Um marco para a sustentabilidade dos clubes
O futebol brasileiro, apesar de sua relevância cultural, social e econômica, continua enfrentando desafios estruturais que comprometem sua competitividade e sustentabilidade no longo prazo. A ausência de mecanismos regulatórios sólidos, sobretudo um sistema de Fair play Financeiro, permitiu ao longo das últimas décadas a ampliação de disparidades entre clubes, a prática recorrente de gastos incompatíveis com a realidade econômica e a formação de um ambiente marcado por instabilidade e endividamento crônico.
Mesmo com a unificação do Campeonato Brasileiro em 1971 e avanços pontuais em governança, o país nunca implementou, de fato, um conjunto de regras que limitasse despesas em função das receitas. Como consequência, muitos clubes passaram a operar folhas salariais e contratos acima de sua capacidade financeira, estimulando um doping econômico” que distorce a competição e fragiliza o ecossistema do futebol nacional.
Nesse cenário, a experiência europeia se tornou referência. Desde 2011, a Union of European Football Associations (UEFA) adota o Financial Fair play, condicionando a participação em competições continentais ao equilíbrio financeiro operacional. O mecanismo, ao restringir déficits acumulados e exigir transparência contábil, promoveu maior disciplina, reduziu endividamento excessivo e tornou o mercado de transferências mais previsível. Embora ainda alvo de críticas, sobretudo por supostamente blindar clubes mais ricos, o modelo europeu gerou efeitos concretos: aumento da solvência das equipes, maior controle de gastos e avanço na padronização de práticas financeiras.
A falta de um sistema equivalente no Brasil agravou desigualdades já presentes. Clubes com menor orçamento, frequentemente comprometidos com obrigações trabalhistas e dívidas fiscais, entram em ciclos sucessivos de perda de competitividade: arrecadam menos, investem menos e, diante de resultados negativos, sofrem rebaixamentos que reduzem ainda mais suas receitas, especialmente de televisão e patrocínio. Enquanto isso, equipes que operam acima de sua realidade financeira mantêm folhas infladas, muitas vezes amparadas por adiantamentos de cotas, empréstimos emergenciais ou aportes pontuais de investidores, práticas que mascaram fragilidades estruturais.
Nos últimos anos, esse quadro ficou mais evidente. Em 2025, Corinthians e São Paulo receberam transfer bans da FIFA por inadimplência em pagamentos de negociações internacionais, um sinal claro de que a desorganização financeira ultrapassa fronteiras e afeta a credibilidade do futebol brasileiro no exterior. Paralelamente, cresceu o número de clubes que recorreram ao modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) para lidar com dívidas consideradas impagáveis. Botafogo, Cruzeiro, Bahia e Vasco da Gama aderiram ao modelo como forma de reestruturação profunda, revelando o tamanho do passivo acumulado por práticas de gestão anteriores.
Esses episódios reforçaram a pressão por uma regulamentação nacional. Em resposta, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou em novembro de 2025 as diretrizes do Fair play Financeiro brasileiro, que entrarão em vigor a partir de 2026, com implementação plena em 2028. O modelo estabelece limites de gasto em relação à receita, controle rígido de dívidas de curto prazo, obrigatoriedade de registro detalhado de transações e punições progressivas, que variam de advertências e multas até medidas esportivas em casos mais graves. Embora inspirado no padrão europeu, o sistema brasileiro foi adaptado à realidade local, marcada por forte desigualdade entre clubes, dependência de receitas variáveis e presença crescente das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs).
A expectativa é que essas medidas contribuam para reduzir o desequilíbrio competitivo, aumentar a transparência e promover a profissionalização do setor. No entanto, estima-se que boa parte dos clubes, especialmente aqueles com alto passivo trabalhista e fiscal, enfrentará dificuldades para se adequar logo nos primeiros ciclos de avaliação, exigindo mudanças profundas em gestão, política de contratações e estrutura administrativa.
A insolvência recorrente dos clubes não prejudica apenas atletas e funcionários, mas toda a cadeia produtiva do futebol, que inclui fornecedores, serviços, mídia, torcedores e, de forma mais ampla, a economia do esporte no Brasil. Ao desviar recursos que deveriam ser destinados à formação de atletas, infraestrutura e governança, o endividamento torna o ambiente menos atrativo para investidores e compromete o potencial de desenvolvimento do setor.
Nesse contexto, a adoção do Fair play Financeiro pela CBF simboliza um ponto de inflexão. Não se trata apenas de uma regra contábil, mas de uma mudança de paradigma: exige-se que clubes se tornem organizações financeiramente responsáveis, transparentes e sustentáveis, capazes de competir em igualdade e gerar valor econômico e social. A implementação do sistema, entretanto, dependerá não apenas de fiscalização rigorosa, mas do compromisso dos clubes em abandonar práticas que historicamente sustentaram o futebol brasileiro à custa de sua própria viabilidade.
Assim, o avanço do Fair play Financeiro desponta como um passo fundamental para reequilibrar o futebol nacional, fortalecer sua credibilidade e construir um ambiente esportivo mais justo, profissional e sustentável para os próximos anos.
Por Gabriel Raymond e Kauê Farias| 04/12/2025
Entenda os Riscos Econômicos e a Vulnerabilidade a Intervenções Estrangeiras.
Nos últimos meses, a proposta de equiparar facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) a grupos terroristas reacendeu um debate delicado: até que ponto o endurecimento da legislação penal pode reforçar a segurança nacional sem abrir brechas para interferências externas ou riscos econômicos?
O tema ganhou força com a tramitação do Projeto de Lei 1.283/2025, de autoria do deputado Danilo Forte (União Brasil-CE) e relatado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), o qual pretende alterar a Lei Antiterrorismo para incluir facções e milícias sob o mesmo enquadramento jurídico de organizações terroristas, a mobilização ganhou impulso após a megaoperação policial em favelas no Rio de Janeiro no dia 28 de outubro, que resultou em 121 mortes e é considerada uma das mais letais da história da cidade. A medida busca dar maior poder de resposta ao Estado diante da escalada de crimes violentos e do tráfico transnacional, mas especialistas como Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e Alberto Kopittke, ex-diretor da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Brasil alertam que a mudança poderia ser usada por potências estrangeiras (como os EUA) para justificar intervenções políticas, econômicas ou até militares.
Em tese, a classificação de facções como grupos terroristas permitiria o bloqueio de bens e o rastreamento internacional de recursos, mecanismos já usados contra organizações como o Hezbollah ou o Estado Islâmico. No entanto, a adoção desse enquadramento pode gerar efeitos colaterais no sistema financeiro brasileiro. Bancos internacionais e as agências de classificação de risco poderiam revisar a posição do país nas listas de monitoramento de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, encarecendo o crédito e afastando investimentos.
A vulnerabilidade econômica se torna ainda mais clara quando se observa o grau de infiltração das facções na economia formal. Investigações da Polícia Federal (PF), da Receita Federal do Brasil e do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) indicam que o crime organizado, em especial a Primeiro Comando da Capital (PCC), opera por meio de empresas, fundos de investimento e transações financeiras aparentemente legítimas, o que amplia o risco de sanções internacionais caso o país adote a tipificação de terrorismo.
Em agosto de 2025, as operações como Carbono Oculto, Quasar e Tank, deflagradas pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), PF, Receita Federal e demais órgãos de controle, revelaram que o esquema investigado movimentou aproximadamente R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, por meio de cerca de mil postos de combustíveis em dez estados, além de dezenas de fundos de investimento e fintechs usados como “bancos paralelos”. Estas descobertas demonstram como o dinheiro de origem criminosa circula em setores regulares da economia, tornando difícil separar o ilícito do formal.
