Cartografia Crítica
Cartografia Crítica
Equipamentos Urbanos: Acesso a Unidades de Saúde nas RAs
Palavras-chave: EPTG; Equipamentos Urbanos; Saúde; Mobilidade; Abrangência do Serviço de Saúde;
No ano de 2020, com os recentes acontecimentos adversos ao redor do mundo, volta à tona mais uma vez um problema recorrente na vida do morador do Distrito Federal e do Entorno: a falta de unidades de saúde pública (hospitais, postos de saúde, UPAs, policlínicas, etc.) para atender adequadamente à demanda da população. O coronavírus, com sua taxa alta de contaminação, levou milhares de brasilienses para os hospitais, causando superlotações. Porém, essa situação se repetia mesmo antes de uma pandemia global. A partir da calamidade do assunto, questiona-se:
O Distrito Federal encontra-se preparado para atender a população na área da saúde?
Os equipamentos públicos de saúde são bem localizados?
Quem realmente precisa desse atendimento possui fácil acesso à ele?
O estudo reúne dados como condição econômica, meio de transporte e disposição de unidades de saúde, a fim de identificar quem realmente são os pacientes do serviço público, onde se encontram e como é o percurso até o local do atendimento médico. Os locais de investigação são as RAs assistidas pela EPTG, pela qual é feito um dos principais fluxos entre a Área Oeste e a Central. O foco da análise final, entretanto, é em Plano Piloto, Guará, Taguatinga e Ceilândia, regiões que concentram a maior quantidade de usuários dos serviços de saúde pública, tanto da própria RA quanto advindos de outras áreas. Como resultado, almeja-se poder identificar o usuário desse sistema, além de mapear a atual disposição desses equipamentos para observar como as distâncias, meios de transporte e ofertas de unidades de atendimento médico afetam o atendimento.
Mapa Territorial - RIDE [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
Mapa Regional - Distrito Federal [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
_Localização do Usuário dos Serviços Públicos de Saúde
Os diagramas acima tornam possível o mapeamento da população que vive nas RAs atendidas pela EPTG. Em questão de número de habitantes, as RAs Plano Piloto, Ceilândia, Pôr do Sol e Samambaia concentram os maiores índices, refletindo também na distribuição de idosos e mulheres no território. Esse público é destacado no estudo por necessitar de cuidados médicos mais frequentes pela idade mais avançada e pelo período de gestação, por exemplo. Quanto à condição econômica dessa população, os moradores de mais alta renda estão amplamente concentrados na área central do DF.
Ao mesmo tempo, a proporção de habitantes por automóvel, é muito menor nessa mesma área, com quase 1,6 habitantes por carro. Compreende-se então que o meio de transporte utilizado pelos moradores das outras áreas tende ao transporte coletivo. Alinhado ainda com a questão de renda, a proporção de detentores de plano de saúde é muito maior também na Área Central, que consequentemente, utiliza menos os serviços públicos de saúde, sendo o oposto da Área Oeste.
¹ Pacientes esperam até sete horas por
atendimento em hospital no DF
Após denúncias, o Bom Dia percorreu hospitais do DF e encontrou lixo hospitalar em contato com o solo, esgoto sem proteção e outros problemas.
30/07/2014
² Restrição de atendimento em hospitais públicos não
tem data para acabar
Maiores unidades públicas do Distrito Federal funcionam com
restrições a quem não corre risco de morte. Secretaria orienta pacientes
a procurarem unidades básicas de saúde
11/06/2019
³ Pacientes ‘se rebelam’ por demora em atendimento
e acionam PM no DF
Cerca de 60 pessoas aguardavam atendimento no pronto-socorro do Hran. Alguns esperavam desde as 6h; não houve incidentes, segundo a PM.
14/05/2015
⁴ Superlotação: imagens mostram pacientes em corredores
de hospital público do DF
Vistoria na unidade colheu depoimentos de pacientes.
Secretaria de Saúde culpa gestão anterior.
14/06/2019
⁵ Desespero de médico chama atenção para lotação
de pronto-socorro no DF
Médico se descontrolou ao receber paciente: 'Não tem lugar! Não posso'. No Hospital de Base, há unidades fechadas e leitos de UTI desativados.
