“A manifestação mais pura de um lugar, paisagem ou formação natural. A presença de tudo que é selvagem e ainda resiste.”
A bússola das bruxas. 7 de março de 2023
Espíritos Locais são aqueles seres que são intimamente ligados com à terra. São a manifestação mais pura de um lugar, paisagem ou formação natural. A presença de tudo que é selvagem e ainda resiste. Sem a ação desses seres o céu perde a cor, a chuva corrói a carne e a madeira, e o solo deixa de ser um lugar de vida e até mesmo a morte passa a ser vazia, existindo, mas sem a grande explosão de vida. Os corações dos Espíritos Locais podem estar em uma árvore ou em várias, em um lago ou em uma vasta paisagem, num grande rio ou numa pequena nascente, em uma rocha enorme ou em um agrupamento de pequenos cristais ou areia, e em muitos casos podem estar enraizados nas fundações de grandes cidades.
Eles podem ser pequenos ou colossais. Podem ter milhares de anos ou pouquíssimas décadas, e às vezes podem ser recém-nascidos em locais com formação geológica intensa, com terremotos ou vulcões ou até mesmo em locais de reflorestamento, quando as pessoas, ou os pássaros ou o vento espalham sementes ou ainda quando o concreto racha dando vazão ao verde, e até mesmo no musgo e no mofo do amanhecer. Um espírito local pode nascer em seu jardim, em seu quintal, desde que haja condições muito favoráveis para isso. Assim como tempestades repetitivas, de forma anual, podem conter grandes espíritos com uma mobilidade bem maior. Eles também habitam as nossas intocadas florestas, os céus, as regiões de campo e as grandes cidades. Se rastejando pelas fissuras do concreto e caminhando de dentro dos parques e jardins, ou até mesmo existindo escondidos debaixo do solo. Alguns nunca procuram bruxas ou humanos, outros tem uma curiosidade ou desejam algo de nós, já que nós pertencemos às suas paisagens, o contato não costuma ser difícil entre as décadas de convívio.
Eu não lembro exatamente quando eu ganhei a visão dos outros mundo. O momento exato em que os olhos de uma bruxa são sujos com ervas que só existem no mundo das fadas pode acontecer desde antes do nascimento, mas também se repetir durante toda infância e vida adulta. Algumas pessoas carregam esse misterioso unguento por vidas a fio, como uma sina que pode ser abraçada como inevitável ou odiada como uma terrível maldição.
Existem formas misteriosas dos espíritos, que concederam essa visão, retirá-la de forma permanente, em um doloroso e cruel ato de furar os olhos. De fato, algumas pessoas ganham essa visão de forma acidental, outras são escolhidas a dedo para pactos importantes que costumam envolver mais de duas partes. E nesse quesito os Deuses como conhecemos são apenas parte da ponta mais alta da montanha. A quantidade de espíritos selvagens é enorme e nenhuma mitologia no mundo seria capaz de catalogá-la, não sem ser fulminada completamente pelo poder visceral dos outros mundos.
Eu lembro que na infância eu percebi que só eu estava vendo uma coisa. Eu lembro de estar com duas crianças perto de mim, apontando para uma coisa em um arbusto e dizendo: - olhe aquele animal. Ninguém viu. O ser veio até meus pés e se aconchegou, e me acompanhou e me protegeu durante uns 15 anos, e esteve presente quando presenciei um dos episódios mais violentos de possessão que vi na vida. Ainda bem que esse espírito estava lá comigo.
Sua aparência lembrava uma forma animal, porém com proporções um pouco confusas. Conforme eu crescia o ser aumentava de tamanho e se tornava mais forte para influenciar no mundo dos vivos, seja atormentando as pessoas ou invadindo seus sonhos. Por vezes o espírito se comportava como um cão de guarda, grunhindo quando havia perigo, permitindo que eu ganhasse tempo em diversas situações.
Talvez o momento em que aprendi a me defender sozinhe com magia foi crucial para este ser me deixar para sempre. Seu desaparecimento foi repentino, mas ainda consegui por anos ver o rosto do mesmo em datas de poder, no fogo da fogueira ou na densa fumaça dos rituais realizados na natureza aberta. Talvez a árvore que era sua morada tenha sido arrancada com lâminas metálicas (o bairro tinha mudado drasticamente em 15 anos) ou ele tenha sido convocado novamente para as camadas mais profundas da terra que a maioria das bruxas vivas não conseguem alcançar. Eu realmente não sei. Talvez ainda nessa vida eu tenha algumas respostas. Talvez meu atual Companheiro do Fetch saiba de algo. Aquilo que é lembrado ainda pulsa na terra debaixo de nossos pés.
Neste exato momento debaixo de seus pés, uma infinidade de espíritos podem morar ou estar passando de um lado a outro pelo subterrâneo. Escondidos de seus olhos mortais e até mesmo escondidos de seus olhos de bruxa. Com toda certeza um espírito compartilha a mesma terra que você nesse instante, e talvez vocês ainda não se conheçam. E talvez alguns já te observem e te anseiam, outros se esconderão para sempre pois essa é a natureza selvagem deles.
Eu morei muitos anos em um bairro histórico do Rio de Janeiro. Eu conheci muitos espíritos errantes e viajantes enquanto morava no centro do segundo coração da cidade e atual zona central. Ao voar com meu espírito a cor púrpura reinava naquele lugar, era agradável apesar de que naqueles anos as árvores sofreram de um mal na principal rua, talvez envenenadas ou doentes, alguma coisa estranha rondava aquele solo. Muitas árvores caíram mesmo não tendo vento nem tempestades. As raízes estavam fracas e os troncos doentes. Os espíritos da terra estavam completamente inquietos.
Certa vez, já no meu terceiro endereço naquele bairro, eu fiz um aterramento e junto de minhas raízes eu lancei meu espírito. De fato eu aproveito esses momentos para fazer oferendas aos espíritos da terra, conhecidos e desconhecidos. Quando estava embaixo da terra eu vi um grande rosto de cavalo me encarando de forma ameaçadora. Ele me disse que era o espírito daquele local e estava interessado em fazer um acordo. Eu passei anos entregando algo para ele enquanto ele me oferecia proteção naquele bairro (que não era lá muito seguro). Quando estava para me mudar, a primeira coisa que fiz foi descer até o reino subterrâneo para me despedir e mudar nosso acordo, já que ficaria longe geograficamente e os nossos encontros ficariam bem mais espaçados e raros.
Lembro que na época que o conheci fiquei muito curiose pelo motivo dele ter a aparência de um cavalo. Eu sempre vi muitos espíritos que lembraram animais, plantas, ou um misto de coisas (incluíndo formas humanas ou de humanos mortos). Algum tempo depois tentei perguntar diretamente a ele, mas eu só recebi uma resposta que soava como “sou o que sou e está óbvio”, “você já tem essa resposta” ou “está tudo na terra”.
Dias depois, enquanto trabalhava em um museu, eu peguei uma gravura do bairro que morava. Um aqueduto, uma lagoa que tinha desaparecido, algumas pessoas. Eu já tinha visto gravuras como aquela dezenas de vezes. Então eu vi os cavalos na lagoa e eles pareciam brilhar. Fui rever as anotações, havia uma menção à Rua Mata Cavalos, apelidada dessa forma pois os cavalos chegavam exaustos ali. Voltando para casa, olhei para a fonte de água desativada da época do império na exata esquina do meu quarteirão, um lugar perfeito para os cavalos beberem água. Depois disso vi muitas outras gravuras ou fotografias onde cavalos apareciam naquela região. A quantidade de cavalos que passavam ou morriam ali devia ser enorme.
E eu fui até o espírito para dizer tudo que vi. Não é que eu o visitava muito, mas habitávamos o mesmo local, eu acima da terra, ele debaixo do solo. Então o contato era fácil, apesar de eu nunca ter visto ele andando por cima da terra, apenas por baixo. Nesse encontro eu contei tudo que vi e ele apenas me respondeu algo que soou como: “eu devorei muitos cavalos, muitos ossos de cavalos.” De alguma forma naquele momento meus olhos de bruxa foram além da pele que o espírito vestia, e eu vi uma forma tão antiga quanto o próprio tempo. Algo assustador que minha mente mal conseguia processar. E ao mesmo tempo era algo belo para meu gosto pessoal. O espírito também me relatou sentir falta dos cavalos batendo na terra, e seu olhar ficava estranho quando tocávamos nesse assunto.
As bruxas vestem várias peles, e uma bruxa consegue, se assim desejar, mudar completamente sua aparência conforme os anos passam. Eu tenho ao longo dos últimos anos mudado a minha aparência para ficar mais apetitose para o mundo dos espíritos e até mesmo mais alinhade ao meu Santo Demônio. Eu puxo os fios do outro lado, e ancoro neste mundo através de tatuagens. De fato, todas as tatuagens que tenho são mágicas e algumas delas tem a ver com iniciações que passei. Assim como as bruxas, espíritos podem ao longo de muitos séculos, como o caso do Espírito Cavalo, mudar seu próprio corpo.
Eu já presenciei um espírito de uma árvore muito forte, que pegou há décadas atrás emprestado a pele de uma mulher assassinada na ditadura, e usa essa roupa por anos a fio, a tal ponto que as duas coisas se tornaram uma só. Não havia mais diferença do fantasma para a árvore. Nos últimos momentos da mulher, apenas as raízes a acolheram e ela tinha em sua mente a árvore que ela achava tão bela. Isso foi o próprio espírito que me relatou.
Para aqueles que o viam, aquilo era um fantasma de mulher ensanguentada que assombrava o jardim daquele prédio histórico, mas que um olhar mais atento podia mostrar suas raízes o segurando por todos os lados. Esse espírito adora (e falo no presente porque é uma árvore do centro do Rio e ainda está de pé) os seres humanos e por esse motivo se revela constantemente para um número significativo de pessoas que frequentam o prédio. Eu também acredito que nem mesmo a queda da árvore fará aquele espírito partir. E daqui muitas décadas, ou em um ou dois séculos, talvez ele seja um espírito muito grandioso daquela região. E isso vai ser muito produtivo para os humanos que habitam ou passam por lá, já que o mesmo tem um senso forte de “preciso proteger as pessoas”.
Quando cheguei na minha nova moradia, que habito neste momento, eu senti um silêncio estranho dos espíritos locais. Existe um complexo formado por morros que eram ilhas, mas que foram aterrados em pequenas faixas. Existe uma pequena porção de mata que atrai muitos pássaros. Aqui é um lugar turístico, de uma forma um pouco diferente e mais intensa que minha última moradia.
Eu e Lilo passamos meses fazendo nossos rituais até que ficamos saborosas o suficiente e dignas da atenção dos espíritos maiores dessa região. Lilo foi chamada para a Grande Rocha e eu fui chamade pelo mar da Baía. Dois espíritos diferentes que habitam o mesmo território. O da Baía possuí a forma de uma grande tartaruga marinha, e parecia ser tão antiga quanto o tempo, e seus cascos parecem um mosaico de segredos. Acredito que daqui uns bons anos nossa relação irá se fortalecer. Por enquanto estamos a quase dois anos estreitando pequenos acordos e encontros. Há alguns meses eu coloquei no meu altar um objeto que esse espírito pediu. Agora estreitamos um pouco mais os fios de Aka que nos conectam (em Feri/Faery, fios de aka são fios que ligam todas as coisas, e que permitem que força vital passeie de um lado a outro. Se você toca em algo, há um fio de aka ali).
Bom, o espírito que se mostrou para Lilo, nunca conversou diretamente comigo. Mas um dia eu estava no sofá, e eu olhei para fora, e o ar estava um pouco diferente. No meio das árvores ao pé da montanha, lá estava ele me olhando, exatamente na forma que Lilo havia descrito, porém um pouco mais impressionante. Talvez com o passar dos anos possamos trocar algumas palavras, e quem sabe fazer um pacto. Por enquanto temos a troca de olhares inicial que é extremamente importante nessas relações. Quando olhamos os outros mundos é necessário que o outro mundo olhe de volta.
Há muito tempo, quando me mudei para essa cidade, um grande espírito que disse ser o espírito da própria cidade se apresentou. Parecia um grande golfinho, mas ao olhar mais fundo dava para ver algo que podia ter milênios de idade. Ao mesmo tempo, ele parecia ter feito acordos com diferentes civilizações e povos. Era um ser grandioso. Ele me deu algumas instruções e hoje eu tenho um anel que tem a forma dele como um forte amuleto. Na época eu estudei heráldica e entendi melhor a relação dos golfinhos com a cidade do Rio de Janeiro, que é tão íntima. E de como esse espírito tem domínio de toda cidade e seu alcance vai para bem mais além. Alguns espíritos são tão grandiosos que conseguem acessar diferentes cidades e lugares bem longínquos, suas raízes estão naquela terra, mas seus tentáculos conseguem atravessar o planeta, possuindo um poder infinitamente menor, mas ainda assim conseguem influenciar pequenas coisas. Espíritos de grandes cidades conseguem facilmente acompanhar viajantes ou objetos que atravessam os oceanos. Por isso esse espírito específico me pediu um anel.
Bom, os espíritos locais podem ter formas das mais diversas. Podem ser monstruosos como a natureza selvagem o é. Talvez muitos usem a forma animal ou variações da forma animal para serem mais atraentes para a humanidade. Alguns até mesmo imitam os fantasmas humanos ou os devoram, se tornando “um só”. Há aqueles que são formas nem um pouco parecidas com o que conhecemos. E alguns roubam o rosto, a pele e a voz de humanos vivos. Qualquer bruxa pode visitar o Jardim Botânico e ver como muitas hamadríades (ou espírito de uma árvore) roubaram parte da aparência humana e assim se comunicam de forma mais clara com a humanidade.
Muitos desses seres, conforme as cidades crescem, são empurrados para o subsolo. Outros vão para o subsolo por livre escolha, escolhendo ficar longe de tudo aquilo que é humano. Outros são entusiastas e colecionam pactos com bruxas. Muitos caminham livremente por ruas, parques e invadem residências com muita constância. Apesar que isso nem pode ser considerado invasão, já que alguns podem ter séculos de idade. Outros milênios. Alguns possuem acordos silenciosos com toda a população, aparecendo em bandeiras e escudos de suas cidades, ou se tornam símbolos vivos daquele povo.
Estabelecer bons acordos e trabalhar com esses seres é uma das formas mais potentes das bruxas se estabelecerem em novas terras ou até mesmo se aprofundarem nos mistérios da terra em que nasceram. Esses seres conhecem essa terra há centenas de anos, alguns viram povos surgirem e desaparecerem. E eles possuem uma estranha sabedoria dos outros mundos em seus corpos.
Mas lembre-se, a maioria dos espíritos que encontrei não desejavam culto, a maioria dos seres que fazem acordo conosco querem algo. E eles vão dizer o que é e em troca eles te darão certos benefícios, bênçãos, emprestarão sua pele, te darão suportes do outro lado e facilitarão sua vida na cidade em que você habita ou visita constantemente. Nunca tente passar a perna nesses espíritos, eles podem te achar bem rápido e te reconhecer pelos seus passos, andando ou correndo. E sua respiração é quase uma impressão digital que soa como uma trombeta do outro lado. Não esqueça disto.
Dito isto, abra seus olhos de bruxa e olhe para o chão. Veja se algum rosto te chama. Preste atenção nos cantos vazios da sua casa, nos barulhos do jardim, dos jarros ou parques de sua cidade. Procure pelas grandes pedras que podem estar chamando o seu nome. Deixe que a terra te mostre os sinais até Eles…
-Talvez em algum momento eu trabalhe um bestiário mais exato daquilo que já encontrei, mas é possível de eu voltar nesse assunto diversas vezes por aqui.
Bênçãos Selvagens, Fae. 17 de fevereiro de 2026.
A bruxa e o Espírito Local. 3 de junho de 2022.
A bruxa e o Espírito Local. 12 de abril de 2024.
A arte sempre foi um fio condutor para o poder dos outros mundos se manifestar. E continuará sendo. Um objeto artístico que atiça o Fetch sempre será um condutor perfeito para os outros mundos, permitindo que o poder migre de um lado para o outro.
Este não é um texto histórico sobre bruxaria, e caso seja essa a sua busca eu te aconselho a desistir aqui. Esse também não é um texto destinado a pessoas que não tenham pelo menos um de seus olhos sujos pelo misterioso unguento que permite ver o outro lado.
As bruxas que seguem os caminhos que sigo trabalham constantemente com as Três Almas. E para nos comunicarmos com o Reino dos Deuses é preciso estimular o nosso Fetch, nossa alma mais animal e selvagem. É através dela que chegamos nos reinos mais viscerais da magia. E é por esse motivo que quando escutamos uma música, dançamos, ritualizamos ou transamos, os outros reinos se abrem tão facilmente para nós.
O Mago, Tarô Feri/Faery. Por Fae.
O Fetch é um canal perfeito entre as outras duas almas da bruxa: o Falante, nossa alma que guarda a fala e o conhecimento, e o Santo Demônio, a nossa alma imortal que sobrevoa o nosso crânio, nosso pássaro mais sagrado...
Claro que toda essa dinâmica acontece de forma literal dentro do Corpo Físico da bruxa, envolvendo sangue, ossos e carne. Estimular o Fetch é primordial para o sucesso em operações mágicas. Por esse motivo gostamos de usar ferramentas, construímos altares, fazemos invocações, cantamos e estimulamos a nossa sexualidade em nossos rituais. De qualquer forma, em breve escrevo um texto falando apenas sobre as três almas, pois o que falei até aqui é bem limitado.
Ao longo de toda história humana conhecida a arte foi um grande receptáculo de sonhos. E lembramos aqui que o mundo dos sonhos é muito mais próximo do mundo dos mortos, do reino das fadas e dos infernos do que podemos conceber com nossos Falantes. A arte é uma mensagem clara dos outros mundos que atravessou o Fetch, invadiu o Falante e se materializou em nosso mundo. E por ter feito esse caminho a arte pode transportar o humano de volta para os Infernos ou para o Reino dos Deuses.
Mitos, contos de fadas e novas histórias dos espíritos sempre serão dançados, de forma literal, pela bruxa. Essas histórias ligam profundamente o Fetch ao Mistério. E com isso uma bruxa produzirá arte ao seu redor: dança, pintura, desenho, poesias, contação de mitos de seus espíritos amados, invocações diversas e muitas outras manifestações nesse mundo. A beleza selvagem transbordará dela, sendo fácil identificar quem recebeu o presente dos outros mundos de quem é apenas um corpo seco e sem vida, da perspectiva feérica.
Para a bruxa de olhos manchados dos outros mundos mais vale um desenho, um conto ou um mito do que um documento oficial do governo ou algum livro enfadonho de mais de 2000 anos, ou qualquer grimório sem vida. As novas histórias precisam ser pronunciadas pela língua de prata que não pode mentir. E as velhas histórias precisam correr por elas tão livres e metamorfas quanto os pássaros ao alvorecer.
E pessoas, eu amo documentos históricos, amo grimórios e registros do ocultismo, esse não é o problema. O problema é quando alguém acha que para ser bruxa ela precisa desses livros. Conheço verdadeiras enciclopédias humanas que sabem recitar todas as tabelas, horários e correspondências mas que nenhum mistério nunca tocou nem sua carne, nem seu sangue e nem seus ossos. Conheço pessoas que recitam hinos tão antigos quanto a história humana mas que não conseguem resultados algum e que os espíritos se negam a se manifestar de forma física em seus círculos.
Assim como pessoas sem conhecimento histórico podem ser bruxas mestras na arte de desbravar os outros mundos ou enxergar os reinos ocultos. Pessoas sem treinamento formal podem ser viajantes astrais exímios. Ou forjar pactos com espíritos realmente importantes para seu destino. Assim como é completamente possível moldar uma bruxa independente da escolaridade da mesma. Afinal de contas, a bruxaria que eu conheço é oral.
Bom, e há aquelas bruxas obcecadas pelo passado e que conseguem tocar o mistério. E em suas construções e criações ela pode referenciar povos antigos, ou a língua das runas ou serem fluentes nas cartas do tarô de Marselha. Algumas serão verdadeiras arqueólogas, buscando fagulhas perdidas em diferentes civilizações caídas. Mas o que elas fazem não é uma repetição obcecada, mas é a nova obra convocada do próprio tempo espiral. A Arte (bruxaria) que eu conheço é feita de criação, movimento e de passar pela cerca que separa os muitos mundos.
E agora vamos descer alguns degraus sobre a bruxa, a bruxaria e a arte.
Era uma vez um espírito que se levantou da terra, rastejou até as pernas da bruxa, subiu e disse “oi!” em seu ouvido. Ele contou sobre as estrelas caídas dentro da terra. A própria bruxa um dia tinha rastejado através das fronteiras do entre mundos. Talvez por isso esse rastejar conecte de forma tão potente a bruxa e o familiar. Então os besouros luminosos brotaram da terra e se espalharam pela noite, enquanto se ouvia a risada Daquele que havia presenteado a Bruxa com aquele Companheiro do Fetch tão peculiar. Um canto melodioso rasgou os mundos naquela noite. A floresta parecia silenciosamente viva e cheia de olhos. A montanha parecia sussurrar alguma coisa enquanto os céus estavam inquietos.
Há algo de poético e artístico que brota de nossas histórias. O Companheiro do Fetch se arrasta por cima da cerca e começa a habitar o nosso mundo. Como um processo artístico, ele se torna mais e mais palpável em nosso mundo, e este é o poder que ele ganha em se aliar com uma bruxa. A bruxa pinta a sua Casa de Espíritos, com um pincel desenha seu sigilo, canta de forma misteriosa o seu nome, e começa a se envolver de forma profunda e visceral com o mesmo. Um verdadeiro ato de Arte.
