O crescimento contemporâneo do burnout não pode ser explicado apenas pelo excesso de trabalho.
Ele revela algo mais profundo: o adoecimento de uma cultura organizada pela lógica da performance, da comparação permanente e da competição como ideal de existência.
Na sociedade atual, não basta trabalhar; é preciso destacar-se.
Não basta produzir; é preciso superar.
Não basta viver; é preciso provar valor continuamente.
O sujeito passa a ser convocado a existir como marca, resultado, meta, currículo, imagem.
Sua dignidade deixa de repousar no ser e passa a depender do rendimento.
Sob a leitura lacaniana, poderíamos dizer que o discurso contemporâneo radicalizou aquilo que Jacques Lacan formalizou como discurso do mestre e antecipou em sua mutação no discurso capitalista:
Uma engrenagem que promete satisfação ilimitada ao mesmo tempo em que produz falta incessante.
O sujeito é empurrado a consumir objetos, títulos, reconhecimento e desempenho como se neles pudesse encontrar completude, mas quanto mais corre, mais a falta retorna.
(LACAN, Seminário 17: O Avesso da Psicanálise; Conferência de Milão sobre o Discurso Capitalista, 1972).
O burnout surge, então, quando o corpo começa a dizer não àquilo que o eu insistia em dizer sim.
É o momento em que a carne denuncia a mentira da máquina.
Quando o cansaço deixa de ser passageiro e se torna linguagem.
Quando a insônia, a angústia, o esgotamento e a apatia aparecem como mensagens de um sujeito sufocado.
Na teoria lacaniana, o sintoma nunca é mero defeito: ele fala.
Ele comparece onde algo da verdade foi silenciado.
O burnout pode ser lido como sintoma de uma subjetividade capturada pela exigência de um gozo produtivo que direciona o sujeito a trabalhar mais, render mais, aparecer mais e desejar sem pausa.
(LACAN, Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise; Seminário 20: Mais, Ainda).
O drama contemporâneo é que a pessoa passa a valer mais como função do que como sujeito.
O cargo recebe cuidado, a alma, não.
O desempenho é monitorado, o desejo, ignorado.
A agenda é otimizada, a vida interior, abandonada.
Assim, muitos triunfam socialmente enquanto fracassam intimamente.
A psicanálise lacaniana propõe uma torção ética: retirar o sujeito da servidão ao ideal e recolocá-lo em relação com seu desejo singular.
Não se trata de ensinar alguém a produzir melhor, mas de escutar aquilo que, no sofrimento, insiste em pedir outra forma de viver.
Talvez o burnout seja, paradoxalmente, uma interrupção necessária.
Uma falha no sistema que abre passagem para a pergunta esquecida:
Para quem estou vivendo?
E, mais ainda:
O que em mim foi sacrificado para sustentar a imagem de sucesso?
Enquanto a cultura pede desempenho, a análise convida à palavra.
Enquanto o mercado exige adaptação, o inconsciente exige verdade.
Às vezes, adoecer é o único modo que o sujeito encontra para não desaparecer por completo.
Filipe Murat
Psicanalista
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 17: O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. Conferência de Milão (1972): O Discurso Capitalista.
Vivemos em um mundo VUCA, volátil, incerto, complexo e ambíguo.
Nesse cenário, não vence necessariamente quem corre mais, mas quem suporta melhor a incerteza sem colapsar, quem decide sem se precipitar, quem sustenta lucidez quando o ambiente se torna caótico.
A verdadeira vantagem competitiva deixou de ser apenas técnica. Tornou-se psíquica.
Muitos profissionais acumulam cursos, métodos e ferramentas, mas permanecem governados por ansiedade, impulsividade, necessidade de aprovação, medo de errar ou compulsão por controle.
Em momentos críticos, não decidem a partir da clareza, decidem a partir do sintoma.
É aqui que a psicanálise se torna estratégica.
O sujeito frequentemente age capturado por significantes inconscientes, repete padrões, responde a fantasmas, busca reconhecimento onde deveria buscar verdade.
A análise introduz uma ruptura nessa automatização, ela permite que alguém deixe de ser conduzido apenas por reações e passe a responder com maior liberdade.
(LACAN, Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise).
Em linguagem corporativa, quem se conhece melhor tende a errar menos por motivos emocionais invisíveis.
Estudos em neurociência e psicologia organizacional mostram que regulação emocional está diretamente associada à qualidade da decisão, liderança e desempenho sob pressão.
