O primeiro episódio apresenta um percurso histórico e cultural sobre as origens do samba no Brasil, destacando sua constituição a partir de práticas musicais e culturais de matriz africana e sua trajetória de deslocamento entre diferentes espaços sociais e geográficos. O episódio aborda a presença dessas manifestações na Bahia, com destaque para a prática da machula, compreendida no contexto das tradições populares e das formas de sociabilidade construídas pela população negra.
Ao acompanhar a chegada e a consolidação do samba no Rio de Janeiro, o episódio evidencia o processo de marginalização pelo qual essas manifestações passaram, uma vez que práticas culturais associadas às populações negras e aos espaços periféricos eram frequentemente criminalizadas, estigmatizadas ou consideradas incompatíveis com os padrões culturais legitimados pelas elites brasileiras. Nesse contexto, o samba é compreendido não apenas como gênero musical, mas como uma forma de expressão, resistência e construção identitária.
O episódio também aborda importantes personagens e acontecimentos relacionados à consolidação do samba urbano carioca, chegando ao registro de “Pelo Telefone”, considerado o primeiro samba gravado e lançado comercialmente, associado a Donga e Mauro de Almeida. A gravação constitui um marco na história da transformação do samba em produto cultural inserido na indústria fonográfica.
Nesse percurso histórico, apresenta-se ainda a trajetória de Vinicius de Moraes e as transformações de sua percepção sobre a cultura brasileira. Inicialmente associado a uma formação intelectual e artística marcada por referências eruditas e por determinados círculos sociais, Vinicius passa, ao longo de sua trajetória, a estabelecer contato mais profundo com diferentes realidades culturais do país. Essa aproximação possibilita uma mudança significativa em sua produção artística, marcada pelo interesse crescente por manifestações populares, pela cultura negra e por elementos historicamente marginalizados.
Assim, o episódio estabelece as bases para compreender como a trajetória de Vinicius de Moraes se relaciona com um processo mais amplo de redescoberta de aspectos fundamentais da cultura brasileira, preparando a discussão sobre sua atuação na valorização de elementos afro-brasileiros que será aprofundada nos episódios seguintes.
O segundo episódio concentra-se na trajetória artística de Vinicius de Moraes e em sua aproximação progressiva com elementos da cultura afro-brasileira. O ponto de partida é a produção de “Orfeu da Conceição”, obra teatral que transpõe o mito clássico de Orfeu para o contexto dos morros cariocas e coloca em primeiro plano personagens negros, suas experiências, afetos, conflitos e manifestações culturais.
A análise da obra permite compreender como Vinicius desloca uma narrativa pertencente à tradição clássica ocidental para uma realidade brasileira marcada pela presença da população negra e por manifestações culturais oriundas desse universo. Nesse processo, a música ocupa papel fundamental, estabelecendo uma relação entre literatura, teatro e cultura popular.
O episódio também contextualiza o período de consolidação da Bossa Nova e discute o processo de transformação pelo qual o samba passou durante esse momento. Embora a Bossa Nova tenha incorporado elementos do samba e contribuído para sua projeção nacional e internacional, o episódio problematiza o processo de depuração estética e de distanciamento de determinados elementos considerados associados às manifestações populares e negras. Nesse sentido, aborda-se a perspectiva de uma espécie de “higienização” ou desracialização do samba, entendida como um processo de seleção e reelaboração de seus elementos para adequá-los a determinados padrões estéticos e aos espaços sociais ocupados pela nova música brasileira.
É nesse cenário que se destaca a singularidade da trajetória de Vinicius de Moraes. Ao estabelecer contato cada vez mais intenso com diferentes manifestações da cultura afro-brasileira, o poeta passa a incorporar em sua produção referências que ultrapassam a estrutura tradicional do samba e recuperam sonoridades, imagens, símbolos e elementos relacionados às tradições negras.
O episódio conduz, portanto, à produção dos “Afrosambas”, realizada em parceria com Baden Powell, compreendendo o disco como resultado de um processo de investigação, aproximação e reelaboração de elementos da cultura afro-brasileira. A obra é apresentada como um momento significativo na trajetória de Vinicius e como uma tentativa de reaproximação do samba com dimensões culturais que haviam sido progressivamente atenuadas em determinados processos de modernização da música brasileira.