Se as facções forem classificadas como organizações terroristas, empresas e investidores com vínculos indiretos poderiam ser atingidos por bloqueios e restrições internacionais. Nesse cenário, instituições financeiras, exportadoras e até plataformas de pagamento digital poderiam enfrentar medidas de contenção que afetariam desde grandes operações bancárias até transações cotidianas, do Pix ao Banco do Brasil.
Outro ponto sensível é o impacto geopolítico. Ao usar a mesma tipificação de terrorismo empregada por organismos multilaterais, o Brasil abriria espaço para cooperações e operações estrangeiras em território nacional, sob o argumento de combate ao terrorismo internacional. Especialistas em segurança e relações internacionais, como Rashmi Singh, doutora em Relações Internacionais e professora na PUC-MG, alertam que tal medida pode gerar risco de fragilização da soberania nacional, sobretudo porque a tipificação de terrorismo costuma abrir caminho para operações conjuntas com menor margem de controle estatal. Como por exemplo, intercâmbio direto de serviço de inteligência com acesso ampliado a bancos de dados nacionais, ou até monitoramento internacional de transações.
Para o ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa, a simples redesignação de facções criminosas como grupos terroristas não teria efeitos práticos significativos no combate a grupos como o PCC e o CV. Há ainda o risco de politização da lei, já que a definição de “terrorismo” é ampla e pode ser manipulada conforme interesses de governo. A ampliação do conceito para incluir grupos criminosos internos levanta questionamentos sobre quem teria poder para decidir o enquadramento e quais seriam os critérios objetivos.
Do ponto de vista econômico, a insegurança jurídica gerada por uma lei mal calibrada pode comprometer o ambiente de negócios e a confiança de investidores estrangeiros. A entrada do Brasil em um cenário de vigilância internacional mais rígida poderia dificultar operações financeiras, elevar o custo do capital e impactar diretamente o câmbio e a balança de pagamentos.
Apesar das divergências, o debate revela um dilema central da política brasileira contemporânea: como equilibrar segurança e autonomia econômica. O combate ao crime organizado é urgente, mas tratá-lo como terrorismo exige cuidado para que o remédio não se torne mais danoso que a doença. O desafio está em fortalecer o Estado sem torná-lo refém de pressões externas financeiras ou políticas.
Por Gustavo Galindo e Maíra Nunes| 14/11/2025
Entre pragmatismo e protagonismo: Quais os principais interesses de ambos os lados?
A aproximação diplomática entre Lula e Trump, intensificada nas últimas semanas, culminou na confirmação de um encontro entre as delegações para esta quinta-feira (16/10). Apesar da aparente distância de uma definição concreta, ganhou forma após sucessivos gestos diplomáticos. Nesta quarta-feira (15/10), o presidente brasileiro confirmou que o encontro ocorreria no dia seguinte, consolidando uma aproximação que começou com breves trocas durante a Assembleia Geral da ONU, ocasião em que ambos demonstraram disposição pública em tomar o diálogo bilateral. Inicialmente, tanto o Itamaraty quanto o Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) consideravam mais prudente um encontro via videoconferência, mesmo como formato de primeiro contato, dada a complexidade logística e política envolvidas.
Diante disso, um encontro ocorreu, brevemente, via telefonema no dia 06/10 (segunda-feira), anunciado pela comunicação oficial do Governo federal, que possibilitou identificar pontos de convergência entre os líderes e dar sequência às negociações. O presidente Lula descreveu que o encontro online foi promissor, buscou estabelecer o Brasil como um parceiro econômico de peso, destacando a posição do país como membro do G20 com superávit na balança de bens e serviços. Devido à boa receptividade da Casa Branca, Trump designou o secretário de Estado Marco Rubio para dar sequência às negociações com o Vice-presidente Geraldo Alckmin, o chanceler Mauro Vieira e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A agenda bilateral tangencia os interesses econômicos brasileiros, principalmente quanto à busca de uma revisão tarifária, imposta pelos EUA no início de 2025, que afeta setores sensíveis como alumínio, aço, madeira e café. Como salientou Haddad, o impacto dessas medidas é pontual, mas reverbera fortemente na microeconomia e na competitividade dessas indústrias. Do outro lado, os interesses americanos giram em torno do acesso a minerais estratégicos essenciais para a transição energética e a tecnologia, e na regulação das grandes plataformas digitais, um setor onde empresas americanas dominam o cenário global. Além do laço representar, politicamente, uma oportunidade de fortalecer a presença econômica dos EUA na América do Sul e contrabalançar a crescente influência chinesa na região. Dessa forma, o diálogo se insere num contexto em que ambos os países buscam reposicionar-se no cenário global, ainda que partindo de agendas políticas e ideológicas contrastantes.
Entretanto a relação segui de maneira pragmática, que apesar da escalada aproximação, recentemente Lula defendeu a soberania da Venezuela, posição reafirmada diante de críticas às ações unilaterais de órgãos americanos no território venezuelano, postura colocada logo após do encontro no dia 16/10 (quinta-feira) entre Mauro Vieira com Marco Rubio, em Washington. Diante disso, o governo brasileiro parece buscar afirmar uma política externa autônoma, capaz de dialogar com potências de espectros ideológicos distintos sem abrir mão da defesa da autodeterminação regional. Essa postura reforça a tentativa de Lula de projetar o Brasil como mediador e protagonista político no cenário internacional.
Contudo, a reaproximação entre Lula e Trump transcende o plano econômico. Ele simboliza um gesto político de reposicionamento estratégico, em que ambos os líderes buscam recuperar influência global e visibilidade doméstica. Se por um lado há divergências ideológicas marcantes, por outro, a diplomacia econômica surge como terreno fértil para a construção de uma nova narrativa de cooperação entre Brasil e Estados Unidos.
Por Gustavo Galindo | 21/10/2025
Senado arquiva proposta que ampliaria as proteções a parlamentares
A PEC da Blindagem, formalmente conhecida como Proposta de Emenda à Constituição n° 28/2019, visava alterar as regras de responsabilização de parlamentares e a maneira como ações penais contra eles poderiam ser conduzidas. De acordo com a proposta, qualquer investigação ou processo contra deputados e senadores apenas dependeria de autorização prévia das respectivas casas legislativas, em votação secreta e com prazo máximo de 90 dias para decisão. Além disso, a PEC também estendia as garantias do foro privilegiado aos presidentes de partidos políticos, o que gerou forte reação da sociedade e de especialistas, que alertaram para os riscos de uma política de “impunidade institucionalizada”.
A PEC foi inicialmente apresentada com o objetivo de modificar aspectos fundamentais da Constituição, porém logo encontrou forte oposição, especialmente dentro do próprio Congresso Nacional. A proposta foi rejeitada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, com parecer contrário aprovado de forma unânime, com 26 votos pela rejeição e nenhum a favor. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da proposta na CCJ, criticou a PEC, classificando-a como um “muro de impunidade” que representaria um retrocesso institucional.
Após o resultado na CCJ, havia a expectativa de que a PEC ainda fosse discutida no Plenário do Senado, mas essa ideia foi rapidamente dissipada pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), que anunciou que o texto estava oficialmente arquivado. Segundo ele, o regimento do Senado não permite a reavaliação de matérias rejeitadas por inconstitucionalidade, o que impediu sua discussão em outras instâncias.
Apesar do arquivamento formal da PEC, movimentações internas no Congresso, principalmente lideradas por membros do “Centrão”, indicam que partes da proposta poderiam ser representadas em outros projetos legislativos. Porém, gerou forte reação popular, protestos em diversas capitais do Brasil marcaram o descontentamento da população, que via na proposta uma tentativa de criar um salvo-conduto para políticos investigados. Movimentos sociais, juristas e organizações de combate à corrupção reforçaram as críticas, destacando que a aprovação enfraqueceria os mecanismos de responsabilização de autoridades e limitaria a atuação do Judiciário e do Ministério Público.