Antonio Damasio demonstrou que emoção e razão não são opostas, emoções organizadas são essenciais para decisões inteligentes. sem integração emocional, a escolha torna-se prejudicada.
(DAMASIO, Descartes’ Error, 1994).
Pesquisas publicadas na Harvard Business Review indicam que líderes com maior inteligência emocional apresentam melhor desempenho, maior capacidade relacional e ambientes mais produtivos.
(GOLEMAN, 1998; HBR).
Um estudo da University of Warwick mostrou que trabalhadores felizes são, em média, 12% mais produtivos, enquanto estados emocionais negativos reduzem desempenho.
(OSWALD, Proto & Sgroi, 2015).
Dados da Gallup mostram que equipes emocionalmente engajadas têm menos absenteísmo, menos turnover e maior rentabilidade.
(Gallup State of the Global Workplace Reports).
Ou seja, equilíbrio emocional não é luxo subjetivo.
É ativo econômico.
Treinamentos ensinam técnicas.
Mentorias ensinam estratégias.
A análise toca no ponto de onde você decide.
Ela trabalha onde nascem sabotagens silenciosas:
necessidade excessiva de agradar
medo inconsciente de crescer
repetição de relações tóxicas
perfeccionismo paralisante
compulsão por reconhecimento
dificuldade de sustentar autoridade
ansiedade frente ao imprevisível
No ensino de Lacan, o sujeito sofre justamente onde desconhece a causa de seus atos.
A análise permite localizar essa causa e reposicionar-se diante dela.
(LACAN, Seminário 17: O Avesso da Psicanálise).
Quando tudo fora oscila, quem tem eixo interno torna-se raro.
A pessoa analisada tende a:
decidir com menos ruído emocional
suportar críticas sem desmontar-se
liderar sem tirania defensiva
negociar com mais escuta
sustentar limites com menos culpa
atravessar crises com maior discernimento
produzir sem se destruir
Nietzsche escreveu: “Aquele que tem um porquê enfrenta quase qualquer como.”
A análise ajuda justamente a reencontrar esse porquê singular, para além das metas impostas pelo Outro.Aonde todos competem externamente e desmoronam internamente, quem faz análise desenvolve uma vantagem difícil de copiar:
A presença íntegra.
Enquanto alguns reagem, ele lê a cena.
Enquanto outros colapsam, ele simboliza.
Enquanto muitos performam, ele sustenta desejo.
E talvez essa seja a forma mais sofisticada de alta performance:
Produzir sem desaparecer de si.
Filipe Murat
Psicanalista
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 17: O Avesso da Psicanálise. Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda. Zahar.
DAMASIO, Antonio. Descartes’ Error. Putnam, 1994.
GOLEMAN, Daniel. What Makes a Leader? Harvard Business Review, 1998.
OSWALD, A.; PROTO, E.; SGROI, D. Happiness and Productivity. University of Warwick, 2015.
GALLUP. State of the Global Workplace (diversas edições).
Há metas que esgotam.
E há desafios que energizam.
À primeira vista, ambos exigem esforço, disciplina e entrega, mas quem observa com mais atenção percebe que nem todo cansaço vem do excesso de trabalho, muitas vezes, ele nasce da falta de sentido.
No ambiente corporativo, tornou-se comum interpretar desgaste apenas como resultado de jornadas intensas, pressão por performance ou acúmulo de demandas, tudo isso pesa, sem dúvidas, mas existe uma exaustão mais silenciosa e profunda, é aquela que surge quando alguém trabalha desconectado do próprio desejo.
É o custo invisível de viver apenas para corresponder...
Na linguagem da psicanálise lacaniana, o sujeito se constitui em relação ao desejo do Outro. Esse “Outro” pode aparecer como a família, a cultura, a liderança, o mercado ou a própria organização, em termos práticos quer dizer que desde muito cedo aprendemos a buscar reconhecimento, aprovação e pertencimento.
No mercado de trabalho isso pode se traduzir em carreiras construídas exclusivamente para corresponder expectativas externas:
atingir metas impostas sem identificação real;
ocupar cargos valorizados socialmente, mas vazios de sentido íntimo;
sustentar uma imagem de sucesso que cobra mais do que devolve;
performar excelência sem escutar a própria motivação.
Quando o profissional opera apenas sob a lógica da obediência e da performance, agradar, entregar, cumprir, impressionar, o trabalho deixa de ser campo de realização e passa a ser cenário de alienação.
Lacan nos lembra que o desejo humano não se reduz à demanda.
