O projeto Periferia que Lê foi idealizado pelo escritor e educador social Marcos de Sá, morador da comunidade do Grande Bom Jardim, em Fortaleza. A iniciativa começou a tomar forma em 2019, após sua participação em palestras sobre a realidade das bibliotecas brasileiras durante a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará. Impactado pelo cenário apresentado, Marcos passou a refletir sobre formas de contribuir com sua própria comunidade.
À época, ele já atuava há mais de dois anos com crianças e adolescentes entre 3 e 15 anos, a maioria em situação de vulnerabilidade social. Entre as atividades desenvolvidas estavam aulas de língua portuguesa, rodas de leitura, teatro educacional, ações de reciclagem e práticas voltadas à reflexão social. Ainda assim, surgia o desafio de ampliar o impacto dessas ações, especialmente diante da constatação de que muitas dessas crianças, que chegavam a mais de duzentas, não tinham acesso a livros em casa e, em muitos casos, nunca haviam recebido um exemplar como presente.
Foi nesse contexto que surgiu o Prêmio Book Brasil, iniciativa cuja inscrição previa como contrapartida a doação de livros, materiais escolares e jogos educativos. A primeira edição, realizada entre dezembro de 2019 e março de 2020, contou com a participação de mais de 63 escritores de diversas regiões do país. As doações arrecadadas possibilitaram a formação de kits que beneficiaram mais de 150 alunos do Instituto Katiana Pena (IKP).
Com o início da pandemia e o isolamento social, as atividades presenciais foram suspensas, dificultando a entrega das doações que continuavam chegando. Diante desse cenário, Marcos buscou alternativas seguras para manter o acesso aos livros. A primeira ação foi a disponibilização dos exemplares em uma plataforma literária no Terminal de Ônibus do Siqueira. Para ampliar a divulgação, foi criado o perfil no Instagram @periferiaquele, que rapidamente mobilizou a comunidade.
A repercussão foi significativa: novas doações passaram a chegar, vindas não apenas do bairro, mas também de outras regiões e estados. Apesar do alcance da ação no terminal, surgiu a necessidade de atingir diretamente quem mais precisava. Foi então que nasceu a ideia da geladeira literária. A partir de uma mobilização nas redes sociais, foi doado um refrigerador, que ganhou pintura artística do jovem morador e artista plástico Antonio Fernando Costa Silva. Com o apoio de moradores, que contribuíram com materiais e transporte, a primeira geladeira foi instalada em 4 de julho de 2020, na Avenida Ari Maia, 950, no Bom Jardim.
Meses depois, uma segunda geladeira foi implantada na Comunidade Leonel Brizola, na Granja Lisboa. No local, também foram realizadas ações culturais, como contação de histórias, apresentações de mágica e distribuição de livros acompanhada de lanche para a comunidade, com o apoio da moradora Irmã Josy, que cedeu sua residência para as atividades.
Paralelamente, o projeto ampliou seu olhar para os artistas da periferia que também escrevem, dando origem ao coletivo Periferia que Escreve, formado por 20 autores do Grande Bom Jardim. A iniciativa resultou na coletânea Somos a Periferia que Escreve (em versão impressa e digital), lançada em 18 de dezembro de 2021, no Teatro Marcus Miranda, no Centro Cultural Bom Jardim. O processo também gerou um documentário sobre a formação do grupo, disponível no YouTube.
O coletivo ainda produziu quatro edições de informativos literários em formato de jornal, distribuídos gratuitamente nas ruas e também disponibilizados em versão digital. Ao longo de sua trajetória, participou de eventos literários, palestras e festivais, como a IV Semana de Livros Livres da Biblioteca da UFC (Campus do Pici) e o Festival A Massa, realizado pelo Candeeiro Cultural no CCBNB, além de ações em escolas e encontros virtuais com artistas periféricos.
Em 2022, o grupo realizou, em parceria com a Biblioteca Mundo da Lua e o Prêmio Book Brasil, o evento “Dia D” na Ladeira dos Tabajaras, no Rio de Janeiro, promovendo a distribuição de livros e atividades culturais na comunidade.
No mesmo ano, o coletivo passou a integrar a Periferia Brasileira de Letras (PBL), rede nacional de coletivos literários de favelas e periferias, representando o estado do Ceará.