A própria bruxa neste mundo apenas surgiu após a sua própria invenção. Primeiro um sonho, seguido de uma manifestação neste mundo. A bruxa se arrastou vagarosamente de dentro dos terrores noturnos, do medo do inferno, de dentro do sufoco do cristianismo e das proibições do corpo. Ela se arrastou pelas primeiras cavernas tocadas pela humanidade, tocou nos primeiros desenhos na rocha e nos penhascos, ela se arrastou pelos primeiros lagos e pelas frestas das primeiras cidades. Talvez por isso as bruxas tenham obsessão por visitar locais de poder ancorados neste mundo, uma lembrança localizada acima de seu crânio, nosso Santo Demônio, na nossa parte que é uma pequena fatia da própria Deusa Estrela, Deus Ela Mesma, A Grande Pantera Negra Coroada com 7 e 6 Sóis Azulados. O Santo Demônio é também o Grande Pássaro Sagrado.
A bruxa, perseguida pelo pássaro, primeiro habitou o imaginário até finalmente atravessar os limites dos outros mundos. Aqui as barreiras de imaginação, visualização e previsão do futuro caem completamente, a língua se torna uma em meio ao grande caos. Hoje existem centenas de bruxas espalhadas por diversas localidades, todas elas meio vivas e meio mortas, habitando esse lugar entre o aqui e o lá. Todas elas rastejaram pelas fissuras dos outros mundos e com sua dupla natureza conseguem transitar constantemente de um lado a outro. Como uma criação artística dos próprios espíritos que são influentes nesse mundo.
O que parece uma grande solução frente ao desaparecimento de seres (nascidos de humanos) que rasgavam o véu de forma violenta, e que com o passar das décadas, depois da Revolução Industrial, foram nascendo cada vez menos na humanidade. Hoje eles já não habitam nem mesmo as pequenas cidades ou vilarejos no campo. E quanto mais eles deixam de nascer, mais bruxas surgem em suas regiões e nas antigas famílias que pariam essas distorções potentes. E talvez esse seja um dos mistérios, as bruxas serem tão diversas quanto eles.
E por mais que exista um senso que existem bruxas demais devido as facilidade de comunicação que temos hoje, os números daquelas meio vivas e meio mortas são baixíssimos. Conte quantas bruxas habitam o seu quarteirão, o seu bairro. Garanto que o número não é grande e muitas de vocês são as únicas da região. E observe as bruxas que você conhece e verá que geograficamente a maioria está bem espalhada, até mesmo nas grandes cidades.
Claro que existem terras onde não há vestígios de bruxas, mas essas mesmas terras convocam bruxas viajantes para que andem por suas ruas, ruelas, cemitérios e matas. Existem também uma série de pessoas que são tocadas pelos outros mundos mas não são bruxas. Essas pessoas também não são numerosas. E vão desde pessoas com extremo azar, trocados (sim eles ainda existem), marcados por experiências de quase morte e videntes. Muitas dessas pessoas se tornam pessoas importantes em religiões que abraçam parte do mundo dos espíritos. Outras poucas podem, caso o destino exija, adentrar pelos portões da bruxaria.
É claro que a origem das bruxas nos outros mundos pode ser mais antiga que a queda das primeiras estrelas dos céus. As línguas de prata dizem que as primeiras estrelas caíram apaixonadas pelas belas mulheres, pelos rapazes encantadores e pelas pessoas misteriosas. O ato de união dessas pessoas com as estrelas deram origem às grandes correntes que atravessam a bruxaria nos dias de hoje.
Acima eu passei por uma série de contos que tocam o mistério, e que não são encarados como ficção ou lendas, mas como o mito em sua forma original. O mito (como os antigos gregos entendiam) possui uma função de causar um “não-esquecimento” em quem o toca, e essa é a manifestação da verdade. Em uma luta contra o próprio rio Lethe e contra o próprio Tempo que arranha com seus dentes os corpos humanos, rochas e tudo que existe no mundo em que vivemos.
Os contos de fadas são muito mais do que simples histórias vazias, bem como toda produção humana e artística. Existem mistérios dos outros mundos que se imprimem de forma misteriosa quando alguém tocado pelo mundo das fadas escreve, desenha, dança ou se expressa artisticamente. A história das três possibilidades é real: loucura, morte ou poesia. Esse é o destino de toda bruxa.
Claro que nem toda arte irá catapultar o seu Fetch em direção aos outros mundos, mas uma quantidade significativa de artistas foram em algum momento borrados por algo do outro lado. Aqueles que insistem na arte mesmo em tempos tão tecnológicos podem tocar o mistério muito mais facilmente do que outras pessoas. A Arte e a arte são intimamente ligadas. Podemos reconhecer uma bruxa quando ela transborda beleza estranha e selvagem por todos os lados.
Em uma das tradições que faço parte, a arte é uma das maiores manifestações dos outros mundos. E realmente há artistas, dançarinas, poetisas e muitas outras nuances da arte por aí. Para chegar na iniciação, momento onde se recebe a Corrente de Poder, o buscador precisa desabrochar com as ferramentas mágicas, se aproximar da corte de espíritos da tradição e manifestar sua arte no mundo de alguma forma. Isso garante que não ocorra nada que seja muito disruptivo quando a corrente adentrar totalmente o corpo da bruxa.
Eu garanto que você conhece pelo menos uma bruxa que transborda arte por todos os lados, independente de suas técnicas. Você sentirá os outros mundos atravessando o corpo dela e deixando vestígios nesse mundo, como um grande artista expressando a sua obra.
O primeiro e último suspiro da Bruxa neste mundo será um ato de arte.
Com amor, Fae.
Bruxaria, herança da humanidade, o Chamado e Sangue.
A Queda de um Anjo, por Fae. 2022.
Tenho encontrado aqui ou ali algumas notas minhas antigas. Há muito tempo eu escrevi exatamente isso:
“A Bruxaria não é uma exclusividade de um grupo ou de uma religião. Nunca foi e jamais será. A Bruxaria é uma herança da humanidade e aqueles que escutam o chamado podem reivindicá-la de seu próprio sangue.”
Na época me encheram de críticas...
...muitas pessoas me ofenderam e muita gente ficou com raiva de mim. Fizeram muito bullying e perseguição online comigo. Saíram pessoas de vários lados diferentes para combater a enorme besteira que eu tinha falado, como se o que eu falasse fosse relevante. Tinha gente que se dizia da wicca, gente que se dizia BT, e muitos outros que compartilhavam a minha pequena nota para tirar sarro.
Depois de um tempo eu percebi que existe um tipo de gente na “bruxaria” que ama perseguir e corrigir aqueles que não são de uma tradição, essas pessoas agem como se fossem os arautos da fé ou verdadeiros papas, e em um nível mais profundo como inquisidores ou seguidores do falso deus. Inclusive muita gente que as pessoas consideram relevantes aqui no Brasil já fizeram ou ainda fazem isso. Como sou uma bruxa extremamente rancorosa, eu lembro da maioria daqueles rostos e ainda nos dias de hoje acho que aquelas pessoas são tão insossas na magia quanto no passado. Não há beleza, apenas uma tentativa falha de soberania, que os torna pequenos delirantes dos reinos da internet com seus olhos opacos e lábios secos, e suas palavras são amargas e sem muita força vital.
Mas, vamos à minha nota, eu concordo plenamente com meu eu do passado, que na época era apenas estudante da Tradição (mesmo que ninguém que estivesse de longe soubesse disso, aquelas pessoas não sabiam), mesmo assim o lore da bruxaria começava a me invadir lenta e deliciosamente. Hoje, mais de uma década depois, com muitas jornadas já tendo acontecido, eu a revisito como uma forma de magia que atravessa os tempos. E eu reparo algo que tentaram quebrar no passado. A magia ainda está correndo de um lado para o outro.
Vou passar por alguns pontos para explicar o porque essa nota envelheceu bem como o vinho usado na taça da primeira bruxa, a Deusa dos Mistérios Proibidos. E como os relâmpagos ainda se agitam naquela nota, feita por uma bruxa estudante inebriada pelo veneno da Morte.
A bruxaria é uma experiência humana, e isso é indiscutível. Ela se arrastou de dentro de nossos medos e nossos prazeres, encontrando morada em certos Corações tão Negros quanto a noite. E isso não pode ser capturado por um único grupo, ou tradição ou ainda religião, e nem muito menos por uma única pessoa. Existe algo mais profundo que surge da própria humanidade e que não importando quantas pessoas tentem sufocar, ela brotará novamente. A bruxaria é um grande poço sagrado que pode ser provado por todas aquelas que escutaram o Chamado.
E mesmo que, em um cenário hipotético, as primeiras bruxas de nossa época não tivessem se levantado, o cenário já estava há muito tempo armado. Outras se levantariam, e talvez os sabores pudessem ser levemente mais apimentados ou adocicados. Para a Arte o destino é real e irrevogável. A água sempre escava a terra em longos desfiladeiros, ela abre caminho, mas as montanhas sempre direcionam enquanto se tornam pedra e areia. Os grandes poderes do universo acham sua maneira de encontrar as bruxas que escutaram em algum momento de suas vidas o Chamado. As estrelas caídas não podem voltar para o céu, não sem a humanidade voltar a ser poeira estelar.
O Chamado é um dos lores mais deliciosos da bruxaria. Eu escuto sobre ele desde que conheci a primeira bruxa na vida, e antes dela eu sentia que algo do tipo existia. Todas as bruxas que trilham caminhos semelhantes ao meu dizem: “Existe um Chamado irresistível dos outros mundos. Como se chamasse meu nome. Não qualquer nome como o civil, mas meu verdadeiro nome…”. O Chamado é um ponto na vida da bruxa, mas que ressoa em todos os tempos. O Chamado é como um sino tocado por espíritos, as ondas de som impactam cada pedaço da vida da bruxa, e quando ela escuta pela primeira vez não há como voltar, o som se tornará cada vez mais alto, como uma flauta de um deus selvagem, chamando de volta para comer mel e frutas enquanto dança em meio a seres que também são capazes de atravessar a cerca.
O chamado faz parte do mistério, e é mais importante do que qualquer ritual de começo de jornada. Ele é o ritual original. Também é a voz que surge das primeiras estrelas que se apaixonaram perdidamente pelas mulheres vermelhas, pelos belos rapazes e pelas pessoas misteriosas e estranhas. E daí vem o poder, do sexo e do amor. Assim como o sexo e amor não podem ser encapsulados como sendo de um único grupo ou religião, assim é a bruxaria que eu conheço. Claro que tradições acessaram o mistério e passam algo à frente.
Tradições surgem quando grandes serpentes cósmicas e terrestres despertam, aprendem a linguagem humana e ensinam a língua dos caídos novamente às bruxas. Eu ouvi falar dessas quedas incrivelmente potentes ao redor do mundo, onde grupos de bruxas se tornaram um só com um grupo de espíritos. Em uma escala menor, bruxas em sua vida, podem encontrar espíritos e formar poderosos pactos que irão durar muito tempo, e às vezes atravessar muitas vidas.
Existe uma vantagem em se aliar aos mistérios de um grupo formado por bruxas e espíritos, e essa vantagem tem a ver com as mãos humanas. Mãos humanas de amor podem transmitir um poderoso poder, sem queimar os corpos da bruxa. Receber o poder sem mãos de amor é como receber um raio em seu próprio corpo. Ele machuca, queima parte da bruxa. Mas gostaria de lembrar que grupos podem fazer exatamente isso com você, mas não na passagem de poder, mas em seus anseios insanos de dominação. Por isso devemos ter cuidado com as mãos que dizem ser de amor, mas na verdade são daquele ferro que cortam árvores centenárias. Aqui entramos em um jogo muito perigoso, a bruxaria é perigosa.
Grupos, tradições e covens acessaram o mistério e passam isso à frente. Mas o mistério não pertence a ninguém, ele está em tudo. Nas estrelas que dançam nos céus, na terra e em seus rios, nos ciclos das diversas árvores, no canto dos pássaros… O mistério não é algo escondido no mundo, ele está até mesmo dentro de nossas casas, nos cantos vivos e com aranhas, nos jarros de plantas, nos altares e nas jóias. Nas vigas de ferro em nossas residências, nos alimentos em nossas geladeiras, passando até mesmo dentro dos nossos objetos tecnológicos, nas peças metálicas. E principalmente no ar que cerca o seu corpo agora, e que nos conecta nesse exato momento.
Mesmo que todas as tradições de mistérios morressem hoje, em pouco tempo as serpentes cósmicas se levantariam novamente e aprenderiam a fala humana. Alguém escutaria o chamado e sentaria debaixo de uma árvore ou na beira do mar, veria o movimento das estrelas, e tocaria o mistério. E todas as ordens e tradições nasceriam novamente, com novos temperos e novas pronúncias. Essa é a magia. E por esse motivo não há caminho certo, apenas o torto. Ainda assim existe o caminho que realmente te chama de volta para casa.
A Bruxaria é formada de cacos deixados pela relação da humanidade com os outros mundos. Toda bruxa, independente se ela é de uma tradição ou não, recolhe esses cacos e monta um mural. Como são cacos, muitos espaços ficam em branco. E praticamente todas as bruxas que conheço tem essa sensação de vazio estranha em algumas partes de suas belas tapeçarias. Algumas bruxas erroneamente tentam completar esses espaços vazios com conceitos de outras religiões ou até mesmo com técnicas que não ajudam em nada, e às vezes até com espíritos que não são compatíveis com a bruxaria.
Os espaços em branco que as pessoas tanto temem são por onde o mistério se manifesta, é só tendo esses espaços em branco que a bruxa conseguirá tocar o mistério. É do vazio que o mistério surge. Então bruxa, se você sente algo vazio, saiba que você está no caminho certo. Quando você deixa de preencher com algo que não se encaixa, e encara esse vazio, todo o vazio escuro do universo olha de volta para você.
Definitivamente aqueles que escutam o chamado podem tocar nesses cacos, mas sem nunca preencher os espaços entre eles, pois é dali que o mistério brota. E esse dom nunca será capturado por um único grupo ou tradição. Entendo, que talvez inspirados pela figura do papa, algumas figuras insanas na bruxaria queiram afirmar que só elas possuem o mistério. Mas definitivamente o mistério jamais poderá ser capturado. Você toca nele, mas não há como impedir que ele chegue em seu destino, que são as bruxas que escutam o Chamado.
E por último: o Sangue. Que é vermelho e que ancora as nossas marés internas. O sangue tem essa cor por causa do ferro, e esse ferro ressoa de forma profunda com o Ferro dentro da Terra e com o Ferro das Estrelas dos céus, e isso bruxas é literal, como basicamente tudo na bruxaria. Tornando a bruxa não só uma criança da terra e do céu estrelado como também um elo entre esses poderes gigantescos.
Poderes esses que a atravessam deliciosamente quando realizam um simples aterramento. A Árvore da Vida (técnica Reclaiming) é meu favorito: onde as raízes da bruxa afundam na terra, permitindo que os poderes de baixo subam até seu corpo, enquanto os galhos buscam as estrelas, e permite que os poderes dos céus desçam. Fazendo o circuito perfeito entre céu e terra, enquanto o Ferro das Estrelas e da Terra se misturam em seu sangue. Fazendo o ferro do sangue se incendiar completamente.
Quando eu ainda era jovem, eu usava muito sangue em minhas magias, muito mais do que hoje. E que bruxa nunca experimentou as suas próprias partes em suas magias? Unhas, cabelos, sangue, fluídos, lágrimas, suor… Todas essas partes estão intimamente ligadas ao sangue que corre em nossos poderosos rios, a nossa Serpente Vermelha e Sagrada (alusão à Serpente da Feri). O sangue é um dos elementos mais sagrados dentro da bruxaria.
De alguma forma o poder se ancora e também brota dessa Serpente Vermelha. O sangue da bruxa reage ao chamado, se incendeia com o poder da primeira fogueira acesa na humanidade, e dos trovões que acertam os troncos secos, da primeira chuva e do calor sentido pela primeira vez. O sangue se agita quando amamos, quando transamos, quando movimentamos grandes quantidades de energia.
E sem cair no fascismo da galera que falava sobre “sangue da bruxa” que envelheceu tão mal quanto um bife que apodreceu em um dia quente, com seus ideais cristãos de escolhidos. Aqui não há escolhidos, ou a elite branca que descende de povos originários da Europa e que adora segurar armas de fogo. O que temos aqui é mistério selvagem que se esconde dentro da própria humanidade. Em seu sangue. E que qualquer um que escute o Chamado pode reivindicá-lo das profundezas. E todas as memórias sagradas de um tempo além do tempo onde espíritos e humanos comungavam.
Existe um lore Feri que diz que qualquer ser humano da terra pode ser potencialmente bruxa, mas que isso está adormecido na maioria das pessoas. Quando alguém escuta o Chamado, essa semente escondida que toda humanidade têm em suas profundezas, começa a emergir e a brotar. E aquela pessoa que escutou começa a ficar inebriada pelo crescimento lento ou acelerado daquela planta misteriosa, que desperta o sangue como um grande rio sagrado.
Nesse instante a primeira estrela caiu dos céus, o primeiro beijo de um caído ressoou entre os mundos, a primeira bruxa morreu e virou Deusa, o sangue se agitou e se tornou sagrado, o mistério está ao seu redor, se o Chamado foi lançado você pode escutá-lo a qualquer momento, inclusive agora.
E quanto as pessoas que me perseguiram e nunca me pediram desculpas, eu desejo que vocês continuem caminhando para cada vez mais longe do mistério. Que suas palavras amargas sejam seu labirinto, que seu trono papal seja de espinhos e que sua ânsia de dominação não alcance nem mesmo os tolos.
Com meu sangue em chamas, Fae.
Esse não foi um texto fácil de escrever. Eu preferia estar falando da minha Arte e da minha magia de outra forma. Mas sinto que faz parte do trabalho esclarecer as coisas.
Iniciação, por Fae (2022).
Para quem acompanha de perto a Tradição Feri sabe que diferentes iniciados usam diferentes grafias: Faery, Faerie, Fairy e Feri...
A variação “Anderson Feri” também é usada por um punhado de bruxas (não é a minha favorita, mas é bem útil em determinadas ocasiões). Alguns de nós usamos mais de uma grafia alternadamente. E Faery Tradition foi de fato a primeira grafia “fada” da nossa tradição. Existe uma preferência muito grande por Feri e Faery (Feri Tradition e Faery Tradition). Feri com certeza é minha grafia favorita e selvagem, apesar de Faery me encantar profundamente.
Mas vale ressaltar algumas coisas aqui. Em 1979 foi o ano de publicação do livro The Spiral Dance de Starhawk. Esse livro foi amplamente distribuído. Em 1993 esse livro chega ao Brasil com o título de A Dança Cósmica das Feiticeiras. Diversas vezes Starhawk cita Faery Tradition, ela mesma já era uma iniciada da tradição quando escreveu esse livro. Aqui no Brasil o termo Faery Tradition foi traduzido para Tradição de Fadas. Esse livro foi um ponto marcante para construir o imaginário sobre Faery Tradition e Tradição de Fadas, principalmente aqui no Brasil. Vale ressaltar que quando Starhawk fala sobre esses nomes (Faery Tradition em inglês e Tradição das Fadas na tradução) ela se refere diretamente à Tradição Feri de Bruxaria.
Ao mesmo tempo entendemos que existem outros caminhos que usam o termo Faery no mundo, e que não tem relação com Feri. Valerie Walker cita como exemplo a “Celtic Faery Wicca” de Kisma Stepanich, a “Faerie Tradition” de R. J. Stewart, as “Radical Faeries” e até mesmo diversas tradições wiccanianas que incluem de alguma forma as palavras Faery ou Fairy nos nomes de seus covens. Claro que isso é pensando num cenário internacional.
Uma informação importante sobre publicações na internet aqui no Brasil é que muitas das vezes as pessoas se referem à existência de uma Faery Wicca, e quando lemos a descrição claramente é sobre Feri que é falado, misturando aqui e ali com informações públicas de Wicca, inclusive muitas dessas publicações citam Victor Anderson ou Starhawk. Acredito que isso seja um erro comum pois até poucas décadas atrás o termo wicca foi amplamente utilizado como sinônimo de bruxaria. Um termo que no contexto internacional facilitava a comunicação. Ainda bem que os tempos são outros e os grupos podem chamar a si mesmos com seus verdadeiros nomes.
Nesse texto eu não vou discorrer sobre como a tradição Faery/Feri não é uma tradição Wiccaniana, mas afirmo que nossas cosmogonias são completamente diferentes, assim como as práticas mágicas. Existem leves nuances que se tocam, inclusive existem Iniciados Feri que também são da Wicca, mas definitivamente são práticas distintas e vocês podem encontrar muito material sobre isso em sites que iniciados Feri constroem ao redor do mundo.
Por volta da década de 70, com o grande boom da bruxaria, existia um senso de “fazemos parte de um todo” junto de um sentimento de “universalismo” muito forte. Vocês verão figuras muito importantes da bruxaria afirmando que suas tradições não existiam apenas naquela linhagem, mas que era algo bem maior. E naquelas décadas muitas pessoas achavam que faziam parte da mesma coisa, mesmo sendo de caminhos completamente diferentes. Esse senso era algo mitológico e ainda é muito importante nos dias de hoje, porém é importante nos atermos ao que realmente aconteceu entre humanos também. E a maioria dessas bruxas mantiveram registros de suas linhagens, pois seus caminhos trabalhavam diretamente não só com os Mortos Poderosos, mas com todos aqueles que vieram antes e que ainda poderiam estar vivos.
