Fotos importantes da minha jornada mágica. O tempo é uma espiral.
O Deus Sem Nome, ou Aquele que foi quase esquecido.
Informações da Escultura: do sec 8, de carvalho, em tamanho real, provavelmente foi o centro de um culto à fertilidade, originalmente carregava um falo.
Encontro com o Deus sem Nome, em Julho de 2025.
Marcado pelo tempo, com seu culto de fertilidade esquecido, em um Museu abarrotado de pessoas e outros itens. Outros tempos devocionais. Seu nome não é lembrado por mais ninguém. Talvez um dia bruxas consigam trazer seus cantos de volta, talvez algumas já tenham conseguido.
Foi meu segundo dia em Berlim. E a saga de encontrar objetos de arte e mágicos estava perto do fim. Escolhi então ver o famoso busto de Nefertiti e explorar livremente toda gama de objetos que estavam naquele museu, rodeando essa obra. Berlim é uma cidade muito machucada e marcada. O museu é rodeado por colunas gregas, todas elas furadas com tiros ou bombas da Segunda Guerra. A cidade inteira é assim, assim como muitos marcadores no chão de pessoas que foram deportadas e posteriormente assassinadas no regime de Hitler.
Ao adentrar o museu vi uma poderosa escultura em pedra preta de Isis. Havia uma aglomeração ao redor de tão linda. Mais a frente Nefetiti em uma sala abarrotada de pessoas. Adentrando mais, uma escultura do Deus Hélios e de uma Deusa de tamanho colossal. Passei por pontas de "flecha" tão antigas quanto o próprio tempo (12.000 AEC) e vi diversos itens celtas, e muitas figuras de deusas (as famosas Vênus da pré-história). Muitos objetos carregados de poder, outros nem tanto, mas ainda sim muitos vestígios mágicos.
Eu estava numa sala e eu escutei algo, como um sino dos outros mundos, senti meus olhos dilatarem e me virei e vi, uma figura do tamanho humano cercado de um grupo de pessoas curiosas. Gasto pelo tempo, mas com os detalhes do corpo ainda fortes, em madeira escura como a noite, com um rosto marcante. Quando me aproximei a aglomeração de pessoas foi em outra direção, eu senti o objeto me encarando profundamente.
Dentro da bruxaria que conheço um objeto que pertence a um Deus (como uma escultura) não simboliza o Deus, ele é o próprio Deus. Uma extensão da divindade ancorada deste lado. Eu vi o Deus (hoje sem nome) ali, e vi que ele me viu antes de eu vê-lo. Eu senti uma série de emoções percorrendo meu corpo, coloquei a mão em meu coração e fiz um canto silencioso que aprendi no meu caminho mágico e que apenas os iniciados sabem cantar. Eu vi o Deus cantar de volta uma música que é impossível de pronunciar. Alguma coisa aconteceu ali e o tempo parou por alguns segundos.
Me despedi mas entendi que aquele encontro não foi o primeiro e muito menos o último. Eu senti as linhas do destino dançarem, rirem e gritarem. Eu escutei cantos, choros, gargalhadas, vindo de bocas humanas. Segui meu caminho com meu coração em chamas. Com o sentimento que algo me tocou de forma muito íntima e mistérica.
Bruxas possuem a capacidade de se comunicar com muitos outros mundos, e por vezes elas encontram espíritos esquecidos, ou outros que nunca se mostraram aos humanos. Ou ainda deuses muito conhecidos. Mas aí temos um mistério estranho, a bruxaria possui seus próprios mitos e espíritos que adentram seus espaços, e não precisa necessariamente de mitos de outros caminhos ou religiões. Muitos espíritos antigos e sem nome acham morada entre as nossas deliciosas fissuras.
Muitos dos espíritos, desde que a bruxaria passou a existir, se nomearam dentro dos círculos secretos, mesmo que esses espíritos sejam tão antigos quanto o próprio tempo. E esses nomes são passados de boca para ouvido, de coração para coração e de mãos poderosas para mãos poderosas. Em um mistério de amor, beleza e poder.
É muito mais comum do que imaginamos o caminho em que divindades se escondem debaixo do monte. Seja pelo fim de um povo, a queda de um templo, a dizimação de todos os humanos que seguravam seus poderosos fios no lado de cá, ou ainda o anseio do espírito de se esconder. Antes dessa queda muitas divindades adentram deliciosamente em outros lugares e faz acordos com novos humanos. Mas nem sempre isso é suficiente. A divindade não desaparece, ela apenas some de nossos olhos. Aos poucos nossas vozes não cantam mais as suas histórias, esquecemos seus nomes (que são poderosas chaves em direção a esses seres) e mais ninguém segura seus fios.
