus olhos para um novo mundo selvagem, receber a Visão e finalmente poder se relacionar de forma profunda e visceral com o Mundo dos Espíritos.
Bruxas possuem a Visão, que pode ser descrita como a capacidade de ver os outros mundos ou os espíritos, geralmente a Visão chega bem cedo ou depois de um fato marcante no próprio destino da bruxa.
Existe uma história que a Visão chega quando a região dos olhos de uma bruxa é "suja" com misturas ou ervas do Outro Mundo (isso é dito exaustivamente nos mitos e nos rituais Feri)...
Isso pode ser feito por uma bruxa, um espírito e até mesmo acontecer de forma acidental. Às vezes isso chega no nascimento quando a bruxa já é reconhecida de outras vidas ou muito aguardada por um grupo de espíritos. Um nascimento difícil pode ser um indicativo que a Visão chegou. Acidentes Misteriosos durante a infância, encontros com animais selvagens, perigosos ou peçonhentos. Pisar em um círculo de Fadas, adormecer em um círculos de pedras. Existem tantas variáveis quanto existem bruxas. Algumas só se desdobram saindo do próprio corpo e a Visão chega. A Visão pode se desenvolver conforme essas saídas do corpo se intensificam. Existem aquelas que ganham a Visão no caminho dos venenos, depois de achar a dose correta que a faz ver todos os mundos. Ainda tem algumas que ganham depois de uma série de sonhos estranhos na infância ou vida adulta. Entrar em processo de iniciação costuma conferir a Visão em diferentes etapas, culminando no ritual, podendo aprofundar e adicionar "lentes extras" nos olhos de bruxa já existentes.
A primeira vez que eu escutei sobre a Visão foi entre 2005 a 2007, onde conheci um grupo de jovens bruxas, que se comunicavam com muitas pessoas que estavam tendo sonhos muito parecidos, todos eles anunciando um fim do mundo, onde ou o planeta ardia em chamas, ou milhares de demônios brotavam do chão, ou a Lua se partia, dentre outras catástrofes. Era surpreendente o número de pessoas que tiveram esses sonhos naqueles anos. E a maioria ganhou a Visão daquela forma. Muita gente passou a ver espíritos, a lerem com facilidade as cartas e alguns se mostraram altamente habilidosos em fazer magia.
Eu tinha a Visão a muito tempo e já era muito habilidose em viajar durante a noite no entre mundos. Mas eu cheguei a captar alguns desses sonhos e pude ver com a Visão alguns deles. Eles eram terrivelmente estranhos, assustadores e sedutores. Os sonhos, além de apavorantes, eram estranhamente belos e tristes. A dança caótica parecia mostrar poderes titânicos brotando da terra ou dos céus. Eu não sei o que aconteceu naqueles anos para toda aquela comoção do outro lado. Mas a maioria esmagadora desses sonhadores se voltaram para caminhos mágicos e místicos, e ainda hoje o fazem.
Eu sempre testemunhei bruxas ganhando ou aprofundando a Visão, mas apenas uma única vez eu testemunhei uma bruxa a perdendo. Primeiro a mão de fazer magia dela parou de funcionar, ela não tinha nenhum resultado. Depois os oráculos ficaram nebulosos, nenhum acerto e nenhuma mensagem que realmente fosse útil. Por último ela entrou em um turbilhão de falsas mensagens e visões distorcidas, acompanhadas de um delírio gigantesco de perseguição. Talvez a Visão ainda esteja lá, talvez um espírito tenha usado seu poder Titânico para distorcer tudo, ou algum ser simplesmente furou os olhos espirituais dela.
O ato de furar os olhos existe entre as Fadas (Feri fala o tempo todo disto), mas furar com eficiência os olhos de uma bruxa é algo bem raro, para não dizer inexistente. Já humanos que ganham a Visão, isso dá para tirar. O que explica pessoas verem os outros mundos ou espíritos por um curto período de tempo como meses ou anos. E a maioria das vezes quem fura esses olhos humanos (que tem a Visão) são os próprios espíritos, eles amam isso. E podem fazer tanto para abençoar a pessoa atormentada pela Visão, ou quando os mesmos querem privacidade. Já tentar retirar a Visão de uma bruxa é arranjar problemas com forças Ctônicas, Celestes e Titânicas, é colocar um alvo bem grande na própria linha do destino.
