Habitação
Habitação
Estudo de Caso em Habitação: Bairro Gallaratese 2
A partir do estudo do Bairro Gallaratese 2, um dos projetos habitacionais propostos como opção para esse quarto trabalho, busca-se primeiramente compreender os contextos histórico, social e político que levaram à construção desses conjuntos, enquanto pré-existências. Analisando dados projetuais, busca-se elucidar importantes decisões de partido urbano e arquitetônico aplicadas ao conjunto e entender estabeleceram importantes rompimentos à arquitetura moderna produzida mundialmente na época.
O entendimento da paisagem criada com a implantação do complexo, juntamente a questões tipológicas e tectônicas, ampliam o repertório de referências com ideias a serem consideradas ou refutadas para elaboração do projeto final. A aplicação de teorias sociais caras aos arquitetos que o projetaram, juntamente com um entendimento urbano singular, possibilitaram a formação do complexo que poderia ter sido uma nova tipologia de microcidade, mas que não deixou de configura-se como uma quebra de paradigma.
[Desenho autoral com base em dados do OpenDataSoft e QGis]
_Implantação
[Desenho autoral com base em dados da plataforma CADMapper e do Geoportale Nazionale]
Corte AA [Desenho autoral com base em dados da Plataforma CADMapper e do Geoportale Nazionale]
_Ficha Técnica: Conjunto Habitacional Monte Amiata (Bairro Gallaratese 2)
Arquitetos: Carlo Aymonino e Aldo Rossi
Ano de conclusão do projeto: 1973
Local: Milão, Itália (30 min do centro, cerca de 10 km)
Tipologia: Habitação Coletiva, Apartamentos
Capacidade: Cerca de 440 unidades, para 2400 moradores
Unidades:
1 quarto, 26 m²
Apartamento pequeno: 80 m²
Apartamento médio: 100 m²
Apartamento grande: 150 m²
Alguns Duplex, ou com sótão.
[Croqui autoral com base no
desenho de Sarah M Roubach]
_Arquitetos
Carlo Aymonino
Roma, Itália
1926 - 2010
Aldo Rossi
Milão, Itália
1931 - 1997
Foi professor durante boa parte da carreira, sendo também autor de uma extensa bibliografia;
Suas obras projetadas no período inicial de suas atividades destacam-se amplamente no neorrealismo;
O Complexo Monte Amiata foi uma oportunidade concreta de aplicação das suas pesquisas sobre arquitetura e cidade. Seu estudo era voltado para a pesquisa tipológica, relacionada com as aspirações sociais e com o rigor formal geométrico.
Foi professor durante muitos anos, escreveu obras de referência para a arquitetura mundial;
Inspira-se amplamente no modernismo italiano, projetando edifícios reduzidos a formas simples com forte influência clássica;
No urbanismo, observava os tecidos urbanos como verdadeiros fatos históricos, com pré-existentes concepções clássicas e tradicionalistas de cidade;
Ganhou o Prêmio Pritzker em 1990.
_Histórico
Após a 2° Guerra Mundial, a cidade de Milão estabeleceu programas para tentar sanar a crise habitacional, instaurando conjuntos em comunidades satélites, com o objetivo de urbanizar e habitar as zonas periféricas. Gallaratese foi a segunda comunidade a ser criada, em 1956. Ela foi divida em duas partes, e a segunda abriga o projeto de Aymonino e Rossi, finalizado em 1973. A partir de 1967, pelo Studio Ayde, Carlo Aymonino, juntamente com Maurizio Aymonino, Baldo e Alessandro De Rossi, projetaram o Conjunto Habitacional Monte Amiata. Aldo Rossi completou no grupo, projetando um dos edifícios do complexo. Aldo e Carlo, na época, pesquisavam sobre a ciência urbana, com foco na relação das tipologias com as aspirações sociais a elas embebidas.
Os arquitetos eram a favor da criação de comunidades urbanas nas quais coexistiriam habitação, comércio, serviço, indústria e outros. Porém, isso não vingou, sendo majoritariamente residencial. O histórico desse conjunto com a habitação social foi conturbado. Foram pensadas unidades para habitação social no projeto, mas a Prefeitura da cidade recusou essa diretriz. Em 1974, entretanto, grupos da Liga Comunista coordenaram uma ocupação, transformando o conjunto em habitação de ex-moradores de rua até serem retirados no mesmo pela polícia. Mesmo que algumas unidades tenham sido vendidas à menor preço para moradores egressos de habitação social, hoje em dia tem caráter mais privativo, ainda mais depois de cercado.
_Paisagem
[Desenho autoral com base em dados do Google Earth]
"Chegamos a um ponto de inflexão que precisamos
aprofundar. Urbatetura? É um palavrão
que nunca uso, mas significa exatamente isso."
Carlo Aymonino
Um dos principais partidos do projeto são os questionamentos sobre o conceito de comunidade e como a arquitetura faz sua parte permitindo a prioridade do social. Outro ponto de partida foi a falta de unidade do entorno urbano. Dando menos relevância ao que já estava consolidado, Aymonino e Rossi fazem a implantação de um conjunto de edifícios que tenta resolver esses problemas em alguns metros quadrados.