22/09/2015
⁶ Retrato do descaso: 96,7% dos usuários da rede pública de saúde do DF estão insatisfeitos com o atendimento
Pesquisa foi feita pela Codeplan, órgão do governo local. Reclamação sobre a qualidade do serviço atinge também médicos e enfermeiros
06/01/2016
Fontes: 1- Bom Dia Brasil, 2- Correio Braziliense, 3- G1 DF., 4- G1 DF, 5- Jornal Nacional, 6- Metrópoles.
_Entendendo os Equipamentos Públicos de Saúde
Analisando melhor as diferenças entre as unidades de saúde estudadas nesta pesquisa, pode-se elencar quatro tipos: Centros de Saúde, UPAs, Policlínicas e Hospitais.
Os Centros de Saúde recebem os atendimentos de atenção básica, e no corpo de médicos, podem ter os especialistas ou os generalistas.
As UPAs recebem também casos pouco mais graves. Pode direcionar o atendimento para outras unidades mas a função principal é evitar a ida ao hospital de um paciente que possa ser atendido por lá.
As Policlínicas contam com médicos especializados em diversas áreas, podendo inclusive executar pequenas cirurgias.
Os Hospitais são o sistema mais complexo, com atendimento geral e especializado, destacando-se pela estrutura completa para assistência de casos variados.
_Localização dos Equipamentos
Mapa de Equipamentos Urbanos de Saúde Pública [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
A partir dos mapas anteriormente apresentados, é possível reunir fatores como a grande concentração populacional na área Oeste do DF, levando em conta também o perfil de um possível usuário dos serviços de saúde (idosos e gestantes). São marcantes também os dados que indicam sobre a falta da aquisição de planos de saúde pelos moradores dessas RAs e a necessidade de se recorrer ao serviço público. O mapa acima, com a disposição desses equipamentos, revela que o Centro possui mais unidades hospitalares.
Enquanto isso, a área Oeste tem carência desse tipo de atendimento, em contrapartida, com mais unidades básicas de saúde. Entretanto, quando é necessário uma internação ou o tratamento de algo mais grave, o paciente precisa se deslocar, enquanto indisposto, pegar o próprio veículo ou transporte público, para chegar ao hospital. Nesse percurso, corre o risco de piorar seu estado, contaminar outras pessoas, etc.
RA I_Plano Piloto
Mapa de Equipamentos Urbanos de Saúde - Plano Piloto [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
População........................................221.326
Renda per Capita.............................R$ 5.863
Usuários de Saúde Pública.............25,3%
Detentores de Plano de Saúde.......84,4%
1_Hospital de Apoio de Brasília (HAB) 1994
Endereço: AENW 03 lote A, Setor Noroeste
Serviços: Atendimento ambulatorial, cuidados paliativos oncológicos e geriátricos, reabilitação física, marcação de exames, serviço social. É um hospital de referência distrital.
2_Hospital Universitário de Brasília (HUB) 1972
Endereço: SGAN 605, Av. L2 Norte
Serviços: Atendimento ambulatorial em diversas especialidades, além de vasto conjunto de exames e avaliações.
3_Hospital (HRAN) 1984
Endereço: SMHN Quadra 101 Bloco A Área Especial
Serviços: Atendimento de emergência e urgência nas seguintes especialidades: cirurgia geral, clínica médica, odontologia, ginecologia e obstetrícia, oftalmologia, pediatria, queimados, cirurgia plástica.
4_Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) 1960
Endereço: SMHS, Área Especial, Quadra 101 - Asa Sul
Serviços: Atendimento em politraumas, emergências cardiovasculares, neurocirurgia, cirurgia cardiovascular, atendimento onco-hematológico (CACON II) e transplantes.
5_Hospital Naval de Brasília (HNBra) 1969
Endereço: SEPS Quadra 711/911 - Asa Sul
Serviços: Atendimento ambulatorial nas especialidades: clínica médica, cardiologia, cirurgias geral e pediátrica, dermatologia, endocrinologia, obstetrícia, gastroenterologia, ginecologia, nefrologia, oftalmologia, ortopedia, pediatria, psiquiatria, proctologia, urologia, nutrição e otorrinolaringologia.