É de senso comum que é mais fácil dar a Visão a uma bruxa do que tirá-la. Existiram bruxas poderosas que fracassaram de forma visceral em tentar retirar uma pessoa de sua linhagem, e por consequência, sua Visão. Parece ter uma lei bem forte, escrita em pedra, em como não é possível fazer isso.
Algumas adições. Nem sempre a Visão está associada à visão. Existem bruxas poderosas que nunca "enxergaram" os outros mundos, mas os sentem em seus mínimos detalhes, dançando com as marés poderosas e com muito mais alianças com espíritos do que pessoas que enxergam perfeitamente. A Visão nunca teve e nunca estará presa em apenas um sentido, viver os outros mundos pode ter uma outra lógica completamente diferente. Falo isto pois já conheci bruxas com a Visão gigantesca e que não sabiam disso, pois elas não viam. E já conheci outras que enxergavam muito, mas em uma fatia tão pequena que mostrava muito pouco ou quase nada dos Outros Mundos.
Respire profundamente e abrace a sua Visão, sua forma única de experimentar, dançar e sentir os outros mundos. Cultive sua Visão, cuide bem dela, e para os curiosos sempre tenha um espinho bem agudo à mão.
-Fae, 8 de Agosto de 2025
Bruxaria e Relações Abusivas
Identificando problemas na Arte
A bruxaria é uma arte perigosa. As histórias sobre as três possibilidades de quando se encosta no poder são tão reais e palpáveis quanto o espinho de uma rosa perfurando a pele. Quando você entra no caminho da Arte sempre há três possibilidades: ou você morre, ou você enlouquece ou, com um pouco de sorte em seu destino, se torna um poeta. Muitas bruxas que vieram antes de nós recitaram incansavelmente os perigos e delícias deste caminho tortuoso, misterioso e iniciático. E o lore continua rolando de lábios para ouvidos, de pele para pele e de toque para toque.
Mas o fato da bruxaria ser uma caminho perigoso não implica que grupos sejam nocivos a sua sanidade mental e emocional, bem como a sua integridade física...
Talvez o ar misterioso, estranho e mágico da bruxaria possa atrair todo tipo de gente perniciosa para o nosso meio. A bruxaria é um limiar sombrio, e talvez alguns tentem esconder suas insanidades nesse limiar, mesmo a Arte não tolerando este tipo de coisa. Afinal de contas, a Bruxaria não é uma oferta de liberdade e poder? Ignorar isto é um grande perigo para aqueles que estão iniciando neste caminho e também para aqueles que, por algum motivo, podem estar em garras que sugam a força vital, ao invés de dar mais poder e liberdade para a alma da bruxa.
Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão: Estes são os poderes inatos da bruxa. Por qual motivo alguém de dentro do Caminho iria querer corromper conscientemente estes poderes que são direitos de nascença? Em 2017, após iniciar meu treinamento formal em Feri e também começar a me envolver com a Reclaiming, eu senti a diferença gritante de estar em um local abusivo para estar finalmente em um lugar seguro onde, depois de anos, consegui desenvolver minhas capacidades psíquicas e mágicas em um ambiente seguro para a minha integridade enquanto ser humano. Eu precisava escrever sobre e escrevi de forma desengonçada e apressada o seguinte texto:
“Se você pertence a um círculo onde há medo, pressões e manipulações, fuja o mais rápido possível. Se colocam em você um constante medo de ataques psíquicos e mágicos, sinto lhe informar, estão te manipulando. Corra, peça ajuda. Se dizem que os Deuses te obrigam a ficar, saiba, eles mentem. Muita gente desequilibrada entra nos caminhos místicos e usam de um pseudo conhecimento ou pseudo status de sacerdotisa/sacerdote para manipular, controlar e jogar com as pessoas. Te fragilizam, te derrubam e te envolvem numa teia de emoções confusas. Fique atento ao controle dessas pessoas.
Ninguém pode obter sua liberdade, lembre disto.
Se te obrigam ao sexo ou ao toque forçado, saiba que isto não faz parte de um lugar sério, você está sendo vítima de um crime.