Episódio 3 — Vinicius de Moraes e Baden Powell: a construção dos Afrosambas
O terceiro episódio concentra-se na parceria entre Vinicius de Moraes e Baden Powell e no processo de criação e lançamento do disco “Os Afro-Sambas”, obra fundamental para a compreensão da aproximação entre a música popular brasileira e elementos da cultura afro-brasileira.
A partir da parceria entre o poeta e o violonista, o episódio apresenta o processo de construção de uma sonoridade que dialoga diretamente com manifestações musicais e religiosas observadas por ambos durante suas experiências na Bahia. O contato com os terreiros e com diferentes práticas culturais de matriz africana contribuiu para a incorporação de referências que ultrapassam a dimensão estritamente musical, alcançando aspectos simbólicos, religiosos e culturais.
Nesse contexto, são destacados os instrumentos utilizados na construção das composições, como o agogô, o atabaque e o berimbau, cuja presença contribui para a elaboração de uma sonoridade marcada pela aproximação com ritmos e práticas musicais de origem africana e afro-brasileira. A utilização desses instrumentos não é apresentada apenas como recurso estético, mas como parte de um processo de diálogo com tradições culturais historicamente marginalizadas.
O episódio também aborda a presença de elementos relacionados às religiões de matriz africana nas letras, nas imagens poéticas, nos ritmos e na atmosfera das composições. Referências a orixás, entidades, práticas rituais, símbolos e concepções de mundo afro-brasileiras integram o universo dos “Afro-Sambas”, estabelecendo uma relação entre música, religiosidade, ancestralidade e identidade cultural.
A análise da parceria entre Vinicius e Baden permite compreender, portanto, que os “Afro-Sambas” não constituem apenas uma experiência de fusão musical. O disco representa uma aproximação estética e simbólica com manifestações da cultura afro-brasileira, recuperando elementos que haviam sido historicamente marginalizados ou atenuados nos processos de institucionalização e modernização do samba.
Dessa forma, o terceiro episódio encerra o percurso iniciado nos episódios anteriores, retomando a história do samba, sua marginalização, seus processos de transformação e a trajetória de Vinicius de Moraes até chegar à produção dos “Afro-Sambas”. A obra é compreendida como resultado de um encontro entre literatura, música, cultura popular, religiosidade e ancestralidade, constituindo um importante objeto para refletir sobre a presença e a valorização das matrizes africanas na formação da música brasileira.
Conheça o documentário: "Os Afrosambas - O Brasil de Baden e Vinicius", disponível na HBO.
O que o documentário apresenta?
A narrativa reúne imagens de arquivo e depoimentos de pessoas próximas aos artistas, participantes da gravação e músicos de outras gerações. Entre os entrevistados estão Cynara Faria, do Quarteto em Cy, Maria Bethânia, Dori Caymmi, Jards Macalé, Nelson Motta e Russo Passapusso. Segundo a apresentação do filme, a proposta é examinar tanto os bastidores da parceria quanto as escolhas rítmicas, melódicas, harmônicas e poéticas do álbum.
Como nasceu a parceria?
Vinicius já era um poeta e compositor reconhecido quando ouviu Baden tocar no Rio de Janeiro, em 1960. Os dois se aproximaram, passaram a compor juntos e construíram uma parceria que ia além dos afro-sambas. O disco Vinicius & Odette Lara, lançado em 1963, por exemplo, já reunia composições da dupla. Entre 1962 e 1965, eles criaram as oito músicas que seriam reunidas em Os Afro-Sambas. Isso ajuda a entender um ponto importante: o álbum de 1966 foi o resultado de anos de convivência e experimentação, não o começo da parceria.
O que torna o disco especial?
Nas canções, a poesia de Vinicius encontra o violão de Baden em composições atravessadas por referências ao samba, à capoeira e às tradições religiosas afro-brasileiras. Títulos como “Canto de Ossanha”, “Canto de Xangô”, “Canto de Iemanjá” e “Lamento de Exu” mostram como esse universo também aparece nas palavras e nas personagens evocadas pelas músicas. A sonoridade, porém, não se explica apenas pelos dois autores: o álbum teve arranjos e regência de César Guerra-Peixe e participação vocal do Quarteto em Cy em todas as faixas.