Do ponto de vista econômico, a proposta poderia gerar incertezas sobre a atuação das instituições públicas. A possível diminuição das investigações e penalidades para políticos investigados enfraqueceria a confiança da população e de investidores no sistema político e econômico do país. A falta de transparência e a proteção a práticas de impunidade poderiam afetar negativamente a confiança do mercado, especialmente no cenário atual em que o Brasil enfrenta desafios econômicos como inflação elevada e alta taxa de juros.
Com o arquivamento da PEC, o Brasil evitou um possível enfraquecimento dos mecanismos de fiscalização e responsabilização de autoridades. Para críticos, a derrota do texto representa um trunfo, pois para eles a rejeição do projeto significa a preservação da transparência e a manutenção da democracia. No entanto, para seus defensores, o arquivamento gerou um debate importante sobre a autonomia do Legislativo e as imunidades parlamentares, e embora tenha sido rejeitada, o tema permanece em pauta.
O episódio reflete a resistência popular e as críticas de que ampliar as proteções para políticos poderia prejudicar o funcionamento adequado das instituições democráticas. A pressão civil e o desgaste político gerado pela proposta demonstram que qualquer tentativa de modificar as garantias de imunidade e proteção para políticos deve enfrentar resistência tanto dentro do Congresso quanto fora dele, entre os cidadãos e organizações sociais.
Por Renata Araujo e Victor Venceslau | 05/10/2025
Tentativa de Trump de demitir Lisa Cook gera tensão sobre independência do Banco Central
Na noite de 25 de agosto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a demissão de Lisa Cook, economista e integrante do Conselho de Governadores do Federal Reserve (Fed). A medida, inédita na história recente do Banco Central americano, provocou forte repercussão política e econômica, abrindo questionamentos sobre a legalidade do ato e, principalmente, sobre a independência da autoridade monetária.
Criado para operar de forma autônoma em relação ao Executivo e ao Congresso, o Federal Reserve conta com uma arquitetura institucional que protege seus dirigentes de pressões políticas diretas. Os mandatos longos e blindados contra interferências foram concebidos para garantir decisões técnicas voltadas à estabilidade de preços e ao pleno emprego, evitando desvios eleitorais de curto prazo.
Trump, contudo, justificou a decisão alegando que Cook teria cometido “fraude hipotecária”, acusação levantada pelo diretor da Agência Federal de Financiamento Habitacional, Bill Pulte, e reforçada pelo promotor Ed Martin. Até o momento, Cook não foi formalmente acusada. Em comunicado, ela classificou a medida como “ilegal” e afirmou que permanecerá no cargo.
Na manhã seguinte, o próprio Fed reiterou que Cook segue como membro legítimo do conselho e que qualquer afastamento só poderia ocorrer mediante decisão judicial. O Departamento de Justiça abriu investigação preliminar, mas sem indícios formais que sustentem a demissão.
O episódio intensificou a percepção de que Trump busca ampliar o controle do Executivo sobre agências independentes. Desde o início de sua gestão, ele tem criticado a condução da política monetária, pressionando o Fed a acelerar cortes de juros. Para analistas, a tentativa de remover Cook se insere em um movimento mais amplo de politização do banco central, transformando-o em alvo de responsabilização pelos desafios econômicos atuais.
Do ponto de vista jurídico, o caso é inédito. A Suprema Corte já reconheceu a possibilidade de presidentes demitirem dirigentes de agências independentes, mas também reforçou a natureza singular do Fed. A definição do que constitui “causa justa” para afastar um membro do Conselho de Governadores pode se tornar um marco para o equilíbrio entre autonomia técnica e poder político.
Para os mercados, a crise gera incerteza. A confiança internacional no Fed é um dos pilares da credibilidade da economia americana. Se a independência da autoridade monetária for corroída, há risco de instabilidade nos preços dos ativos, fuga de capitais e deterioração das expectativas sobre inflação e crescimento.
Quase 600 economistas assinaram uma carta pública em defesa da diretora do Federal Reserve, Lisa Cook e do Banco Central dos Estados Unidos, após a dirigente ter sua demissão anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma decisão que está sendo contestada pela diretora na justiça.
Os economistas pedem que todos os ramos do governo defendam a lei e as normas que protegem a gestão econômica dos EUA, enfatizando que a demissão da diretora ameaça o princípio fundamental da independência do banco central e mina a confiança em uma das instituições americanas mais importantes. "Essa confiança é a pedra angular do sistema que impulsionou a vitalidade econômica da América ao longo das décadas", cita o documento.
Mais do que uma disputa pessoal, a tentativa de demitir Lisa Cook coloca em risco um princípio central da economia dos EUA: a blindagem do banco central contra pressões políticas. A depender do desfecho, a relação entre Estado e política monetária pode sofrer mudanças profundas, com efeitos que extrapolam as fronteiras americanas.
Por Guilherme Ludugero e Kauê Farias | 07/09/2025
Impactos sobre o desenvolvimento econômico
No início de julho de 2025, a disputa entre Executivo e Legislativo se intensificou quando o governo federal recorreu ao Supremo após o Congresso derrubar, por ampla maioria, o decreto que elevou o IOF.
Esse decreto (Decreto nº 12.499/2025), editado em maio, havia estabelecido alíquota de 3,5 % sobre várias operações financeiras, como cartões internacionais, remessas ao exterior e crédito corporativo, com o objetivo de reforçar a arrecadação do governo. Em resposta, o Congresso aprovou, no dia 25 de junho de 2025, a anulação do decreto presidencial, em um voto histórico que demonstrou forte rejeição.Para defender a validade do ato executivo, a Advocacia-Geral da União (AGU) ingressou com uma Ação Declaratória de Constitucionalidade no STF, em 1º de julho, acusando o Legislativo de ferir o princípio da separação de Poderes ao revogar unilateralmente um decreto regulamentar, sem decisão judicial.
No dia 4 de julho, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu tanto o decreto presidencial quanto o decreto legislativo, convocando uma audiência de conciliação entre o Executivo e o Legislativo para o 15 de julho. A tentativa de conciliação fracassou e, em 16 de julho, o STF decidiu manter quase integralmente o aumento do IOF, com exceção apenas da taxação sobre operações de “risco sacado”.
Esse confronto expôs o embate entre Poderes, com o Governo defendendo autonomia da execução fiscal, o Congresso afirmando sua prerrogativa de controle sobre atos do Executivo e apenas o Judiciário podendo resolver o impasse. A recente disputa entre os Executivo, Legislativo e Judiciário em torno do aumento do IOF evidenciou como a instabilidade institucional interfere diretamente na economia do país. A elevação do imposto, inicialmente proposta por decreto, buscava reforçar a arrecadação federal. No entanto, a reação imediata do Congresso, que anulou a medida, seguida da judicialização do caso pelo governo e a decisão final do STF, evidenciou um ambiente de incerteza que extrapolou o debate técnico e mergulhou em uma disputa de poder.
Esse tipo de conflito fragiliza a previsibilidade econômica e compromete decisões de investimento, consumo e planejamento por parte do setor produtivo. Em vez de gerar sinais claros ao mercado, a medida passou por um vaivém político e jurídico, desorganizando expectativas e aumentando a percepção de risco. Quando a percepção de risco aumenta, os preços dos ativos reagem, a confiança cai e a economia pode entrar em uma desaceleração profunda.
Um dos graves efeitos das tensões entre os Poderes é a perda de tempo provocada pela estagnação de agendas econômicas fundamentais. Se não houver um consenso sobre as reformas necessárias do ponto de vista fiscal, o país poderá enfrentar uma crise.