Se pseudos mestres prometem conhecimento, se colocam numa posição de que sabem demais e nunca ensinam, saiba, há algo de errado. Provavelmente você estará sendo enganado. Há professores sérios na bruxaria que podem te ensinar sem estas ilusões criadas para manipular.
Há uma grande diferença entre segredo iniciático e falta de transparência. Fique bem atento a isto.
Qualquer tradição séria de Bruxaria, com ou sem hierarquia, anárquica ou centrada, preza pelo bem estar e segurança de seus membros. Qualquer coisa que desrespeite seu corpo e seu bem estar é mais do que um indicativo de perigo, é um indicativo que você deve correr, denunciar e pedir ajuda.
Você não estará sozinho! Não tenha medo de pedir ajuda.
Estejam seguros.
ps: na minha jornada gostaria de ter lido mais avisos como esses, logo o escrevo agora.”
Revisitando este texto/encantamento percebo que há algumas lacunas, pois muitos usam de sua linhagem e seu conhecimento genuíno na bruxaria para explorar, manipular e brincar com a vida humana. Então uma linhagem não é, nunca foi e nunca será garantia de um local seguro. Não só de pseudo sacerdotes que guardam pseudo conhecimentos são feitos os abusos (apesar de haver mais chances de abusos nestas circunstâncias), há muita gente com linhagem comprovada que foi capaz de cometer absurdos. Gente com conhecimento que se aproveita deste poder para alimentar seus próprios demônios.
Outra observação neste texto é, gostaria de dar mais atenção a parte “diferença entre segredo iniciático e falta de transparência.” pois existe uma grande confusão no meio da bruxaria. Estudei com professores que foram muito abertos quanto a magia, quanto a prática e quanto a sua própria ética, mesmo sem em momento algum revelarem os segredos iniciáticos. Abertos e sinceros com suas próprias histórias. Mas o gancho de segredo pode ser usado como justificativa para esconder abusos sexuais, ou abusos mentais ou manter pessoas presas em um local nada saudável. Em alguns momentos os segredos cabem na palma da mão, frente a magnitude do que as pessoas dizem por aí.
Na época deste texto, eu estava tão furioso que queria expor isto. Era uma fúria extática guiada pelos Guardiões e Deuses estranhos que sempre me vigiaram, mas que até então não os tinha encarado. Para minha surpresa, eu recebi uma enxurrada de mensagens: muitas bruxas tinham se identificado. Eu fiquei perplexo, passei dias escutando relatos dos mais bizarros dentro da bruxaria. Abusos sexuais, agressões, manipulações, um culto ao medo, o culto a pseudo guerras mágicas e o constante medo de ataques mágicos… Juramentos com uma procedência um tanto que duvidosa e tradições com as regras mais estapafúrdias para seus membros.
O cenário da bruxaria parecia da seguinte forma para mim: bruxas talentosíssimas espalhadas pelos mais diversos cantos do meu país, que eram muito boas, mas que estava suficientemente machucadas para não quererem nunca mais se envolverem com uma comunidade, um coven, um círculo, um clã ou uma tradição. Foi nesse dia que decidi lutar mais ativamente para criar locais seguros dentro da bruxaria e tentar explicar o máximo possível que os perigos da bruxaria são outros, e não a tendência criminosa de certas pessoas do meio bruxo.
Eu queria escrever mais, eu queria falar mais sobre isto, cheguei a mandar outras mensagens e sempre a resposta era a mesma, histórias estranhas chegavam até mim. Eu escrevia para mim mesmo no passado, o tempo pode ser apenas uma distorção:
“Conselhos para bruxas que começaram a jornada ou para quem está começando a entrar no caminho da bruxaria. (Ou o que eu gostaria de ter ouvido quando eu comecei a minha caminhada): A bruxaria pode ser perigosa, mas isto não significa que os grupos precisam ser perigosos a sua integridade física e mental.
Tenha mais de um professor dentro da Arte, fuja de mestres e lembre-se que você é sua maior autoridade espiritual enraizada em sua própria comunidade humana e não-humana.
Ao menos uma vez na vida, tenha um treinamento formal, e se não for possível, procure por livros que tenham algo parecido com um treinamento.
