Camila Oliveira Sobreira
Camila Oliveira Sobreira
Pra mim até hoje ainda são muito vívidas as memórias da presença da Arte na minha infância: o ponto de partida da nossa trajetória no universo criativo. Algumas pessoas seguem adiante explorando esse campo inesgotável, e eu, entendi muito cedo, que essa também seria minha escolha. Hoje eu percebo a importância de apoiadores nessa jornada, que se inicia em nossa chegada ao mundo. São familiares, tutores, educadores, que vão nos apresentando à uma vida criativa, um olhar curioso e sensível para as experiências ao redor.
E são essas vivências que trago no meu museu particular de memórias, que me guiam no caminho de investigações nos campos da Arte, Educação e Saúde Mental. O fazer artístico aos poucos foi ganhando incentivo com formações que me possibilitam até hoje o estudo e a prática artística em diversos contextos.
No ano de 2008, ingressei na Universidade Federal de Pernambuco, na Licenciatura em Artes Plásticas. Os anos seguintes são de um profundo mergulho na Arte. Fui construindo a minha base com o apoio de mestres, educadores e estágios em diversas áreas, que me possibilitaram conhecer um pouco do vasto território da Arte Educação. Uma vivência em particular, me norteia até hoje e acho importante ressaltar: a monitoria de Arte Educação no Hospital Psiquiátrico Ulysses PE, com a professora Doutora Ana Lisboa. Mais adiante essa experiência me guiará no rumo da Arteterapia. Em 2013, concluí a graduação e concorri no meu primeiro edital, passando com a Exposição autoral "Sensações do Tempo”, no Instituto de Arte Contemporânea do Recife - IAC.
Recém formada, fui percebendo que havia um lugar na Arte ainda pouco explorado por mim: Arteterapia. Então, no ano seguinte, decidi iniciar a pós que me levaria à territórios fundamentais na minha jornada: Arte e Saúde Mental. Foi na TRAÇOS, com as Professoras Cristina Lopes, Andréa Graupen e Edna Lopes, que dei partida no campo da Arte como processo terapêutico.
Nos anos seguintes, enquanto estudava Arteterapia, dei continuidade às aulas de Arte Educação particulares e em escolas da cidade, além de oficinas diversas na área. Mas, dois momentos em especial, me trazem memórias de muito aprendizado e relevância: A curadoria do Artista Plástico, portador do TEA, Jackson Santana, nos anos de 2014, 2017 e 2018. E o estudo do “Rincón del Arte” em Madri, com a arte educadora Rita Nogueira. Este último foi no ano de 2015, fruto do edital da Prefeitura do Recife. E me possibilitou produzir a Oficina “Arte e comunidade” no MAMAM e um minicurso sobre processo criativo no Museu Murillo La Greca.
Foi em 2016 que realizei um desejo antigo: abrir meu atelier. Em parceria com o Espaço Santosha, idealizado pela psicóloga e minha mãe, Regina Oliveira. Lá pude ir materializando projetos como atendimentos em Arteterapia, cursos, oficinas, rodas de diálogo em Arte, etc. Uma fase de muito aprendizado e trocas, que fortaleceram o meu fazer artístico e minhas escolhas profissionais. Em meados de 2018, recebi dois convites que aceitei sem exitar: fazer parte do corpo docente da residência em psicologia do Hospital Psiquiátrico Ulysses PE, e ser membro da associação de Arteterapia de Pernambuco (ARTE-PE). Dois lugares que me mantém conectada com as lutas políticas da minha profissão e me permitem aprender e contribuir nesses espaços de reflexão e resistência!
A pandemia no ano de 2020, e a necessidade de readaptar as relações sociais, só vieram reforçar a urgência em olharmos para nossa essência criativa e as formas que nos relacionamos conosco e com o mundo. Encontrei ainda mais força naquelas antigas memórias de infância, me lembrando que um olhar curioso e sensível frente à vida, nos dá sentido e coragem para mudanças. Foi então, que muitas das ações passaram a ser online. Atendimentos, aulas, reuniões, cursos, oficinas, grupos de estudo. E a possibilidade, mesmo que ainda um pouco caótica surgia: O novo! um esboço foi se construindo, uma nova proposta de trabalho, reunindo toda a minha trajetória e parcerias que criei (e ainda vou criar), ao longo da minha jornada.
E é no ano de 2021 que nasce o Ovo: Atelier Relacional. Que traz um formato híbrido, de encontros presenciais e/ou online, com propostas formativas e terapêuticas nas áreas de Arte, Educação e Saúde Mental. O Ovo é um ecossistema criativo que incentiva experiências transformadoras com a Arte e a potência dos encontros! Desenvolvendo nossas habilidades artísticas e emocionais, através de cursos, oficinas, grupos de estudos, entrevistas, atendimentos, etc.
Reviver esses momentos, e me ver nesse ponto do caminho, é me reencontrar com pessoas queridas que me ensinaram o que trago hoje. É saber que ainda cruzarei com outras parcerias nessa jornada. Um grande mapa afetivo vai se desenhando através de lembranças por lugares que andei, alunos e mestres que conheci e vou conhecer. São muitas as histórias e relações criadas a partir do desejo em comum: “fazer arte, porque viver não basta”. (Ferreira Gullar).