A demanda pede algo objetivo, já o desejo, porém, aponta para aquilo que singulariza o sujeito.
Quando toda energia psíquica é capturada por demandas externas, algo se esvazia por dentro.
Alta performance sem sentido vira desgaste premium
Muitas organizações investem corretamente em produtividade, metas claras, governança e accountability, no entanto, quando essas estruturas não dialogam com propósito, autonomia e identificação, o resultado pode ser apenas uma versão sofisticada do esgotamento.
O colaborador entrega.
Mas se apaga.
Cumpre KPI.
Mas perde vitalidade.
Bate meta.
Mas se sente ausente de si.
Não por acaso, pesquisas globais indicam esse movimento.
O relatório State of the Global Workplace da Gallup vem mostrando, em diferentes edições, altos índices de desengajamento e estresse entre trabalhadores no mundo, além da correlação entre engajamento, produtividade e bem-estar.
Quando pessoas percebem sentido no que fazem, os indicadores tendem a melhorar de forma consistente.
A queda de performance vem da carga emocional de trabalhar sem identificação.
Se esforçar por algo que não gera identificação subjetiva cobra um preço elevado, nem sempre imediato, mas progressivo.
Entre os sinais mais comuns:
procrastinação crônica;
irritabilidade difusa;
sensação de esforço constante sem recompensa emocional;
perda de criatividade;
cinismo organizacional;
fadiga relacional;
desejo frequente de fuga, mesmo sem clareza do destino.
Esse profissional pode parecer funcional por fora, mas tá exausto por dentro.
A ausência de identificação também afeta a capacidade de inovação.
Afinal, dificilmente alguém cria com potência naquilo que apenas tolera.
O propósito corporativo precisa produzir sentido individualmente.
Propósito não é slogan motivacional nem frase de parede corporativa e também não significa romantização do trabalho. Trata-se de perceber como determinada atividade conversa com valores, competências, história e o desejo singular.
Quando isso acontece, o esforço muda de natureza.
Continua exigente.
Mas deixa de ser árido.
Continua intenso.
Mas deixa de ser vazio.
O trabalho passa a mobilizar energia em vez de apenas consumi-la.
E existe um papel das lideranças estratégicas neste atravessamento.
Executivos e altas lideranças não devem atuar apenas distribuindo metas, mas construindo ecossistemas onde performance e sentido coexistam.
Algumas perguntas estratégicas importam:
Este talento entende por que sua entrega importa?
Há espaço para autoria ou apenas execução?
O reconhecimento contempla singularidade ou apenas números?
Estamos formando equipes engajadas ou apenas obedientes?
Nossa cultura convoca desejo ou somente conformidade?
Empresas sustentáveis no longo prazo não dependem apenas de cobrança.
Dependem de vínculo simbólico.
Quando o propósito faz sentido, ele deixa de ser cansativo porque deixa de ser apenas obrigação.
O corpo ainda se esforça.
A agenda continua cheia.
Os desafios permanecem complexos.
Mas algo muda:
O sujeito está presente no que faz.
E quando alguém se encontra no próprio trabalho, a energia deixa de ser apenas custo operacional e se torna potência.
Como escreveu Jacques Lacan, o desejo é aquilo que insiste.
Organizações inteligentes aprendem a não sufocá-lo, mas a orientá-lo.
Talvez o futuro da alta performance não esteja em exigir mais das pessoas.
Talvez esteja em reconectá-las ao que faz sentido.
Filipe Murat
Psicanalista
Grande parte do sofrimento contemporâneo não nasce de perigos reais e imediatos, mas da fabricação incessante de ameaças imaginárias.
A mente antecipa perdas, rejeições, fracassos, catástrofes e humilhações futuras como se já estivessem acontecendo, o corpo, sem distinguir plenamente fantasia de realidade psíquica, responde com tensão, alerta e desgaste.
É assim que muitos adoecem sem que nada “tenha acontecido”.
O pensamento acelera tentando prevenir o imprevisível.
Quanto mais tenta controlar, mais produz imagens temidas, quanto mais imagina, menos repousa.
Surgem insônia, ansiedade, irritabilidade, automatismos e uma presença cada vez mais ausente.
A pessoa está no trabalho, mas não está.
Está em casa, mas segue em reunião interna.
Está entre amigos, mas conversando com fantasmas.