Tenha em mente que há tantas formas de praticar Bruxaria quanto há pessoas no mundo, e tudo bem.
Esteja em locais seguros para Bruxas e crie locais seguros para Bruxas.
Reconheça os locais tóxicos e abusivos, denuncie e se afaste disso.
E lembre-se: qualquer tradição séria irá prezar pelo seu bem estar e segurança.
Confie na sua intuição, honre seus mortos e se alinhe cada dia mais com o seu verdadeiro Self. Isto não é para qualquer um. Viva em êxtase.”
Revisitando este texto eu gostaria de fazer uma observação. Nem sempre as pessoas conseguem denunciar o abusador e afastar-se é uma solução. Em minha jornada, não consegui denunciar meus abusadores, e se fosse hoje eu chamaria a polícia. Mas eu estava envolvido emocionalmente e me afastar completamente foi o que serviu para mim. Com o tempo percebi o quanto foi importante contar minha história para outras bruxas.
Eu queria conversar com outras bruxas, e agora podia fazer isso. Minha liberdade de expressão não estava mais presa a um coven problemático ou a uma tradição abusiva. Eu me lembro do meu primeiro choque de realidade após eu ter saído de uma tradição que mais parecia um daqueles cultos malucos que vemos em seriados americanos. A nível de transparência citarei algumas coisas que envolviam esse culto bizarro:
#o poder estava centralizado em uma única pessoa que jogava os membros uns contra os outros (culminando em algumas situações desagradáveis, até a agressão física), bem como passava pela mão desta única pessoa qualquer decisão que afetasse a dinâmica da tradição (quem permanecia, quem era iniciado, quem tinha privilégios e quem não tinha, quem podia participar de determinados covens, etc.)
#existia retenção de conhecimento (que não existia propriamente dito) e manipulação neste sentido. Em tudo se maquiava uma aura de mistério, apesar de tudo estar disponível para qualquer pesquisador ávido. Sempre havia algo a mais que você não podia saber, algo que não era para você, mas que estava lá. E não estamos falando aqui de segredo iniciático. Você tinha que se manter fiel a abelha rainha para talvez um dia poder provar de um suposto mel.
#existia uma estrutura de poder que minava as bruxas, deixando-as sem possibilidade para crescer. Discordâncias não eram toleradas. Escolher seu próprio caminho? Nunca era uma possibilidade. Qualquer plano de estudar com alguém com conhecimento fora do grupo era completamente minado. (E não estamos falando aqui de treinamentos que exigem dedicação exclusiva por um tempo). Era na realidade uma forma de isolar bruxas de qualquer coisa que pudesse aflorar suas capacidades.
#O constante medo de sempre estar sendo atacado magicamente. Imagine viver constantemente sob ataque de forças obscuras e que todas as outras vertentes e clãs são seus inimigos. Uma forma simples de forçar um espírito de grupo e identidade: ter inimigos em comum. Sem o grupo você estaria em perigo: se não fosse por causa dos outros seria pelo próprio grupo que você “traiu”. Inclusive, a palavra traição é uma das coisas favoritas de pessoas abusivas, qualquer um que se levante contra abusos é visto como um completo traidor. Deuses, espíritos, oráculos eram envolvidos na teia de manipulação. Havia emissários dos “Deuses”. Você nunca poderia tirar suas próprias considerações sem ser agredido pelo grupo, que era treinado para se comportar assim. Muitas pessoas viraram inimigas sem ao mesmo terem motivos para isto.
#Agressão física era justificada como influências espirituais ao invés de responsabilizar agressores. Acho que esta é a parte mais pesada dessa história toda. Em dezembro de 2016, depois de uma grande bomba relógio ser armada por uma liderança que exercia manipulações e pressões, eu sofri uma agressão física.
#O uso de feitiços sobre os membros como justificativa de forçar uma harmonia também servia como uma tentativa de dizer: quem não segue as regras por vontade própria terá que segui-las à força, pois feitiços serão feitos.
#Juramentos que envolviam x ou y pessoa ser respeitada acima de qualquer coisa davam o tom sombrio ao culto ainda mais bizarro que estava a minha frente.