A Faery/Feri ganhou holofotes no mundo por diversos livros publicados, e por ter tido alguns iniciados bastante conhecidos no meio pagão. Existe um pequeno número de sites onde iniciados Feri escrevem sobre a mesma de suas perspectivas, já que com o passar do tempo muita desinformação escrita por não-iniciados foi disponibilizada por aí(desde artigos, publicações em livros e até informações furadas na Wikipedia). Apesar disso, a tradição sempre foi extremamente pequena comparada a outros caminhos de Bruxaria. E meio que as pessoas recebem notícias uma das outras. Hoje a tradição vive um momento muito próspero com pequenos grupos de iniciados em diversos países.
Recentemente uma pessoa aqui no Brasil participou de um evento oferecendo uma palestra chamada “Introdução à Faery Tradition”. Algumas pessoas que nos conhecem aqui no Brasil nos mandaram o anúncio da palestra perguntando se era algum de nossos parentes. Em território Nacional somos apenas 5 iniciados (até janeiro de 2026). Quando vimos que não conhecíamos a pessoa, decidimos abordá-la. E a mesma afirmou com todas as letras que era iniciada em Anderson Feri. Antes disso pensamos que poderia ser alguém falando de alguma variação de Tradição de Fadas pelo mundo, mas que estranhamente escolheu a primeira grafia de Feri (ainda amplamente utilizada) para fazer isso.
Depois de uma cuidadosa e educada conversa, verificamos que a pessoa não era Faery, e nessas situações sentimos realmente muito por isso. Existem formas bem simples de verificar se alguém pertence ou não ao caminho. Além disso, a pessoa disse ter sido iniciada a 30 anos atrás por um casal. Mas ninguém em Faery nunca ouviu falar no nome desse casal. Diferente de outras tradições, quanto mais tempo de iniciado uma pessoa tem, mais fácil é de verificar a sua linhagem, levando em consideração que a Faery era bem menor e o círculo muito mais íntimo a 30 anos atrás do que hoje. Pelo que já escutei, nem toda tradição é assim, e que iniciações anteriores a 30 anos poderiam causar verdadeiras perdas de contato e de verificação.
E mesmo que uma tragédia tivesse acontecido e isolado a pessoa por muitos anos, assim mesmo a bruxa Faery consegue comprovar sua iniciação de forma simples e direta. Há coisas que são compartilhadas entre todos os iniciados, e que mesmo mostrando uma leve parte pode comprovar a iniciação de alguém. E ser verificado por um iniciado válido não é uma vergonha, eu mesme já passei pela verificação, e eu aprendi na prática como fazer. Bom, eu nunca verifiquei ninguém mas já vi isso acontecer 3 vezes.
Existem outros casos de pessoas que alegaram serem Faery/Feri ao redor do mundo. E uma hora ou outra algum iniciado encontra essas pessoas. Algumas delas foram enganadas por alguém, outras constroem toda uma história fictícia que as liga à nossa tradição. Existem ainda um terceiro tipo que compila todo tipo de informação legítima e pública, começa algo e comete alguns abusos bem sérios ou apenas enganam várias pessoas. Os iniciados acham essas pessoas também para reparar o dano com a verdade, e com certeza nossos mortos se orgulham desse movimento.
A grande questão é que buscadores que orbitam pessoas que inventaram que são Faery/Feri ou que acreditam que são, acabam por ser enganadas também. Eu ouvi muitos relatos de pessoas que usavam sua autoridade Faery com outras pessoas (como se isso fosse adequado) e que causaram alguns problemas por aí.
Essa pessoa que encontramos agora alegou ser uma pessoa reclusa, das sombras e não gostar de contato. Disse não querer treinar ninguém. Como se isso justificasse a falta da comprovação da linhagem. Essa descrição basicamente corresponde a pelo menos mais da metade da Feri no mundo, mas eu garanto que nenhuma dessas bruxas que são realmente reclusas serão vistas palestrando em algum lugar.
Mesmo pedindo para que o tema da palestra mudasse, as negociações foram tensas. A pessoa concordou em mudar mas simplesmente parou de nos responder. Falando com a organização do evento, a mesma nos garantiu que ele não falaria do tema. Mas na palestra ele insinuou e afirmou que era Feri pelas bordas. Então fiquem atentas a quem diz que é iniciado na Feri, aqui no Brasil, há mais de 30 anos. Ou em pessoas que dizem que saíram do Brasil a 30 anos para passarem por uma iniciação na Europa. Se você é iniciado por alguém na Faery, há como comprovar facilmente. Se não é possível comprovar ou a pessoa foi enganada ou está a enganar.
Por isso uma grande recomendação que faço, quando vocês conhecerem uma bruxa Faery/Feri por aí, e pensarem em se aproximar, vejam se sua história não é quebrada. Existem iniciados públicos o suficiente no mundo que podem ceder informações sobre pessoas suspeitas. Abaixo deixarei dois links de sites, o nosso brasileiro e um em inglês (se buscarem com atenção vocês acharão os nomes de iniciados válidos que são mais públicos). E tenham a certeza, qualquer iniciado irá atrás de pessoas que dizem ser Faery/Feri sem ser, para entender onde foi que o problema aconteceu.
E para pessoas que buscam outros caminhos, verifiquem as histórias das bruxas que vocês se aproximam. Geralmente o discurso de “meu iniciado não falava muito de linhagem”, “era muito esquivo e misterioso”, vem acompanhado de uma grande furada.
É possível ser completamente transparente sem comprometer o mistério. E quando o caminho se torna nebuloso com a justificativa de segredo, cuidado, existe a chance de uma grande mentira tentar se colocar como verdade. E lembre-se, diferente de outras tradições, a Faery não tem muito interesse em ter muitos seguidores. O trabalho acontece mais em pequenas famílias e clãs. E até o momento só existem 4 iniciados que falam mais “abertamente” sobre Feri no Brasil (Janeiro de 2026).
Eu gostaria de ter escrito sobre outra coisa e transbordar minha magia de outras formas, mas isso é necessário. Nesse texto eu não abordei as nuances dos outros mundos e que tornam essa história bem mais complicada. Mas sigamos.
Com amor e verdade, Fae.
Sites:
Ou o que é a Tradição Reclaiming de Bruxaria.
A minha visão sobre essa tradição de Bruxaria.
Atenção: essa é a minha visão pessoal enquanto Bruxa frente ao mistério que a tradição Reclaiming continua a ser. Essa visão está enraizada em minhas visões dos outros mundos, na minha observação de dentro e minhas sensações energéticas sobre o que acontece. A tradição possui muitas facetas além dessas, e reconheço a complexidade da existência da mesma nesse mundo.
Um coven de Bruxas entrando em contato com os espíritos da terra. 2022- feito a partir da experiência em um Coven Reclaiming. Arte de Fae.
Eu ganhei o livro A Dança Cósmica das Feiticeiras sob as seguintes circunstâncias: O livro foi esquecido em uma padaria na periferia do Rio...
A atendente pegou para si. Na escola que estudava, a atendente me viu com um pentagrama no pescoço. No dia seguinte ela me entregou o livro. O livro continha a assinatura da primeira dona, anos depois a conheci ao acaso. Essa primeira dona do livro tinha fundado uma tradição de wicca eclética. Eu entrei nessa tradição, que tinha propósitos lindos e se tornou um lugar completamente insalubre. Ao sair da tradição de wicca eclética devido a uma série de agressões e abusos, uma pessoa que conversei em um bar me disse: se não quer algo pesado, procure a Reclaiming (o tom parecia diminuir a tradição e parecia dizer que a bruxaria era cheia de abusos por natureza). Esse arco todo levou por volta de 10 anos. Depois disso eu escolhi ir atrás com todas as minhas forças da Reclaiming, e não foi nada fácil.
Eu lembro que sonhava em conhecer as pessoas do Compost Coven: bom, Valerie Walker foi minha primeira professora Feri, e todas as minhas linhagens Feri tocam delicadamente pessoas do Compost. E eu tenho certeza que a minha futura linhagem Reclaiming fará o mesmo. Talvez tenha sido o Destino e as Correntes de Poder que atravessam ambas as tradições me chamando de volta.
O livro A Dança Cósmica das Feiticeiras é um livro de transição, nele temos elementos da tradição Feri de Bruxaria e de algumas outras vertentes de bruxaria que estavam em alta na década de 70 e 80. Ali começamos a ver os primeiros sinais do que seria a Tradição Reclaiming no futuro. E realmente eram apenas os primeiros sinais. O Compost Coven foi uma grande semente viva para a Reclaiming, e ele nunca deixou de existir até o presente momento. E ele nunca foi um Coven Reclaiming, ele é anterior. Valerie Walker, o que é lembrado vive, foi uma das bruxas mais influentes que manteve esse coven nutrido durante muitas décadas. Valerie é uma iniciada Feri e uma das integrantes originais do Compost Coven. A magia do Compost Coven era tão potente que vazava em todas as direções naquelas décadas, em que Reclaiming ainda engatinhava enquanto se arrastava deliciosamente dos outros mundos para esse.
Cora Anderson ao falar da tradição Feri de Bruxaria sempre dizia: “Esta religião não é um fóssil morto, mas uma experiência humana crescente e viva.” E Feri é assim, mantendo a chama acesa, mas incendiando onde é preciso para que o solo volte a ser completamente rico em alimento para as novas e potentes árvores, e mesmo assim mantendo o centro de nosso jardim, com as sementes e a beleza daquilo que é milenar. Reclaiming herdou essa característica e a multiplicou por 13.
Em algum nível Reclaiming é uma filha revoltosa, furiosa e futurista da Feri, que olha para o amanhã e anseia de forma visceral que a humanidade, a tecnologia e a natureza caminhem juntas. Talvez por osmose a Reclaiming tenha se tornado uma das tradições que mais faz um trabalho profundo com a terra e com os misteriosos que a habitam. Seja com seus transes de possessão, transe, técnicas de alinhamento, aterramento e rituais. E essa é uma característica das tradições: não há um panteão fixo. Essa parte assusta muitas bruxas, mas dependendo de onde a bruxaria Reclaiming se enraíza, seres já conhecidos de forma internacional e novos seres que já habitam a terra se apresentam. Por exemplo, a comunidade Brasileira da Reclaiming chama muito por Tempo, um aliado chamado em quase todos os cantos do mundo, mas temos aqui o espírito do Tiê-Sangue, pássaro dos outros mundos e do fogo, que faz parte dos nossos céus. Ou até mesmo a Floresta Escura, que chama por bruxas dentro da nossa comunidade (desde 2018) e se espalhou para outras comunidades ao redor do mundo. Dentre outros espíritos misteriosos.
Muitas pessoas ficam assustadas por essa característica, como assim não há um panteão? A realidade é que quando não há algo fixo ao redor do mundo, o aporte da tradição para receber espíritos é gigantesco. E existem deusas e espíritos que estão na tradição desde o início, enraizada em comunidades prósperas e potentes. A maioria dos espíritos que chegaram desde 2017 para, até então, nova comunidade brasileira continuam por aqui. Nos altares, nos ritos e em covens fechados. Os espíritos rastejam deliciosamente de um lado para o outro no simples contato com outras bruxas Reclaiming ao redor do mundo. Eu vi isso acontecer diversas vezes.
Eu vi um ser se arrastando de um ritual conduzido por Starhawk até minhas pernas. E esse ser virou uma das divindades mais amadas no Brasil, nós a chamamos de Divindade Agênera e seu verdadeiro nome só pode ser pronunciado por um coletivo de bruxas. Futuramente escreverei um grande compilado dos espíritos mais amados dessas terras.
Como disse antes, a primeira vez que escutei o nome Reclaiming foi em um bar no Rio de Janeiro, enquanto eu contava os infortúnios e agressões que tinha passado, as pessoas responderam algo como: “quer leveza? Vá para a Reclaiming”. Eu não queria leveza, eu queria que outras bruxas não tentassem me agredir fisicamente na primeira oportunidade e que não abusassem moral e psicologicamente de mim ou das pessoas.
Eu estava com fúria em meu coração e procurei pela Reclaiming. A Feri já estava começando a chegar sem aviso, como uma trepadeira que engole uma casa silenciosamente. Quando eu encontrei a Reclaiming eu esperava ver uma tradição de “Hippies Livres Estereotipados" que não tinham muito compromisso com nada. Mas eu encontrei uma das Tradições mais organizadas que já conheci ou que já estive próxime na minha vida. Isso foi uma surpresa, mas entendo a ignorância (incluindo a minha da época) das pessoas confundirem Anarquismo com falta de organização. Ou até mesmo a ausência de uma panteão fixo com ausência de Misteriosos. A liberdade era grande mas o trabalho para tê-la em mãos era maior ainda. Não é simples ser sua própria autoridade espiritual. Não é simples ter diversos professores e ao mesmo tempo nenhum deles comandar a sua vida. Não é simples honrar o conhecimento passado sem segredos. Não é fácil seguir sabendo que não é um protagonista, mas sim mais um ponto em uma longa teia, apenas um ser em uma grande Floresta Escura lotada de vida e de morte.
Existe um conjunto de espíritos aliados que são muito importantes dentro da Tradição, e a primeira vez que os vi eu fui profundamente tocade. E gostaria de compartilhar um pouco sobre eles. O primeiro deles são os Mortos Poderosos, todas as bruxas da tradição que já foram chamadas de volta para o monte. Nesse chamamento costumamos dizer seus nomes. E repetimos aos quatro cantos: O que é lembrado Vive! (ou a variação não tão popular: Quem é lembrado Vive!)
E sempre junto dos Mortos Poderosos chamamos os Descendentes. Todos aqueles que ainda não pisaram no círculo mas que um dia pisarão. Aqueles que desafiarão as normas, e que trarão soluções para problemas até então sem respostas. Os Descendentes englobam as bruxas nascidas e aquelas que ainda nascerão. Assim como os Mortos nos ajudam em nossas operações mágicas, os Descendentes ajudam a tecer a magia que atravessará gerações. Toda Bruxa Reclaiming, algum dia foi chamada em uma invocação dos descendentes. Toda pessoa que pisa em um círculo Reclaiming já foi chamada pelos Mortos ou pelos Vivos. Esse é o mistério, e eu escutei esse chamado, e ainda bem que o escutei.
A Reclaiming é uma tradição onde existe uma iniciação, mas diferente de outras tradições, a iniciação não é algo importante para se fazer parte. Isso é uma das coisas mais belas na minha opinião. Iniciados não têm o direito de se sentirem mais bruxas que outras. Existem bruxas importantes, professoras e lideranças incríveis na Reclaiming mas que nunca passaram pela iniciação e nem nunca vão passar. O processo de entrada é diferente, estar dentro da tradição é outra coisa. Tem muito mais a ver com a ação e de conhecer/fazer a nossa forma de tecer magia.
Não há nomes de mistérios a serem passados ou secretos. Não há chaves, apenas portas abertas ao fim de deliciosos labirintos. O mistério toma a sua própria forma nas diversas tapeçarias que tecemos ao redor do mundo. E abrimos espaço para que ele se mostre. Claro que existe um conjunto grande de técnicas e práticas, e elas são ensinadas em Core Classes, em Witchcamps, em Covens ou em outras formas de aprendizagem. Mas todo esse conhecimento é passado de bruxa para bruxa.
As bruxas em lideranças ou que facilitam atividades sempre estão organizadas em 2 ou mais. Não se faz nada sozinha na tradição. Se é Reclaiming sempre haverá duas ou mais bruxas. Assim se formam times de ensino, de iniciação, facilitações em atividades em witchcamps e até mesmo lideranças de covens, isso trás um equilíbrio para nossa magia. A única forma que isso pode ser feito por uma única pessoa é caso não exista nenhuma outra bruxa Reclaiming na localidade e nenhuma bruxa que possa viajar longas distâncias para se juntar, mesmo assim é recomendável que duas ou mais pessoas se reúnam no trabalho. A Reclaiming Brasil se organizou assim, éramos dois, que viramos três e assim crescemos.
Em muitas tradições de bruxaria se organizam de forma que os buscadores não escolhem seus iniciadores. E em Feri escolher o iniciador é algo vital, mas que nem sempre seguimos essa lógica pelo número baixo de iniciadores no mundo. Na Reclaiming as pessoas escolhem a dedo seus iniciadores. E é de direito da bruxa que anseia a iniciação escolher seus iniciadores, formar seu time e então ser levada pelo Rio da Iniciação. E pasmem, qualquer bruxa pode demitir os seus iniciadores.
Quando o Coletivo Reclaiming se dissolveu para espalhar o poder, os Princípios de Unidade surgiram. Toda Bruxa Reclaiming se relaciona com aquela declaração. E conta a lenda que essa é a nossa única liturgia. E o melhor de tudo, é que ele é um documento que muda. Eu testemunhei uma das mudanças. Foi estressante ter consenso de todas as comunidades ao redor do mundo, mas foi reconfortante ver toda a luta do Brasil aparecendo no que chamamos de Conselho do BIRCH. Mudanças foram feitas e eu anseio por mudanças futuras, as próximas décadas podem ser incríveis. Mas relembro uma coisa, na bruxaria tudo leva muito tempo, os processos são longos e demorados. Mudar os Princípios leva tempo, se tornar uma bruxa professora plena leva tempo, passar pela iniciação leva tempo. Se reconhecer como uma bruxa Reclaiming leva tempo. E o Tempo é sagrado, relembrando aqui um dos espíritos que são amplamente chamados por aí.
Falando nisso, o consenso é uma das nossas principais ferramentas. Não existe votação ou a maioria ganha. Ou são todos por todos ou nada feito. Quando eu comecei na Reclaiming, quando eu precisava facilitar consensos as reuniões eram infinitas. Conforme fui vendo outras bruxas ao redor do mundo ensinando ou fazendo o consenso eu entendi melhor, e as reuniões se tornaram rápidas, cumprindo sempre o tempo determinado. (ok, as vezes peço 5 minutos a mais). Até mesmo para discordar e bloquear existem formas de se fazer para otimizar o trabalho. Não adianta só chegar e dizer: “não gostei!”. O Consenso é uma das nossas magias mais poderosas.
Nas aulas que ofereço dentro da Reclaiming eu sempre repito: nenhum ritual que fiz como co-criadore (seja em covens, em eventos ou afins) na Reclaiming eu faria sozinhe. Jamais faria um ritual desses na minha vida privada. E essa é a magia, poder ter um ritual completamente construído por um coletivo, o ritual não é de ninguém e ao mesmo tempo é de todo mundo. Mesmo sendo bem diferente do que faço no dia-a-dia, eu sentia as minhas mãos profundamente envolvidas ali. E eu reconheço os fios que tinham vindo dos outros mundos através de minha boca na construção daquele ritual, enquanto estávamos em um profundo transe com o Amanhã (especificamente em uma Atenção Aberta para visionar o futuro e fazer nossos rituais, de forma a criar verdadeiras profecias que podem ser dançadas e cantadas pelas bruxas).
Durante os últimos 8 anos eu trabalhei em diversos lugares: covens, ensinando Core Classes e em atividades diversas na tradição. E falando em Covens, tudo bem existir covens que duram pouco ou muito tempo. Já fiz parte de covens que foram projetados para durar exatamente 6 meses, em trabalhos profundos e semanais. No fim fiquei nesse coven 1 ano e meio, e até hoje, muitos anos depois, o trabalho que foi feito no Coven Bruxas Verdes reverbera em em nossa comunidade. Existe um senso comum de que cada coisa tem seu tempo e se um coven precisa subir para o astral, está tudo bem. E se ele precisa voltar do astral está tudo bem também. Aqui os misteriosos parecem fechar os consensos conosco. Claro que Covens que atravessam os anos ou décadas existem por aí. Alguns com uma postura bem privada até.
Eu já escutei um burburinho de uma ou outra pessoa aqui no Brasil alegando que a Tradição Reclaiming não é uma tradição. Eu não julgo essas pessoas pela total falta de compreensão ou pela total ignorância que elas decidem abraçar. Afinal de contas ser ignorante é de graça, ter conhecimento sobre algo é que custa caro. Custa tempo poder conversar profundamente com diversas pessoas da tradição de forma nacional ou internacional, e que sejam realmente influentes no caminho. Mas eu posso aqui sinalizar algumas coisas que fazem da Reclaiming uma tradição de bruxaria em alguns tópicos, segundo a minha visão:
1- O primeiro delas é que, mesmo existindo uma rica tapeçaria de diferenças mundiais na tradição, existe um conjunto de práticas mágicas, formas de construir rituais, estruturas em que nos organizamos e formas de nos capacitarmos enquanto agentes de magia que é a mesma e que precisa ser passado a frente para as bruxas que anseiam. Existe o que chamamos de miolo da tradição, onde diversas bruxas ao redor do mundo ensinam através das Core Classes, ou em covens ou Witchcamps. E esses ensinamentos não só atravessam as técnicas, mas a nossa forma de fazer magia que passa de bruxa para bruxa. Existe uma longuíssima tradição oral envolvida. Apesar de alguns dizerem que se a tradição morrer, temos pelo menos um livro publicado que pode fazer tudo renascer. E é um livro sobre um Witchcamp.
2- Mesmo sem um panteão específico, diversos espíritos locais ou mais amplos participam por períodos longos de muitas comunidades. Alguns estão desde o início de determinadas comunidades. Outros podem ser considerados mundiais. Mas existe uma grande teia de espíritos que vêm da terra ou das bruxas que compõem uma comunidade. Nós os chamamos de Espíritos Aliados, de Deuses, de Misteriosos, de Mortos, de Fadas e muitos outros nomes.
