Alguns Escritos e Reflexões sobre Psicologia, Sexualidade, Filosofia
“O psicoterapeuta tem, em primeiro lugar, a tarefa de mostrar ao paciente que também há outros e mais livres modos de existir e, depois, de dar-lhe coragem de experimentar, aceitar e viver estes outros modos” (Boss, 1976).
Essa frase do Medard Boss me faz pensar no processo terapêutico, no meu, no de pessoas que acompanhei. Parece cair como uma luva! Mas também me parece simples demais em certos momentos. De fato, é muito difícil uma única frase resumir a complexidade da Psicoterapia e sua potência.
Como boa Fenomenóloga-Existencial, os temas da liberdade/autenticidade me são muito queridos e são com frequência tema do meu trabalho. Escolhas, angústia, autonomia, ser congruente consigo, reconhecer os condicionantes (pessoais, relacionais, situacionais, coloniais) que restringem essa liberdade/autenticidade.
Em alguns casos a demanda é um processo de engessamento existencial, acompanhada de um não suportar mais a inautenticidade, não suportar mais uma forma de estar no mundo tão distante da própria autonomia. Mas ao mesmo tempo não conhecer outras formas de existir, de se relacionar, de ser-no-mundo. Creio que nessas situações a frase de Boss faz muito sentido, mas com a ressalva de que não é o/a/e psicoterapeuta que irá apontar quais são essas formas mais livres. Nem somos nós que “damos coragem”. Mas em conjunto com a/o/e paciente elaborar os desejos e possibilidades dentro de cada realidade, dentro da situação existencial de cada um, reconhecendo todos os condicionantes que atravessam aquela existência, mas ainda assim buscando formas possíveis de emancipação.
Creio também ser papel da Psicoterapia possibilitar questionamentos aos caminhos pré-prontos (a maioria inclusive de origem colonial a respeito da sexualidade, das performances de gênero, dos modos de se relacionar, do “lugar” de corpos negros/trans/pcds/gordos e tantos outros). A partir desse questionar construir quais seriam as alternativas, essas outras formas mais livres de existir.
Em seguida, vem as experimentações! E como o espaço da Psicoterapia pode ser usado para que o/a/e paciente possa experimentar outras formas de viver, de se relacionar, de ser, ao mesmo tempo que elabora como se sente em cada uma dessas novas possibilidades e se elas parecem mais ou menos congruentes consigo.
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Referência:
Boss, M. (1976). Encontro com Boss. Revista Daseinsanalyse, 1.
O Corpo, a Fenomenologia e alguns devaneios
Nas últimas semanas, não pude deixar de pensar muito sobre a questão do corpo.
No trabalho com a Sexualidade, e com a Psicologia, o corpo é fundamental. Esse corpo orgânico, biológico. Com seus ciclos, suas necessidades, seu desenvolvimento, seu funcionamento. Esse corpo vivo.
Mas é um corpo que muitas vezes carrega cor, etnia, gênero, curvaturas, deficiências, e tantas outras características que também compõem esse corpo e o tornam um corpo social.
E é um corpo com o qual eu, e cada um de nós, estabelece uma relação única, subjetiva, totalmente pessoal. Uma relação que pode ser de cuidado, atenção, autoestima, integração. Ou dos opostos: negligência, desvalia, conflitos, dissociação.
Com a fenomenologia, aprendi que “o corpo é o veículo do ser no mundo” (Merleau-Ponty), e é através dele que crio consciência do mundo ao meu redor. O corpo é o que me permite vivenciar o espaço, é ele quem delimita o espaço interno, ao mesmo tempo que funciona como elemento de comunicação com o espaço externo, estabelecendo a relação entre o eu e o mundo exterior. O corpo é espaço, é veículo, é consciência, é relação, é orgânico, é social, o corpo sou eu - e nós.
No meu caso, periodicamente preciso me lembrar sobre tudo isso para tratar menos o meu corpo como o adversário do meu trabalho e produtividade, e lembrar-me que meu corpo sou eu própria. Preciso me lembrar de assumir meu corpo e "encarnar-me".
Do que você precisa se lembrar hoje sobre sua relação com o corpo?
Ser doente x Ser do-ente: A visão da Fenomenologia-Existencial sobre os processos de adoecimento
Hoje vim falar um pouco sobre como a minha abordagem clínica, chamada de Fenomenologia-Existencial compreende e trabalha com os processos de adoecimento mental.