Com o apoio da Associação Cultural Santa Teresinha do Menino Jesus, localizada na Granja Lisboa e presidida por Neurides Sousa, o projeto passou a contar com um espaço físico para encontros, atividades literárias e funcionamento de sua biblioteca comunitária. O acervo foi ampliado por meio de doações de pessoas físicas e instituições, incluindo a SUPESP, que contribuiu com mais de 1.200 livros, com apoio do jornalista Aécio Santiago e a presença de autoridades como o secretário de Segurança Pública, Dr. Sandro Caron, e o superintendente Dr. Helano Matos.
Em 2024, o coletivo contou com o apoio da ativista, escritora e antropóloga Mona Lisa Silva, que representou o grupo em eventos, feiras de doação de livros, ações formativas e no congresso da PBL em Salvador.
Em 2026, o Periferia que Lê completa seis anos de atuação. A data simbólica de 14 de maio marca a criação do perfil no Instagram — ponto de partida de uma iniciativa que, desde então, vem transformando o acesso à leitura e fortalecendo a literatura nas periferias.
Ações na Comunidade Leonel Brizola, Granja Lisboa.
Diante do cenário literário brasileiro, ainda marcado pela concentração de investimentos e grandes eventos fora dos territórios periféricos, o Periferia que Lê nasce com o propósito de evidenciar essa desigualdade e ampliar o acesso à leitura como um direito fundamental. Em contextos onde a sobrevivência cotidiana é prioridade, o acesso ao livro e à cultura frequentemente se torna limitado, reforçando ciclos históricos de exclusão.
Nesse cenário, a arte segue sendo um espaço de resistência e expressão. Apesar das narrativas recorrentes que associam as periferias à violência, esses territórios produzem cultura de forma intensa e diversa. Linguagens como literatura, música, teatro, dança e circo emergem como ferramentas de transformação social, muitas vezes desenvolvidas de forma independente e sem apoio institucional.
O nome do projeto é, por si só, uma afirmação: a periferia lê. E lê muito.
Ao longo de sua trajetória, o Periferia que Lê estruturou ações voltadas à democratização do acesso ao livro, como a implementação de geladeiras literárias e a criação de espaços comunitários de leitura. No entanto, a continuidade dessas iniciativas enfrenta desafios significativos. Atualmente, as geladeiras literárias encontram-se desativadas, em razão da ausência de recursos para manutenção, o que resultou no desgaste dos equipamentos. Da mesma forma, o projeto não dispõe, neste momento, de um espaço físico fixo para suas atividades.
Outro desafio constante é a mobilização e permanência de voluntários. A dificuldade de acesso a recursos por meio de editais e a inexistência de financiamento contínuo impedem a remuneração das equipes, o que impacta diretamente na sustentabilidade das ações a longo prazo.
Apesar dessas limitações, o coletivo segue em atividade, ainda que de forma mais pontual e adaptada às condições atuais. As ações têm ocorrido por meio de eventos esporádicos em espaços públicos e comunitários, com a realização de distribuição gratuita de livros, oficinas, saraus e contação de histórias. Nessas ocasiões, mesas literárias são montadas para garantir o acesso direto da população aos livros, mantendo viva a essência do projeto.
A iniciativa também continua apostando na articulação com parceiros e no engajamento da comunidade como caminhos para sua continuidade e expansão. Cada ação realizada reafirma o compromisso com a democratização da leitura e com o fortalecimento da produção cultural periférica.
Mesmo diante dos desafios estruturais, os impactos seguem sendo percebidos por meio dos relatos do público atendido, especialmente de crianças e jovens que têm, muitas vezes, seu primeiro contato com o livro por meio das ações do projeto. Esses retornos reforçam a relevância do trabalho e evidenciam a urgência de políticas públicas e investimentos que garantam o acesso à cultura de forma mais equitativa.
O Periferia que Lê permanece como uma iniciativa independente, sustentada pelo trabalho voluntário e pela colaboração de pessoas que acreditam na leitura como ferramenta de transformação social. Mais do que um projeto, trata-se de um movimento que resiste, se reinventa e segue atuando, mesmo diante das adversidades.
Avó e netos com livros que foram buscar na geladeira literária da Rua Ari Maia. Foto: Marcos de Sá