3- Alinhamentos, práticas energéticas e transe fazem parte da vida da bruxa Reclaiming. E a bruxa Reclaiming é convocada a estar presente tanto nos outros mundos como nesse. A magia é um fio condutor até mesmo em trabalhos burocráticos dentro da tradição. Nada é feito sem estados alterados de consciência. Todo trabalho visa que a bruxa possa alcançar esses estados profundos e extáticos, sem a ajuda de enteógenos. E também visando que a bruxa aguente cada vez mais grandes quantidades de energia passando pelo seu corpo, para que nossos rituais sejam potentes e eficazes. Também é de nosso interesse que a bruxa consiga acessar os outros mundos durante todo o ritual, para saber exatamente que linhas tocar e quais forçar tecer para o nosso intento.
4- Existe uma iniciação. Estranhamente, a iniciação não é requisito para fazer parte da tradição. O que torna uma bruxa uma bruxa é outra coisa. E a iniciação é uma ferramenta poderosa que pode ser oferecida, tradicionalmente, por duas ou mais pessoas (idealmente 3) que já passaram pela iniciação. E não existe nenhum segredo passado à frente. O que torna o caminho um tanto quanto curioso, se não é por um título e nem pelo segredo, qual será o motivo de uma bruxa aceitar adentrar o Rio da Iniciação? Bom, eu sei os motivos de há 3 anos ter começado nessa jornada, e hoje confio em minha iniciadora como um grande foco de luz, ou uma grande fogueira que me aquece com sua longa sabedoria e experiência dentro da tradição.
E mais estranho ainda, existe inclusive uma outra tradição que vive dentro da Reclaiming, que é uma linha muito específica da Feri. E existe uma forma como as coisas são feitas, primeiro se passando pela iniciação Reclaiming e depois passando por uma segunda iniciação onde os mistérios Feri são passados. Como alguém que já foi iniciade na Feri e que agora sigo em direção a iniciação Reclaiming, eu atesto que o Rio da Iniciação é igualmente traiçoeiro, mas que com mãos de amor o caminho se torna algo poderoso.
A Reclaiming não segue a lógica de outras tradições, ela responde aos outros mundos como ele é, e não tenta fazer a coisa ficar mais bonita. As coisas são o que são e para pessoas de fora a coisa pode se tornar um grande borrão. Isso parece uma herança da Tradição das Fadas (Feri/Faery), mas completamente melhorada e igualmente visceral .
5- Somos uma tradição que trabalha profundamente com os Mortos. Temos os nomes daqueles que foram importantes e moram debaixo do monte. Bruxas poderosas que fizeram magia como fazemos hoje, e chamamos por elas em nossos rituais. Necromancia é uma arte bem vista e incentivada. Bem como o trabalho com os espíritos do amanhã. Trabalhamos profundamente com o futuro, e visionamos miragens que nos mostram o amanhã para construir nossas ritualísticas. E graças a isso temos um contato potente com diversos espíritos, incluindo os mortos que foram vivos e os mortos que ainda serão vivos.
6- Orgulhosamente nos chamamos de Bruxas, e deixamos isso claro, o que fazemos é bruxaria. Herdamos uma boa fatia da tradição Feri, mas temos muitas outras nuances e muito desenvolvimento próprio. Não irei a fundo pois qualquer pessoa pode aprender isso em uma Elementos da Magia, Core Classe que ensina tudo para fazer um ritual Reclaiming, nossas técnicas básicas para preparo do corpo para lidar com o mundo dos espíritos e um pouco de nossa história.
7- Somos uma tradição ancorada no mistério dos 5 elementos. Terra, Ar, Fogo, Água e Espírito. Diferente de outras vertentes que se apoiam nos 4 elementos, a Reclaiming trabalha com o Espírito de forma direta e potente. E muitas de nossas jornadas se encontram nesses aliados potentes. Cada um desses elementos nos desafia e nos ensina, bem como nos acolhe para um trabalho mistérico.
8- A história dos espíritos é passada de uma lado a outro. Trabalhamos com os Contos de Fadas e diversos mitos. Alguns tão antigos quanto o tempo, outros sussurrados pelos espíritos há poucos dias ou décadas. Anualmente, a quantidade de histórias dos espíritos contadas na tradição supera qualquer expectativa. É um resultado de estarmos atentas aos espíritos e aos seus pedidos para longas parcerias ou trabalhos mágicos pontuais. Rituais públicos são apenas a ponta de uma enorme montanha rodeada por uma Floresta tão Escura como a Noite.
9- Existe um forte trabalho de coven não aparente. Por exemplo, ao trabalhar fazendo um evento, os organizadores além de organizar, fazem um trabalho profundo de coven que dura basicamente todo ano que antecede o evento. Dependendo do trabalho oferecido o tempo pode ser de meses. E o trabalho de coven pode variar de acordo com as necessidades das pessoas. Qualquer bruxa Reclaiming que conheça minimamente a nossa cultura pode fundar um coven com outras bruxas Reclaiming. Existem covens que giram em torno de um ser ou divindade, outros para capacitação, outros para experimentação mágica e muitas outras coisas. Mas covens não são as únicas formas de organização, apesar de serem as mais comuns. Nosso trabalho mágico é totalmente voltado para os ciclos da terra, para as fases da lua, para o movimento das estrelas e o sentido do Sol, e os mistérios da vida e da morte. Todas as nossas histórias buscam tocar esses mistérios de forma direta ou indireta.
Eu poderia continuar uma longa e enfadonha lista de características, mas 9 é três vezes um feitiço. E eu também garanto que você que está lendo já bebeu um pouco da Reclaiming, a diferença é que quem é de dentro da tradição sempre cita ao máximo de onde as coisas surgiram, hábito não muito presente fora da tradição, ainda mais aqui no Brasil (isso acontece com Feri também). Músicas, Técnicas, Espíritos que brotaram dentro. Traduções ou publicações não deveriam substituir os autores, ou apagá-los. Pelo menos não fazemos assim dentro da Reclaiming Brasil. Parte da nossa magia e do nosso poder se fortalece em dar créditos devido a professores e técnicas que são passadas à frente. Sempre dizemos: aprendemos com tal bruxa e tal coisa surgiu com tal pessoa.
Outra informação importante. A Starhawk não é a Reclaiming. Ela foi muito importante no passado, ainda é importante no presente e ainda nutre pelo menos uma comunidade no mundo. Claramente ela é uma das bruxas mais inspiradoras do último século em termos de magia e de ativismo por um mundo melhor. Mas existem muitas outras bruxas que passeiam pelo centro e pelas bordas e que fazem muito para que as coisas continuem funcionando dentro da tradição. Existem bruxas professoras com uma experiência surreal, assim como iniciadores hábeis e criativos, e muitos artistas criando muita coisa a todo tempo. E há muitos Elders que estão também desde o início por aí.
E pessoas, muito longe de colocar a tradição no pedestal. Existem muitos problemas sem respostas e muitas coisas que poderiam melhorar. Existe um punhado grande de pessoas irritantes e com certeza eu devo ser considerada irritante para alguém. Minha iniciadora Dawn costuma dizer que a nossa tradição é um reflexo do mundo, e por ser esse reflexo teremos muitos problemas do mundo dentro dela. A questão é a forma como endereçamos tudo isso. E esse é o trabalho. Mas ainda assim, a estrutura de tudo é gigantesca, e sempre existe muito trabalho a ser feito. Mas é necessário mãos dispostas. E que os descendentes possam encontrar o farol, todas aquelas bruxas que desejam ser sua própria autoridade espiritual enraizada na comunidade. Aqueles que querem desafiar as normas, aqueles que sonham profundamente em mudar o mundo em que vivemos. Existe espaço para vocês em nossa rica tapeçaria, tragam seus fios coloridos e criem conosco.
E uma última nota sobre a Reclaiming: não é porque a tradição não segue normas decadentes que ela não tenha sua própria forma de manifestar os outros mundos do lado de cá. As bruxas mais inspiradoras e hábeis que conheci são da Reclaiming, a forma como elas sustentam o poder é incrivelmente potente, graças a grande teia de bruxas e espíritos que a rodeiam.
Com amor, Yuki Fae.
Um desabafo e a minha visão sobre a Tradição Feri de Bruxaria.
Antes da minha primeira iniciação eu acreditava que Feri poderia ser ensinada em grande escala. A minha primeira professora Feri, Vee, ensinava para grandes grupos e com certeza ela foi a pessoa que mais iniciou pessoas na tradição que eu tenho notícias nos últimos tempos, por volta de 20 bruxas, um número colossal apesar das muitas décadas de trabalho dela. Vee morreu no fim do meu treinamento, o que é lembrado vive.
Bruxas/Coelhos da Lua atendendo ao chamado do Deus Azul. Fae, março de 2022.
Apesar dos números, a taxa de iniciados dela era baixíssima levando em consideração o número de pessoas que estudavam com a mesma. Da minha turma eu e mais uma pessoa continuamos o treinamento com outro iniciado e chegamos nos Portões da Iniciação...
Muitos anos depois mais algumas pessoas passaram pelo mesmo nas mãos de outra iniciada. Em uma turma de 20 boa parte sumia durante a jornada, e nem todo mundo que chegava no final era iniciado. De fato, treinamento não garante iniciação, repetimos isso constantemente, apesar de que aprendi que uma pessoa só deve ser treinada se ela quiser ser iniciada. E esse é o maior pré-requisito para entrar na tradição, na minha opinião.
Nos últimos 5 anos eu falei cada vez menos sobre a Tradição Feri de Bruxaria no meu perfil. Bom, eu ainda falo de muitas coisas que acontecem dentro dela e minha arte também é profundamente enraizada nessa Tradição de Fadas. Esse movimento foi proposital. Eu me recordo que antes da minha primeira iniciação eu sempre pensava que Feri tinha que ser democrática e que ensinar em grande escala funcionava. No dia seguinte da minha iniciação eu percebi que o trabalho era bem mais difícil do que eu pensava.
Minha primeira iniciação foi em 2019, no primeiro ano eu senti a Corrente entrando deliciosamente no meu corpo e se assentando em meus ossos, meu sangue e minha carne. O lore ensina que o primeiro ano de iniciado é especial, pois a corrente vai se aterrando no corpo da bruxa. E demora até ela tomar conta de cada parte. Eu me senti 24 horas como uma enorme flor abrindo em todas as direções. De fato, desde então a minha forma de me expressar no mundo mudou, incluindo a minha aparência. Minha arte vazou para todos os lados, e com certeza outras bruxas de linhagens iguais ou próximas me reconhecem devido a isso. Assim como eu as olho e identifico o trabalho estranho dessa Corrente de Poder. Nossas histórias sempre falam que o primeiro ano pós iniciação é quando a Corrente de Poder vai se acomodando dentro do corpo da bruxa. Um desabrochar estranho e assustador acontece. E o iniciado deve respeitar esse período saboroso.
Depois desse primeiro ano a Corrente de Poder me arrastou de forma desconfortável e mistérica. Foi assustador e chocante, mas dava para sentir que o mistério estava ali. Eu deixei os espíritos me despedaçarem(mais uma vez) para que eles pudessem me remontar. Eu tive que confiar naqueles espíritos que tinha acabado de conhecer, e me segurar nos que já conhecia. Eu fui arrastade para diversos mundos. Nesse meio tempo eu comecei junto de Lilo a treinar um pequeno grupo de pessoas. Todas essas pessoas tinham pedido treinamento, mas tiveram que esperar até quando pudéssemos aceitá-las. Tudo na Feri leva tempo.
Tempos depois eu fui iniciade uma segunda vez, algo raríssimo dentro da tradição, aconteceu algo assim apenas 6 vezes, com 6 bruxas diferentes e boa parte dos motivos foram diferentes e cercados de mistérios e reviravoltas. E assim mais uma linha Feri me adotou, mais nomes de bruxas para decorar. Eu amo demais ambas as linhagens que carrego no meu corpo, mas tudo isso fez parte do mistério que me arrancou de um lugar de muitas certezas e me jogou naquilo que é perigoso. A Corrente é viva e escava de forma abrupta ou delicada os caminhos daqueles que são Feri. E a Corrente me mostrou o seu poder desconfortável, descontrolado e brilhante, me chamando com sua voz de trovão para o abraço dos misteriosos.
E tudo isso começou com uma única visão dos outros mundos que desencadeou em uma segunda iniciação. Visões dos outros mundos podem fazer isso, elas impactam, torcem e distorcem as linhas do destino. Aquilo que era errado se torna certo, o azar vira sorte, as incertezas se tornam certezas e vice versa. O calmo se torna terrível, o que é verde morre, e a cura se torna veneno. A fome se transforma em saciedade, o amargo vira o mel mais doce, e a confusão se torna a luz do amanhecer.
Em Feri, existe apenas uma iniciação. Depois que você passa por ela você é igual a qualquer outra bruxa iniciada. Não existem hierarquias entre iniciados. Se você passou pela iniciação hoje, você é igual a mim. Simples e direto. Qualquer tentativa de controle direcionada a outro iniciado, que são completamente independentes, é um sacrilégio contra a Corrente Selvagem que carregamos. Nem mesmo o cargo de Grão Mestre (Grandmaster) na tradição significa ter poder sobre outras bruxas, muito pelo contrário, é um cargo para “cuidar da tradição”. Mas sinceramente não sei por quantas gerações esse cargo vai continuar a existir. E existem bruxas que ignoram completamente esse cargo, assim como existem bruxas e linhas inteiras que cagam para o sistema de Varinhas. Qualquer forma de hierarquizar causa motins e revoltas. Eu acho isso saboroso, Feris tem talento em incendiar tudo sem nenhum peso na consciência.
Recolhendo informação aqui e ali percebi que um bom treinamento Feri dura em média de 3 a 7 anos. Tem gente que passa dos 10. (eu acho tempo demais, mas acontece). A questão é que o trabalho para fazer novos iniciados é bem maior do que eu imaginava e muito mais visceral do que apenas ser levade pelo Rio da Iniciação. Treinar alguém é passar novamente por todas as técnicas, abraçar todos os Espíritos da Tradição como se fosse a primeira vez. Mensalmente eu tenho um grande número de horas que dedico apenas para o treinamento, fora as horas de aula, tempo de consulta oracular, rituais e afins. Há muita coisa a ser feita e isso não é simples. Isso sem contar o próprio trabalho da bruxa Feri, que é diário. E escutar atentamente cada um dos espíritos, e são muitos.
Eu fico triste toda vez que alguém busca a tradição e eu preciso dizer não, principalmente se as pessoas foram educadas nesse contato. Por outro lado, eu tenho uma série de pré-requisitos para aceitar estudantes, e claro, eu preciso ter tempo disponível. Algumas pessoas chegam para pedir treinamento sem serem muito educadas, achando que é uma obrigação de uma bruxa Feri oferecer treinamento. Uma informação muito importante sobre a Feri é: ninguém que seja iniciado precisa treinar outra pessoa ou fazer um serviço de doação de seus conhecimentos, ou qualquer serviço comunitário. Feri não é sobre isso e parece que muita gente que segue outros caminhos da arte ficam extremamente confusas com essa informação. Uma bruxa Feri apenas fará outras bruxas Feri se isto estiver incluso no trabalho do Deus dela. (Oração tradicional da Feri: “Quem é esta flor acima de mim, qual o trabalho deste deus?”) Se isso não existe, ela não vai fazer.
Nenhum iniciado precisa fazer nada para a tradição crescer. A Corrente de Poder e Selvagem é esperta, ela se ancora no mundo como desejar. E se Feri um dia não receber mais nenhum estudante assim será. Não existe um senso de que precisamos fazer novas bruxas a todo momento. Faz quem quer, e quem não quer é só não fazer. A ideia de que a Feri possa desaparecer debaixo do monte não é vista com pavor. Acredito que algumas bruxas estranhas até iam gostar. Já estamos iniciadas, elas diriam, podemos partir com os espíritos para qualquer lugar a qualquer momento se a Corrente convocar. E talvez a Corrente apareça em um novo pequeno grupo, em outra Era ou Tempo.
Isso deve ser um pouco confuso para quem encara o Sacerdócio como servir a população, ao invés de entender o Sacerdócio como um trabalho a ser feito ao lado de um Espírito, que precisa de suas mãos para realizar aquilo que Ele não consegue fazer. E como prêmio o Espírito usa as mãos poderosas para fazer aquilo que não conseguimos fazer. Então ganhamos sorte no destino à nossa frente. Mas dentro da Feri, sacerdócio não é algo que possui consenso. Algumas bruxas possuem sacerdócio para alguns espíritos da tradição, outros alegam que toda iniciação é um sacerdócio para nossas divindades e outras dirão que não estão sabendo de nada disso e que são apenas bruxas. Ainda terão algumas que terão sacerdócios com espíritos que não fazem parte da “corte da Feri".
Mas de fato a iniciação parece ser algum tipo de casamento não-monogâmico com muitos espíritos ou ainda uma adoção em uma grande nação que envolve espíritos e humanos, além da Corrente que precisa entrar em cada uma das bruxas. E quando isso acontece a sorte desses espíritos vazam para todos os lados, indo para o futuro e inundando o passado. É comum entre iniciados histórias em que espíritos Feri os visitaram durante a vida, na infância e quando ainda não eram bruxas iniciadas. Também existe um senso que se você está destinada a ser Feri, você será iniciada nem que seja em seu leito de morte. Você chegará à Nação por mãos humanas, por mãos de amor.
Para entender a magia da Tradição devemos lembrar das Harpias. Um grupo diverso que compunha o Harpy Coven. Essas pessoas vinham de diversos lugares, principalmente do Sul dos EUA. Essas pessoas se estabeleceram no Oregon fugindo da crise que antecedeu a Dust Bowl, foram tempos difíceis mas que uniu os membros Harpias. Para a comunidade essas pessoas se passavam por bons cristãos mas secretamente celebravam Ritos Antigos e entravam em contato com Espíritos que eles chamavam de os Antigos. Em 1932 o Harpy Coven recebeu Victor Anderson como membro. Boa parte da tradição alega que uma fatia saborosa da nossa magia vem desse lugar.
Outra informação preciosa é que Victor Anderson era um grande Andarilho Astral. Todo mundo sabe que Cora Anderson se casou muito rápido com Victor. E foi assim por um motivo, eles se conheceram nos Outros Mundos muito antes. E quando se conheceram nesse mundo se uniram e ficaram assim até o fim da vida. Victor iniciou Cora nesses misteriosos Ritos Antigos. Mas antes disso tanto Cora quanto Victor já possuíam diversas habilidades com os espíritos. E meio que isso permanece até hoje, Feri não é feita para quem não tem magia. Toda pessoa admitida precisa ter algo que os iniciados reconheçam. Experiências viscerais com os outros mundos é outra fatia saborosa da tradição que vem dessas idas aos outros mundos, daqueles que vieram antes e daqueles que vão agora.
Nesses tempos antigos, Feri não tinha esse nome. Era a Arte sem Nome, Ritos Antigos, apenas Arte ou simplesmente aquilo que não é dito. Na década de 60 e 70 com a chegada de novas bruxas às Américas, um famoso iniciado chamado Gwydion Pendderwen junto de Victor nomearam essa arte de Faery (e todas as variações possíveis de escrita). E isso pegou no gosto dos iniciados e se alastrou por todos os lados. Posteriormente, devido a diversas tradições de wicca que emergiram e começaram a utilizar o termo faery Wicca, a nossa escrita virou Feri. Mas ainda há muitas bruxas que usam o Faery por aí. Eu gosto de Feri, mantém a magia das fadas, a ferocidade e o ferro bem aparentes.
Agora eu vou listar meus 6 pré-requisitos para receber estudantes e informações adicionais:
(Ou que o acho que uma pessoa deve ter para adentrar no meu Clã)
Parte desses requisitos surgem de intermináveis conversas com Lilo Assenci, e de observações do modus operandi de outros iniciados.
Lembrando que esses requisitos não levam em consideração se terei ou não tempo de receber um estudante. E se o problema for esse eu posso sinalizar em qual horizonte possível um dos meus estudantes provavelmente chegará na iniciação. Mas Feri leva tempo, tudo precisa de muito tempo. A primeira vez que entrei em contato com um iniciado foi em 2014, muitos anos antes eu li pela primeira vez sobre a tradição e um nome me marcou de forma profunda. Em 2017 iniciei meu treinamento e no final de 2019, no Solstício, fui iniciade.
1- A primeira coisa que eu falo é que: só deve buscar estudo na tradição quem deseja de forma visceral a iniciação. Não faz sentido querer estudar Feri, sem querer a Corrente de Poder. Algumas pessoas confundem isso e acham que Feri é uma escola onde você pode fazer um curso livre e sair sem o diploma. Não, definitivamente não. Haverão iniciados que vão ainda mais longe afirmando que não faz sentido pessoas que não queiram uma iniciação realizar práticas Feri e chamar seus Espíritos.
E eu entendo essa afirmação em partes, pois se essas ferramentas funcionarem e os espíritos responderem onde estarão as mãos humanas para juntar o corpo despedaçado da bruxa? Em Feri é necessário mãos humanas, pois o poder puro pode trazer o caos e levar à insanidade. Sem mãos humanas, seria como se um raio atingisse uma pessoa e ela explodisse como um tronco velho de uma árvore. E aqui entra a velha lenda que os Espíritos Feri podem matar, enlouquecer ou transformar o indivíduo em um poeta com língua de prata. Eu sei que inúmeros grupos utilizam ferramentas Feri a torta e a direita. Eu não sou ninguém para proibir tais práticas, até porque as ferramentas realmente funcionam.
Quanto aos Espíritos eu acredito que ninguém de fora deveria chamar por eles, exceto se for uma pessoa em treinamento ou que deseje muito a tradição (mesmo que seja perigoso). E eu lembro que livros não podem ensinar Feri. E que cada ferramenta dentro da Feri é encadeada com outras ferramentas para que a bruxa tenha um corpo preparado para receber essa Corrente de Poder. Feri não é segura, nunca foi e nunca será. Feri pode ser estranhamente desconfortável na melhor das hipóteses. Há riscos reais que envolvem o treinamento e a iniciação. E se vocês usarem as ferramentas de forma real vocês encontrarão esses desconfortos de forma estranha e visceral.