Mas agora, vamos retornar ao meu choque de realidade. Me lembro de duas coisas que me abalaram de forma surpreendente. A primeira vez foi uma simples pergunta que eu fiz para minha primeira professora de Feri. Ela foi completamente aberta e eu senti que ela falava sobre conhecimento. Era o que ela realmente fazia, e ela não estava usando aquilo para dizer que era maior que eu, ou que eu estava preso a ela, muito pelo contrário, o objetivo parecia mais “eu vejo e faço desta forma e quero que bruxas sejam tão capazes quanto eu”. Outro fato que me desmoronou foi no dia que discordei de uma visão muito específica e a resposta que recebi foi “maravilha, faça deste jeito, pois faz sentido apesar de eu ir para um lado oposto”. Me lembro até hoje de uma famosa frase dela que era “se você não gosta do lore, crie o seu próprio”. Que VeeDub (Valerie Walker) seja lembrada, o que é lembrado vive!
Talvez se eu não tivesse coragem de romper com o grupo problemático, eu jamais teria desabrochado como bruxa, e isto de forma alguma foi algo tranquilo. Foi doloroso, foi como abrir uma ferida com pus para limpar. Envolveu dor e choro. Se eu não desse a chance de pessoas qualificadas e que prezavam pelo meu bem estar me ensinarem, talvez eu não teria experimentado as delícias do mel e do fogo. Ou a visceralidade da vida, ou talvez eu nem tivesse me entregado com tanta ênfase ao mundo dos espíritos. Não teria conhecido a encruzilhada, os espíritos tutelares da minha tradição ou até mesmo criado conexões tão incríveis com bruxas locais ou ao redor do mundo. Eu teria entregado meu direito e minha força vital a outra pessoa.
Neste momento do texto gostaria de compartilhar algumas perguntas que podem ajudar na identificação de possíveis problemas:
O local que você encontrou é transparente em seu funcionamento e te passa segurança? As pessoas zelam pelo seu bem estar? Há mestres que querem adulação? Seus professores instigam uma disputa nada saudável entre seus alunos e colegas? A culpa e a vergonha são métodos utilizados para o seu “desenvolvimento mágico”? Você conhece a história de seus professores? Ela é clara e verificável na medida do possível? A história de seu professor é rodeada de tragédias, mais do que o normal – por exemplo: problemas com alunos, com grupos, com tradições? Existem situações estranhas que envolvam algum tipo de abuso sexual ou físico?
E agora, talvez a mais importante de todas as perguntas:
Você sente que sua força vital pertence a você ou ela está na mão de outra pessoa? Reflita sobre a sua resposta. Se você responde "não" ou não consegue responder esta pergunta significa que há algo errado com o local onde você está.
Lidando com o problema ou quando o afastamento é a solução
Quando estamos com um problema deste tipo na Arte, o primeiro passo é dizer a si mesmo algo como:
“Estou com problemas.”
“Talvez eu tenha me equivocado sobre onde estou.”
“Talvez eu tenha feito uma escolha errada em estar aqui.”
“Eu acreditei em algo e agora não é bem isso.”
“Admirei tal pessoa, mas agora ela parece nociva.”
“O grupo não está funcionando de forma a me levar a um desenvolvimento saudável.”
“Me sinto preso e isto não está funcionando.”
Você pode adicionar qualquer frase aqui, essas frases costumam ser frustrantes e assustadoras, mas fazem a gente começar a entender o que anda rolando.
A minha primeira atitude em perceber que estava em uma situação abusiva foi: tentarei mudar a situação. Mudarei como as coisas funcionam e assim as pessoas mudarão também. Infelizmente nem sempre a coisa funciona dessa forma e a única opção viável é realmente sair e se desvincular completamente do grupo. Grupos tendem a reproduzir sistemas de abuso sem ao menos perceber, é fácil criar um sistema de pirâmide de poder sobre. Alguém te domina, mas você suporta pois também domina alguém e por vezes acredita que um dia chegará ao topo.
Essas redes de abuso são projetadas para serem seguras para apenas um tipo de pessoa: a abusadora. E geralmente as teias são fortes como pedra, e as chances de reverter a situação são pequenas. Inclusive, se um grupo de pessoas que se desliga de um local desses permanece trabalhando junto, elas devem ficar muito atentas, há grandes chances do grupo de reproduzir as mesmas situações e estruturas.