Essa desarmonia reduz a capacidade do Estado de tomar decisões estáveis e coerentes, travando pautas estruturais e criando obstáculos para o crescimento econômico. Quando políticas econômicas se tornam reféns de embates institucionais, o país perde competitividade, a confiança empresarial diminui e o capital tende a recuar diante da incerteza.
Uma das maiores dificuldades para reduzir desigualdades e construir um país melhor está na construção de consensos no âmbito político. A crise do IOF foi um exemplo concreto de como o conflito entre os Poderes impacta diretamente o ritmo e a qualidade do desenvolvimento econômico.
Por Gustavo Galindo e Maíra Nunes | 05/08/2025
Como afetam o crescimento global?
No atual cenário geopolítico altamente sensível, marcado por crescente instabilidade no Oriente Médio, que promete refletir não apenas nos campos diplomático e militar, mas também nas engrenagens centrais da economia global, as operações realizadas pelos Estados Unidos, no dia 22 de junho de 2025, tiveram como alvo instalações nucleares do Irã. O ataque fez com que uma crise latente, que já vinha sendo monitorada por mercados e instituições internacionais, reacendesse. Em resposta a tal ato, o parlamento iraniano aprovou quase que imediatamente uma moção propondo o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de escoamento de petróleo do mundo e, mesmo não tendo efeito prático, o anúncio político já foi o suficiente para gerar impacto especulativo dos agentes econômicos.
Este canal estratégico do Golfo Pérsico, responsável por cerca de 20% do petróleo comercializado em todo o mundo, tem sido um vulnerável em outras crises do passado e por mais uma vez volta a ocupar o centro da dinâmica das relações internacionais.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou um comunicado alertando que o simples pronunciamento de um possível fechamento desse canal já é o suficiente para afetar as projeções macroeconômicas de inúmeras economias, em especial aquelas que dependem constantemente da importação desse recurso energético. Segundo a diretora-gerente do Fundo, Kristalina Georgieva, o agravamento do conflito e a efetivação do bloqueio no Estreito de Ormuz tem potencial para desacelerar o crescimento econômico mundial de forma significativa, e aponta que o arranjo entre os possíveis choques nos preços do petróleo e as reações adversas nos mercados financeiros internacionais podem gerar efeitos em cascata sobre produção, consumo, investimento e inflação.
A flutuação nos preços do petróleo após todos os acontecimentos citados anteriormente ilustra bem o grau de incerteza que paira sobre os mercados. A princípio houve uma elevação de 5% no preço do barril de Brent, que atingiu a máxima de US$81,40 nos últimos 5 meses, porém, com a falta de efetividade imediata do bloqueio dessa zona de trânsito petrolífero do Oriente Médio, o preço voltou a cair chegando a pouco mais de US$76, segundo analistas do Goldman Sachs. Caso haja de fato o fechamento do Estreito de Ormuz por um longo período, o preço do Brent poderá alcançar patamares entre US$ 90 e US$ 110 por barril.
Vale salientar que os preços do petróleo são altamente sensíveis a choques de oferta. Diante da forte dependência global de combustíveis fósseis, especialmente nos setores de transporte e produção industrial, adições bruscas nos custos de energia, geram um aumento da inflação e o crescimento econômico passa a ser afetado também, uma vez que o mesmo distorce preços relativos, reduz poder de compra e leva ao desestímulo de investimentos e consumo por meio da elevação das taxas de juros.
Além dos efeitos financeiros e inflacionários, a ameaça de interditar o Estreito de Ormuz também atinge em cheio o comércio internacional, já que nos dias seguintes ao ataque houve um aumento nos preços de seguro e frete, à medida que as transportadoras tiveram que adotar rotas diferentes ou até mesmo reduzirem a sua velocidade por questões de segurança.
Tais movimentos que divergem das rotas tomadas regularmente, afetam não apenas o petróleo, mas também outros bens como os insumos industriais, grãos e bens de consumo. Esses custos adicionais representam uma alta ameaça à estabilidade econômica dos países em desenvolvimento e que possuem menor flexibilidade fiscal e dependem ativamente da importação desses insumos.
Em síntese, a instabilidade no Oriente Médio, agravada pelo ataque dos EUA às instalações nucleares iranianas e pela ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz, coloca o mundo diante de uma crise com profundas repercussões geopolíticas e econômicas. Apenas a possibilidade de interrupção da rota estratégica de Ormuz já desencadeou pressão inflacionária, incerteza no mercado financeiro e no consumo global. Além disso, o aumento nos custos de frete e seguros, junto a reorganização das rotas comerciais, demonstra que o impacto é estendido até cadeias de suprimentos e comércio internacional em ampla escala. Neste panorama, o mundo como um todo enfrenta não apenas um desafio diplomático e militar, mas também um desafio de resiliência econômica, no qual a cooperação e organização entre as nações será decisiva para mitigar os riscos de uma recessão prolongada.
Por Camilly Galvão e João Santana | 05/07/2025
Diante de incertezas globais e pressões inflacionárias
Em um cenário econômico global marcado por crescentes incertezas e pressões inflacionárias persistentes, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil (BCB) tomou uma decisão significativa em sua 270ª reunião, realizada em 7 de maio de 2025. Por unanimidade, o comitê optou por elevar a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, em 0,5 ponto percentual, fixando-a em 14,75% ao ano (a.a). Essa decisão representa a sexta alta consecutiva e coloca a taxa no maior patamar desde julho de 2006, quando os juros atingiram 15,25% a.a, sinalizando um aperto monetário robusto em resposta aos desafios correntes.
A trajetória ascendente da Selic, iniciada em setembro de 2024, quando a taxa estava em 10,75% a.a., reflete a complexa conjuntura enfrentada pela autoridade monetária. O comunicado divulgado pelo Copom após a reunião aponta uma combinação de fatores domésticos e externos que justificam a postura mais contracionista. No âmbito internacional, a principal preocupação reside na instabilidade econômica dos Estados Unidos, intensificada pela guerra comercial iniciada pelo presidente Donald Trump, cujos desdobramentos afetam as cadeias globais de valor, pressionam os preços das commodities e geram volatilidade nos mercados financeiros.
Internamente, o Copom continua a monitorar de perto a dinâmica inflacionária e seus determinantes. Apesar dos esforços para ancorar as expectativas, as projeções de inflação permanecem acima do centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 3% para os anos de 2025 a 2028, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
Segundo o Boletim Focus à época da decisão, as projeções do mercado indicavam uma inflação de 5,53% para 2025, ultrapassando o teto da meta (4,5%), e de 4,51% para 2026, situando-se no limite superior do intervalo. Para 2027 e 2028, as expectativas eram de 4% e 3,80%, respectivamente, ainda acima do centro da meta. O próprio Banco Central admitiu a possibilidade de descumprimento da meta em junho de 2025, o que marcaria seis meses consecutivos com inflação acima do teto.
Além das pressões externas, o Copom cita fatores domésticos que contribuem para a persistência inflacionária. A resiliência do nível de atividade, o mercado de trabalho aquecido e a elevação dos gastos públicos são mencionados como elementos que mantêm a demanda agregada em patamar elevado, dificultando a convergência da inflação para a meta. Embora o BCB busque promover uma desaceleração da economia para conter os preços, o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, avaliou no final de abril, que os sinais de arrefecimento ainda eram "muito iniciais", exigindo vigilância contínua.
A elevação da Selic para 14,75% ao ano tem implicações significativas para diversos aspectos da economia brasileira. O principal canal de transmissão da política monetária ocorre por meio das taxas de juros praticadas no mercado de crédito. A tendência é que o custo do dinheiro para famílias e empresas aumente, refletindo o encarecimento do custo de captação para os bancos.