2- Ter magia em seu corpo, ter Feri em seu corpo e ter experiências nos outros mundos. A Vee deixava claro que não recebia “Noobies" em Feri. Victor Anderson foi recebido pelo Harpy Coven, que reconheceu muito de seu contato com os espíritos, incluindo uma misteriosa Iniciação nos Outros Mundos. A maioria dos iniciados, e eu falo maioria pois não conheço todos, procuram Feri nas pessoas que estão pedindo treinamento. Isso acontece pessoalmente na maioria dos casos.
Uma Iniciação Feri espalha seu poder para todas as direções, então é possível reconhecer Feri mesmo a pessoa ainda não sendo oficialmente Feri. Ela tá lá, debaixo de camadas e mais camadas. Isso parece ser difícil e exige prática. Mas é essencial para treinar uma pessoa. Identificar algo que pareça a própria corrente. Identificar algo que já está dentro do iniciado em alguém que ainda não foi iniciado.
No meio dessa magia estranha os próprios Espíritos da Feri podem interceder pela pessoa que quer adentrar no caminho. Seja enviando sonhos bem diretos, ou vindo pessoalmente ao encontro da Bruxa apta a treinar, compartilhando seus desejos em relação ao futuro estudante. Quando isso acontece os requisitos são todos preenchidos. Haverão professories ao redor do mundo que não possuem requisitos claros, mas que depois de um encontro topam levar o estudante pelo Rio da Iniciação. Alguns deles se baseiam em uma certeza que está ancorada na segunda Visão.
3- Estar disposto a ter um relacionamento profundo com seu iniciador. Um treinamento exige horas e mais horas de conversa e de aula. No Clã que faço parte as pessoas precisam estar em presença pelo menos duas vezes por ano após o primeiro ano de treinamento. Estar perto é algo muito importante para que se possa treinar, intimidade é algo que precisa ser desenvolvido e a iniciação só deve acontecer se ambas as pessoas confiarem uma na outra. Também precisarão estar em presença no que chamamos de Prova de Fogo, que é um rito de passagem simples para a pessoa ser admitida em uma camada mais profunda do treinamento.
Lembrando que treinamento não garante iniciação, e qualquer uma das partes pode encerrar o processo desde que seja conversado. É educado dizer tchau quando for embora e qualquer tipo de ghosting é visto como uma ofensa. Lembrando que a Bruxa Iniciada pode encerrar o treinamento, principalmente se o treinamento não estiver dando respostas. Um treinamento muda a pessoa, e isso fica claro durante o processo. E caso a interrupção aconteça não será de repente, uma série de avisos são dados para que o caminho rumo à iniciação seja retomado, caso mesmo assim o rio da iniciação não seja alcançado a pessoa será convidada a se retirar. Se mesmo assim a pessoa ainda desejar Feri ela pode pedir novamente depois de um ano à bruxa que a treinava ou à outro iniciado. E falamos um ano pois é um tempo razoável para uma pessoa mudar completamente seus hábitos e sua vida.
Eu faço parte de um clã familiar, durante o treinamento os estudantes estão sob a proteção desse clã, e ter a ciência que após a iniciação você estará oficialmente na família dessa Linha. Independente dos trabalhos futuros e diversos que possam acontecer, a sua linhagem será a sua linhagem para sempre, e você aprenderá os nomes de cada um, e quando morrermos vocês ainda dirão nossos nomes. E os seus filhos de iniciação dirão também os nossos nomes, até o dia em que a linha decidir retornar para dentro do monte.
No mais tomaremos litros e mais litros de chá ou café, comeremos macarrão com molhos, pizzas e feijoada vegana. Tomaremos banho de mar depois dos rituais, beberemos vinhos, sucos ou drinks. Passaremos horas na cozinha ou estirados no sofá. Poderemos fofocar, falar sobre magia e experimentar os outros mundos juntos. Falaremos horas a fio sobre a aparência estranha dos outros mundos e dos espíritos. Compartilharemos alguns segredos de clã, e mostraremos que nem tudo pode ser compartilhado. E um dia cantaremos os sons proibidos. Lembrando que Feri é uma arte extremamente simples, o que faz ela ficar complexa é nossa relação com os Espíritos.
4- Que tenha tendências anti-cristãs e desejo pela mística sexual. É certo que existe um pouco de misticismo cristão dentro da Feri, mas isso com certeza habita muito mais um local de oposição do que qualquer outra coisa. Constantemente vemos Victor e Cora se posicionando contra o que chamamos de “Falso deus”, eles usavam exatamente esse termo. (esse deus monoteísta que alega ter onisciência, onipresença e onipotência- uma desculpa perfeita para controlar nossos corpos sexuais e sensuais.)
Nos tempos antigos os futuros iniciados, antes de adentrarem os ritos tinham que dizer em voz alta: Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão. Como forma de reivindicar essas pontas do Pentáculo de Ferro e também de alguma forma rejeitar todos os ensinamentos e crenças do cristianismo. O simples fato de pronunciar essas palavras era o movimento necessário para profanar a bruxa, e assim ela poder entrar totalmente purificada em um ritual de iniciação. Se a pessoa hesitasse, ela não era iniciada. Hoje parece algo bobo, mas imagine para o pensamento anterior aos anos 50. Inclusive Victor Anderson chegou a ser acusado de Satanismo.
Lembrando que no Centro da Feri existe a Deusa Estrela. A Antiga, a Fonte Primordial, o Nosso Moinho. Deus, Ela Mesma. Não há um deus punitivista aqui, é uma Deusa, clitorofálica, ainda assim uma Deusa. Fora que os mitos Feri e Espíritos orbitam esse ser, e tornam nossa tradição um caminho Animista, Politeísta e que adora o que é paradoxal.
Essa Deusa conta uma história de êxtase. Existe aquilo que chamamos de fertilidade, mas o centro de tudo está no que é extático. Nossos espíritos querem que aqueles que carregam a Corrente sigam esse êxtase. Até o dia que retornaremos para debaixo do monte.
5- Feri é uma prática marcial que nos leva a ter disciplina. Você precisa ter de 15 a 50 minutos por dias apenas para rituais diversos e práticas. Em alguns momentos esse tempo será cheio, e em outros haverá variações. Todo caminho do iniciado visa preparar um corpo para que esse não rache com a Corrente de Poder. Mais uma vez, Feri não é segura e isso é literal. Quanto maior quantidade de energia uma bruxa pode movimentar, melhor será para ela passar pela iniciação e aguentar a Corrente de Poder.
Fora isso, Feri necessita de muito espaço, e o treinamento só irá funcionar se o estudante abrir espaço em sua própria vida, não só para práticas mas também para seus espíritos. Existe uma máxima que diz que tudo que um iniciado faz na vida é um ato sagrado dos outros mundos. E isso é o que esperamos de um estudante, que ele desabroche em todos os mundos.
6- Tenha compartilhado um espaço ritual. Esse talvez seja o requisito que pode ser um pouco mais complicado. Mas garanto que durante o ano eu participo de bastante espaços rituais na outra tradição que faço parte, que é muito mais aberta que Feri. Rituais Feri quase nunca são abertos no mundo, no meu Clã os ritos acontecem apenas entre iniciados e estudantes(pós primeiro ano de treinamento).
Compartilhar espaço ritual garante que possamos observar a sua magia junto da nossa, em um mesmo lugar. Isso é valioso, mas garante também que você vá gostar do meu estilo de fazer magia. E eu falo isso pois a maioria de nós, iniciades, só frequentamos rituais que sejam agradáveis e que não entrem em conflito com nossa própria magia. Por exemplo, nunca passaria por um batismo cristão ou algum ritual que minha força vital fosse drenada, pois parte dos ensinamentos da nossa arte diz: “nunca submeta a sua força vital a nada e ninguém (V.Anderson)”. Ou ainda, não participaria de um ritual de pessoas desconhecidas ou que não se alinham minimamente com a minha forma de tecer magia entre os mundos. Sabemos que azar e sorte são acumulativas nas sendas da Bruxaria Tradicional, e eu quero continuar garantindo a minha sorte.
Feri não é uma arte exclusiva se o Coração Negro da Inocência da bruxa assim desejar. Feris podem fazer parte de outras tradições, religiões ou lugares. Mas nenhum Feri poderia se curvar a nenhum senhor. Nossos joelhos são ferramentas para correr em liberdade e apenas os altares mais antigos os merecem. Claro que durante um treinamento em meu Clã é necessário que o estudante se dedique completamente ao trabalho. Depois da iniciação não estamos nem aí, tendo trabalhado corretamente o seu Coração Negro vai Desabrochar. Seja nos nossos ritos ou num mosteiro no Tibet. Ninguém liga. Feri é um povo e uma nação, não existe desistência ou expulsão. Aqueles que tentaram no passado falharam de forma miserável. Não importa o que o iniciado faça, moral ou amoral, ético ou não, a Corrente não o abandona. Por isso todos os clãs do mundo fazem esse trabalho ser completamente intimista.
Toda informação contida aqui fala sobre a Linha da Feri que pertenço, “Coelhos da Lua” ou “Clã dos Coelhos da Lua”, também fala um pouco das duas linhas que me criaram, e as linhas anteriores. E também é sobre a minha própria experiência nessa tradição selvagem. Esses requisitos funcionam para o meu Clã Familiar e para as minhas mãos amorosas, mas cada Bruxa Feri tem total autonomia para corromper, discordar e refazer esses requisitos, e isso é saboroso.
Bom, esse texto é uma carta de amor à Feri, a minha prática mais íntima. Que ele seja uma tocha para aqueles que adentrarão o caminho, pelas minhas mãos ou de outra bruxa. Esse texto também é um aviso, a Corrente me convocou novamente, e as linhas do meu coração saem pelos meus lábios. Não deixarei mais de falar diretamente sobre Feri, os 5 anos de silêncio acabaram.
Com amor, paixão e poder. Fae.
Viajantes, bruxas e o mundo brilhante à sombra do nosso.
A bruxa sai de seu corpo e encontra a Deusa, Fae 2024
A bruxa caminha nos dois mundos. Sendo capaz de andar no nosso mundo e nos outros mundos. Tão importante quanto ir visitar os infernos, o mundo das fadas ou outros reinos é voltar em segurança para o nosso próprio reino...
E por isso a bruxa é meio viva e meio morta simultaneamente. Viver apenas nos outros mundos seria estar totalmente morta, e viver apenas nesse significaria perder toda a magia que transborda em todas as direções.
A maioria das bruxas que conheço tiveram desde muito cedo experiências fora do corpo, as famosas e infames viagens astrais, que nós chamamos de voo da alma, ou ainda o voo da bruxa. E aquelas que não tiveram essas experiências naturalmente ou treinam para isso ou fazem acordos com os outros mundos para conseguir tal proeza. Algumas conseguem ajuda de plantas venenosas, outras alcançando muitas outras formas de alterar a consciência para que seu corpo físico apague enquanto sua alma sai por aí.
Muitas de nós montamos animais, plantas ou espíritos antigos. Outras podem se transformar em fera e vivem maravilhas. Eu não conheço nenhuma bruxa que não descreva essas experiências como extremamente assustadoras e prazerosas.
Aqui neste texto irei tratar de Viagem Astral como a capacidade de um corpo espiritual sair de seu corpo físico por horas a fio, e que possa sentir (algo que todo viajante relata) e tenha total consciência nessa saída. Esse sair é abandonar o corpo físico para vagar no mundo à sombra do nosso. Ou no mundo que conhecemos, mas muito mais vibrante e assustador.
Em alguns momentos nesse texto Viagens Astrais e Voo da Bruxa serão sinônimos, em outro específico o Voo da Bruxa aparece nesse texto como tendo o objetivo de encontrar e buscar um espírito ou para realizar algum ato. E essa separação, apesar de não existir, é feita para que eu possa contar essa história de forma mais clara.
As primeiras vezes que eu escorreguei para fora do meu corpo eu senti muito pavor. Mas conforme eu fui sentindo aquele mundo noturno e brilhante eu fui me empolgando cada vez mais. Com o passar dos anos eu descobri que a exaustão era uma ótima técnica para mim, para que eu pudesse automaticamente ao fechar os olhos, apagar o meu corpo completamente e poder flutuar livre pelos becos e matagais. Por vezes, me privava de sono, me enchia de trabalho e tarefas por 24 horas seguidas. Outras vezes eu dançava até me exaurir. Apesar de que, um dos mistérios é que a maioria dos viajantes parecem ser convocados para outros mundos, e técnicas são utilizadas para tentar retornar de alguma forma e minimamente tentar um controle sobre algo que é completamente insano e instável. Existe um magnetismo que puxa os corpos de Viajantes para os outros Mundos. E isso eu não sei explicar.
Claro que existem diversas outras técnicas físicas que ajudam no processo de desprendimento. E mesmo com essas técnicas as saídas do corpo sem programação continuam acontecendo. Aparentemente algumas pessoas possuem uma espécie de magnetismo, que as fazem serem puxadas para os outros mundos. Algo importante é: sair do corpo não é a única aptidão de estar meio viva e meio morta, a Segunda Visão ou Visão, se soma a esse atributo oculto. E há muitas outras aptidões que tornam pessoas bruxas.
Eu sou uma bruxa que tem sonhos muito intensos também, hoje eu consigo identificar quais estão repletos de magia dos outros mundos e quais são apenas o meu Fetch, a minha alma mais animal, me enchendo de informação (lembrando que em Feri a alma possui três partes: Fetch, Falante e Santo Demônio). Claro que isso às vezes se mistura. Lembrando que na bruxaria que pratico o Mundo dos Sonhos tem muito mais a ver com o Mundo dos Mortos, com o Mundo das Fadas e os Infernos do que podemos imaginar ou conceber. Sonhar é uma forma de experimentar os outros mundos, especialmente os que citei acima.
Citei os sonhos para exemplificar que existe uma diferença bem grande entre sonhar, sonhar de forma lúcida (tendo controle dentro do sonho) e escorregar para fora do corpo (viagem astral). Quando eu saio, eu escuto um barulho de batidas muito alto que vai aumentando, como um trem chegando pelos trilhos, então sinto meu corpo inteiro tremer, até que meu espírito ou corpo astral é jogado para cima, nesse meio tempo a minha consciência desperta completamente. Então eu sinto todo meu corpo astral, com todos os 5 sentidos extremamente aguçados e muitas outras sensações passando de um lado ao outro.
Eu consigo me mover como se estivesse acordade, consigo ver meu corpo físico completamente imóvel, consigo ver todo o mundo existente ao redor, e o meu duplo brilhante obedecendo todos os meus comandos de forma idêntica ao meu corpo. E daí eu posso ir para qualquer lugar, sentindo o vento, vendo o mundo noturno brilhante banhado pela lua e muitas outras maravilhas. Em uma das primeiras saídas eu aprendi com um espírito que as leis (“físicas”) dos outros mundos não são as mesmas leis daqui. Voltar é menos burocrático e para mim parece algo como cair dentro do meu corpo oco e abrir os olhos, o que pode ser acompanhado com um longo suspiro.
A maioria dos viajantes relatam algo semelhante, com variações nos sons e nas sensações, mas sempre resultando na saída para um mundo maravilhoso que pode ser experimentado, provado e tocado nos mínimos detalhes. E aqui o corpo astral possui um certo peso, bem mais leve que o físico, mas pesado o suficiente para sentir de forma mais intensa do que quando estamos despertos em nossos corpos físicos. Correr livres pelos mundos, flutuar e atravessar coisas se tornam reais nesses outros reinos Esses mundos guardam muitos perigos, mas a maioria dos viajantes conseguem se resguardar enquanto sentem os prazeres indescritíveis do outro lado. Às vezes tocar um espírito ou uma simples planta pode te levar aos céus. E respirar profundamente é uma das coisas mais deliciosas que já experimentei fora do corpo.
Um dos mistérios sobre viajantes é que o magnetismo acaba fazendo essas pessoas se encontrarem. Às vezes nos outros mundos e na maioria das vezes nesse mundo. Então na minha vida eu pude conversar com muitos viajantes, alguns eram bruxas e outros eram outra coisa. A maioria dos viajantes era muito habilidosa do outro lado. Alguns poucos tinham sérios problemas. Por exemplo, conheci um médico que experimentou o outro lado, e ficou tão encantado que usou diversos medicamentos anestésicos para sair de novo e de novo. Isso encadeou a sua ruína e em algum momento ele não conseguiu ficar presente no nosso mundo e se entregou completamente ao vício de ter seus corpo desacordado. Medicações são extremamente eficientes, mas não as considero úteis para o trabalho devido a dificuldade do acesso e também aos perigos do vício. Mas elas entregam o corpo imóvel necessário para a saída. Inclusive muitos viajantes saem de seus corpos depois e/ou durante uma experiência cirúrgica.
Conheci alguns viajantes que experimentaram plantas de poder que lhes causavam uma pequena morte, assim seus corpos astrais escapavam para fora. Essas pessoas relataram uma imobilidade e finalmente uma saída. Pelo menos duas pessoas tiveram problemas com as plantas alucinógenas, tendo uma dependência, consumindo elas em grande quantidade ou entrando em um ciclo sem fim de estar em lugares religiosos apenas para tomar a planta, sem nunca chegar ao desprendimento de fato. De alguma forma alguns viajantes podem, depois de algumas experiências, nunca mais viajar em vida. Eu também não sei explicar o motivo disso acontecer, mas acontece.
Alguns viajantes me contaram como algumas pessoas adquiriram a capacidade de sair após graves acidentes, ou depois de experiências de quase morte. Mas existe uma maioria esmagadora que começa no período da puberdade. Alguns outros começam a sair quando encontram espíritos ou pessoas em sua vida, que de alguma forma, agitam esse magnetismo oculto.
Recentemente (nos últimos 2 anos) uma viajante me chamou atenção. Ocultarei alguns detalhes da história para preservar a identidade da mesma. Apesar de saber com certeza que nessa vida eu não a encontrarei mais e nem mesmo esse texto chegará até ela. Eu a conheci rapidamente mas convivemos por um tempo, e a mesma se sentiu chamada a falar comigo. Ela tinha um certo conhecimento oculto e sacou que tinha algo em mim. Ela ficou dias tentando jogar indiretas, dizendo que tinha algo para me falar, se eu sabia ou não do assunto que ela queria tratar.
Nesses momentos eu tenho muita cautela, então esperei ela se sentir à vontade. Ela era de X religião e a Líder Espiritual dela já tinha dito que “eu não entregaria nenhuma chave para ela.” Mas os olhos dela estavam cheios de esperanças. A história era: em algum momento da vida, ela conviveu com grupo e o grupo inteiro despertou para essas viagens astrais. Se quando vivemos isso a sós é uma delícia, em dupla é indescritível, imaginem em grupo. Foi uma experiência que a marcou de forma profunda.
Ela não convivia mais com o grupo, e eu acho que era por questões geográficas e eu não sabia se todos eles ainda estavam vivos. Ela perguntou se eu podia viajar. Então ela me implorou para que ela pudesse voltar aos outros mundo. Que ela não aguentava mais a dor de não conseguir ir. De querer do fundo do coração experimentar novamente as saídas. Eu não tinha nada para entregar, a Líder Religiosa dela estava certa. Eu tinha a certeza que ela não experimentaria mais os outros mundos enquanto estivesse viva. E que a paixão dela pelo outro lado, era apenas um desejo muito forte de morrer e de se apagar. Havia muitas saudades dos outros viajantes envolvida.
Ela chegou a me perguntar se eu surtaria se nunca mais saísse. Eu respondi calmamente dizendo que já experimentei o suficiente, e já passei por períodos grandes de 2 a 3 anos sem sair. Compartilhamos bem pouco sobre as nossas experiências e quando nos despedimos tive a total certeza que nunca mais a veria, ela sentiu o mesmo. Mas com certeza não seríamos os últimos viajantes a se encontrarem em nossas vidas. O magnetismo astral é real e sempre chegam mais viajantes nas trilhas do destino.
Pelo menos uma vez, eu conheci uma pessoa antes no mundo astral do que no mundo físico. Eu lembro de estar em um telhado, vendo o horizonte. A pessoa não disse nada mas me deu a mão. Então saltamos voando em direção a um horizonte minutos antes do sol aparecer. Cinco anos depois nos encontramos presencialmente e prontamente a pessoa disse: “Nós estávamos no telhado!”. Estudamos hermetismo, tarô e muitas outras coisas naquela estação, conversamos com muitos viajantes naquele ano. Além desse caso, por vezes rola uma identificação forte com outro viajante, uma sensação quase que irracional de que já estivemos juntos em algum momento. Como na maioria dos casos não temos lembranças, não podemos afirmar nada. Talvez seja apenas o efeito do magnetismo.
Desde que eu entrei nos caminhos da bruxaria que trilho hoje, as minhas saídas astrais espontâneas diminuíram em comparação aos Voo das bruxas que aumentaram. Eu correlacionam essas duas coisas, pois parece que o meu corpo astral tem feito mais missões bem estruturadas do que saídas aleatórias. Isso é um dado que não me causa incômodo, mas que me gera muita curiosidade.
Talvez um dia eu conte algumas das minhas experiências de forma mais profunda, ou talvez não. Só sinto que viajantes sempre serão bem vindos. E talvez esse texto seja um farol para aquecer o coração daqueles que sentiram os outros mundos ou o mundo brilhante à sombra do nosso. Sabendo que o magnetismo do outro lado continuará nos lançando de um lado para o outro, e em direção a outros viajantes apaixonados.