Também há pessoas que se sentem ameaçadas pelo simples fato dos abusadores terem seus contatos “políticos” no meio da “bruxaria”. O medo de represálias realmente é assustador. Uma coisa que tenho para falar é: vocês não estão sozinhos. E lembrem-se: ameaça espiritual é uma forma de desonestidade para manipular e manter as pessoas presas em seus grupos. Ameaça de isolamento no meio mágico é igualmente desonesto e manipulador, não esqueçam disto jamais.
Muitas vezes grupos abusivos se disfarçam dentro do discurso “somos os únicos grupos seguros da região”. Muito cuidado com grupos que alegam verdades únicas ou se auto promovem demais nestes aspectos. Realmente o grupo incentiva as pessoas a serem suas próprias autoridades espirituais ou eles se comportam como uma espécie de culto de escolhidos e únicos verídicos? Fiquem atentos a qualquer centralização de poder, geralmente essas centralizações vem acompanhada de camadas e mais camadas de abusos.
O conselho que dou para pessoas que estejam em uma situação de abuso é, não tenham receio de cortar relações e se afastar. A sua vida não irá acabar com isto, muito pelo contrário, ela pode começar a partir deste start. Geralmente as ligações emocionais estão tão fortes que nos sentimos completamente minados em tomar uma atitude mais agressiva… Mas a bruxaria é selvagem, ela é agressiva, ela é visceral… e podemos usar estes poderes para seguir em frente.
O afastamento é como um encantamento, tecido com coragem e um senso de auto responsabilidade enorme. Para estar livre de um ambiente de alta pressão, onde você é completamente minguado e onde as linhas de Aka que te ligam a situação ou a pessoas são fortes ao drenar sua força vital, o mais aconselhável é o isolamento tanto das situações quanto das pessoas. Para que essas linhas possam secar e não terem mais nenhuma influência sobre ti.
Não tenha medo em abandonar, em virar as costas, a seguir em frente e a dizer não para todos que estejam envolvidas nestas teias, mesmo que isso pareça custar caro. Não há preço que possa comprar a sensação de ser sua própria autoridade espiritual. O número de pessoas que tiveram que passar por isto é muito alto, então você não está sozinha. A princípio você ainda sentirá as pessoas próximas. Com o tempo cada influência vai sendo minada por ti.
Por um breve momento o isolamento e a solidão podem ser uma consequência. Um conselho que dou a todos é: se isolem de situações ou pessoas que sigam os mesmos padrões abusivos que você identificou. E tenham em mente que sempre haverá bruxas que valem a pena manter contato. Mesmo em um caminho dito como solitário, não se isole de outras bruxas, uma rede é algo poderoso e você poderá buscar apoio e colo para pessoas que te apoiem, e que não produzem teias que possam te aprisionar.
Uma coisa que aprendi nestes anos de bruxaria na Tradição Reclaiming é que cada pessoa é sua própria autoridade espiritual. Victor Anderson dizia: “Nunca submeta a sua força vital a nada e nem a ninguém.” Essa frase ecoa de forma profunda no meu ser, bem como tento transmiti-la pelos meus lábios de forma intensa para o maior quantitativo de bruxas. E eu desejo profundamente que os espíritos ajudem para que esta frase vá cada vez mais longe e mais profundo no caminho tortuoso.
Quebrando as correntes na encruzilhada
Você pode querer ajuda de Deuses, Aliados, Companheiros do Fetch (Fetch-mate), Familiares e uma infinidade de espíritos que podem te auxiliar neste momento libertador. Não existe uma receita única para romper grilhões. Você pode ser acolhido por outras bruxas, você pode passar por um profundo rito de passagem ou até mesmo realizar um feitiço. Talvez os próximos tempos após o rompimento você sofra ou até mesmo sinta falta da estrutura das relações abusivas.
Escute o som que vem do selvagem, escute o Fetch e encare seus demônios. Reze e dance, busque por êxtase. Lembre-se que não há parte alguma sua que não faça parte dos Deuses Selvagens. Talvez em algum momento minaram seu poder, mas ninguém pode tirá-lo de você. Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão são seus direitos de nascença. Você ainda possui forças para se alinhar cada vez mais de acordo com sua própria verdade neste mundo.