Em primeiro lugar, precisamos compreender o que significa "Ser" e "Ente" para essa abordagem. Toda essa proposta clínica está baseada na ideia de que o Ente diz respeito à nossa existência mais concreta, palpável. Abarca mais diretamente as coisas: nosso cotidiano, nossos rótulos, nossos papéis sociais. Já o Ser diz respeito à essência, ao significado, aos sentidos dessa existência.
Por isso falamos que na Clínica Fenomenológica-Existencial buscamos o Ser do-ente, e não o Ser doente. Isso significa que todos os esforços dessa clínica são direcionados no sentido de ir para além do Ente, para além do que se mostra, para além da Doença, para além do Diagnóstico, para além dos Sintomas; buscando então os sentidos e os significados desse processo de adoecer.
Todos os esforços dessa clínica são direcionados para perguntar pelo Ser, o ser no mundo, em relação com o mundo: com as pessoas, com o ambiente, consigo mesmo. Nós não nos contentamos com os sintomas, mas perguntamos pelos significados. Nós não nos contentamos com o tempo cronológico de meses, dias, anos, mas perguntamos pelo tempo vivido, pela experiência do tempo.
A relação terapêutica, dessa forma, não fica presa em um simples "relato dos sintomas x manejo de sintomas", mas irá para muito além, será um convite para a compreensão do Ser e das condições da própria existência nesse processo de adoecimento. É um convite para entrar em contato com a própria liberdade, com o projeto existencial, com a angústia existencial.
“Como você se sente sobre isso?”
Essa frase é realmente um clichê?
Quem nunca viu um meme na internet que brincasse com o fato dessa frase ser muito presente na psicoterapia? Ou que até mesmo ironizasse, como se psicólogues “só” perguntassem isso? Entendendo o papel do humor, não é meu objetivo aqui implicar com isso, até porque muitos desses vídeos já me fizeram rir também. Mas fiquei pensando: será que as pessoas já se perguntaram sobre a importância dessa pergunta, no contexto psicoterápico?
Entendo que às vezes essa pergunta soe meio óbvia para quem está de fora. Pegando um exemplo: um paciente X compartilha que terminou um relacionamento. A pergunta “e como está sendo isso para você?”, parece imediatamente evocar as respostas: “triste”, “mal”, afinal, é o esperado, não é mesmo? Nem sempre. E se a pessoa se sente “aliviada”, “liberta”, sentidos que não seriam os mais esperados, socialmente?
Quando o psicoterapeuta “adivinha”, “antecipa”, “presume” um sentimento ou um sentido do paciente, há grandes chances de que o processo passe a ser conduzido pelas opiniões do terapeuta, e não pela experiência do paciente. Fenomenologicamente falando, nós, psicoterapeutas, buscamos sempre uma atitude de epoché, que visa suspender o nosso conhecimento prévio de um determinado fenômeno.
Quando um paciente relata uma experiência de luto, e eu, como psicoterapeuta, tenho uma vivência de luto muito sofrida, se eu “presumo” que o luto do paciente também é sofrido como o meu, temos um problema na condução do processo. Quando um paciente compartilha uma experiência de viajar sozinho, e eu como psicoterapeuta, tenho uma experiência parecida que foi maravilhosa, e presumo que a experiência do paciente foi como a minha, posso deixar de perceber que o outro não atribui os mesmos significados que eu. Daí a importância da pergunta: “Como você se sente sobre isso?” – para garantir que os sentimentos e sentidos do paciente serão trazidos à tona, serão ouvidos e acolhidos. E diferenciados daqueles da experiência de vida da pessoa psicoterapeuta.
Nosso trabalho é de compreender a experiência do outro, por isso, convidamos, através de perguntas semelhantes a essa, que o outro descreva essa experiência a partir do seu próprio vivido – e não através daquilo que nós, como psicoterapeutas “achamos” do vivido do outro.
Muitas vezes também é um questionamento que tem como objetivo trazer o paciente pra dimensão afetiva da sua experiência. Muitas vezes é possível descrever, na terapia, um fato que ocorreu, mas de forma distanciada, sem uma implicação pessoal, sem uma aproximação com o que foi experimentado ali. A pergunta pode facilitar com que o paciente identifique e nomeie os afetos que surgiram a partir daquela experiência.
Muitos são os usos, dependendo do contexto e da vinculação terapêutica. Mas certamente, não é uma pergunta que tenta evocar o óbvio, pelo contrário: tenta ir além do óbvio!
Nos links abaixo você pode conferir mais informações. Também pode falar comigo no e-mail: psicologageisecampelo@gmail.com