"Rodas Culturais, rotas de salvação"
de Ricardo Pimentel/Pimenta (RJ)
"Rodas Culturais, rotas de salvação"
de Ricardo Pimentel/Pimenta (RJ)
"Rodas Culturais, rotas de salvação"
Rodas Culturais são eventos da cultura hip hop, que nasceram nos bairros pobres de Nova York e que imigraram para diversos recantos do mundo. Chegaram a nossas comunidades, onde encontraram terreno fértil para proliferarem. Mais do que diversão, são manifestações de conhecimento montados sobre os quatro pilares fundamentais do movimento: as batalhas de rima, a break dance, as performances de artistas do grafite e as práticas de skate. Como são eventos que nascem espontaneamente dentro das comunidades, nem todas as Rodas que surgem apresentam essa estrutura de atrações completa. Por falta de recursos, a grande maioria delas apresenta apenas o pilar das batalhas de rima, que podem ser de dois tipos: do “conhecimento” e de “sangue”. Ambas são enfrentamentos com dois artistas batalhando de cada vez, improvisando sobre assuntos diversos, sorteados logo no início das reuniões e escolhidos pelo público. Ao final de cada rodada, o mesmo público também escolhe por ovação cada um de seus preferidos, que avançam até a batalha final. A diferença entre esses dois tipos de batalhas é quanto ao seus conteúdos conceituais. As batalhas de sangue são as preferidas dos públicos, pois as rimas podem ser feitas livremente, sem as determinações de temas específicos. São em geral, autênticos festivais de zoações, com cada rimador pocurando “esculachar” ao máximo seu oponente. Quando isso acontece, são as batalhas que levam os públicos ao delírio máximo.
Mas são as batalhas do conhecimento que potencializam o movimento. No início de cada uma delas, o MC , ou Mestre de Cerimônia, sorteia e dirige o público nas votações das escolhas dos temas que nortearão as batalhas. São sempre temas densos e complexos, aludindo a situações de cada momento de nossa sociedade. Assim, para performar bem nessas batalhas, os participantes devem estar muito bem informados sobre o que acontece não só em suas comunidades, mas também sobre temas que alcançam sua cidade, seu estado, seu país e até o planeta como um todo. Se não estudarem muito durante a semana, seus desempenhos deixarão a desejar e, nas votações, o público não perdoará os embromadores.
Então, não é difícil perceber o quão transformadoras são essas batalhas. Elas trazem propósitos claros aos jovens rimadores e exigem muito empenho deles. Não é difícil perceber também o quão transformadoras as Rodas Culturais podem ser para suas tribos, pois além de motivar seus participantes na criação de identidades intelectuais e artísticas, elas os empoderam, dando a eles a sensação de efetivamente estarem trilhando caminhos que os tornarão efetivos cidadãos, mesmo que todos estejam vivendo em meio a comunidades cujos territórios não são mais controlados pelas instituições de estado. As duras realidades cotidianas das autênticas guerrilhas urbanas vividas dentro dessas comunidades acabam sendo dribladas, primeiramente, ao se tornarem temas das maravilhosas crônicas de costumes que os versos rimados apresentam. Em segundo lugar, como esses mesmos versos necessitam de muita informação e estudo, eles preenchem o tempo desses jovens, afastando-os dos caminhos tortos, que num primeiro relance, especialmente para aqueles que não tem outras opções, acabam parecendo um caminho fácil.
Numa sociedade extremamente desigual como a nossa, que nega educação de qualidade a maior parte dos jovens provenientes de famílias de baixa renda, a arte se torna uma das poucas possibilidades de ascenção social rápida. As esferas institucionais oficiais não conseguem, ou não querem perceber, que as batalhas abrem caminhos possíveis como potentes instrumentos educativos que são, pois elas conseguem o que muitas grades disciplinares não alcançam, motivando os jovens na direção da cultura. Além disso, também se mostram como canais baratos e diretos de comunicação e apresentação para os artistas e, por conta disso, algumas delas passaram a figurar nos radares de recrutadores de gravadoras. A prova disso são imagens de um jovem Xamã, hoje um dos principais artistas do cenário musical brasileiro, batalhando numa Roda nos confins da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Mas como se não bastasse, as Rodas Culturais ainda conseguem tudo isto divertindo seus públicos. Enquanto o grafite rola em algum canto da cena e skatistas manobram radicalmente no entorno, corpos jovens e outros nem tanto, se contorcem ritimadamente na dança, ao som dos “beats” dos DJs, em espetáculos de diversidade e tolerância. Mas nada empolga mais a galera do que o verso inteligente, que faz o rival engolir em sêco durante as batalhas de rimas. A galera explode, urrando pelas rimas que acabaram de ouvir, que tanto poderia tirar aquele sarro com um dos MCs rivais na disputa da batalha de sangue como, por outro lado, poderia entregar aquela ideia incrivel sobre um tema de alta complexidade, nas batalhas do conhecimento. E daí, os MCs apresentadores das Rodas entram em cena para apresentar a próxima batalha e anunciam: "Dois MCs vão cair no bangue-bangue. O que que vocês querem ver?". E a galera responde a plenos pulmões: "Sangueeeeeee..."
Ricardo Pimentel/Pimenta (RJ)
Fotógrafo por necessidade de expressão pessoal, desde seu primeiro ensaio intitulado “Vendo o Cego”, realizado no Instituto Benjamin Constant para deficientes visuais, não parou de produzir, fosse com visão perfeccionista de fotógrafo publicitário, ou com olhar espontâneo de ensaísta de rua. Titular do Imagemagia Estúdio, atuante no mercado fotográfico desde 1984, com serviços prestados as mais diversas empresas, tem portfolio completo publicado em www.imagemagia.com. Graduado em Comunicação Social, pela Univercidade/RJ, pós-graduado e Mestre em Gestão da Economia Criativa, ambos pela ESPM/RJ, iniciou carreira docente na Universidade Estácio de Sá, em 1999. Ingressou na ESPM em 2003, onde leciona nos cursos de Comunicação e Design, até o momento. Ganhador do Prêmio Fomento à Todas as Artes, da Prefeitura do Rio, desenvolve oficinas denominadas Imagens da Música em escolas cariocas. Artista independente, tem intensa e permanente produção no meio fotográfico, participando de diversas exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.
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Instagram: @pimentel_imagemagia