Na teoria de Jacques Lacan, o registro imaginário está ligado às imagens, identificações, rivalidades, espelhos e fantasias que estruturam a experiência subjetiva, quando o sujeito fica excessivamente capturado por esse campo, passa a viver mais nas cenas que imagina do que na realidade que habita.
(LACAN, Seminário 1: Os Escritos Técnicos de Freud; Seminário 2: O Eu na Teoria de Freud).
A ansiedade, nesse sentido, muitas vezes não vem do presente, mas do filme interno.
A pessoa ensaia conversas que não ocorreram, fracassos que não chegaram, críticas que talvez nunca venham e vive tentando responder antecipadamente ao desejo do Outro: “E se me julgarem?”, “E se eu falhar?”, “E se eu perder tudo?”.
O pensamento torna-se uma fábrica de cenários hostis.
Lacan afirma que a angústia “não é sem objeto”, isto é, ela aponta para algo da verdade subjetiva que escapa ao controle consciente.
(LACAN, Seminário 10: A Angústia).
Esse modo de viver tem efeitos mensuráveis.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o burnout como fenômeno ocupacional ligado ao estresse crônico no trabalho mal administrado.
A ansiedade e a insônia figuram entre os fatores que mais impactam afastamentos e queda de desempenho.
A Gallup relata, em diferentes edições do State of the Global Workplace, que trabalhadores emocionalmente exaustos apresentam menor engajamento, maior distração, mais erros e maior intenção de desligamento.
Pesquisas da RAND Corporation e da American Academy of Sleep Medicine indicam que privação de sono reduz atenção sustentada, memória operacional, capacidade decisória e produtividade, além de aumentar irritabilidade e acidentes.
Estudos publicados em periódicos como Journal of Occupational Health Psychology associam ruminação mental e preocupação excessiva a fadiga emocional, baixa concentração e deterioração da qualidade de vida.
Em resumo: pessoas cansadas permanecem presentes apenas no crachá.
Subjetivamente, já se retiraram.
Pensar demais gera cansaço.
O cansaço reduz desempenho.
A queda de desempenho gera novas preocupações.
As preocupações aceleram ainda mais o pensamento.
E assim o sujeito gira em torno da própria exaustão.
A psicanálise não promete “pensar positivo” nem silenciar a mente por imposição.
Ela propõe algo mais radical: escutar de onde vêm esses pensamentos e para quem eles trabalham.
Na clínica lacaniana, o sujeito aprende a distinguir:
perigo real de fantasia recorrente
responsabilidade de culpa excessiva
desejo próprio de exigência do Outro
pensamento útil de ruminação estéril
presença viva de funcionamento automático
Ao colocar em palavras o que o domina, algo se desloca.
O que era nuvem difusa ganha nome.
O que era repetição cega ganha sentido.
O que era urgência imaginária perde consistência.
Lacan mostrou que o inconsciente é estruturado como linguagem.
Muitas vezes, aquilo que acelera a mente é uma frase antiga ainda operando em silêncio:
“Não posso falhar”, “preciso agradar”, “tenho que dar conta de tudo”.
(LACAN, Seminário 3: As Psicoses; Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise).
Interpretar essa gramática íntima pode devolver descanso ao pensamento.
A mente exausta não sofre por pensar demais, mas por pensar sempre a mesma prisão com palavras diferentes.
Quando o sujeito sai do cativeiro imaginário, o tempo desacelera.
O sono retorna.
A presença reaparece.
O trabalho rende sem devorar a vida.
E o silêncio deixa de ser ameaça para tornar-se repouso.
Talvez descansar não seja parar de pensar.
Talvez seja parar de obedecer a pensamentos que nunca foram seus.
Filipe Murat
Psicanalista
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 1: Os Escritos Técnicos de Freud. Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 2: O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise. Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 10: A Angústia. Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Zahar.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Burn-out an occupational phenomenon. ICD-11.
GALLUP. State of the Global Workplace (diversas edições).
RAND Corporation. Estudos sobre sono, fadiga e produtividade.
American Academy of Sleep Medicine. Publicações sobre impactos da privação de sono.
Journal of Occupational Health Psychology. Estudos sobre ruminação mental, estresse e desempenho.
Há algo de incômodo em dizer isso com clareza:
Nem todo burnout é depressão. Mas muito burnout deprime.
Durante anos, o mercado tratou o burnout como se fosse apenas uma falha operacional do colaborador, uma falta de resiliência, gestão inadequada do tempo, baixa tolerância à pressão, dificuldade de priorização.
Uma leitura conveniente e perigosamente incompleta.
