O que chamamos de “autoestima” costuma estar profundamente ligado ao registro imaginário, à forma como o sujeito se vê, se compara, se mede diante dos outros.
Essa imagem, no entanto, nunca é inteiramente própria, ela nasce no campo do Outro, no espelho simbólico das identificações, das expectativas, dos ideais.
(LACAN, Seminário 1: Os Escritos Técnicos de Freud; Seminário 2: O Eu na Teoria de Freud).
Assim, aquilo que alguém chama de “baixa autoestima” muitas vezes não é falta de valor e sim excesso de dependência de um olhar externo que nunca se estabiliza.
A pessoa tenta se sentir suficiente…mas a régua muda.
Tenta se reconhecer…mas a referência vem de fora.
Tenta se amar…mas ainda pergunta silenciosamente: “isso basta para o outro?”
E então oscila.
Entre sentir-se demais… e nunca o bastante.
Lacan nos mostra que o eu (moi) é, em grande parte, uma construção imaginária, marcada por alienação.
O sujeito se vê a partir de uma imagem que não coincide com aquilo que ele é em sua divisão.
(LACAN, Estádio do Espelho; Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise).
Por isso, tentar resolver a autoestima apenas fortalecendo a imagem pode ser um esforço infinito e, muitas vezes, exaustivo.
A questão não é apenas “gostar de si”.
É: a partir de onde você se mede?
Quando o valor de alguém depende exclusivamente de reconhecimento, aprovação ou comparação, qualquer ausência de resposta se transforma em queda subjetiva.
Surge a insegurança, a ansiedade, a sensação de inadequação.
Mas há um outro caminho possível.
A clínica lacaniana não busca inflar a imagem, nem convencer o sujeito de que ele é “bom o suficiente”.
Ela opera em outro nível: desloca a questão da imagem para o desejo.
Ao longo de uma análise, algo começa a se transformar silenciosamente:
O sujeito deixa de perguntar tanto
“o que esperam de mim?”
E começa a escutar
“o que, em mim, insiste em validar?”
Essa mudança é decisiva.
Porque quando alguém se orienta menos pelo ideal e mais pelo próprio desejo, a relação consigo mesmo se reorganiza.
A comparação perde força.
A aprovação deixa de ser condição de existência.
O valor deixa de oscilar tanto.
Não se trata de tornar-se imune ao olhar do outro.
Mas de não depender dele para sustentar quem se é.
Curiosamente, aquilo que muitas vezes se busca como “autoestima” aparece como efeito e não como objetivo direto.
Ela surge quando o sujeito já não precisa tanto provar.
Quando pode falhar sem se anular.
Quando pode desejar sem pedir licença.
Quando pode existir sem se justificar o tempo todo.
Talvez autoestima, nesse sentido, não seja se ver melhor no espelho.
Talvez seja não precisar mais dele o tempo inteiro.
E há algo de profundamente silencioso nisso:
uma forma de estar no mundo sem tanta negociação interna.
Sem tanta cobrança invisível e sem tanta necessidade de corresponder.
Não é barulhento.
Não é performático.
Mas é firme.
E, às vezes, começa com uma pergunta simples e difícil:
Se eu não precisasse ser tudo isso… o que restaria de mim?