Dados de março de 2025 já indicavam a taxa média de juros bancários em 44% ao ano, o maior nível em quase dois anos, e a expectativa é de continuidade desse as famílias movimento. Esse encarecimento do crédito tende a desestimular o consumo e o investimento. Famílias enfrentam maiores dificuldades para financiar bens de consumo duráveis ou imóveis, enquanto as empresas postergam projetos de expansão devido ao custo elevado do capital. O resultado esperado é uma desaceleração no ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), tendência já observada nos dados do último trimestre de 2024 .
Outro impacto relevante incide sobre as contas públicas. O governo federal, como principal emissor de títulos da dívida pública, enfrenta um custo maior para rolar seus débitos e financiar seus gastos. A despesa com juros da dívida pública, que já era significativa, tende a aumentar ainda mais. Nos doze meses encerrados em março de 2025, essa despesa somou R$948 bilhões, o equivalente a 7,9% do PIB, contribuindo para o aumento do endividamento público. Juros mais altos dificultam o ajuste fiscal e ampliam as preocupações quanto à sustentabilidade da dívida.
Por outro lado, a elevação da Selic torna os investimentos em renda fixa mais atraentes. Títulos públicos indexados à Selic (como o Tesouro Selic) e outros ativos, como CDBs e debêntures, passam a oferecer retornos nominais mais elevados. Esse movimento tende a atrair investidores conservadores, ao mesmo tempo que reduz a atratividade do mercado de ações e de ativos mais voláteis. A taxa de juros real (descontada a inflação esperada) também se eleva, colocando o Brasil novamente entre os países com maiores juros reais do mundo, o que pode atrair capital estrangeiro de curto prazo, mas também pressionar a taxa de câmbio.
O Copom adotou um tom de cautela em seu comunicado, indicando que as próximas decisões dependerão da evolução do cenário econômico e das projeções de inflação. A frase: “Para a próxima reunião, o cenário de elevada incerteza, aliado ao estágio avançado do ciclo de ajuste e seus impactos acumulados ainda por serem observados, demanda cautela adicional na atuação da política monetária e flexibilidade para incorporar os dados que impactem a dinâmica de inflação” sugere que o comitê pode estar se aproximando do fim do ciclo de alta. No entanto, novas elevações não estão descartadas, caso a inflação e as expectativas não cedam.
A condução da política monetária seguirá exigindo um delicado equilíbrio entre o controle da inflação e os impactos sobre a atividade econômica e as contas públicas, em um ambiente global e doméstico repleto de desafios.
Por Maxuel Felipe e Paula Sousa | 05/06/2025
Tarifas, retaliações e seus efeitos no Brasil
No último mês, a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China intensificou-se significativamente, com uma série de aumentos tarifários e medidas retaliatórias que elevaram as tensões econômicas entre as duas maiores economias do mundo. Em abril de 2025, o governo dos EUA, sob a liderança do presidente Donald Trump, anunciou um aumento substancial nas tarifas sobre produtos chineses, elevando-as para até 145%. Essa medida foi justificada como uma resposta à falta de reciprocidade comercial por parte da China e à necessidade de proteger as indústrias americanas de práticas comerciais consideradas desleais. Trump afirmou ter feito centenas de acordos tarifários com líderes estrangeiros e expressou confiança na conclusão de negociações com a China.
Em retaliação, a China implementou tarifas adicionais de 84% sobre as importações dos EUA em 10 de abril, posteriormente aumentando essas tarifas para 125% em 12 de abril. As autoridades chinesas criticaram as ações dos EUA como unilaterais e prejudiciais ao sistema de comércio multilateral, instando os EUA a resolverem as diferenças por meio do diálogo e da cooperação. Além das tarifas, a China adotou outras medidas, como restrições à exportação de minerais de terras raras, essenciais para a produção de tecnologia, e iniciou investigações antitruste contra empresas americanas. Essas ações visam pressionar os EUA e proteger os interesses econômicos chineses.
Enquanto isso, o impacto econômico dessas medidas começou a se manifestar, empresas multinacionais, como Procter & Gamble e PepsiCo, revisaram suas projeções de lucros devido ao aumento dos custos e à incerteza econômica resultante das tarifas. O Fundo Monetário Internacional alertou que a escalada da guerra comercial representa um risco significativo para a economia global, já fragilizada, e instou ambas as nações a buscarem uma resolução rápida para evitar maiores danos econômicos.
Apesar das declarações do presidente Trump sobre negociações em andamento, autoridades chinesas negaram a existência de conversas formais, indicando um impasse nas relações comerciais. A falta de progresso nas negociações e as medidas unilaterais de ambos os lados aumentam a incerteza no comércio internacional e pressionam as cadeias de suprimentos globais.
Em março de 2025, a Apple, segunda maior empresa do ramo de tecnologia dos EUA, já havia intensificado suas exportações de iPhones fabricados na Índia para os EUA, enviando cerca de 600 toneladas de dispositivos, avaliados em aproximadamente US$2 bilhões. Esse movimento marca um recorde para seus contratados indianos e demonstra o compromisso da empresa em diversificar sua cadeia de suprimentos e reduzir a dependência da manufatura chinesa. Essa reestruturação da cadeia de suprimentos da Apple reflete uma tendência mais ampla entre empresas multinacionais de tecnologia que buscam diversificar suas operações para mitigar riscos associados a disputas comerciais e políticas entre grandes potências econômicas.
Em todo o ano de 2024, as importações dos EUA, somente do setor de Equipamentos elétricos e eletrônicos somam US$127,06 bilhões. Já a China possui uma dependência ligada ao mercado de commodities agrícolas (soja, milho) totalizando US$29,25 bilhões em importações.
Em resumo, o último mês foi marcado por uma escalada significativa na guerra comercial entre os EUA e a China, com aumentos tarifários mútuos e medidas retaliatórias que aprofundaram as tensões econômicas e aumentaram os riscos para a economia global.
A disputa comercial entre Estados Unidos e China abriu espaço para o fortalecimento de outros parceiros comerciais, como o Brasil. Líder nas exportações de carnes e soja, o país vem se beneficiando da maior demanda chinesa, impulsionada pelas restrições às importações norte-americanas. As medidas tarifárias anunciadas pelo presidente Donald Trump provocaram reações imediatas no mercado econômico e comercial global, levando a China a cancelar a compra de 12 mil toneladas de carne suína dos Estados Unidos e a não renovar a habilitação de pelo menos 390 frigoríficos americanos, restringindo parte das exportações de carne bovina norte-americana para o mercado chinês, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Diante desse cenário, o Brasil desponta como um fornecedor estratégico. O país é líder mundial na exportação de carnes, com mais de US$12 bilhões movimentados, correspondentes a 2,89 milhões de toneladas do produto. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), no último ano, a China manteve sua posição como principal destino da carne bovina brasileira, com 1,33 milhão de toneladas exportadas. Nessa perspectiva, o Brasil, que conta com 65 plantas frigoríficas habilitadas para o comércio, vê no recuo na renovação dos frigoríficos americanos uma oportunidade de fortalecer ainda mais sua presença no mercado chinês.
Além do setor de carnes, a soja também se destaca como uma das principais commodities brasileiras beneficiadas pela atual conjuntura internacional. No que diz respeito às exportações de soja, Brasil e Estados Unidos são os principais fornecedores do grão para a China. Em 2024, o país asiático importou 105 milhões de toneladas de soja. Desse total, 71% vieram do Brasil e 21% dos EUA, respectivamente, mostram dados do TradeMap da Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa tendência vem se consolidando nos últimos anos: entre 2020 e 2024, o Brasil manteve uma média de aproximadamente 65% de participação nas importações de soja pela China, enquanto os Estados Unidos, em trajetória de perda de espaço, registraram uma média de 27,4% no mesmo período. Esse movimento reforça o papel estratégico do Brasil no atendimento à crescente demanda chinesa por soja, especialmente diante das tensões comerciais com os norte-americanos.