Porque há momentos em que não é o sujeito que fracassa diante do trabalho, é o trabalho que adoece o sujeito.
No vocabulário executivo, falamos em performance, produtividade, escala, aceleração, metas agressivas, eficiência contínua. Tudo legítimo.
Mas quando a lógica da entrega se torna absoluta, algo silencioso começa a ruir:
A inegociável presença subjetiva de quem entrega.
A pessoa continua comparecendo às reuniões, responde e-mails, atualiza dashboards, cumpre SLA e sustenta aparência de funcionalidade.
Mas por dentro, vai desaparecendo e aqui começa a polêmica.
Uma importante revisão publicada na Clinical Psychology Review concluiu que a distinção entre burnout e depressão é conceitualmente frágil, e que as evidências para separá-los de forma clara são inconsistentes.
Os autores revisaram 92 estudos sobre o tema.
Outro estudo posterior encontrou forte sobreposição entre sintomas de burnout e depressão, sugerindo inclusive que, em algumas análises, ambos podem aparecer como expressões de um mesmo sofrimento psíquico.
Em termos clínicos, a semelhança impressiona:
fadiga persistente
perda de energia
desesperança e desãnimo
queda de desempenho
distanciamento afetivo
Isolamento social
irritabilidade
sensação de vazio
dificuldade de concentração
perda de sentido
Então, qual seria a diferença?
De forma sintética:
Burnout costuma estar ligado a uma exaustão crônica associada ao trabalho, especialmente em contextos de alta demanda e baixo reconhecimento.
Depressão tende a apresentar origem mais difusa e multifatorial, biográfica, relacional, neurobiológica, existencial ou traumática.
Mas no estágio avançado, os territórios se confundem.
É por isso que muitos executivos dizem:
“Não sei se estou deprimido… ou apenas esgotado.”
Talvez por que, às vezes, sejam ambas as coisas.
A psicanálise lacaniana oferece uma leitura precisa:
O sofrimento emerge quando o sujeito é reduzido a objeto da demanda do Outro.
No mundo corporativo, esse Outro pode assumir muitos nomes:
cultura de alta performance
liderança invasiva
metas impossíveis
reconhecimento condicionado
meritocracia sem limite
disponibilidade permanente
Quando alguém vive apenas para corresponder, algo de singular se apaga.
Já não deseja, já não escolhe, já não se reconhece. Apenas responde.
E responder sem existir cobra um preço alto.
O burnout raramente começa no desleixado, ele costuma começar no comprometido.
Naquele que:
sempre entrega
nunca desliga
aceita tudo
se culpa por descansar
transforma valor pessoal em resultado
O colapso não vem por fraqueza.
Vem por excesso de adaptação.
Portanto não basta oferecer mindfulness na sexta-feira e manter violência simbólica de segunda a quinta.
Organizações maduras precisam revisar:
metas estruturalmente inalcançáveis
cultura de urgência constante
recompensa baseada em hiperdisponibilidade
lideranças que confundem pressão com gestão
ambientes onde vulnerabilidade vira risco reputacional
Saúde mental não é benefício periférico, é pura estratégia de sustentabilidade humana.
Talvez a pergunta correta não seja:
“Como aumentar a resiliência das pessoas?”
Talvez seja:
“Quanto sofrimento estamos normalizando em nome da performance?”
Porque há um momento em que não é mais o colaborador que falha.
É o sistema que deprime.
E quando o trabalho apaga o sujeito, o nome pouco importa: burnout, depressão, colapso ou estafa.
O corpo sempre encontra uma forma de dizer o que a agenda tentou calar.
Bianchi, Schonfeld & Laurent (2015). Burnout-depression overlap: A review. Verkuilen et al. (2020). Burnout–Depression Overlap. Lacan, J. Seminários e Escritos.
Amar, para ela, era seguir aquele rastro de verdade que ele deixava no mundo.
No entanto, o tempo e o medo operaram uma transformação silenciosa, o homem que ela amava havia se tornado um estranho impecável.
Para agradar ao público, à família e às conveniências sociais, ele começou a podar suas arestas, cada escolha era uma concessão, cada silêncio era uma renúncia, ele acreditava que, tornando-se "perfeito" e submisso às expectativas alheias, seria ainda mais amado.
E assim, sob a máscara de um personagem ele foi se tornando um desconhecido.
O que ele não percebeu foi a precisão da sentença lacaniana:
"Quando o ser amado vai longe demais na traição a si mesmo, o amor deixa de segui-lo".