Alguns objetos de museus podem ser os últimos fios de alguns espíritos nesse mundo, quando esses objetos forem destruídos pelo tempo, não haverá mais nada. E quando me refiro a esse mundo, falo do mundo humano como o conhecemos. O mundo dos espíritos é bem mais complexo. Para algo se apagar lá leva tempo, muito mais tempo do que imaginamos, e são muitos outros fatores. Mas pode acontecer.
Assim como ir para debaixo do monte é comum para os espíritos, é tão comum quanto a saída de lá, dos outros mundos, esses seres tendo habitado ou não o mundo humano alguma vez, se ancorando no nosso mundo, revelando seus nomes e mostrando seus objetos. Muitas divindades esquecidas retornam o tempo inteiro. Mas conforme o mundo se torna cada vez menos encantado, menos esse movimento acontece. Talvez a bruxaria seja o terreno mais fértil para isso.
Tudo isso leva tempo na perspectiva humana. Um esquecimento (ir para debaixo do monte) para um espírito pode levar centenas de anos, o espírito que conheci está por volta de 1300 anos em processo de esquecimento. Mas suas músicas, as cantorias sagradas e toda beleza e poder que fluem dele podem ainda ser escutadas por aqueles que possuem a Visão, mesmo que por alguns breves segundos.
E não se esqueçam, em todos os lugares existem espíritos que moram debaixo do monte, alguns deles podem estar ansiosos em soletrar seus nomes e até mesmo cantar velhas canções. Basta escutar o sino dos outros mundos tocando e aceitar o chamado. Só tenha cuidado, algo pode tentar te devorar.
Com amor, Fae.
Nas Catacumbas de Paris, em Julho de 2025.
Com certeza esse foi um dos lugares mais intensos energeticamente que conheci na vida. Imagina um local que abriga cerca de 6 milhões de restos mortais em mais de 300 Km de túneis repletos de ossos empilhados e até mesmo decorados. Milhões de sonhos e desejos humanos guardados em túneis que moram no próprio submundo. A parte aberta para visitação corresponde a 1 km. Ao adentrar seus túneis, ofereci força vital como oferenda não só aos mortos, mas à própria Catacumba em si.
Na entradas dos túneis vemos a seguinte mensagem escrita no topo de um portal: "Arrête! C'est ici l'empire de la mort."
Pare! Este é o império da Morte. A visitação costuma ser agitada, entrei num pequeno grupo, mas a dinâmica das pessoas fez com que eu, naturalmente, caminhasse bem à frente, quase solitariamente, sendo encontrade hora ou outra por meu namorado (que por acaso é um dos meus iniciadores e fazemos parte do mesmo clã Feri), mas passei muito tempo apenas com os ossos. Segui meu caminho com um pequeno aparelho que me guiava em espanhol pelo caminho. Um dos locais impressionantes é um poço com uma fonte com águas cristalinas com o seguinte aviso: "se beber desta água jamais terá sede!". Talvez a pessoa morra instantaneamente e seu destino seja habitar aquelas paredes, talvez as águas concedam um dom que atravesse a eternidade, apenas os que provaram sabem. O mais curioso é que existe uma benção das bruxas com dizeres um pouco parecidos "...que você nunca tenha sede...". As paredes da catacumba são encantadas, cada crânio ou morto ali presente parecem cantar uma espécie de canção que faz estremecer Paris. Adentramos mais e mais, passando por debaixo de ruas conhecidas da cidade.
Em determinado ponto eu escutei uma interferência em meu audio-guia, como um ruíodo das antigas TVs de tubo, logo em seguida escuto a seguinte frase: "não toque ou pegue nada, a não ser se quiser vir parar nesta catacumba." Pensei ser algum tipo de forma imersiva da visitação, mas perguntei as outras pessoas do grupo e ninguém tinha escutado essa frase. E sim, bruxas são conhecidas por pegar objetos de locais como esse, desde que autorizadas a tal, mas claramente não era algo recomendado ali. Inclusive um dia antes tinha visitado um cemitério famoso, guiado pelos corvos e recolhi uma pequena quantidade de terra de um túmulo de uma pessoa importante para os oraculistas.