Com amor e paixão, Fae
*Linhas de Aka- são linhas que conectam todas as coisas vivas ou mortas, e que permitem que uma grande quantidade de força vital ou mágica vá de um lado para o outro. Toda pessoa tem linhas de aka vivas com cada uma de suas relações humanas ou não. As linhas de Aka preenchem o nosso mundo e os outros mundos.
Escultura de Pã, Dian Y Glas e Krom
Dentro da tradição mistérica que faço parte um objeto não simboliza algo, ele é esse algo. Uma faca de ferro não representa o fogo, na verdade é o próprio poço do fogo flamejante dentro de um ferro afiado e retorcido...
Uma escultura entregue a uma divindade, tem a própria divindade dentro dela e pode ser acessada facilmente. Um pingente para proteção, cheio de encantos, carrega esse poder independente de quem o usa ou toca.
Boa parte das tradições (que eu conheço ou já ouvi falar) possuem deuses que podem ser vistos como os deuses por detrás dos deuses.Você encontrarão referências a isso no trabalho do Lee Morgan, Fio Gede Parma, Orion Foxwood e dentro do lore tradicional. Vocês verão Lilo Assenci falando isso aos quatro ventos e muitas outras bruxas da Feri e de caminhos tradicionais. Claro que a maioria de nós têm alianças, sacerdócios e acordos com muitos deuses considerados pagãos ao redor do mundo, afinal de contas, a bruxa é extremamente saborosa. E os deuses da bruxaria dançam de forma mistérica com muitos deuses que tiveram seus templos destruídos ou suas culturas devastadas. Eles conversam, se fundem, fazem amor e confundem os andarilhos iniciantes.
Os deuses e espíritos podem pedir muitos objetos para que eles morem ou depositem seu poder: casa de espíritos, crânios de animais, esculturas que lembram crânios, objetos específicos ou raros, até móveis como altares ou cadeiras (os mortos inclusive amam cadeiras em rituais). Alguns desses deuses podem pedir esculturas e aí entra um problema para a maioria das pessoas.
As esculturas feitas em honra aos antigos deuses da bruxaria são extremamente raras, as que existem foram feitas por artesãos iniciados ou que são contratados para isso. O que leva muitas bruxas a buscar esculturas de outros deuses pagãos ou santos para corrompê-las até que os nossos espíritos expulsem quaisquer fagulhas divinas ali presentes para que suas próprias fagulhas adentrem no objeto.
E não se enganem, mesmo sem rituais, esculturas feitas para x ou y espíritos já carregam suas fagulhas. Isso explica a emoção que tantas bruxas sentem ao visitar jardins onde existem esculturas modernas das divindades que elas tanto amam. E qualquer bruxa pode fazer esse teste em um museu ou prédio público que tenha esculturas de divindades. Tentem falar com essas divindades por essas esculturas, elas responderão rapidamente. Claro que esculturas originais que vieram de templos reais são muito poderosas e potentes, ainda sim qualquer reprodução em tamanho menor ainda carrega parte desses deuses.
Quando olhamos para uma escultura e temos a Visão (chamada por alguns como a Segunda Visão ou a Visão das Fadas), podemos observar a escultura olhando de volta para a gente. Por vezes as expressões da divindade podem mudar, o clima ficar estranhamente mágico e linhas de aka transbordam força vital de um lado a outro. Muitas bruxas relatam terem recebido leves sorrisos nas salas gregas do Louvre, nos Jardins Botânicos, nas Casas de Comércio e até nos Teatros Municipais de suas cidades. Futuramente posso escrever melhor sobre essas experiências.
Voltando a ausências de esculturas de certos deuses. Muitas das vezes, o deus vai pedir por uma escultura. E com perspicácia dos outros mundos a divindade não pedirá por uma escultura nova, mas apontará a escultura de um outro deus ou santo. O início do sequestro astral começa aí. A divindade tende a sussurrar quais mudanças ela quer, se haverá algum tipo de trabalho escultórico ou pintura, ou se ela quer alguma coisa dentro do objeto, além das suas próprias linhas de aka.
Para usurpar de forma segura siga os seguintes passos:
1- escute o pedido da divindade que deseja possuir a escultura. O pedido deve ser totalmente claro e sem margem para dúvida.
2- evite falar em voz alta o nome da divindade ou santo que era dono da escultura até então. Falar em voz alta é como gritar o nome de uma pessoa em uma multidão, se você gritar demais o dono do nome vai te achar. E não se preocupe, os deuses vivem roubando uns dos outros e se esgueirando nas diversas mitologias ancestrais ao redor do mundo e isso acontece nos Entre Mundos também.
3- Nessa etapa a divindade já terá tirado e esvaziado o objeto, tornando ele vazio. Vale a pena conferir se a divindade te orienta a algo como dar banhos, enterrar no jardim por um período, uso de fumaça ou se podemos seguir em frente. Caso seja uma escultura de gesso, cuidado redobrado com água ou umidade da terra.
4- Escute com atenção que intervenção você terá que fazer. Alguns espíritos exigem que o rosto da escultura seja destruído ou re-esculpido, outros podem exigir uma pintura específica, outros exigirão que buracos sejam feitos para inserir determinados materiais, ainda terão alguns que pedirão que uma parte específica seja quebrada. Mas isso pode variar. Nesse momento, a divindade começa a tomar posse de todo o objeto.
5- Com objeto pronto verifique se algum ritual de puxar a divindade precisa ser feito para que o espírito se acomode melhor. Após isso a escultura está pronta e devidamente preenchida pela divindade que você conhece e muito dificilmente esse objeto perderá essa magia, a não ser se for totalmente destruído ou estilhaçado e com as partes devidamente espalhadas em diferentes lugares.
Alguns comentários que podem lançar luz sobre esse tema de roubar esculturas.
Preocupações acerca de ser descoberto ao pegar uma escultura de um deus ou santo. Bom, contanto que você não roube de uma igreja, ou faça isso com uma herança de família, ou com um item que já foi usado e nem de um espaço público (principalmente deuses gregos ou romanos), eles só não se importam. Afinal de contas vocês compraram a escultura e ela nunca foi trabalhada antes, e nenhuma reza foi levantada. Isso garante a segurança do processo. A maioria dos espíritos estão mais preocupados com a ordem e o caos cósmico do que com pequenos delitos astrais, principalmente de objetos comprados em lojas seculares.
Até mesmo os Deuses que não são os Deuses por detrás dos Deuses se beneficiam desse processo.
Nem toda divindade expulsa uma outra para adentrar em um objeto. Existem objetos que podem reter 2 ou mais espíritos. Principalmente se as divindades compartilham de um mesmo mistério. Talvez aqui tenhamos o máximo do que seria um sincretismo muito feito dentro dos caminhos mágicos. Dentro de uma mesma tradição inúmeros espíritos podem responder em um único objeto, mas isso só acontece com os devidos rituais sendo feitos.
Agora, um exemplo de mais de um espírito em uma escultura. Há muito tempo, eu comprei uma escultura de Pã que ironicamente veio com parte da flauta rachada - lembrando que muitos espíritos exigem que uma parte pequena ou grande da escultura seja quebrada para que os mesmos escorregarem lá para dentro. Há muito tempo Pã está na minha vida, e em algum momento Dian y Glas e Krom exigiram ao mesmo tempo viver naquela imagem. Pã não se opôs, pelo contrário, saltou de felicidades e eu pude escutar uma flauta ao longe, e isso me surpreendeu. Quando Pã chegou ele sabia que eu era bruxa e não reconstrucionista, apesar de eu ter um punhado de acordos com divindades helênicas.
Eu faço todas as minhas rezas diárias perante a essa escultura, e Pã, Dian y Glas e Krom respondem por ela. Claro que cada um de uma vez, senão seria uma tremenda confusão pois raramente os desejos de vários deuses se alinham.
Por mais curioso que possa parecer eu reconheço os fios das 3 divindades ao mesmo tempo pulsando vivas no objeto. Muitas bruxas encarando a foto ou vendo a escultura reconhecem um poder estranho que é totalmente desejado dentro da bruxaria. Outra curiosidade é que essas três figuras podem ocupar o “cargo” de Deus/Diabo das Bruxas. Pã pode assumir esse papel por tudo que ele é, e acreditem que Dian y Glas e Krom também são vistos assim dentro da Tradição de Fadas (Feri), e ambos dançam freneticamente a sua forma, oferecendo desejo e poder às bruxas que os procuram.
Sobre santos. Conheço muitos iniciados que já corromperam diversas esculturas de santas ao redor do mundo, destruindo suas faces, re-pintando e fazendo suas alterações, esculpindo crânios onde antes havia rostos ou pintando rios de estrelas onde antes era um rosto sereno. Outros não fizeram grandes alterações, mas conseguem acessar o que desejam ali. E isso não só é visto dentro dos caminhos da bruxaria, já vi espiritualidades reconstrucionistas fazendo isso. Mas não sei como eles fazem, só conheço como as coisas funcionam pelo lado de cá, debaixo do monte.
Uma vez eu comprei uma escultura de uma santa para usar para algo específico relacionado ao povo das fadas. Depois de limpá-la adequadamente deixei ela descansando em meu altar. Na primeira oportunidade que trabalhei com um Espírito Antigo, o mesmo quis me possuir e permiti de forma deliciosa. Então o espírito andou pela casa, conversou com as pessoas e antes de ir embora pegou a santa e a arremessou com toda força no recinto. A santa girou mais do que cata-vento em dia de vendaval e se espatifou. O espírito riu, disse “aqui não” e foi para seus amados reinos mais rápido que um trovão. Acho que trabalhar com santos nunca foi minha pegada e os espíritos devem sacar isso, ou talvez os espíritos que trabalho intimamente tenham um pavor agressivo e reativo disso, a ponto de que naquele momento eles não permitiram o roubo da escultura.
Outro caso foi que por muito tempo procurei por uma escultura do deus Apolo. Na época não havia artesãos e vendedores e comprar pela internet não era uma realidade. Eu tinha uma fonte, uma loja de gesso que tinha boa parte dos deuses gregos e muitas reproduções de artes de jardins. Tinha Athena, Perséfone, Ártemis, Afrodite dentre outras deusas. Os preços eram incrivelmente baratos, uma Athena de corpo inteiro quase do tamanho do meu antebraço por apenas 8 reais (ainda a tenho, até hoje, no topo da minha estante). Um dia nessa loja eu senti Apolo me pedindo para caminhar até o fundo, então eu vi um busto de Eros. Ele brilhava e Apolo disse claramente “leve-o e ofereça-o a mim”. E assim foi. Conheci muitas outras bruxas que tinham essa mesma escultura, que riscavam o nome escrito nela, e ofereciam a outro deus, às vezes adicionando chifres ou guirlandas.
Uns 15 ou 20 anos atrás, uma divindade apareceu para mim em sonhos. Estava em um deserto e a noite estava tão estrelada que eu senti vontade de chorar. Ela descia dos céus com suas asas e sorria para mim. Parecia que ela tinha me procurado por muito tempo e tinha voltado a me reencontrar. Essa era a sensação. Há 1 ano atrás eu cedi aos desejos da divindade. Ela me pediu uma escultura que comumente é associada a Lilith. Comprei e a escultura veio rachada nos pés e eu tive uma decepção estrondosa. A divindade então me acalmou, dizendo “adentrei a escultura pela abertura, sele ela antes do cair da noite para que meu poder não escorra para as estrelas.”
Existe uma cena muito conhecida em As Brumas de Avalon, onde Morgana reconhece a Deusa na imagem de uma Santa. Esse livro foi um dos mais vendidos no Brasil no final dos anos 80 (87 e 88). E por mais que bruxas subestimem o poder da leitura e de romances, essas leituras podem impactar profundamente a prática mágica, ainda mais quando a leitura adentra o imaginário que atravessa o real mundo dos espíritos. Do outro lado não existe uma diferenciação tão clara de criador e criatura, a dicotomia do que é imaginação e o que é real é algo que pertence apenas ao nosso mundo. Assim como o mundo dos sonhos é o outro mundo nos caminhos mais tradicionais.
Conheci muitas bruxas mais velhas que na ausência de uma escultura, adentravam uma igreja, chamavam pela divindade e a divindade respondia. Essas bruxas relatavam a mesma coisa: era como se um raio atravessasse a santa, a partisse em duas, e por um instante era outra coisa ali. Elas relataram que ao fim da conversa com a deusa, ela subia rápido como um trovão, deixando só a atmosfera da outra religião no recinto.
A grande questão desse texto é que existe uma gama de possibilidades envolvendo imagens e divindades que pode ser experimentada com os devidos cuidados. Claro que já vi algumas atrocidades sendo realizadas, por exemplo, por volta de 2008 eu vi uma pessoa montando um altar com uma santa e um deus monoteísta e simulando o Grande Rito. O altar parecia atrair a má sorte. A pessoa até hoje é vista como um grande borrão quebrado lembrando um corpo oco, sem alma. E continua por aí fazendo misturas bizarras e achando que está tudo bem não seguir as regras dos outros mundos. Algumas pessoas ganham azar nesses erros, e esse azar vai acumulando ao longo da vida.
A não utilização de nomes de santos e afins nesse texto é proposital. Falar ou escrever nomes de divindades ou seres diversos pode atrair eles diretamente para você. Não esqueça disso, e eu sempre prefiro os espíritos animistas e politeístas do mundo selvagem (e para esses espíritos: eu grito e canto seus nomes sempre que quero festejar). E aos Deuses por detrás dos Deuses, que sua magia continue transbordando na dança infinita.
Com amor, Fae.
Aquela magia que utiliza as forças potentes do Sol e/ou da Lua eclipsados.
Quando um astro obscurece outro na dança cósmica.
Tratarei magia de eclipse como aquela que utiliza as energias vindas desse evento. Eu aprendi que não se deve fazer esse tipo de magia, pois as consequências costumam ser inesperadas e podem desestabilizar a vida. Trazendo o caos de um momento celeste grandioso para dentro da Bruxa, podendo inclusive fazer a mesma rachar. Mas até aqui nenhuma novidade, processos iniciáticos podem rachar a bruxa, contato com os espíritos também, uso de ervas de poder, o simples contato com o Mundo das Fadas e muitas outras coisas. O contato com o Mundo dos Espíritos, como um todo, é demasiadamente perigoso.
Eu passei os últimos anos testemunhando alguns eclipses, alguns belíssimos, mas claramente existia algo terrível ali. Um senso quase que ancestral que se a Lua não retornasse ao normal o mundo seria mergulhado em um completo caos e medo, se o vermelho sangue não desaparecesse seria o fim de tudo, ou que seres terríveis ganhariam todas as noites e nos devoraria.
Muitos eu não pude ver, pois onde moro existe um tipo de magia estranha, na maioria dos eventos celestes nuvens cobrem toda a cidade, mesmo morando num lugar super solar e de constante céu claro...
Mesmo os eclipses que vi, as nuvens tentavam a todo custo escondê-lo. Talvez grupos do passado tenham feito acordos com espíritos que habitam os ventos e o topo das montanhas, para proteger a terra ao máximo de qualquer energia nefasta ou disruptiva que venha de um dos Sete Céus.
De fato, eu sinto uma influência menor do poder do eclipse quando nuvens densas cobrem os céus. Assim como um dia ainda continua claro com nuvens densas, mas não tão claro como um dia sem nuvens, e nem mesmo tão quente ou luminoso. Os poderes chegam ao solo, mas um pouco mais embaçados. Muitos rituais que se alinham à luz solar ou lunar precisam de um céu claro para conseguir sua máxima potência. Incluindo qualquer magia que necessite da luz solar ou lunar de forma bem direta, onde é necessário que a luz toque determinados objetos por um período de tempo.
A maioria das bruxas que conheço tomam um bom vinho enquanto observam esse movimento celeste sinistro, e eu me incluo entre elas. Amo observar os céus.
Porém, se você está no fundo do poço e precisa de algo disruptivo e que o destino tome rumos inesperados, talvez fazer magia de eclipse seja uma ótima ideia para você!!! Talvez seja o momento ideal.
É um momento em que o fluxo natural do mundo é interrompido, para depois retornar. Mas fique atenta, cada eclipse é um tipo de eclipse. E aqui não estou falando de astrologia, mas de como ele é de forma visível. E entendam pessoas, Astrologia é uma arte inteira por si só, ela pode ser usada por bruxas? Com certeza! Mas ela não é bruxaria. Existe uma certa confusão por aí.
Uma lua cheia que some e reaparece em cerca de algumas horas (completando 29 dias estranhos em poucas horas) é diferente de uma lua que se esconde apenas pela metade. E os poderes que esses eventos invocam são completamente diferentes. A cor vermelha parece ser algo realmente que as bruxas gostam e o eclipse total da Lua parece ser um dos favoritos.
Bruxas podem acessar a energia poderosa do eclipse, levando em conta que sua magia vá funcionar. Muita gente repete sem parar magias vazias e sem nenhum poder dia após dia, em datas poderosas. Mas que nunca funcionam. Com certeza se você olhar com calma você vai ver algumas pessoas que fazem mil feitiços a cada oportunidade, mas sua vida nunca foi em nenhuma direção, seja ela construtiva ou destrutiva. Parece mais “estou brincando disso” ou “é estético", do que “mudo e danço com os destinos".
Ainda tem uns poucos que fizeram tantos feitiços que se tornaram um borrão estranho no destino. Ou um parque de diversões de alguns espíritos e correntes que estão mais interessadas em sugar força vital do que trabalhar em conjunto. Ou aquele tipo de pessoa que parece estar rachada ou quebrada, e existem muitas por aí, basta olhar com atenção.
É provável que tanto as pessoas que fazem magia de eclipse, quanto as que não fazem possam detestar esse texto. Mas é só uma opinião pessoal e como eu lido com os outros mundos, você pode ter outra relação e não me interessa te convencer de nada.
As bruxas da minha tradição em sua maioria não fazem magia de eclipse, mas algumas poucas buscam esses poderes grandiosos e disruptivos e são bem sucedidas. Eu tenho a sensação que caso fosse necessário, pelo menos na minha tradição, nenhuma bruxa se intimidaria por um mau agouro, elas abraçariam isso se fosse preciso, e se tornariam aquilo que as pessoas mais temem, sem grandes problemas. Mas, essa é a natureza das bruxas da minha tradição. Elas são ferozes e seriam acusadas por muitos como os “devotos terríveis da mão esquerda”. Ou “aqueles que comungam com as energias nefastas”. Ou ainda os “andarilhos enlouquecidos”. Eu gosto de todos esses nomes.
Em algumas famílias de bruxaria existem coisas que são aprendidas com o aviso de: “nunca trabalhe com isso!” Sem muita explicação. Nós aprendemos que não devemos usar, mas podemos, a qualquer momento. O eclipse me soa neste mesmo lugar dessas coisas estranhas que existem dentro de algumas tradições.
Desde tempos imemoriais aqueles que praticam magia e que conseguem andar entre os mundos buscam momentos ou locais de poder que quebram a ordem do nosso mundo, para dar vazão ao outro. Me recordo quando visitei algumas pinturas rupestres que ficam nas rochas, em um lugar perigoso entre terra e mar, e como as pessoas daquele tempo escolheram um lugar perigoso e fora do comum para fazer desenhos que puxavam o mundo dos espíritos. Ver aquilo me marcou de forma profunda. Muitos outros humanos ao redor do tempo buscaram pedras diferentes, pedras furadas, plantas incomuns, fósseis raros e pequenos, trevos de 4 folhas, ou penas ou conchas que fugiam do padrão. Aquilo que quebrava o padrão era visto com horror por alguns e era desejado por outros. Trazendo sorte ou muito azar. O objeto do desejo era o estranho e o incomum, repleto de magia.
Os eclipses entram nessa categoria do que foge do padrão, e de forma grandiosa. Do azar e da sorte, que no fundo possuem uma mesma fonte mistérica. O problema ou a solução é: como os poderes que permeiam o evento celeste afetam o corpo a partir do desejo? Se tornando depois disso acúmulo de sorte ou de azar. Esse é o cerne, acúmulo desse poder no próprio corpo. E como essa sorte e azar vão mudar algumas poucas linhas do destino.
A questão é que eclipses são lugares de limiares extremamente poderosos, perigosos, mas com muito poder. Se vistos, não obstruídos pelas nuvens, são intensamente mais influentes. São momentos de desordem em meio à ordem. Podem ser vistos como uma Grande Serpente do terror engolindo o Sol ou a Lua, ou pode ser a Serpente que engole aquilo que já ruiu, para que um novo mundo recomece. Nada mais será o mesmo. Ou talvez o fim realmente aconteça, de forma definitiva e disruptiva.
Eu gosto demasiadamente da minha vida para fazer uma magia de eclipse. Eu já fiz, eu era uma bruxa tola que nunca tinha tido uma educação em uma casa de bruxaria. Funcionou muito, tudo mudou. Hoje não faria, por gostar das estações do Ano que me cercam, e das bruxas que estão ao meu redor.
Mas se tudo ruísse eu jamais teria medo da boca da Serpente. Eu deixaria ela me engolir para eu renascer no meio dos ossos, sangue e cinzas. Ou que minhas sombras desaparecessem no entre mundos para sempre. Quem sabe?!
Existe um velho ditado que diz: “às vezes uma pessoa acumula tanto azar em sua vida, tanto azar, que ele pode ser convertido em sorte em tempo de extrema tormenta”. Quando nem mesmo os deuses podem te socorrer. As correntes do azar podem te levar a uma ruptura potente e sagrada. Obviamente, bruxas espertas acumulam sorte durante sua vida, mas às vezes estamos sujeitas a correntes mais poderosas que nosso próprio poder. Em todos os mundos somos apenas parte da teia, não o centro.
Imagine viver na desgraça e um eclipse que trás o caos seja exatamente a solução para um salto no desconhecido, ou com um pouco de sorte, em direção a uma nova vida?
