De 20 a 24 de julho de 2014
Boa Governança em um Mundo Complexo
Relato de uma novata
32a Conferência Internacional da System Dynamics Society (Delft, Holanda, 2014)
A luz do sol se derrama sobre a paisagem de Delft pintando-a de mil tons no belíssimo quadro de Johannes Vermeer, mas ao chegar à cidade de Delft, na tarde de domingo, dia 20, após 13 horas de avião e 40 minutos de trem, nuvens cobrem quase inteiramente o céu e a paisagem cinzenta causa-me desapontamento. O tempo quente e úmido amplifica a sensação de cansaço, não penso mais em Vermeer, tampouco em seu famoso quadro “A vista de Delft”, quero chegar ao hotel e descansar.
Mas, após um banho demorado e uma rápida soneca, olho pela janela e fico encantada com a paisagem: duas igrejas em estilo gótico, difícil dizer qual a mais bela, uma cidade relativamente pequena atravessada por canais, e adornada com flores nas sacadas, nos postes, em vasos no chão. Ao ver tantos holandeses usando a bicicleta em suas atividades cotidianas, prometo a mim mesma fazer exercícios regulares na volta ao Brasil e ainda comprar uma bicicleta móvel...
Na longa tarde de domingo – no verão holandês o sol se põe às 22 horas – busco no Google Maps informações sobre a Universidade Tecnológica de Delft - TU Delft, e descubro que posso fazer o trajeto a pé saindo do hotel, no centro de Delft, até a Universidade, em menos de 30 minutos. Penso que finalmente verei ao vivo e em cores os ícones de TU Delft: o cone na entrada da biblioteca, ela mesma uma obra arrojada; o local da Conferência, "Aula Congress Centrum”, um prédio de três andares, cuja aparência lembra a nave da série Star Trek; e o edifício da Faculdade de Arquitetura.
Na manhã de segunda-feira, dia 21, meu primeiro dia de Conferência, passo emocionada em frente ao famoso cone da biblioteca, chego ao “Aula Congress Centrum” e reencontro professores e colegas brasileiros. Além das palestras, exposições de pôsteres, e oficinas, está programada uma reunião do Capítulo Brasileiro da System Dynamics Society, outra do Capítulo Latino-americano e combinamos participar das duas. Tão bom reencontrar os colegas brasileiros, eu me senti imediatamente mais relaxada, apesar das múltiplas atividades programadas para aquele dia.
Vou relatar as experiências mais marcantes e depois comentar de forma breve duas apresentações de interesse amplo e uma de interesse mais restrito, sobre difusão de tecnologias.
Primeira experiência marcante: trabalhar no balcão de atendimento da Conferência. A tarefa que havíamos assumido, ainda no Brasil, eu e minha amiga Silvia Coelho, era a distribuição de fitas de identificação dos participantes por países e temas de interesse, mas, na prática, tivemos que responder a todo tipo de demanda e questionamentos sobre a organização do evento. Foi uma excelente oportunidade de desenferrujar o inglês com pessoas de várias nacionalidades - e perceber que ainda não consigo entender os sotaques do outro lado do mundo - e de usar o jeitinho brasileiro de resolver problemas. Os estudantes universitários brasileiros não participam ativamente das tarefas administrativas, estamos acostumados a depender de um exército de funcionários, o que encarece e burocratiza as nossas universidades. A experiência me fez pensar nas vantagens evidentes desse modelo de universidade, mais enxuta, com maior participação dos próprios estudantes nas atividades administrativas.
Segunda experiência marcante: a reunião do Capítulo Brasileiro da System Dynamics Society, realizada na tarde do primeiro dia da Conferência. Não vou repetir o que foi muito bem relatado pelo novo Secretário Paulo Nakamura na ata da reunião anual do Capítulo, disponível na internet em: https://sites.google.com/site/systemdynamicsbrazilorg/publicacoes/21-jul-2014-ata-da-reuniao-anual-do-capitulo.
Mas faço questão de dizer que fiquei muito emocionada ao receber o certificado de participação das mãos do nosso colega Karim Chichakly. E que fiz questão de espalhar as fotos da reunião pelas redes sociais, claro!
Terceira experiência marcante: a exposição de pôsteres realizada na noite do dia 21. Em primeiro lugar, fiquei muito bem impressionada com a organização da sessão de pôsteres. Cada expositor recebeu por e-mail, com um mês de antecedência, mapa com a posição dos cavaletes nos quais deveria pendurar os pôsteres, o que facilitou bastante esta parte, digamos, mais braçal da exposição. O jantar leve estava delicioso e cumpriu bem o papel de descontrair o ambiente. Como o meu tema foi a aplicação da SD à difusão de tecnologias espaciais, achei que poucos se interessariam ou que se sentiriam intimidados, por isso fiquei impressionada com a grande quantidade de pessoas interessadas em saber detalhes sobre a aplicação da metodologia, eventuais dificuldades na aplicação, e resultados da implementação do modelo. Recebi críticas construtivas e dicas que tentei incorporar na versão final do artigo. Foram duas horas e meia em pé ao lado do pôster, tentei circular e ver os pôsteres dos outros colegas, mas confesso ter sido difícil conciliar os dois papéis.