Diante desse contexto, é evidente que as novas tarifas impostas no âmbito da guerra comercial não apenas comprometem significativamente as exportações norte-americanas, mas também ampliam a competitividade do produto brasileiro no mercado chinês. Dados recentes da Secretaria de Comércio Exterior do Brasil (Secex) mostram que, apenas no primeiro trimestre de 2025, a China já adquiriu 16,5 milhões de toneladas de soja brasileira, consolidando a tendência de substituição das compras de soja americana pelo produto nacional. Esse movimento não ocorre apenas como uma resposta automática às tarifas, mas reflete uma reconfiguração mais ampla das cadeias globais de suprimentos e das relações comerciais internacionais. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos enfrentam uma barreira tarifária sobre seus produtos na China, o Brasil aparece como alternativa confiável para atender à demanda chinesa, beneficiando-se não apenas pela qualidade e volume de sua produção agrícola, mas também pelo contexto geopolítico que favorece parcerias estratégicas fora do eixo EUA-China. Assim, o Brasil não apenas desfruta de uma vantagem comercial momentânea, mas também tem a oportunidade de transformar esse cenário em um fortalecimento duradouro das relações com a China, ampliando seus mercados e consolidando sua posição de destaque no comércio global, especialmente no setor agrícola.
Por Sabrina Monteiro e Wellington Domingos | 05/05/2025
Transformação digital em ação
Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) tem assumido um papel central na transformação estrutural da economia global. De maneira geral, a IA pode ser definida como o ramo da ciência da computação dedicado ao desenvolvimento de sistemas capazes de realizar tarefas que normalmente exigiriam inteligência humana, como percepção, raciocínio, aprendizado e tomada de decisão (Russell & Norvig, 2021). A evolução dessa tecnologia não apenas acelerou processos produtivos, como também alterou a lógica de funcionamento de setores econômicos inteiros, tornando-se o motor principal de uma nova era: a corrida pela inteligência artificial.
Inicialmente restrita a ambientes corporativos de alta complexidade ou a grandes centros de pesquisa, a inteligência artificial (IA) expandiu consideravelmente sua aplicação nas últimas décadas, impulsionada pelo avanço dos modelos de aprendizado de máquina (machine learning) e pelo aumento exponencial da capacidade computacional. Esse desenvolvimento técnico permitiu o surgimento de aplicações cada vez mais sofisticadas, culminando na ascensão de um subconjunto particularmente promissor da IA: a inteligência artificial generativa. A IA generativa refere-se a sistemas capazes de produzir conteúdo inédito – como textos, imagens, códigos, composições musicais e modelos de simulação – a partir de grandes volumes de dados, utilizando arquiteturas avançadas como redes neurais profundas (deep learning) e transformadores (transformers). Diferentemente de modelos tradicionais, que apenas classificam ou reconhecem padrões, a IA generativa busca replicar, ampliar e até criar processos cognitivos, abrindo caminhos inéditos para a automação criativa e a inovação em diversos setores. Por esse motivo, a IA generativa tem sido vista como uma tecnologia-chave do século XXI, objeto de intensos investimentos e disputas geopolíticas. A chamada corrida pela inteligência artificial tornou-se uma prioridade estratégica para nações e corporações, com implicações que ultrapassam o campo econômico, alcançando dimensões de segurança nacional, soberania digital e poder simbólico. Grandes potências como Estados Unidos e China disputam a liderança no desenvolvimento de modelos cada vez mais autônomos e potentes, enquanto a União Europeia busca estabelecer marcos regulatórios que assegurem o uso ético e responsável da tecnologia. Em paralelo, empresas globais competem por talentos, dados e infraestrutura computacional, consolidando um ambiente de inovação acelerada e assimétrica.
É nesse contexto de intensa transformação e competição tecnológica que se insere o surgimento da DeepSeek, uma plataforma de código aberto lançada em 2024 que rapidamente ganhou relevância no ecossistema global de IA. Diferente das abordagens proprietárias dominantes, a DeepSeek propôs um modelo descentralizado de desenvolvimento e acesso à inteligência artificial generativa. Seu diferencial reside na capacidade de disponibilizar modelos altamente avançados, otimizados e de alta performance de forma aberta, gratuita e personalizável, permitindo que desenvolvedores, pesquisadores, instituições públicas e privadas – independentemente de seu porte – possam treinar, ajustar e implantar sistemas próprios de IA. Essa iniciativa representou uma inflexão importante na lógica de distribuição do poder tecnológico. Ao romper com o monopólio das grandes corporações sobre os modelos mais sofisticados de IA, a DeepSeek promoveu uma democratização do poder computacional e intelectual, incentivando a criação de soluções locais, adaptadas a contextos específicos, e estimulando a inovação descentralizada. Sua arquitetura aberta e colaborativa favoreceu a entrada de novos agentes no ecossistema de IA generativa, ao mesmo tempo em que reduziu barreiras de entrada técnicas e financeiras que limitavam o acesso a essa tecnologia de ponta.
O impacto gerado pela DeepSeek foi expressivo e imediato. Economias emergentes, que historicamente enfrentam barreiras técnicas e financeiras para adotar tecnologias de ponta, passaram a ter acesso facilitado a ferramentas avançadas de IA. Como consequência, novos ecossistemas de inovação foram estabelecidos em países do Sul Global, impulsionando setores produtivos, acadêmicos e governamentais. Nos Estados Unidos, pequenas e médias empresas registraram aumentos de produtividade de até 30% com soluções baseadas na plataforma. Na Europa, a aplicação de IA generativa expandiu-se para áreas como agricultura de precisão, saúde pública digitalizada e gestão energética inteligente. Nos países em desenvolvimento, o efeito foi ainda mais profundo: com menor dependência de fornecedores internacionais e com a possibilidade de adaptar os modelos de IA às suas necessidades locais, essas nações passaram a explorar soluções tecnológicas sob uma lógica de soberania digital e inovação inclusiva. O Banco Mundial estima que, graças à difusão da IA – catalisada por plataformas como a DeepSeek – a economia global pode adicionar entre 7 a 10 trilhões de dólares ao seu produto agregado até o fim da década. Além da dimensão econômica, essa transformação também redesenhou a hierarquia de valor entre os setores. Enquanto a indústria tradicional experimentou ganhos incrementais em produtividade, setores ligados ao conhecimento – como ciência de dados, automação de serviços, educação personalizada e saúde preditiva – passaram a liderar a nova dinâmica econômica. A inteligência artificial deixou de ser vista como uma tecnologia emergente para se tornar uma infraestrutura transversal, isto é, uma base tecnológica que permeia múltiplas camadas da atividade humana e organizacional, moldando decisões estratégicas, otimizando cadeias produtivas e ampliando o potencial de inovação.