Com o planejamento da distribuição variada de usos, esperava-se que a habitação coexistisse harmoniosamente com a porção de serviços, lazer e bucólica desse objeto de pesquisa. E para adentrar o conjunto, além das entradas próximas à via existente ao sul, moldou-se uma nova rua entre os blocos ao norte, compondo com a disposição dos blocos, trazendo o visitante para sua área central.
[Carrossel - Desenho autoral com base nos dados da plataforma CADMapper]
O desnível presente nas praças públicas coloca o pedestre em outra escala a partir de quando acessam as áreas pelas passarelas ou pelas rampas e escadarias já dentro do complexo. Este não se destaca dos demais em altura, seguindo o ideal muito presente nos anos 70, colocando o edifício habitacional em escalas comedidas e familiares.
[Desenho autoral com base nos dados da plataforma CADMapper]
Passarela de acesso ao edifício A2 [Croqui autoral]
Passarela de acesso entre os edifícios A1 e A2 [Croqui autoral]
_Tipologia e Tectônica
Vista da praça entre os edifícios B e D [Croqui autoral]
Como neorracionalistas e parte do regionalismo crítico, os projetistas cultivavam certos ideais modernos como a presença do pilotis, a ausência de ornamentos e a repetição de elementos. Entretanto, alguns conceitos eram questionados, acima de tudo, da inspiração principal do projeto. Para Aymonino e Rossi, a conversa entre as formas clássicas e os elementos modernos deve alinhar-se, acima de tudo, com as pré-existências do local e o considerar mais profundamente no processo
Da região da Lombardia, pode-se destacar 2 elementos que mais os cativaram: as galerias (loggias), que aparecem no projeto por meio do pilotis marcante de Rossi e as passarelas de Aymonino; e os pátios, que tomam forma com as áreas triangulares que enriquecem os pontos de contraste dos blocos. Aymonino cita o Mercado de Trajano, em Roma, como uma referência que visitava quando possível, para apreender melhores soluções de apropriação do urbano com base na arquitetura clássica.
Pilotis do Edifício D por Aldo Rossi [Croqui autoral com base na foto de @whereonmonday]
Corte Esquemático dos blocos A's [Croqui autoral com base no estudo de Carlo Aymonino]
Quanto à premissa de que a forma segue a função, esta é refutada pois a nova era do modernismo é uma miscigenação de épocas, nas palavras de Rossi, "recolhe um pouco de racionalismo, de organicismo, de funcionalismo, de purismo [...], um pouco de tudo". O paradigma é quebrado quando, por exemplo, Rossi opta por manter pilares falsos a fim de criar um ambiente contemplativo sem função determinada.
E também quando Aymonino propõe maior movimentação nos seus volumes, saindo da configuração lamelar básica. Além desses fatores, o uso da cor enquanto marca de identidade e diferenciação sai do uso tradicional dos materiais estruturais em sua forma mais básica, levando o lúdico e o inovador para conjunto.
Entrada no edifício no bairro Gallaratese [Croqui autoral com base no desenho de C. Aymonino]
Pilotis do edifício de C. Aymonino no Conjunto Monte Amiata [Foto por Delfino Sisto Legnani]
_Planta do Nível Térreo (+3m do térreo convencional)
[Desenho autoral com base em dados de desenhos técnicos do projeto]
_Conclusão
O Complexo Habitacional, quase como um projeto manifesto, coloca em prática a teoria da microcidade e comunidade urbana como um organismo próprio dentro da cidade, mesmo que o resultado não tenha sido exatamente como o esperado. É interessante observar que a arquitetura pode exercer grande influência, mas ela não é capaz de certamente determinar um conceito. Entretanto, um aspecto interessante foi a quebra de paradigma com o movimento moderno e racionalista, trazendo novos significados para a correspondência entre as decisões de projeto e as heranças locais. A aplicação dos pilotis e das praças como inspirações adquiridas da região mostra uma maneira de reinterpretar o existente. E a presença dos blocos diferenciados de Rossi e Aymonino inspira a quebra do rigor tipológico em um todo.
A decisão de atribuir grande enfoque à forma, já não mais restrita à estrutura e outras propriedades extremamente racionais, é interessante na medida que utiliza das sobreposições como elementos criadores de espaços públicos potenciais, sejam eles abertos como praças ou unidades reservadas para serviços. A suave mudança de escala proporcionada pelos desníveis e passarelas pode ser elencado como a principal medida de intervenção urbana do complexo. Mesmo com condições topográficas e geográficas completamente diferentes da área de projeto da disciplina, a delicadeza do trabalho dos níveis e a aplicação filtrada e estudada de elementos regionais trazem boas referências para o estudo. Principalmente a análise de microcidade, em devidas proporções, favorecendo uma tênue transição do entorno até efetivamente chegar no projeto.