A fim de adentrar o território nacional, as primeiras intenções de se modificar a localização da capital foram levantadas ainda em meados do século XVIII. Foi então disposta uma área no Planalto Central, em 1891, para a instituição dessa nova capital, por meio da primeira constituição republicana. Os estudos para o sítio ocorreram entre 1892 e 1894, coordenados pela Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, também denominada Missão Cruls.
Durante o governo de Juscelino Kubitschek foi então que foi posto em prática o processo da nova capital. O projeto escolhido, em 1957, foi o Plano Piloto de Lúcio Costa, vencedor do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil. A inauguração se deu, enfim, em 21 de abril de 1960. Futuramente, a cidade foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, com a intenção de resguardar a dinâmica das 4 escalas urbanas presentes: monumental, residencial, bucólica e gregária.
Juntamente com as primeiras instituições das RAs, em 1964, a região era nomeada como Brasília e abrigava o Guará, Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Cruzeiro, Lago Norte e Lago Sul. Mas posteriormente, em 1997, foi feita uma alteração e por fim, a RA I passa a ser chamada de Plano Piloto.
6_Unidade Mista - Hospital Dia 1959
Endereço: EQS 508/509, Av. W3 – Brasília
Serviços: Acolhimento de enfermagem, dermatologia, fisioterapia, ginecologia e obstetrícia, homeopatia, infectologia, Infecto-pediatria, nutrição, odontologia, pneumologia, psicologia, psiquiatria, serviço social, terapia ocupacional.
7_Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) 1966
Endereço: AV L2 SUL Quadra 608 Módulo A – Asa Sul
Serviços: Atendimento de emergência, ambulatorial, às vítimas de violência, atendimentos e palestras referentes à amamentação e doação de leite humano, enfermarias e UTIS, exames laboratoriais, radiográficos e ecográficos. É um hospital de referência distrital.
Fonte: GDF, PDAD 2018, PDAD 2013.
RA X_Guará
Mapa de Equipamentos Urbanos de Saúde - Guará [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
População........................................134.002
Renda per Capita.............................R$ 3.215
Usuários de Saúde Pública.............57,2%
Detentores de Plano de Saúde.......58,6%
_Hospital Regional do Guará (HRGU) 1992
Endereço: QI 06 Área Especial C – Guará I
Serviços: Atendimento de urgência e emergência nas especialidades de clínica médica, pediatria, cardiologia e geriatria, considerado como referência no Distrito Federal neste último quesito.
Região fundada em 1969, seus primeiros habitantes foram os funcionários da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil – NOVACAP. Abrigou, na época, os moradores do Setor Residencial de Indústria e Abastecimento (SRIA) e a finalidade de abrigar trabalhadores do Setor de Industria e Abastecimento (SIA). Entretanto, a área só recebeu o título de Região Administrativa em 1989.
O Guará (RA X) é localizado próximo a importantes vias do Distrito Federal, ficando amplamente conectado aos principais centros urbanos, tanto locais quanto regionais. É também muito próximo ao Aeroporto de Brasília. Com isso, torna-se um ponto estratégico que permitiu sua ampliação ao longo do tempo, e a consolidação como um dos mais movimentados polos de comércio, lazer e serviços do Distrito Federal, sendo lar de uma das feiras mais tradicionais do DF. É, nesse ponto de vista, uma das cidades mais autônomas em relação ao Plano Piloto.
Fonte: GDF, PDAD 2018, PDAD 2013, Jornal do Guará.
RA III_Taguatinga
Mapa de Equipamentos Urbanos de Saúde - Taguatinga [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
População........................................205.670
Renda per Capita.............................R$ 1.849
Usuários de Saúde Pública.............66,1%
Detentores de Plano de Saúde.......43,4%
_Hospital Regional de Taguatinga (HRT) 1974
Endereço: QNC – Área Especial nº 24 – Taguatinga Norte
Serviços: Atendimento ambulatorial em diversas especialidades e emergência em cirurgia geral, clínica médica, ginecologia, ortopedia, pediatria, oftalmologia e otorrinolaringologia.
