Quem já leu o primeiro livro da saga Arautos da Morte talvez se lembre de um pequeno detalhe nos primeiros capítulos.
Logo no início da história, Angelina faz um bolo de laranja a pedido de Aurora para levar ao patrão. É um momento simples, mas muito importante para a personagem — afinal, naquela fase da sua vida, ela fazia bolos para amealhar algum dinheiro.
Talvez alguns leitores não tenham reparado, mas a receita do bolo está mesmo descrita no livro. 😁
No entanto, a pobre da Angelina leva um susto tão grande logo a seguir que o bolo acaba por passar para segundo plano.
Quando publiquei a primeira edição do livro, com a capa original, cheguei a escrever esta receita para a oferecer aos leitores. Na altura, essa partilha acabou por nunca acontecer.
Por isso, decidi agora recuperá-la.
Aqui fica a receita original do bolo de laranja mencionado no livro, tal como a escrevi na primeira edição. Podem replicá-la em casa e experimentar um pequeno sabor do universo da história.
E para quem ainda não leu o livro, deixo também o trecho onde o bolo aparece mencionado.
Espero que apreciem.
É realmente muito bom. 😋
“Mentalmente, Angelina contou quinze colheres de sopa rasas de farinha fina para bolos e quinze colheres de sopa rasas de açúcar para dentro de uma vasilha. Abriu a pequena lata de fermento e juntou à mistura uma colher de sobremesa do pó. Mexeu com a colher de pau enquanto deixava os pensamentos divagarem. Mecanicamente, acrescentou quinze colheres de sopa de óleo vegetal e quinze colheres de sopa de sumo de laranja, previamente exprimido de duas laranjas que uma amiga de Aurora lhe tinha facultado do seu pequeno pomar. Assim como os três ovos. Se ela tivesse um cantinho só para ela, também compraria três ou quatro galinhas poedeiras para ter sempre ovos caseiros. Sempre que podia, comprava-os à dita senhora ou de galinhas criadas ao ar livre, quando fazia compras no mercado. Evitava de todo consumir alimentos que infligissem sofrimento aos animais. Achava repugnante a dor a que eram sujeitos seres inocentes para que o ser-humano fosse alimentado. Nem sequer se tratava de uma questão de sobrevivência, era o puro e simples prazer da gula. Estaria enganada, ou essa característica do egoísmo do ser-humano fazia parte dos sete pecados mortais? Tinha a sua espiritualidade e acreditava que independentemente das denominações da religião cristã, mais cedo ou mais tarde, todos os tiranos pagariam. Fosse no inferno ou como ela mesmo acreditava, com karma. Também ela sofrera e continuava a sofrer e embora nunca tivesse sido esventrada como um leitãozinho ou mutilada como um bezerrinho, sentira na alma como se o tivesse sido, como se lha tivessem rasgado e arrancado as entranhas, somente por puro prazer, poder ou cobardia. Pior, tinha sido o tormento infligido à menina, que vivera com ela toda a situação e pela qual, ela se sentira impotente.
Por pensar nela – já não a ouvia há algum tempo.
Devia ter adormecido no sofá em frente á televisão. Caso contrário estaria a perguntar-lhe se podia rapar a taça do bolo. Sorriu. O cansaço deve tê-la vencido. O dia tinha sido bastante cansativo. Entre as aulas normais da componente letiva, ainda tinha tido ginástica pelas Atividades Extra Curriculares e uma aula de ballet que insistiu em frequentar. Mas apesar disso, vivia em paz, longe da angústia, dos gritos e do choro.
Acabou de acrescentar as raspas das laranjas e ligou a batedeira. Nem o barulho do eletrodoméstico parecia tê-la incomodado! Untou a forma com margarina vegetal e polvilhou-a com farinha. Colocou a massa lá dentro e inseriu-a no forno previamente ligado a uma temperatura média. Limpou as mãos ao avental e olhou para o relógio – ainda de ponteiros – suspenso por cima da porta da cozinha. Eram sete horas. A amiga devia estar a chegar. Sacudiu os pensamentos e fez intenções de começar a lavar a loiça. A casa estava silenciosa. Apenas o barulho da televisão ainda se mantinha num volume quase mínimo. Não havia necessidade de gastar eletricidade em vão. Antes de encher com água o lava-loiça, dirigiu-se á sala para a apagar. Como suspeitara, Constança dormia serenamente no sofá. O comando? - Onde é que a pequena teria colocado o comando? – pensou ao mesmo tempo que olhava á sua volta.
Subitamente o coração parou e ficou paralisada. A luz da lua que trespassava os orifícios dos estores da janela desenhava uma silhueta humana. Uma silhueta escura e estática, como se alguém a estivesse a observar. Ficou gelada. Todo o seu sangue desapareceu-lhe das veias e a sua respiração começou a acelerar. O coração disparou e quase lhe saltou pela boca quando subitamente soou o toque da campainha. Desviou a atenção na direção da porta e numa questão de segundos, quando se voltou novamente para a janela, o vulto tinha desaparecido.”
Trecho do livro: Arautos da Morte – Reflexos, de Sofia Miranda
A vida passada de Angelina e Conrado como Angélica e Logan, no México, nasceu de uma inspiração peculiar: um videoclipe de David Bisbal.
Houve uma fase em que eu era fascinada por música em espanhol. Aprendi o idioma a ver filmes e séries sem legendas na internet e a ouvir muita música.
Foi precisamente assim que descobri este cantor. Quando vi o videoclipe, toda a história se desenrolou na minha mente, como se assistisse a um filme dentro de um filme.
E foi assim que ganhou vida o primeiro passado descrito no romance.
Uma curiosidade:
Houve um tempo que me dediquei aos vídeos de humor e até criei um canal, no Youtube.
A Cidinha consegue ser bastante persuasiva… e quase me deixei levar.😅
Adorei esta personagem que criei.
Mas os livros são ainda mais poderosos. São a minha verdadeira paixão.
Por isso, nunca subestimem o poder da leitura.