Em certa altura eu vi diversos mortos, mais mortos juntos do que eu já tinha visto em toda minha vida em locais do mundo físico ou no Entre Mundos. Eles pareciam agitados e inconformados, a placa mais próxima dizia que eram um local de ossos "depositados", mas antes dessa placa havia uma outra: ossos violados.
A maioira dos mortos parecia gostar do local, alguns estavam bem inquietos e uns poucos queriam interagir a todo custo, apresentando o local como o lugar mais imponente da França, ou a entrada para o Inferno mais conhecida de todo o mundo. Um lugar claramente barulhento de forma silênciosa para aqueles que foram abençoados com a Visão.
Com certeza eu recomendo a visita à toda bruxa, especialmente aquelas que possuem alguma ancestralidades por essas terras geladas onde o sol brilha as 21 horas em pleno verão. Ou aquelas pessoas que desejam pisar em uma das entradas do mundo inferior mais conhecida de todo mundo.
Um dos fatos mais estranhos e sutis, foi que em determinado momento vários crânios me chamaram atenção. Eles estavam virados de costas, e dava para ver o topo e a parte de trás do crânio. Alguns deles estavam escritos, em uma linda caligrafia, frases enormes em francês, seguindo em espiral por toda extensão da nuca e topo da cabeça, seguindo para as partes não visíveis. Era como se tivessem sido esculpidos de forma delicada direto no osso com algum tipo de ferramenta. Vários crânios estavam assim. Eu fotografei alguns na esperança do meu anfitrião poder traduzir para mim. Com meus olhos de bruxa, vi uma energia azulada e cintilante (bem conhecida por Feris) atravessando aquelas frases e adentrando as densas paredes de ossos à minha frente, admirei um pouco essas caligrafias e parti pensando que nunca soube de um costume como esse, que nunca tinha ouvido falar, e imaginando as justificativas para as frases. Depois de um dia longo, chegando na casa em que estávamos, revisitei as fotos procurando as inscrições. Bom, as fotos dos crânios estavam lá, nenhuma letra presente. Isso me causou imensa confusão e frustração.
Perguntei às outras pessoas se viram tais crânios e ninguém viu nenhuma frase nos ossos. Uma bruxa é capaz de estar aqui e no outro mundo ao mesmo tempo. E na maioria das vezes ela consegue saber exatamente o que está aqui e o que está no outro mundo, claro que sabendo que em um mistério muito maior as divisões são meras ilusões. Já passei por situações que o poder que atravessa os mundos era tão potente que os limites desabavam - isso aconteceu em rituais, em locais mágicos ou quando encontrei bruxas ou pessoas que eram claramente marcadas por reinos poderosos. Já vi muitos locais desse mundo ancorados no mundo do espíritos, com poderes para nos catapultar em direção ao outro lado e trazer o outro mundo para cá. Mas as catacumbas pareciam inverter essa lógica. Parecia que quem se ancorou no mundo humano foi o mundo dos espíritos, mais especificamente o mundo dos mortos e o Mundo Inferior (algo imensamente maior parece habitar aqueles túneis). Um local onde o véu parece não existir, onde o mundo espiritual chega a ser palpável. E uma forte sensação que foi o Mundo dos Mortos que emergiu de suas colinas distantes em direção aos túneis, os inundando de forma permanente.
Existem muitas histórias sobre pessoas que adentram as partes proibidas das Catacumbas, algumas ficam perdidas por dias, outras precisam ser resgatadas pela polícia e bombeiros, alguns boatos falam de pessoas desaparecidas com seus corpos nunca encontrados.
Oficialmente apenas uma morte foi registrada, de uma pessoa chamada Philibert Aspairt, em 1793. O mesmo adentrou as catacumbas e não conseguiu achar o caminho de volta, 11 anos depois acharam seu corpo e o mesmo foi sepultado no mesmo local. Os motivos que o levaram a adentrar os túneis repletos de ossos são misteriosos.
Antigos altares coletivos feito por bruxas Reclaiming do Rio de Janeiro- 2017-2018
Quando a tradição começou a se enraizar nesse terra, bruxas se reuniam para fazer magia juntas em rituais sazonais e contínuos. Boa parte dos espíritos que são aliades até hoje na comunidade brasileira surgiram desses rituais. O Labirinto da Rosa, a Divindade Agênera e a Floresta Escura se revelaram nesses círculos internos e muitos outros.