Se precisar de ajuda você pode usar o Encantamento da Encruzilhada descrito abaixo.
Chame seus aliados, deuses, companheiros do fetch, animais guardiões dentre outros espíritos e cante/encante na encruzilhada entre os mundos ou em um círculo:
"Que meu Sexo seja sagrado
Que meu Orgulho retorne
Que meu Self seja reverenciado
Que meu Poder desabroche
Que minha Paixão renasça
Que eu não esqueça que meus pés são sagrados
E que meus joelhos se dobrem apenas nos altares sagrados
Que meu sexo seja curado das feridas
Que meus peitos sejam ornados com força, beleza e poder
Que meus lábios encantem o mundo
Sou uma bruxa
Que meus direitos de nascença brilhem e me protejam
Sexo, Orgulho, Self, Poder, Paixão
Que a vida e o êxtase me deem um beijo neste dia
Eu sou inabalável, meu sangue possui a chama
Que a desesperança seja levada pela foice dos deuses sábios
Que a esperança venha conduzida pelas crianças sagradas
Até o meu círculo, até a minha encruzilhada
Sou uma bruxa
Que o Amor vença a intolerância
Que a Lei se sobreponha a violência
Que o Conhecimento destrua as inverdades
Que a Liberdade quebre os grilhões
E que a Sabedoria varra os ignorantes
Que o doce beijo da vida me toque neste momento
Em meu círculo, em minha encruzilhada
Sou uma bruxas
Mudarei todos os mundos
Que a escuridão e a luz das estrelas
possam me abraçar neste momento
Estamos todas conectadas, além do tempo, além do espaço."
Versão para ajudar outra bruxa, encantando ela com o seguinte encantamento:
(você pode recitar este encantamento enquanto desenha símbolos de proteção ao redor de sua companheira de jornada)
"Que seu Sexo seja sagrado
Que seu Orgulho retorne
Que seu Self seja reverenciado
Que seu Poder desabroche
Que sua Paixão renasça
Não se esqueça que seus pés são sagrados
E que seus joelhos só se dobrem nos altares sagrados
Que seu sexo se cure das feridas
Que seus peitos sejam ornados com força, beleza e poder
Que seus lábios encantem o mundo
Bruxas
Que seus direitos de nascença brilhem e te protejam
Sexo, Orgulho, Self, Poder, Paixão
Que a vida e o êxtase lhe deem um beijo neste dia
Você é inabalável, seu sangue possui a chama
Que a desesperança seja levada pela foice dos deuses sábios
Que a esperança venha conduzida pelas crianças sagradas
Até o seu círculo, até a sua encruzilhada
Bruxas
Que o Amor vença a intolerância
Que a Lei se sobreponha a violência
Que o Conhecimento destrua as inverdades
Que a Liberdade quebre os grilhões
E que a Sabedoria varra os ignorantes
Que o doce beijo da vida te toque neste momento
Em seu círculo, em sua encruzilhada
Bruxas
Mudem o mundo
Que a escuridão e a luz das estrelas
possam te abraçar neste momento
Estamos todas conectadas além do tempo, além do espaço."
Recomeçando: Entenda que nem tudo está perdido. Você pode recomeçar. Lave suas feridas, cicatrize seus cortes. Tudo bem romper de vez, tudo bem experimentar o mundo novamente. Mas tenha em mente, você pode ser a sua própria autoridade espiritual e jamais entregue sua força vital a ninguém. Se orgulhe de sua cura e jamais romantize seu sofrimento. Qualquer comunidade que se importa com seus membros, com ou sem hierarquia, preza pelo bem estar de cada bruxa presente.
Sempre se questione sobre as relações de poder, principalmente quando elas tentam de alguma forma esmagar a sua liberdade.
Que seus passos sejam abençoados a partir de hoje. Bênçãos Selvagens.
Com Amor, Fae.
Texto publicado pela primeira vez em https://feribrasil.wordpress.com/2020/11/13/bruxaria-e-relacionamento-abusivo/ em 13 de Novembro de 2020.