Contudo, essa reconfiguração estrutural trouxe consigo desafios significativos. A demanda por profissionais especializados aumentou exponencialmente, acirrando a competição global por talentos na área de IA. Ao mesmo tempo, o debate sobre a governança algorítmica – ou seja, os princípios éticos, jurídicos e políticos que regulam o uso e a tomada de decisão por sistemas automatizados – tornou-se central nas discussões acadêmicas, empresariais e governamentais. A geopolítica digital também ganhou novas camadas, com países disputando não apenas infraestrutura, mas também dados e soberania tecnológica. Mesmo diante desses desafios, a inovação gerada por plataformas como a DeepSeek consolidou uma transição estrutural na economia global, inaugurando uma era em que capital intelectual, dados e capacidade computacional se tornam os principais vetores de geração de valor. É nesse contexto de transição global que o Brasil emerge como um ator relevante, com dinâmicas internas que refletem e, em certos aspectos, ampliam o impacto da IA sobre a economia nacional. Os efeitos dessa transformação já podem ser observados de maneira concreta no cenário brasileiro
Em março de 2025, o impacto das inteligências artificiais (IAs) na economia brasileira já aparece em dados concretos. A adoção de IAs cresceu aceleradamente: em 2023, 74% das empresas brasileiras já haviam incorporado IA, frente a 61% em 2022. Esse movimento contribui para o forte desempenho de setores ligados à tecnologia. Em 2024, por exemplo, os serviços de informação e comunicação – que englobam telecomunicações e tecnologia da informação – cresceram 6,2%, ritmo bem superior ao do setor de serviços como um todo (3,1%). O Brasil também desponta como polo de inovação em IA, contando com 144 centros de pesquisa dedicados e ocupando o 15º lugar mundial em produção científica sobre IA. Os investimentos públicos no setor devem atingir R$ 22 bilhões até 2028, e cada real investido pelo governo atrai R$ 3,34 da iniciativa privada, demonstrando o potencial da IA em impulsionar a economia e a inovação. Entre as áreas com mais centros de pesquisa em IA estão a indústria e manufatura (30 centros), saúde (25) e gestão corporativa (20), evidenciando a importância estratégica da IA nesses segmentos.
Empresas brasileiras já colhem ganhos de eficiência com a IA e mantêm forte otimismo. Uma pesquisa com executivos mostra que 44% das empresas no país já obtiveram resultados concretos com o uso de IA, e outros 46% esperam impactos ainda em 2025. Impulsionadas por esses retornos, 62% das companhias planejam aumentar os investimentos em IA em 2025 em comparação a 2024. As principais motivações para adoção das novas tecnologias são melhorar a experiência do cliente (objetivo de 64% das empresas) e elevar a produtividade (51%). Na prática, o benefício mais citado da IA foi justamente o aumento da produtividade e eficiência, apontado por 67% dos entrevistados, seguido da melhoria no atendimento ao cliente (46%). Esses ganhos vêm tanto da automação de tarefas repetitivas quanto do suporte à tomada de decisão. Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) sugerem, inclusive, que a adoção ampla de IA pode elevar o PIB brasileiro em cerca de 5% na próxima década, graças a ganhos de eficiência e novos investimentos.
No mercado de trabalho, a difusão da IA traz oportunidades e desafios. Segundo o FMI, cerca de 45% da força de trabalho brasileira está exposta às tecnologias de IA – proporção bem acima da média de outras economias emergentes (30%) – o que significa que quase metade dos empregos no país poderá passar por mudanças com a automação inteligente. Desse total, estima-se que 15% dos trabalhadores terão a IA como complemento, aumentando sua produtividade, enquanto 30% enfrentam risco de substituição por máquinas inteligentes. Por outro lado, estudos indicam que a IA deve gerar mais postos do que eliminar: até 2025, projeções apontam a criação de cerca de 2 milhões de novos empregos ligados à tecnologia, dada a necessidade de supervisão humana, treinamento de algoritmos e manutenção dos sistemas de IA. De fato, a introdução da IA tem impulsionado funções especializadas e aberto vagas em áreas antes inexistentes. Os trabalhadores mais qualificados tendem a se beneficiar: todos os níveis devem ter aumento salarial com a IA, mas os ganhos serão maiores entre quem tem alta especialização. Diante disso, a qualificação profissional tornou-se prioridade. A falta de profissionais capacitados é citada como barreira por 28% das empresas brasileiras, e muitas organizações já reagiram: 62% das empresas investem na capacitação de seus funcionários em habilidades de IA, e outras 35% planejam iniciar treinamentos específicos ainda neste ano. Em resumo, março de 2025 confirma que as IAs estão movimentando a economia do Brasil – estimulando crescimento setorial, elevando a produtividade e exigindo adaptação do mercado de trabalho – enquanto o país se posiciona para aproveitar ao máximo essa transformação tecnológica.
Por Arthur Brasil e Lucas Falcão | 05/04/2025
Tarifas, retaliações e efeitos globais
Em março de 2025, o governo de Donald Trump anunciou uma nova rodada de tarifas sobre produtos importados, reacendendo a chamada "guerra comercial". A medida, que já havia sido uma marca de seu primeiro mandato, voltou a gerar tensões internacionais e debates sobre seus efeitos na economia global. Mas, afinal, o que são tarifas? Por que Trump insiste em utilizá-las? Quais são as consequências para os países envolvidos? E o que isso pode significar para o futuro do comércio mundial?
1. O que são tarifas e como funcionam?
Tarifas são impostos sobre produtos importados, aplicados para encarecer mercadorias estrangeiras e proteger a indústria doméstica. Funcionam da seguinte forma: um país impõe uma taxa sobre produtos estrangeiros, aumentando seu preço no mercado interno. Isso torna os produtos nacionais mais competitivos em relação aos importados.
Por exemplo, se os EUA impõem uma tarifa de 25% sobre o aço chinês, o preço do aço chinês nos EUA aumenta, incentivando a compra de aço americano. Essa medida pode beneficiar a indústria nacional, mas também tem efeitos colaterais, como o aumento dos custos para empresas que dependem de insumos importados.
2. Por que Trump usa tarifas?
A política tarifária de Trump tem três objetivos principais:
Proteger empregos americanos: Trump argumenta que as tarifas ajudam a preservar empregos na indústria nacional, como a siderúrgica e a automotiva.
Reduzir o déficit comercial: Os EUA têm um déficit comercial significativo com países como China e México, e as tarifas são uma forma de equilibrar essa balança.
Fortalecer a posição dos EUA: Trump usa as tarifas como ferramenta de negociação em acordos comerciais, pressionando outros países a cederem em negociações.
No primeiro mandato, Trump já havia imposto tarifas sobre produtos chineses, europeus e de outros países, gerando retaliações e tensões comerciais. Em 2025, ele retomou essa estratégia, mas com alguns ajustes.
3. A guerra comercial em 2025: O que aconteceu?
Em fevereiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou medidas tarifárias, que já faziam parte de sua promessa de campanha. Os primeiros países a serem afetados por essas medidas foram o Canadá, o México e a China, principais parceiros comerciais dos EUA. A medida previa tarifas de 25% sobre produtos mexicanos e canadenses, enquanto os produtos chineses seriam taxados em 10%. O presidente recuou e suspendeu as medidas por 30 dias para o Canadá e o México após acordos com ambos os países, mas continuou prometendo novas tarifas sobre outros produtos que poderiam impactar as dinâmicas comerciais com outros países, como o Brasil.
Em março de 2025, Trump anunciou novas tarifas de 25% sobre produtos como aço, alumínio, 18% sobre o etanol, além de tarifas sobre produtos agrícolas. Também foi aumentada a porcentagem de tarifas impostas à China, passando de 10% para 20%.
México e Canadá: São parceiros comerciais dos EUA no acordo USMCA (substituto do NAFTA) e enfrentaram tarifas de 25% sobre seus produtos importados.
China: Embora não tenha sido o foco em 2025, a China ainda sofria os efeitos das tarifas impostas durante o primeiro mandato, e agora as tarifas chegaram a 20% sobre seus produtos.
Brasil: As exportações de aço e alumínio foram afetadas, já que cerca de 47% das exportações de aço do Brasil são destinadas aos EUA, enquanto as exportações de alumínio representam 16%. Produtos agrícolas também foram impactados, gerando preocupações no setor agropecuário.
No entanto, após pressões políticas e econômicas, Trump recuou e suspendeu a cobrança de tarifas sobre produtos do México e do Canadá até abril. O recuo foi motivado pela pressão de setores da economia americana, como a indústria automotiva, e pelo risco de retaliações comerciais.