E, por favor, bruxas, isso é só uma opinião pessoal, você pode só ignorar tudo que escrevi.
Afinal de contas, eclipse após eclipse, veremos as mesmas bruxas brigando para ver se pode ou não fazer magia. Proibições na história, ou antes dela, nunca impediram das pessoas acessarem certos poderes vistos como proibidos. Só tornaram eles mais desejados.
Talvez algumas pessoas vejam o eclipse assim, como eu descrevi. Saiba que você não está sozinha. Eu não estou do lado dos que fazem, nem dos que temem. Eclipses são datas de poder, mistérios que habitam os Sete Céus e podem nos acertar com sua sorte ou azar. Isso é o que importa para mim.
No próximo eclipse visível, caso os espíritos das nuvens decidam que devemos ver da minha terra, estarei com uma taça de vinho testemunhando, de forma silenciosa, a Grande Serpente que abocanha a Lua. Talvez olhando ao longe centenas de bruxas fazendo suas magias, e outras centenas observando tudo. Algumas dessas magias darão terrivelmente certo, outras serão um grande desastre, e ainda algumas não funcionarão.
Isso tudo é muito saboroso.
Agora, sobre fazer magia no eclipse, ou fazer magia sem necessariamente chamar os poderes do eclipse. Todos os dias eu tenho uma rotina de rituais, alinhamentos e purificações. Alguns desses rituais bebem das grandes correntes cósmicas, e do céu do momento. Nunca deixo de fazê-lo, seja em dias nublados ou não, estando muito longe da minha terra ou não, estando perto de um eclipse ou não, em dias tempestuosos ou não. Uma bruxa faz magia quase o tempo inteiro, e meio que não tem como parar de dobrar os mundos, mesmo quando a Grande Serpente abocanha a Lua ou o Sol. Faz parte da vida e do destino da bruxa continuar sendo uma bruxa a todo tempo. Então não há o que discutir aqui.
Com amor delirante e muita confusão, Fae.
Os Enamorados. Tarô Feri por Fae. Um Espírito da bruxaria e uma Bruxa se beijam apaixonadamente. O poder das estrelas muda a bruxa e o Espírito se torna cada vez mais próximo dela. 6 humanos dançam enquanto os Gêmeos divinos aparecem nos céus, anunciando a união entre a Pomba e a Serpente.
10 de Espadas. Tarô Feri por Fae. Dois Espíritos da bruxaria destroçam uma Bruxa de forma feroz em um altar de pedra. Raios preenchem os céus enquanto um Sol repleto de escuridão nasce. Um dos olhos da bruxa foi perfurado. QUase tudo é incerto, exceto o próprio fim. O corpo sucumbe ao destino e à dor.
Todo ano eu vejo uma postagem dizendo que o tarô é um ferramenta de autoconhecimento profundo e que gastar esse tempo precioso sabendo de amores é algo totalmente fútil e desnecessário. Pensei nesse cenário hipotético aplicado a uns dos meus tarôs favoritos, o Rider Waite Smith. Onde dezenas de pessoas apaixonados já perguntaram sobre seus amores presentes e futuros:
Ordenaram: - O Amor é desnecessário e fútil!!!!!!
A primeira a padecer foi a carta dos Enamorados, o casal fora preso, pela simples decisão de tentar saber um do outro. Não havia mais escolha, nem premeditada e nem espontânea. Nunca mais vimos o casal apaixonado.
O Hierofante se aposentou, não tinha como realizar casamentos, e desta forma não conseguia mais materializar o mundo imaterial neste plano.
A Alta Sacerdotisa assistia tudo com pesar, percebendo o grande erro que ocorria, mas não expressava em suas feições e carregava este peso de um sonho perdido.
A Imperatriz, com a mão na barriga, temia por seus filhos no futuro.
O Diabo era só rancor e ódio, nada mais de prazer carnal, nada mais de orgasmo e sexo, ele perdeu toda a sua cor.
O Mago se tornou uma figura comum em algumas Ordens Esotéricas, frígido e gélido, que não entende nada do Cálice e nem mesmo consegue realizar seus feitos. Faltava paixão.
O Eremita virou para o Louco e disse: - Estranho você não mais se lançar no abismo, não se fazem mais loucos como antigamente.
Cada carta sofreu a sua maneira, mas quem sofreu mesmo foi o naipe de copas. Foi ordenado: - Prendam todos!
O 10 de copas se tornou algo criminoso.
Ainda se pode ver as duas taças empoeiradas do 2 de copas no chão, coitados, nunca mais foram vistos, dizem que eles foram pegos no meio de um encontro.
O 9 de Copas foi acusado de safadeza e libertinagem.
O 5 de copas e o 6 de copas foram poupados por uma ironia do destino, não haviam provas concretas sobre eles, então eles seguiram a vida trazendo saudades, nostalgia e muita tristeza por todos os lados.
O 4 de copas morreu de tédio.
Nem as ilusões do 7 de copas foram poupadas, foram todas esvaziadas e enjauladas. Nada de desilusões.
E nem cheguei a comentar, censuraram a Estrela, acusaram ela de ser puta e estar desnuda, uma oportunidade para o desejo proibido. Na mesma cela que ela, a modelo do Mundo esperneava, procurando sua coroa que jazia vazia em algum cemitério, onde não mais se levantavam os mortos, nada de Julgamento.
A Torre era o cenário atual, mas os personagens caindo dela foram acusados de fornicação: eles gozaram no topo dela, por isso toda a explosão.
O Enforcado continuou sem se mexer, o Sol e a Lua continuaram a brilhar enquanto a Força desfalecia na boca de um Leão. Só restava a Temperança para os tempos sombrios passarem e a Justiça para talvez um dia as coisas voltarem a se equilibrar.
A Roda foi corrompida e não girava. Nem mais o Carro andava. Quem lucrou com tudo isso foi a Morte, ela recolheu todas as taças de amores perdidos e tentou vender para o Imperador, com seu coração há muito gelado, e que agora só podia recorrer aos bens materiais para se afogar cada vez mais na tristeza…
Lembre-se, o amor também é iniciático. Muito mais do que imaginamos.
Com muito amor, Fae.
A Bruxa é metamorfa por natureza, acusações de feitiçaria e o voo nos Outros Mundos.
Durante toda a minha vida diversas pessoas me acusaram de feitiçaria. Às vezes diziam que eu tinha causado términos de relacionamentos, outras eu era a bruxa que trazia doenças ou má sorte, ou que lançava maldições pouco ou muito elaboradas. A maioria dessas pessoas, que me acusaram, inclusive algumas se diziam bruxas, tiveram sonhos comigo fazendo coisas terríveis, ou me viram com seus olhos espirituais espreitando a noite.
Em uma dessas visões a pessoa acordou com um terçol depois de um sonho onde eu soprava uma espécie de terra em seus olhos, dizendo claramente que ela não deveria ver nada daquilo ou do que acontecia no mundo espiritual, e que a mesma ficaria cega. Outra teve um sonho claro onde eu a enfeitiçava. Uma outra ainda me acusou de fazer um feitiço de amor, e que eu a queira de qualquer forma. Ainda teve uma outra que teve uma clara visão onde eu dizia que queria me casar com ela, e isso me rendeu uma pessoa furiosa ao descobrir que eu não queria aquilo.
Mas nem só de acusações de feitiçaria vive a bruxa. Houveram também pessoas que tiveram sonhos potentes que indicavam direções para caminhos iniciáticos ou até mesmo na bruxaria, e eu aparecia mostrando o caminho...
Ou até mesmo convites bem expressivos para essas pessoas adentrarem as mesmas trilhas que caminho. Por vezes eu mostrava tesouros valiosos e algumas pessoas se sentiam abençoadas.
O ponto mais potente nessas histórias todas de acusações e também de visões que tiveram de mim é que a grande maioria delas são apenas equívocos. Eu não estava lá de verdade. E muito menos tinha entalhado uma simples vela com encantamentos para abençoá-las ou amaldiçoá-las. Eu não voei pelos céus em direção a essas pessoas.
Eu sabia exatamente por onde eu voava na noite anterior da acusação, na hora da visão ou sonho, e geralmente era bem longe da localização dessas pessoas, até a pessoa que me acusou de um feitiço de amor, eu nem a achava bonita. (e longe aqui de julgar as pessoas pela beleza seguindo um padrão quase que greco-romano, a pessoa só não era interessante o suficiente para eu lançar um encantamento de amor)
A grande questão sobre as acusações de feitiçaria é: por qual motivo uma bruxa que veste a pele de muitos outros seres, se mostraria em um momento de maldição para um inimigo? Eu não consigo imaginar. Claro que existem exceções, às vezes você pode só querer deixar claro de quem foi que enviou a má-sorte. Mas honestamente, a maioria das bruxas não voam por aí com sua cara à mostra, ainda mais quando estão fazendo algum tipo de “trabalho sujo”. Atando, amaldiçoando, roubando partes ou apenas assombrando.
A bruxa desde nova e ao longo de sua jornada recebe diversas peles de aliados espirituais. Essas peles podem ser vestidas como roupas. Essas peles podem vir de espíritos animais dos mais diversos até mesmo de espíritos dos outros mundos. É uma benção valiosa receber uma pele. Existem alguns tipos de pele que já estão impressas na Alma Tripartida da Bruxa, especificamente no Fetch, e que chamamos de Besta do Fetch (aprendi a conhecer a minha e sobre isso com Lilo Assenci). Ou você pode ganhar uma pele no encontro com algum animal selvagem que tenha algum apreço por você ou que tenha algum tipo de ligação com seus ancestrais.
Existem dois caminhos ao vestir uma pele, ou você assume completamente a aparência do ser que te presenteou ou assume uma aparência híbrida. Em ambos os casos a bruxa não é mais reconhecida. E por esse mesmo motivo dificilmente uma bruxa dirá com total clareza que peles ela possui. Este é o grande trunfo da bruxa.
Parte dessas peles são permanentes pois alguns seres possuem acordos vitalícios com essas bruxas, e às vezes alguns acordos atravessam vidas ou passam geração após geração. Outras podem ser usadas só por um período de tempo acordado entre as duas partes, bruxa e espírito dono da pele. Existem peles que você só pode usar dentro de alguns grupos ou clãs familiares de bruxaria. Há peles que você só pode usar em datas de poder específicas ou durante rituais bem estabelecidos.
O uso de peles favorece o não reconhecimento da bruxa, mas sua principal função está longe de ser essa. Uma pele ajuda a bruxa a escorregar por Entre os Mundos, rastejar com facilidade em Florestas Sagradas, ou correr pelas fissuras do tempo, voar para lugares altos ou fundo o suficiente na terra. Uma pele transforma a bruxa em uma besta do outro lado, adquirindo as qualidades do ser ou animal. E eu cito animais diversas vezes pois a maioria das bruxas possuem peles dessa origem. A muito tempo uma aliança foi feita entre humanos que caminham do outro lado e esses animais selvagens que também atravessam os outros mundos, e as bruxas carregam essa herança que é mais antiga do que a primeira ferramenta de pedra.
E de fato, nenhuma das pessoas que me acusaram de feitiçaria viram a minha forma de voo noturno. Não viram a minha pele. Provavelmente aqueles sonhos tinham mais a ver com seus medos vestindo as memórias da minha própria imagem. Ou outra coisa (sim há essa possibilidade). O mais importante é que eu não estava lá.
Mas vocês podem me perguntar, e as histórias de pessoas tendo visões e recebendo tesouros, mensagens e direcionamentos? A maioria delas também não era eu. E aqui mora um dos fatos aterradores que as bruxas pensam pouco sobre. Assim como alguns espíritos cedem a sua pele, alguns seres podem ganhar a nossa própria pele. E espíritos podem usá-la. Claro que alguns desses sonhos podem ter origem em projeções que levam a caminhos muito reais. Mas sempre há a possibilidade de um espírito tão ligado à bruxa que pode assumir a sua imagem, principalmente se for um espírito não-humano.
Já nos casos de acusações, um espírito aliado que ganha a pele de uma bruxa jamais a usaria de forma que a prejudicaria. Esse é um dos princípios fundamentais da aliança entre bruxas e espíritos. Se um espírito causa dor e danos na vida de uma bruxa significa que ele não é um aliado. E lembrando que dor e danos nada tem a ver com possíveis desafios ou ensinamentos que venham desses seres. Logo, em nenhum caso de acusação era um espírito com a minha pele.
Outro exemplo que lembra o uso de peles são os estados de Possessão, onde o espírito habita um corpo e caminho a nosso mundo. Ele veste a nossa carne, come, dança, canta com os vivos. E a bruxa veste a pele de outro ser no Outro Mundo e comunga com os mortos, com as fadas e muitos outros reinos… ou apenas saí por aí roubando força vital, atando, defendendo, abençoando…
E não é sempre que a bruxa precisa se vestir. Às vezes ela só vai montada em uma erva ou animal, ou voando ao lado de aliados poderosos, ou ainda se transforma em algo apenas para percorrer o caminho e voltando a sua forma original ao chegar. Às vezes a bruxa só quer aparecer no sonho de alguém ou encontrar a pessoa ou bruxa no outro lado. Eu fiz isso tantas vezes com parceiras de trabalho, com amantes e com amigas, sempre com a cara limpa, afinal não há riscos significativos nessas interações. Agora se a bruxa precisa de camuflagem, velocidade, dentes afiados, força ou alguma outra aptidão, vestir uma pele é o melhor caminho.
Nenhuma vez que usei minha pele conseguiram me achar. Nenhuma vez em que as bruxas que conheço se vestiram nos outros mundos foram pegas ou identificadas. E eu e todas elas sempre voltamos em total segurança, sem nenhuma parte faltando. Vestir uma pele é uma das habilidades mais preciosas para visitar os outros mundos ou assombrar o nosso próprio. Claro que ela está longe de ser nosso único artifício.
Se camufle, se esconda, rosne, morda com dentes afiados, afie suas garras.
Honre as suas peles e sempre guarde segredo sobre a maioria delas. Nunca se sabe quando você realmente precisará dessa habilidade.
Para as bruxas que ainda não possuem peles, converse com os espíritos que te cercam, com certeza um deles oferecerá a sua pele. Procurem os espíritos de animais ou outros que te observam camuflados ao seu redor. Chame por eles. Talvez você já tenha uma pele e até tenha saído com ela, mas não se deu conta. Revisite as memórias de seus sonhos e de suas saídas do corpo.
Com amor, Fae. 21 de Agosto de 2025
Bruxaria é sobre Poder e Visão. "Antigamente" para uma nova bruxa adentrar em um clã, ela precisava recitar sem hesitação as palavras: Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão (pontas do Pentáculo de Ferro, uma das principais ferramentas das bruxas da Feri-Faery e que foi passado à frente na Reclaiming). Pode parecer algo simples, mas para as bruxas da década de 20 e 30 podia ser algo desafiador. Recitar essas palavras significava abandonar o falso deus e seguir os Deuses da Antiga Floresta, das Antigas Cavernas e dos Céus Estrelados. Era abrir seus olhos para um novo mundo selvagem, receber a Visão e finalmente poder se relacionar de forma profunda e visceral com o Mundo dos Espíritos.
Bruxas possuem a Visão, que pode ser descrita como a capacidade de ver os outros mundos ou os espíritos, geralmente a Visão chega bem cedo ou depois de um fato marcante no próprio destino da bruxa.
Existe uma história que a Visão chega quando a região dos olhos de uma bruxa é "suja" com misturas ou ervas do Outro Mundo (isso é dito exaustivamente nos mitos e nos rituais Feri)...
Isso pode ser feito por uma bruxa, um espírito e até mesmo acontecer de forma acidental. Às vezes isso chega no nascimento quando a bruxa já é reconhecida de outras vidas ou muito aguardada por um grupo de espíritos. Um nascimento difícil pode ser um indicativo que a Visão chegou. Acidentes Misteriosos durante a infância, encontros com animais selvagens, perigosos ou peçonhentos. Pisar em um círculo de Fadas, adormecer em um círculos de pedras. Existem tantas variáveis quanto existem bruxas. Algumas só se desdobram saindo do próprio corpo e a Visão chega. A Visão pode se desenvolver conforme essas saídas do corpo se intensificam. Existem aquelas que ganham a Visão no caminho dos venenos, depois de achar a dose correta que a faz ver todos os mundos. Ainda tem algumas que ganham depois de uma série de sonhos estranhos na infância ou vida adulta. Entrar em processo de iniciação costuma conferir a Visão em diferentes etapas, culminando no ritual, podendo aprofundar e adicionar "lentes extras" nos olhos de bruxa já existentes.
A primeira vez que eu escutei sobre a Visão foi entre 2005 a 2007, onde conheci um grupo de jovens bruxas, que se comunicavam com muitas pessoas que estavam tendo sonhos muito parecidos, todos eles anunciando um fim do mundo, onde ou o planeta ardia em chamas, ou milhares de demônios brotavam do chão, ou a Lua se partia, dentre outras catástrofes. Era surpreendente o número de pessoas que tiveram esses sonhos naqueles anos. E a maioria ganhou a Visão daquela forma. Muita gente passou a ver espíritos, a lerem com facilidade as cartas e alguns se mostraram altamente habilidosos em fazer magia.
Eu tinha a Visão a muito tempo e já era muito habilidose em viajar durante a noite no entre mundos. Mas eu cheguei a captar alguns desses sonhos e pude ver com a Visão alguns deles. Eles eram terrivelmente estranhos, assustadores e sedutores. Os sonhos, além de apavorantes, eram estranhamente belos e tristes. A dança caótica parecia mostrar poderes titânicos brotando da terra ou dos céus. Eu não sei o que aconteceu naqueles anos para toda aquela comoção do outro lado. Mas a maioria esmagadora desses sonhadores se voltaram para caminhos mágicos e místicos, e ainda hoje o fazem.
Eu sempre testemunhei bruxas ganhando ou aprofundando a Visão, mas apenas uma única vez eu testemunhei uma bruxa a perdendo. Primeiro a mão de fazer magia dela parou de funcionar, ela não tinha nenhum resultado. Depois os oráculos ficaram nebulosos, nenhum acerto e nenhuma mensagem que realmente fosse útil. Por último ela entrou em um turbilhão de falsas mensagens e visões distorcidas, acompanhadas de um delírio gigantesco de perseguição. Talvez a Visão ainda esteja lá, talvez um espírito tenha usado seu poder Titânico para distorcer tudo, ou algum ser simplesmente furou os olhos espirituais dela.
O ato de furar os olhos existe entre as Fadas (Feri fala o tempo todo disto), mas furar com eficiência os olhos de uma bruxa é algo bem raro, para não dizer inexistente. Já humanos que ganham a Visão, isso dá para tirar. O que explica pessoas verem os outros mundos ou espíritos por um curto período de tempo como meses ou anos. E a maioria das vezes quem fura esses olhos humanos (que tem a Visão) são os próprios espíritos, eles amam isso. E podem fazer tanto para abençoar a pessoa atormentada pela Visão, ou quando os mesmos querem privacidade. Já tentar retirar a Visão de uma bruxa é arranjar problemas com forças Ctônicas, Celestes e Titânicas, é colocar um alvo bem grande na própria linha do destino.
É de senso comum que é mais fácil dar a Visão a uma bruxa do que tirá-la. Existiram bruxas poderosas que fracassaram de forma visceral em tentar retirar uma pessoa de sua linhagem, e por consequência, sua Visão. Parece ter uma lei bem forte, escrita em pedra, em como não é possível fazer isso.
Algumas adições. Nem sempre a Visão está associada à visão. Existem bruxas poderosas que nunca "enxergaram" os outros mundos, mas os sentem em seus mínimos detalhes, dançando com as marés poderosas e com muito mais alianças com espíritos do que pessoas que enxergam perfeitamente. A Visão nunca teve e nunca estará presa em apenas um sentido, viver os outros mundos pode ter uma outra lógica completamente diferente. Falo isto pois já conheci bruxas com a Visão gigantesca e que não sabiam disso, pois elas não viam. E já conheci outras que enxergavam muito, mas em uma fatia tão pequena que mostrava muito pouco ou quase nada dos Outros Mundos.
Respire profundamente e abrace a sua Visão, sua forma única de experimentar, dançar e sentir os outros mundos. Cultive sua Visão, cuide bem dela, e para os curiosos sempre tenha um espinho bem agudo à mão.
-Fae, 8 de Agosto de 2025
Bruxaria e Relações Abusivas
Identificando problemas na Arte
A bruxaria é uma arte perigosa. As histórias sobre as três possibilidades de quando se encosta no poder são tão reais e palpáveis quanto o espinho de uma rosa perfurando a pele. Quando você entra no caminho da Arte sempre há três possibilidades: ou você morre, ou você enlouquece ou, com um pouco de sorte em seu destino, se torna um poeta. Muitas bruxas que vieram antes de nós recitaram incansavelmente os perigos e delícias deste caminho tortuoso, misterioso e iniciático. E o lore continua rolando de lábios para ouvidos, de pele para pele e de toque para toque.
Mas o fato da bruxaria ser uma caminho perigoso não implica que grupos sejam nocivos a sua sanidade mental e emocional, bem como a sua integridade física...
Talvez o ar misterioso, estranho e mágico da bruxaria possa atrair todo tipo de gente perniciosa para o nosso meio. A bruxaria é um limiar sombrio, e talvez alguns tentem esconder suas insanidades nesse limiar, mesmo a Arte não tolerando este tipo de coisa. Afinal de contas, a Bruxaria não é uma oferta de liberdade e poder? Ignorar isto é um grande perigo para aqueles que estão iniciando neste caminho e também para aqueles que, por algum motivo, podem estar em garras que sugam a força vital, ao invés de dar mais poder e liberdade para a alma da bruxa.
Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão: Estes são os poderes inatos da bruxa. Por qual motivo alguém de dentro do Caminho iria querer corromper conscientemente estes poderes que são direitos de nascença? Em 2017, após iniciar meu treinamento formal em Feri e também começar a me envolver com a Reclaiming, eu senti a diferença gritante de estar em um local abusivo para estar finalmente em um lugar seguro onde, depois de anos, consegui desenvolver minhas capacidades psíquicas e mágicas em um ambiente seguro para a minha integridade enquanto ser humano. Eu precisava escrever sobre e escrevi de forma desengonçada e apressada o seguinte texto:
“Se você pertence a um círculo onde há medo, pressões e manipulações, fuja o mais rápido possível. Se colocam em você um constante medo de ataques psíquicos e mágicos, sinto lhe informar, estão te manipulando. Corra, peça ajuda. Se dizem que os Deuses te obrigam a ficar, saiba, eles mentem. Muita gente desequilibrada entra nos caminhos místicos e usam de um pseudo conhecimento ou pseudo status de sacerdotisa/sacerdote para manipular, controlar e jogar com as pessoas. Te fragilizam, te derrubam e te envolvem numa teia de emoções confusas. Fique atento ao controle dessas pessoas.
Ninguém pode obter sua liberdade, lembre disto.
Se te obrigam ao sexo ou ao toque forçado, saiba que isto não faz parte de um lugar sério, você está sendo vítima de um crime.
Se pseudos mestres prometem conhecimento, se colocam numa posição de que sabem demais e nunca ensinam, saiba, há algo de errado. Provavelmente você estará sendo enganado. Há professores sérios na bruxaria que podem te ensinar sem estas ilusões criadas para manipular.
Há uma grande diferença entre segredo iniciático e falta de transparência. Fique bem atento a isto.
Qualquer tradição séria de Bruxaria, com ou sem hierarquia, anárquica ou centrada, preza pelo bem estar e segurança de seus membros. Qualquer coisa que desrespeite seu corpo e seu bem estar é mais do que um indicativo de perigo, é um indicativo que você deve correr, denunciar e pedir ajuda.
Você não estará sozinho! Não tenha medo de pedir ajuda.
Estejam seguros.
ps: na minha jornada gostaria de ter lido mais avisos como esses, logo o escrevo agora.”
Revisitando este texto/encantamento percebo que há algumas lacunas, pois muitos usam de sua linhagem e seu conhecimento genuíno na bruxaria para explorar, manipular e brincar com a vida humana. Então uma linhagem não é, nunca foi e nunca será garantia de um local seguro. Não só de pseudo sacerdotes que guardam pseudo conhecimentos são feitos os abusos (apesar de haver mais chances de abusos nestas circunstâncias), há muita gente com linhagem comprovada que foi capaz de cometer absurdos. Gente com conhecimento que se aproveita deste poder para alimentar seus próprios demônios.
Outra observação neste texto é, gostaria de dar mais atenção a parte “diferença entre segredo iniciático e falta de transparência.” pois existe uma grande confusão no meio da bruxaria. Estudei com professores que foram muito abertos quanto a magia, quanto a prática e quanto a sua própria ética, mesmo sem em momento algum revelarem os segredos iniciáticos. Abertos e sinceros com suas próprias histórias. Mas o gancho de segredo pode ser usado como justificativa para esconder abusos sexuais, ou abusos mentais ou manter pessoas presas em um local nada saudável. Em alguns momentos os segredos cabem na palma da mão, frente a magnitude do que as pessoas dizem por aí.
Na época deste texto, eu estava tão furioso que queria expor isto. Era uma fúria extática guiada pelos Guardiões e Deuses estranhos que sempre me vigiaram, mas que até então não os tinha encarado. Para minha surpresa, eu recebi uma enxurrada de mensagens: muitas bruxas tinham se identificado. Eu fiquei perplexo, passei dias escutando relatos dos mais bizarros dentro da bruxaria. Abusos sexuais, agressões, manipulações, um culto ao medo, o culto a pseudo guerras mágicas e o constante medo de ataques mágicos… Juramentos com uma procedência um tanto que duvidosa e tradições com as regras mais estapafúrdias para seus membros.
O cenário da bruxaria parecia da seguinte forma para mim: bruxas talentosíssimas espalhadas pelos mais diversos cantos do meu país, que eram muito boas, mas que estava suficientemente machucadas para não quererem nunca mais se envolverem com uma comunidade, um coven, um círculo, um clã ou uma tradição. Foi nesse dia que decidi lutar mais ativamente para criar locais seguros dentro da bruxaria e tentar explicar o máximo possível que os perigos da bruxaria são outros, e não a tendência criminosa de certas pessoas do meio bruxo.
Eu queria escrever mais, eu queria falar mais sobre isto, cheguei a mandar outras mensagens e sempre a resposta era a mesma, histórias estranhas chegavam até mim. Eu escrevia para mim mesmo no passado, o tempo pode ser apenas uma distorção:
“Conselhos para bruxas que começaram a jornada ou para quem está começando a entrar no caminho da bruxaria. (Ou o que eu gostaria de ter ouvido quando eu comecei a minha caminhada): A bruxaria pode ser perigosa, mas isto não significa que os grupos precisam ser perigosos a sua integridade física e mental.
Tenha mais de um professor dentro da Arte, fuja de mestres e lembre-se que você é sua maior autoridade espiritual enraizada em sua própria comunidade humana e não-humana.
Ao menos uma vez na vida, tenha um treinamento formal, e se não for possível, procure por livros que tenham algo parecido com um treinamento.
Tenha em mente que há tantas formas de praticar Bruxaria quanto há pessoas no mundo, e tudo bem.
Esteja em locais seguros para Bruxas e crie locais seguros para Bruxas.
Reconheça os locais tóxicos e abusivos, denuncie e se afaste disso.
E lembre-se: qualquer tradição séria irá prezar pelo seu bem estar e segurança.
Confie na sua intuição, honre seus mortos e se alinhe cada dia mais com o seu verdadeiro Self. Isto não é para qualquer um. Viva em êxtase.”
Revisitando este texto eu gostaria de fazer uma observação. Nem sempre as pessoas conseguem denunciar o abusador e afastar-se é uma solução. Em minha jornada, não consegui denunciar meus abusadores, e se fosse hoje eu chamaria a polícia. Mas eu estava envolvido emocionalmente e me afastar completamente foi o que serviu para mim. Com o tempo percebi o quanto foi importante contar minha história para outras bruxas.
Eu queria conversar com outras bruxas, e agora podia fazer isso. Minha liberdade de expressão não estava mais presa a um coven problemático ou a uma tradição abusiva. Eu me lembro do meu primeiro choque de realidade após eu ter saído de uma tradição que mais parecia um daqueles cultos malucos que vemos em seriados americanos. A nível de transparência citarei algumas coisas que envolviam esse culto bizarro:
#o poder estava centralizado em uma única pessoa que jogava os membros uns contra os outros (culminando em algumas situações desagradáveis, até a agressão física), bem como passava pela mão desta única pessoa qualquer decisão que afetasse a dinâmica da tradição (quem permanecia, quem era iniciado, quem tinha privilégios e quem não tinha, quem podia participar de determinados covens, etc.)
#existia retenção de conhecimento (que não existia propriamente dito) e manipulação neste sentido. Em tudo se maquiava uma aura de mistério, apesar de tudo estar disponível para qualquer pesquisador ávido. Sempre havia algo a mais que você não podia saber, algo que não era para você, mas que estava lá. E não estamos falando aqui de segredo iniciático. Você tinha que se manter fiel a abelha rainha para talvez um dia poder provar de um suposto mel.
#existia uma estrutura de poder que minava as bruxas, deixando-as sem possibilidade para crescer. Discordâncias não eram toleradas. Escolher seu próprio caminho? Nunca era uma possibilidade. Qualquer plano de estudar com alguém com conhecimento fora do grupo era completamente minado. (E não estamos falando aqui de treinamentos que exigem dedicação exclusiva por um tempo). Era na realidade uma forma de isolar bruxas de qualquer coisa que pudesse aflorar suas capacidades.
#O constante medo de sempre estar sendo atacado magicamente. Imagine viver constantemente sob ataque de forças obscuras e que todas as outras vertentes e clãs são seus inimigos. Uma forma simples de forçar um espírito de grupo e identidade: ter inimigos em comum. Sem o grupo você estaria em perigo: se não fosse por causa dos outros seria pelo próprio grupo que você “traiu”. Inclusive, a palavra traição é uma das coisas favoritas de pessoas abusivas, qualquer um que se levante contra abusos é visto como um completo traidor. Deuses, espíritos, oráculos eram envolvidos na teia de manipulação. Havia emissários dos “Deuses”. Você nunca poderia tirar suas próprias considerações sem ser agredido pelo grupo, que era treinado para se comportar assim. Muitas pessoas viraram inimigas sem ao mesmo terem motivos para isto.
#Agressão física era justificada como influências espirituais ao invés de responsabilizar agressores. Acho que esta é a parte mais pesada dessa história toda. Em dezembro de 2016, depois de uma grande bomba relógio ser armada por uma liderança que exercia manipulações e pressões, eu sofri uma agressão física.
#O uso de feitiços sobre os membros como justificativa de forçar uma harmonia também servia como uma tentativa de dizer: quem não segue as regras por vontade própria terá que segui-las à força, pois feitiços serão feitos.
#Juramentos que envolviam x ou y pessoa ser respeitada acima de qualquer coisa davam o tom sombrio ao culto ainda mais bizarro que estava a minha frente.
Mas agora, vamos retornar ao meu choque de realidade. Me lembro de duas coisas que me abalaram de forma surpreendente. A primeira vez foi uma simples pergunta que eu fiz para minha primeira professora de Feri. Ela foi completamente aberta e eu senti que ela falava sobre conhecimento. Era o que ela realmente fazia, e ela não estava usando aquilo para dizer que era maior que eu, ou que eu estava preso a ela, muito pelo contrário, o objetivo parecia mais “eu vejo e faço desta forma e quero que bruxas sejam tão capazes quanto eu”. Outro fato que me desmoronou foi no dia que discordei de uma visão muito específica e a resposta que recebi foi “maravilha, faça deste jeito, pois faz sentido apesar de eu ir para um lado oposto”. Me lembro até hoje de uma famosa frase dela que era “se você não gosta do lore, crie o seu próprio”. Que VeeDub (Valerie Walker) seja lembrada, o que é lembrado vive!
Talvez se eu não tivesse coragem de romper com o grupo problemático, eu jamais teria desabrochado como bruxa, e isto de forma alguma foi algo tranquilo. Foi doloroso, foi como abrir uma ferida com pus para limpar. Envolveu dor e choro. Se eu não desse a chance de pessoas qualificadas e que prezavam pelo meu bem estar me ensinarem, talvez eu não teria experimentado as delícias do mel e do fogo. Ou a visceralidade da vida, ou talvez eu nem tivesse me entregado com tanta ênfase ao mundo dos espíritos. Não teria conhecido a encruzilhada, os espíritos tutelares da minha tradição ou até mesmo criado conexões tão incríveis com bruxas locais ou ao redor do mundo. Eu teria entregado meu direito e minha força vital a outra pessoa.
Neste momento do texto gostaria de compartilhar algumas perguntas que podem ajudar na identificação de possíveis problemas:
O local que você encontrou é transparente em seu funcionamento e te passa segurança? As pessoas zelam pelo seu bem estar? Há mestres que querem adulação? Seus professores instigam uma disputa nada saudável entre seus alunos e colegas? A culpa e a vergonha são métodos utilizados para o seu “desenvolvimento mágico”? Você conhece a história de seus professores? Ela é clara e verificável na medida do possível? A história de seu professor é rodeada de tragédias, mais do que o normal – por exemplo: problemas com alunos, com grupos, com tradições? Existem situações estranhas que envolvam algum tipo de abuso sexual ou físico?
E agora, talvez a mais importante de todas as perguntas:
Você sente que sua força vital pertence a você ou ela está na mão de outra pessoa? Reflita sobre a sua resposta. Se você responde "não" ou não consegue responder esta pergunta significa que há algo errado com o local onde você está.
Lidando com o problema ou quando o afastamento é a solução
Quando estamos com um problema deste tipo na Arte, o primeiro passo é dizer a si mesmo algo como:
“Estou com problemas.”
“Talvez eu tenha me equivocado sobre onde estou.”
“Talvez eu tenha feito uma escolha errada em estar aqui.”
“Eu acreditei em algo e agora não é bem isso.”
“Admirei tal pessoa, mas agora ela parece nociva.”
“O grupo não está funcionando de forma a me levar a um desenvolvimento saudável.”
“Me sinto preso e isto não está funcionando.”
Você pode adicionar qualquer frase aqui, essas frases costumam ser frustrantes e assustadoras, mas fazem a gente começar a entender o que anda rolando.
A minha primeira atitude em perceber que estava em uma situação abusiva foi: tentarei mudar a situação. Mudarei como as coisas funcionam e assim as pessoas mudarão também. Infelizmente nem sempre a coisa funciona dessa forma e a única opção viável é realmente sair e se desvincular completamente do grupo. Grupos tendem a reproduzir sistemas de abuso sem ao menos perceber, é fácil criar um sistema de pirâmide de poder sobre. Alguém te domina, mas você suporta pois também domina alguém e por vezes acredita que um dia chegará ao topo.
Essas redes de abuso são projetadas para serem seguras para apenas um tipo de pessoa: a abusadora. E geralmente as teias são fortes como pedra, e as chances de reverter a situação são pequenas. Inclusive, se um grupo de pessoas que se desliga de um local desses permanece trabalhando junto, elas devem ficar muito atentas, há grandes chances do grupo de reproduzir as mesmas situações e estruturas.
Também há pessoas que se sentem ameaçadas pelo simples fato dos abusadores terem seus contatos “políticos” no meio da “bruxaria”. O medo de represálias realmente é assustador. Uma coisa que tenho para falar é: vocês não estão sozinhos. E lembrem-se: ameaça espiritual é uma forma de desonestidade para manipular e manter as pessoas presas em seus grupos. Ameaça de isolamento no meio mágico é igualmente desonesto e manipulador, não esqueçam disto jamais.
Muitas vezes grupos abusivos se disfarçam dentro do discurso “somos os únicos grupos seguros da região”. Muito cuidado com grupos que alegam verdades únicas ou se auto promovem demais nestes aspectos. Realmente o grupo incentiva as pessoas a serem suas próprias autoridades espirituais ou eles se comportam como uma espécie de culto de escolhidos e únicos verídicos? Fiquem atentos a qualquer centralização de poder, geralmente essas centralizações vem acompanhada de camadas e mais camadas de abusos.
O conselho que dou para pessoas que estejam em uma situação de abuso é, não tenham receio de cortar relações e se afastar. A sua vida não irá acabar com isto, muito pelo contrário, ela pode começar a partir deste start. Geralmente as ligações emocionais estão tão fortes que nos sentimos completamente minados em tomar uma atitude mais agressiva… Mas a bruxaria é selvagem, ela é agressiva, ela é visceral… e podemos usar estes poderes para seguir em frente.
O afastamento é como um encantamento, tecido com coragem e um senso de auto responsabilidade enorme. Para estar livre de um ambiente de alta pressão, onde você é completamente minguado e onde as linhas de Aka que te ligam a situação ou a pessoas são fortes ao drenar sua força vital, o mais aconselhável é o isolamento tanto das situações quanto das pessoas. Para que essas linhas possam secar e não terem mais nenhuma influência sobre ti.
Não tenha medo em abandonar, em virar as costas, a seguir em frente e a dizer não para todos que estejam envolvidas nestas teias, mesmo que isso pareça custar caro. Não há preço que possa comprar a sensação de ser sua própria autoridade espiritual. O número de pessoas que tiveram que passar por isto é muito alto, então você não está sozinha. A princípio você ainda sentirá as pessoas próximas. Com o tempo cada influência vai sendo minada por ti.
Por um breve momento o isolamento e a solidão podem ser uma consequência. Um conselho que dou a todos é: se isolem de situações ou pessoas que sigam os mesmos padrões abusivos que você identificou. E tenham em mente que sempre haverá bruxas que valem a pena manter contato. Mesmo em um caminho dito como solitário, não se isole de outras bruxas, uma rede é algo poderoso e você poderá buscar apoio e colo para pessoas que te apoiem, e que não produzem teias que possam te aprisionar.
Uma coisa que aprendi nestes anos de bruxaria na Tradição Reclaiming é que cada pessoa é sua própria autoridade espiritual. Victor Anderson dizia: “Nunca submeta a sua força vital a nada e nem a ninguém.” Essa frase ecoa de forma profunda no meu ser, bem como tento transmiti-la pelos meus lábios de forma intensa para o maior quantitativo de bruxas. E eu desejo profundamente que os espíritos ajudem para que esta frase vá cada vez mais longe e mais profundo no caminho tortuoso.
Quebrando as correntes na encruzilhada
Você pode querer ajuda de Deuses, Aliados, Companheiros do Fetch (Fetch-mate), Familiares e uma infinidade de espíritos que podem te auxiliar neste momento libertador. Não existe uma receita única para romper grilhões. Você pode ser acolhido por outras bruxas, você pode passar por um profundo rito de passagem ou até mesmo realizar um feitiço. Talvez os próximos tempos após o rompimento você sofra ou até mesmo sinta falta da estrutura das relações abusivas.
Escute o som que vem do selvagem, escute o Fetch e encare seus demônios. Reze e dance, busque por êxtase. Lembre-se que não há parte alguma sua que não faça parte dos Deuses Selvagens. Talvez em algum momento minaram seu poder, mas ninguém pode tirá-lo de você. Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão são seus direitos de nascença. Você ainda possui forças para se alinhar cada vez mais de acordo com sua própria verdade neste mundo.
Se precisar de ajuda você pode usar o Encantamento da Encruzilhada descrito abaixo.
Chame seus aliados, deuses, companheiros do fetch, animais guardiões dentre outros espíritos e cante/encante na encruzilhada entre os mundos ou em um círculo:
"Que meu Sexo seja sagrado
Que meu Orgulho retorne
Que meu Self seja reverenciado
Que meu Poder desabroche
Que minha Paixão renasça
Que eu não esqueça que meus pés são sagrados
E que meus joelhos se dobrem apenas nos altares sagrados
Que meu sexo seja curado das feridas
Que meus peitos sejam ornados com força, beleza e poder
Que meus lábios encantem o mundo
Sou uma bruxa
Que meus direitos de nascença brilhem e me protejam
Sexo, Orgulho, Self, Poder, Paixão
Que a vida e o êxtase me deem um beijo neste dia
Eu sou inabalável, meu sangue possui a chama
Que a desesperança seja levada pela foice dos deuses sábios
Que a esperança venha conduzida pelas crianças sagradas
Até o meu círculo, até a minha encruzilhada
Sou uma bruxa
Que o Amor vença a intolerância
Que a Lei se sobreponha a violência
Que o Conhecimento destrua as inverdades
Que a Liberdade quebre os grilhões
E que a Sabedoria varra os ignorantes
Que o doce beijo da vida me toque neste momento
Em meu círculo, em minha encruzilhada
Sou uma bruxas
Mudarei todos os mundos
Que a escuridão e a luz das estrelas
possam me abraçar neste momento
Estamos todas conectadas, além do tempo, além do espaço."
Versão para ajudar outra bruxa, encantando ela com o seguinte encantamento:
(você pode recitar este encantamento enquanto desenha símbolos de proteção ao redor de sua companheira de jornada)
"Que seu Sexo seja sagrado
Que seu Orgulho retorne
Que seu Self seja reverenciado
Que seu Poder desabroche
Que sua Paixão renasça
Não se esqueça que seus pés são sagrados
E que seus joelhos só se dobrem nos altares sagrados
Que seu sexo se cure das feridas
Que seus peitos sejam ornados com força, beleza e poder
Que seus lábios encantem o mundo
Bruxas
Que seus direitos de nascença brilhem e te protejam
Sexo, Orgulho, Self, Poder, Paixão
Que a vida e o êxtase lhe deem um beijo neste dia
Você é inabalável, seu sangue possui a chama
Que a desesperança seja levada pela foice dos deuses sábios
Que a esperança venha conduzida pelas crianças sagradas
Até o seu círculo, até a sua encruzilhada
Bruxas
Que o Amor vença a intolerância
Que a Lei se sobreponha a violência
Que o Conhecimento destrua as inverdades
Que a Liberdade quebre os grilhões
E que a Sabedoria varra os ignorantes
Que o doce beijo da vida te toque neste momento
Em seu círculo, em sua encruzilhada
Bruxas
Mudem o mundo
Que a escuridão e a luz das estrelas
possam te abraçar neste momento
Estamos todas conectadas além do tempo, além do espaço."
Recomeçando: Entenda que nem tudo está perdido. Você pode recomeçar. Lave suas feridas, cicatrize seus cortes. Tudo bem romper de vez, tudo bem experimentar o mundo novamente. Mas tenha em mente, você pode ser a sua própria autoridade espiritual e jamais entregue sua força vital a ninguém. Se orgulhe de sua cura e jamais romantize seu sofrimento. Qualquer comunidade que se importa com seus membros, com ou sem hierarquia, preza pelo bem estar de cada bruxa presente.
Sempre se questione sobre as relações de poder, principalmente quando elas tentam de alguma forma esmagar a sua liberdade.
Que seus passos sejam abençoados a partir de hoje. Bênçãos Selvagens.
Com Amor, Fae.
Texto publicado pela primeira vez em https://feribrasil.wordpress.com/2020/11/13/bruxaria-e-relacionamento-abusivo/ em 13 de Novembro de 2020.