Taguatinga foi fundada em 1958, recebendo o nome da Fazenda que existia no local desde 1749. Foi instalada antes da saturação populacional do Plano Piloto e habitada pelos trabalhadores da construção da capital que para lá foram transferidos. Recebendo muitos novos morados em pouco tempo, o seu projeto urbanístico foi feito concomitantemente à sua implantação. Em apenas seis meses decorridos da instalação dos primeiros moradores, a região já era uma realidade urbana. Em 1989, foi intitulada como RA III, separando-se das RAs Ceiândia (IX) e Samambaia (XII). Em 2003, desmembrou-se mais uma vez, dando origem à Águas Claras (XX), e o processo se repetiu em 2009, dando origem à Vicente Pires (XXX). Hoje em dia, Taguatinga é destaque como centro dinâmico no estado, com vida social, cultural e política própria, além de significativo desenvolvimento econômico.
Fonte: GDF, PDAD 2018, PDAD 2013
RA IX_Ceilândia
Mapa de Equipamentos Urbanos de Saúde - Ceilândia [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
População........................................432.927
Renda per Capita.............................R$ 1.006
Usuários de Saúde Pública.............88,9%
Detentores de Plano de Saúde.......16,9%
_Hospital Regional de Ceilândia (HRC) 1981
Endereço: QNM 27 Área Especial 1 QNM 28 – Ceilândia
Serviços: Atendimento de emergência e ambulatorial, banco de leite, cirurgia de hérniorrafia umbilical, inguinal, incisional, colecistectomia, exames laboratoriais, de radiografia, ecografia, tomografia e mamografia, epidemiologia, internação domiciliar e de oxigenioterapia, serviço social.
Ceilândia surgiu de um grande projeto de relocação da população residente em diversas áreas irregulares, denominado Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), de onde foi tirada inspiração para o nome da cidade. Em 1971, cerca de 82 mil moradores dessas regiões não regulares foram transferidos para a nova cidade. Os setores "O" e "P", construídos entre 1976 e 1977, foram parte do Programa Habitacional da Sociedade de Habitações de Interesse Social (SHIS). O objetivo era abrigar novos moradores de áreas irregulares, incluindo também famílias que dividiam lotes em Ceilândia como coabitação. Em 1989, foi separada de Taguatinga e instaurada como RA IX. Mais recentemente, em agosto de 2019, foi criada a lei que instituía a RA XXXII, Pôr do Sol. Com isso, a área separou-se da Ceilândia.
Fonte: GDF, PDAD 2018, PDAD 2013.
_Trajetos de Acesso aos Equipamentos
Diagrama de Fluxos entre RAs para acesso aos Hospitais [Desenho autoral baseado em dados do Geoportal]
O diagrama exemplifica o deslocamento de habitantes entre as várias RAs em busca de atendimento médico. As RAs dentre as da área de estudo que mais recebem pacientes de fora são Plano Piloto (RA I), Taguatinga (RA III) e Guará (RA X). Respectivamente, acolhem 190%, 107% e 56% a mais de pacientes além dos moradores das próprias RAs que usam o serviço público de saúde.
Enquanto isso, a Ceilândia (RA IX) é a que mais atende aos próprios moradores, cerca de 350 mil pessoas, e ainda sim conta com apenas um Hospital Público. Os fluxos tendem a se concentrar entre as RAs mais próximas e adjacentes, mas como o Plano Piloto possui grande número de hospitais para atendimento geral e especializado, muitas pessoas acabam buscando tratamento também na RA I.
[Desenho autoral baseado em dados do Geoportal e do Google Maps]
Retomando as informações dos mapas anteriores, deve-se lembrar que os moradores da Área Oeste fazem mais uso do transporte coletivo. Com isso, tendo em mente a situação de uma pessoa doente indo ao hospital, o encontro com mais pessoas e o maior tempo que se passa no deslocamento pode ser crucial para a piora desse paciente, além deste correr o alto risco de infectar outros durante o trajeto. Tendo como base o carro popular, o ônibus e o metrô, foram obtidos os dados acima. Entre RAs mais distantes, no caso do 1° e do 2° diagrama, o trajeto pode chegar a 1 hora e 40 minutos.
Levando em conta a condição de alguns modais atualmente em trânsito no estado, é um tempo desconfortável para se deparar com superlotação de coletivos, janelas emperradas que impedem circulação de ar nos vagões e muita instabilidade. Para RAs adjacentes, percebe-se que o tempo é reduzido consideravelmente, mas ainda assim há diferença entre a oferta e qualidade do serviço de transporte ao comparar os trajetos nas áreas Central e Oeste.