4. Contexto das Importações dos EUA:
É importante ressaltar que os três maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos são Canadá, México e China. A partir de dados do Internacional Trade Center (Intracen), somando as exportações e importações com esses três países, o fluxo comercial total ultrapassa 2 trilhões de dólares anualmente. O comércio com o Canadá movimenta cerca de 784 bilhões de dólares por ano, enquanto as trocas comerciais com o México giram em torno de 800 bilhões de dólares. Já a China representa aproximadamente 595 bilhões de dólares no comércio bilateral.
De acordo com os dados obtidos do World Integrated Trade Solution (WITS), a China consolidou-se como o maior fornecedor dos Estados Unidos, com as importações americanas provenientes do país asiático aumentando de 3,98% em 1991 para 17,07% em 2022. Esse crescimento reflete a dominância chinesa em setores como produtos manufaturados e eletrônicos. O México também ganhou destaque, elevando sua participação de 6,24% para 13,61% no mesmo período, impulsionado pela integração regional e pelo acordo USMCA. Enquanto isso, o Canadá, embora tenha mantido uma participação significativa (caindo de 18,39% para 13,24%), viu sua relevância diminuir em relação à China e ao México. Por outro lado, o Japão registrou uma queda expressiva, passando de 18,81% para 4,58%, reflexo da estagnação econômica e da crescente concorrência de outros mercados.
5. Reações internacionais
A guerra comercial gerou reações imediatas dos países afetados. Muitos ameaçaram impor tarifas sobre produtos americanos, como carros, alimentos e tecnologia.
México e Canadá: Anunciaram tarifas sobre produtos agrícolas e industriais dos EUA.
China: Manteve tarifas sobre produtos americanos, como soja e carne.
Além das retaliações comerciais, a guerra comercial também afetou as relações diplomáticas. Países como México e Canadá, que são parceiros estratégicos dos EUA em questões de segurança e meio ambiente, expressaram insatisfação com as medidas de Trump.
6. Efeitos da guerra comercial
Os efeitos da guerra comercial são sentidos em diferentes níveis:
Para os EUA:
Benefícios: Proteção temporária para setores como aço e alumínio.
Desafios: Aumento nos custos de produção para indústrias que dependem de insumos importados, como a automotiva.
Efeitos para o consumidor: Pressão inflacionária e possíveis aumentos de preços.
Para os países afetados:
Redução nas exportações: Países como México e Canadá enfrentaram queda nas vendas para os EUA.
Desaceleração do crescimento econômico: A incerteza comercial reduziu investimentos e o ritmo de crescimento global.
Para o comércio mundial:
Desaceleração do comércio internacional: Aumento da incerteza e redução do fluxo de mercadorias.
Riscos de recessão: Economias dependentes de exportações, como Alemanha e Japão, foram especialmente afetadas.
7. O futuro da guerra comercial
O desdobramento da guerra comercial dependerá de vários fatores:
Continuação das tarifas: Se Trump mantiver as tarifas, os conflitos comerciais podem se intensificar, gerando mais retaliações e incerteza.
Acordos comerciais: A suspensão temporária das tarifas pode abrir espaço para novas negociações e acordos.
Reflexos nas eleições americanas: A política comercial de Trump pode ser um tema central nas próximas eleições, com críticos argumentando que as tarifas prejudicam a economia americana.
A guerra comercial no segundo mandato de Trump reacendeu debates sobre os efeitos das tarifas na economia global. Enquanto o governo americano defende a proteção da indústria nacional, muitos especialistas alertam para os riscos de uma escalada nos conflitos comerciais e seus reflexos negativos sobre o crescimento econômico. Essas medidas podem, a longo prazo, resultar na fragmentação do comércio global, com o possível fortalecimento de acordos regionais sem a participação dos Estados Unidos. Isso pode incentivar países a buscarem novos parceiros comerciais além dos EUA, o que, a longo prazo, fragilizaria a posição americana no cenário internacional. A suspensão temporária das tarifas em março de 2025 pode ser um sinal de que até mesmo Trump reconhece a complexidade e os riscos dessa estratégia. O que fica evidente é que, em um mundo globalizado, decisões comerciais de um país têm efeitos em cadeia, afetando milhões de pessoas ao redor do globo.
Por Beatriz Duarte e Laila Januário | 10/03/2025
Clima, guerras e demanda. Entenda os motivos do aumento:
O café registrou no começo do ano de 2025 uma forte alta de seu preço no mercado internacional e doméstico. Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a commoditie tão presente na cultura diária e cotidiana do brasileiro registrou um preço de mais de R$ 2.316,65 por saca de 60kg no dia 15 de janeiro de 2025, chegando a ser comercializado em média a um valor de R$ 42,65 nos supermercados brasileiros no mês de dezembro de 2024, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).
O que motivou o aumento dos preços do grão moído? Alguns fatores se destacam no aumento do preço dessa commoditie:
Instabilidade climática: Com fortes secas e ondas de calor, que prejudicam as novas safras de café, fator esse que também explica as pressões nos preços do café ao longo da série histórica;
Guerras e conflitos: Fator esse que impacta no custo de transportes do grão no qual aumenta seu custo de logística no mercado internacional, mediante as guerras no Oriente Médio e leste Europeu;
Consumo interno crescente: Segundo dados da ABIC, o brasileiro aumentou o consumo do alimento no ano de 2023 em 1,64%, um aumento na demanda por café.
O Brasil possui relações fortes com o café, historicamente a economia brasileira foi fortemente pautada pela exportação do grão para diversos países, no ano de 2024, o país registrou recorde nas exportações do café, chegando a comercializar cerca de 47,3 milhões de sacas de café.
Em relação a previsões futuras do preço do café, podemos esperar que o mercado deve permanecer volátil ao longo de 2025. A instabilidade climática, que tem sido um dos principais fatores de aumento nos preços, ainda representa um desafio significativo. Dados meteorológicos apontam que as regiões produtoras de café no Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) destacou que o verão de 2024/2025 será marcado por temperaturas acima da média em todo o território, com calor intenso e em outros grandes exportadores, como Colômbia e Vietnã, enfrentam riscos de eventos extremos, incluindo secas prolongadas e tempestades inesperadas. Isso pode reduzir ainda mais a oferta do grão e causar segundo Alfred Marshall em seu livro Principles of Economics (1890), um aumento do preço devido a redução da oferta do produto não ser acompanhada por uma redução na demanda do produto para o mercado chegar em um equilíbrio.
Ademais, o custo logístico internacional, agravado pelos conflitos no Oriente Médio e no leste europeu, tende a impactar o preço final, como já foi abordado anteriormente. Porém se não for realizada uma solução diplomática para esses conflitos em 2025, as cadeias de transporte global continuarão enfrentando desafios, como o aumento nos preços dos combustíveis e dificuldades em rotas marítimas, acarretando um aumento nos preços dos transportes do café que serão repassados pera os consumidores finais.
No mercado interno, o aumento da demanda por café também deve manter os preços elevados. A ABIC estima que o consumo interno de café pode crescer mais 1,5% em 2025. Causando um maior desequilíbrio entre a oferta de café e a demando pelo produto, que tem uma tendência de crescimento consistente nos últimos anos.
Assim, fica evidente que o mercado cafeeiro enfrentará desafios complexos para o ano de 2025, impulsionados por fatores climáticos, geopolíticos e pelo aumento da demanda interna. Apesar das incertezas, o café deve continuar desempenhando um papel fundamental na economia brasileira, com produtores, distribuidores e consumidores buscando formas de se adaptar a esse cenário dinâmico de aumento nos preços. Investimentos em tecnologias agrícolas, soluções diplomáticas para conflitos internacionais e políticas públicas que promovam a sustentabilidade na produção podem ser estratégias-chave para mitigar os impactos e garantir a competitividade do setor no futuro.
Por Gabriel Raymond Le Campion e João Pedro de Amorim | 20/02/2025