Para a psicanálise, o amor não é um contrato de posse entre dois corpos, mas um laço entre dois desejos.
Quando ele cometeu o crime da covardia subjetiva ao trair a própria essência, para ser o que os outros esperavam, ele apagou a luz que a guiava.
Ela tentou alcançá-lo, mas o homem que estava ali era apenas um Ego funcional, uma máscara sem desejo próprio.
O amor, que se alimenta da falta e da busca, não encontrou mais onde pousar.
Não foi falta de paciência ou de carinho; foi uma impossibilidade estrutural, o amor é um caminhar junto, mas ele havia mudado de estrada para uma via morta de alienação.
Sentada à frente dele, ela percebeu que não havia mais um Sujeito ali para ser amado, apenas um avatar que não se reconhecia mais no espelho.
O amor parou, exausto, na beira do caminho.
Ela não deixou de amá-lo por crueldade, mas porque não se pode amar o vazio de alguém que desistiu de si mesmo para caber no mundo.
Filipe Murat
Psicanalista
Lembrei de quando a li pela primeira vez e me parecia contraditória, afinal, vivemos no século do imperativo do sorriso, onde a tristeza é tratada como um defeito de fabricação ou um desvio químico a ser corrigido.
Mas Lacan não estava falando de melancolia paralisante, o "dever" ali não era o de sofrer, mas o de não se distrair.
Lembrei-me de uma paciente que, semanas antes, me pedia uma "saída" para o vazio que sentia ao conquistar tudo o que a cultura lhe dizia ser a felicidade, ela tinha o carro, o cargo e o corpo, mas o vazio continuava lá, fiel como um cão.
A tristeza dela era a sua parte mais honesta, ao tentar eliminá-la com compras ou euforias programadas, ela cometia o que a psicanálise chama de "covardia moral", ela fugia da dor para caber em uma alegria que não era sua.
Assumir a tristeza como dever é, no fundo, um ato de coragem, é o dever de não sermos cúmplices da mentira que diz que somos completos.
Quando aceito que "falta algo", paro de correr desesperadamente atrás de objetos que prometem preencher o que é, por natureza, um buraco.
A tristeza ética é aquela que nos visita quando olhamos para o espelho e admitimos que nenhum amor, nenhum sucesso e nenhuma posse nos salvará de sermos quem somos: seres de falta, náufragos de uma linguagem que nunca diz tudo o que sentimos.
Naquela noite, ao chegar em casa, não busquei o alívio imediato de uma distração qualquer, deixei que a melancolia mansa do ambiente me acompanhasse.
Não era depressão; era lucidez.
Honrar a própria tristeza é, talvez, a única forma de não ser um estranho para si mesmo, é o preço que se paga por não ser um impostor da própria felicidade.
Afinal, quem nunca se permite estar triste, raramente consegue estar, de fato, presente.
Filipe Murat
Psicanalista
Naquele momento, ele encenava a definição mais crua e poética de Jacques Lacan: "O amor é dar o que não se tem a alguém que não quer".
Para a psicanálise, amar não é oferecer flores ou joias, ou qualidades que se "tem".
O verdadeiro dom do amor é a entrega da própria falta, ele estava dando a ela o seu desamparo, a prova viva de que ele não era um ser completo, ele oferecia o "que não tinha": A perfeição esperada por ela.
Ela, no entanto, olhava para ele buscando o herói que projetara no início do namoro, ela não "queria" aquela fragilidade, ela queria o tesouro brilhante que imaginava que ele guardava dentro de si para completá-la.
O descompasso era absoluto e, paradoxalmente, era ali que o amor desabrochava.
Lacan nos ensina que o amor é esse "mal-entendido" magnífico, ele oferece o seu vazio, esperando que ela o acolha, ela busca nele a plenitude, ignorando que ele é tão furado quanto ela.
Amar alguém é suportar esse desencontro, é aceitar que o outro nos entregue sua vulnerabilidade, quando nós, egoísta que somos, queremos que ele entregue nossa solução.
Ao fim do dia, quando ela segurou a mão dele e aceitou aquele silêncio carregado de incertezas, o milagre se deu, ela não recebeu o que queria e ele deu o que não possuía.
No vazio entre o que um não tem e o que o outro não quer, o laço se apertou.
Afinal, o amor não é o encontro de duas metades que se encaixam, mas o abraço de duas faltas que, por uma decisão madura, optam por caminhar juntas no escuro.
Filipe Murat
Psicanalista