O leque de temas abordados na Conferência foi muito amplo, houve várias sessões paralelas, difícil sintetizar tudo o que foi apresentado e discutido, por isso selecionei três apresentações para comentar.
(1) From data-poor to data-rich: System Dynamics in the era of Big Data
Erik Pruyt et al.
A era da abundância de dados ou “Big Data” (O tratamento de volumes extraordinários de dados é conhecido como “análise de big data” ou simplesmente ‘”big data”) pode revolucionar a SD. Se até hoje ela tem sido rica em teoria e pobre em dados, não precisará mais sê-lo doravante, embora para tanto seja necessária uma aproximação entre a SD e a ciência da informação. Os autores sustentam que há pelo menos três formas de Big Data e Ciência da Informação complementarem a SD: (1) para obter insumos e informações úteis a partir do Big Data; (2) para inferir teorias plausíveis e estruturas de modelos a partir do Big Data; (3) para analisar e interpretar dados “gerados por força bruta”, a partir do modelo. As técnicas da ciência da informação podem ser úteis para (1) e (3) e vice-versa. A combinação entre SD e Big Data pode beneficiar várias áreas de aplicação, dentre as quais: formulação de políticas de combate ao crime, controle de doenças infecciosas, segurança cibernética, segurança nacional, avaliação de mercados e gestão de ativos. Um dos principais méritos dessa apresentação é a compilação de métodos, técnicas, e ferramentas para combinar SD e Big Data.
Meu interesse foi despertado porque ao tentar implementar o modelo de difusão de tecnologias espaciais, deparei–me com a escassez de dados sobre adoção dessas tecnologias, e com a necessidade de obter de alguma forma esses dados, por meio de questionários, ou ainda usando dados sobre adoção de tecnologias similares. E lamentei não ter escolhido outra área em que houvesse abundância de dados tais como aquelas mencionadas no artigo. Obviamente isso me traria outros desafios objeto dessa apresentação.
(2) An Exploration of the SD field: a Model-Based Policy Analysis Perspective
Anika Carolina Rose, Faculty of Technology, Policy and Management, Delft University of Technology
A autora, aluna de mestrado de TU Delft, utiliza a análise de políticas baseada em modelos para explorar parte do campo de Dinâmica de Sistemas e prospectar o seu futuro. Foram realizadas 40 entrevistas com grupos e atores previamente identificados por meio da análise de redes e análise de atores. As entrevistas foram analisadas; e as perspectivas dos entrevistados foram capturadas utilizando-se modelos básicos para visualização. Foram identificadas cinco perspectivas denominadas “colaboração”, “super simplificação”, “SD ampla e apoio temático”, “máquina de crescimento acadêmico” e “nenhum problema”. As três primeiras foram posteriormente traduzidas em modelos de SD e utilizadas para testar e selecionar as cinco melhores combinações de políticas capazes de garantir um futuro auspicioso para a SD.
Meu interesse nessa apresentação específica deve-se a dois fatores: ela resume os resultados da dissertação de mestrado da autora na Faculdade de Tecnologia, Política e Gestão de TU Delft, ou seja, trata-se de um trabalho da universidade sede da Conferência; como novata na SD tenho interesse em conhecer o meu campo de pesquisa, situação atual, e perspectivas futuras.
(3) Calibrating Systems Dynamics Models of Technology Diffusion with Structural Breaks: The Case of Android Handsets.
Abhinay Puvvala
Tata Research Design and Development Centre, Systems Research Laboratory
Amitava Dutta
School of Management, George Mason University, Virgínia, USA
Essa apresentação aborda a difusão de tecnologias e questiona uma das premissas de calibragem dos modelos SD: a estabilidade dos parâmetros no período de análise. Trata-se de premissa irrealista quando aplicada à difusão de tecnologias porque os parâmetros reais (por exemplo, a intensidade do contágio) mudam com o tempo, às vezes de forma dramática, provocando rupturas na estrutura do padrão de difusão. É desafiador calibrar modelos SD na presença de rupturas estruturais. Os autores abordam esses problemas usando o caso dos handsets Android, e dados de vendas referentes ao período 2009-2012.
Para concluir, voltando às reminiscências de viagem, reconheço que “A vista de Delft” é um quadro maravilhoso, realizei o meu sonho de vê-lo em exposição na Casa de Maurício de Nassau, em Haia, cidade próxima de Delft e Amsterdam. Mas foi a Delft real que ultrapassou todas as minhas expectativas, a mais bela e acolhedora cidade que tive a oportunidade de conhecer.
Ludmila Deute Ribeiro, em 28 de agosto de 2014