Giro de notícias NEPBRICS
Agosto/2025
Giro de notícias NEPBRICS
Agosto/2025
Por Gabriele Rodrigues e Luna Sarno.
Publicado em 23/09/2025
1. Após Cúpula do Rio, líderes confirmam agenda de governança inclusiva e clima
Declaração de líderes reforça multilateralismo, reforma da governança global e cooperação em finanças climáticas.
A Declaração-Marco da 17ª Cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro em 7 de julho de 2025, posiciona o bloco como liderança no financiamento climático, defendendo a reforma da arquitetura financeira internacional, o fortalecimento do multilateralismo e a implementação efetiva do Acordo de Paris. O texto apoia o “Mapa do Caminho de Baku a Belém”, que visa mobilizar 1,3 trilhão de dólares para países em desenvolvimento, e enfatiza a ampliação de recursos para adaptação, preferencialmente por meio de doações e condições concessionais.
Apesar de avanços políticos, a estratégia permanece ancorada em mecanismos típicos do capitalismo financeiro global, como blended finance, garantias e títulos temáticos, que frequentemente socializam riscos e privatizam ganhos. A coexistência de instrumentos concessionalizados com soluções que “reempacotam” dívida pode ampliar a dependência financeira dos países do Sul. Ademais, a aposta em mercados de carbono e taxonomias harmonizadas, embora promissora, não assegura justiça climática nem evita o greenwashing, se não acompanhada de salvaguardas rigorosas.
A crítica às barreiras comerciais “verdes” unilaterais, como o CBAM europeu, é legítima, mas precisa vir acompanhada de propostas concretas de métricas próprias e rastreabilidade confiável para proteger cadeias produtivas. Nesse cenário, o Brasil poderia atuar de forma mais incisiva: criando linhas de crédito concessionais para adaptação via BNDES; adotando financiamento em moeda local com proteção cambial pública; desenvolvendo uma taxonomia nacional robusta e socialmente vinculante; e liderando no BRICS a criação de padrões alternativos de métricas climáticas.
Essas ações tornariam a posição brasileira mais coerente e efetiva, transformando o discurso em prática e reduzindo a dependência das engrenagens financeiras que historicamente reforçam desigualdades globais sob o rótulo da transição verde.
2. Rússia: BRICS não é anti-EUA, mas não aceita “linguagem de ameaças”
Vice-chanceler Sergei Ryabkov diz que o bloco não é antiamericano; recado mira o clima de tarifas/sanções.
A declaração do vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, de que o BRICS não constitui uma aliança “anti-americana” e que não aceitará “linguagem de ameaças e manipulação” deve ser compreendida à luz de um contexto mais amplo de tensões comerciais e políticas entre os Estados Unidos e países do Sul Global. As declarações ocorreram poucos dias após o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçar impor tarifas adicionais de 10% aos países do bloco, reiterando um padrão histórico de uso de medidas econômicas como instrumentos de pressão geopolítica.
A partir de análises recentes, constata-se que tais medidas se inscrevem numa lógica imperialista, em que o poder econômico é mobilizado para condicionar decisões políticas e estratégicas de países periféricos ou semiperiféricos. A sobretaxa de até 50% sobre produtos brasileiros, acompanhada de acusações políticas e ingerência em temas internos, como a defesa de figuras ligadas a atos golpistas, não apenas ilustra os intentos norte-americanos, mas também desafia princípios fundamentais da soberania, conforme delineados historicamente desde Bodin até as interpretações contemporâneas do direito internacional.
Nesse cenário, o discurso russo busca reposicionar o BRICS como um espaço de articulação multipolar, capaz de negociar em termos de igualdade jurídica e política entre Estados, rejeitando a caracterização de “aliança contra” e adotando a narrativa de “aliança para” pelo desenvolvimento, para a reforma da governança global e para a redução de assimetrias. Contudo, essa postura não elimina o desafio interno do bloco: a necessidade de maior coesão estratégica e ação coordenada, sobretudo diante de ataques que, como o tarifaço de Trump, miram simultaneamente em interesses econômicos e na estabilidade institucional dos países-membros.
O Brasil, em particular, apresenta uma contradição: é alvo direto das medidas coercitivas, mas não tem explorado plenamente o potencial do BRICS como plataforma de resposta coletiva e de criação de mecanismos alternativos, seja na esfera comercial, financeira ou tecnológica, que reduzam a dependência de sistemas controlados pelo Norte Global. A reação brasileira, até agora, tem sido majoritariamente diplomática e voltada à negociação com setores empresariais, sem abrir canais amplos de consulta com trabalhadores e movimentos sociais, atores fundamentais para sustentar uma política externa de soberania ativa.
Do ponto de vista acadêmico e estratégico, a questão transcende o debate sobre tarifas. Trata-se de compreender o entrelaçamento entre poder econômico, ingerência política e construção de alternativas institucionais no sistema internacional. O desafio que se impõe ao Brasil e aos demais membros do BRICS é fortalecer sua atuação como bloco não alinhado, capaz de negociar a partir de uma posição de força coletiva, sem ceder à lógica de fragmentação e pressão bilateral típica da política externa estadunidense. Isso requer, além de posicionamentos retóricos, a implementação de instrumentos concretos de integração econômica, financeira e tecnológica, que materializem o princípio de que “soberania não se negocia” no cotidiano das relações internacionais.
3. Tarifas dos EUA catalisam coordenação BRICS
Diante da política tarifária de Washington, líderes do BRICS articulam respostas e agenda comum.
A política tarifária impulsionada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caracterizada por um "tarifaço" e pressões explícitas de Washington, tem catalisado uma resposta estratégica e contra-hegemônica do Brasil, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, que busca profundamente ampliar as relações com os países do BRICS.
Com o intuito de solidificar um bloco de resistência e angariar apoio dos líderes do BRICS, Lula tem promovido uma intensa agenda diplomática. Sua conversa com o líder chinês, Xi Jinping, por exemplo, não visou apenas "novas oportunidades de negócios", mas sim avançar na parceria bilateral como um pilar para a unidade e autossuficiência entre os países. A retórica de Xi Jinping, que explicitamente apoiou a soberania nacional brasileira contra "qualquer unilateralismo e protecionismo", deve ser lida como uma crítica direta e inequívoca aos "ataques" de Donald Trump ao governo brasileiro e ao Judiciário, além da intensificação da guerra comercial de Washington contra Pequim. As conversas de Lula com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e as futuras agendas com Indonésia e África do Sul, reforçam a estratégia brasileira de contrapor o unilateralismo estadunidense com a defesa enfática do multilateralismo e uma maior integração entre nações que buscam alternativas ao domínio hegemônico.
Essa intensa articulação é uma demonstração clara de que o Brasil não pretende se submeter às pressões políticas de Washington nem depender exclusivamente de uma única potência. O BRICS, mais do que um "refúgio", emerge como uma plataforma crucial para a auto afirmação brasileira no tabuleiro geopolítico global, especialmente diante da recalcitrância da Casa Branca em reverter o "tarifaço". A observação de Lula de que os EUA teriam "ciúmes" do BRICS e sua analogia com a formação do G20 em resposta à crise de 2008 (causada pelos EUA) sublinham a percepção de uma hegemonia estadunidense em declínio e a busca por novas arquiteturas de poder.
A política tarifária de Trump, que impôs tarifas significativas sobre produtos de México, Canadá e China, abriu uma perigosa "guerra comercial". Este protecionismo sem precedentes para os EUA em quase um século é comparado por historiadores à Lei Tarifária Smoot-Hawley, que notoriamente exacerbou a Grande Depressão, um sombrio prenúncio dos potenciais impactos destrutivos.
Apesar de serem tecnicamente pagas por empresas importadoras, a verdade é que o custo dessas tarifas é, em grande parte, transferido para os consumidores americanos, que arcam com preços mais elevados, e para as próprias empresas americanas, que veem suas margens de lucro corroídas. Governos estrangeiros, por sua vez, têm respondido com contramedidas retaliatórias agressivas, como as tarifas chinesas sobre produtos agrícolas dos EUA e as imposições canadenses, evidenciando que a política de Trump provoca uma espiral de conflitos comerciais que prejudicam múltiplas economias.
Os "objetivos" declarados por Trump para as tarifas são, em sua essência, uma colcha de retalhos contraditória, que vai desde o controle de fluxos migratórios até a "proteção" de indústrias domésticas e um sistema "recíproco" para evitar que os EUA sejam "roubados". No entanto, a análise mais crítica revela que sua abordagem é, na verdade, um esforço deliberado para acelerar uma "transição política" nos EUA, redefinindo sua postura no cenário geopolítico para uma de "abertamente imperial". A burguesia que respalda Trump busca, fundamentalmente, impor um "fechamento de regime" e um protecionismo agressivo, visando blindar o mercado interno da China e "enquadrar" nações que, como o BRICS, intensificam suas relações com Pequim. Isso reflete uma demanda por um regime mais autoritário e menos "democrático", mesmo que o custo seja a precarização das relações de trabalho e a repressão sindical.
A deterioração da relação entre Brasília e Washington, já tensa, agravou-se drasticamente após a cúpula do BRICS em julho, revelando a profunda insatisfação estadunidense com a crescente autonomia do Brasil. Enquanto o Itamaraty se esforça para projetar a imagem de relações "inabaláveis" com o BRICS, o governo brasileiro se vê obrigado a mitigar os impactos internos do "tarifaço", buscando evitar o desemprego em setores vulneráveis. A consideração de uma "briga" na OMC e a não descartada retaliação unilateral por parte de Lula sinalizam a resistência do Brasil à imposição unilateral de Washington, revelando que a política externa brasileira não mais se submete passivamente aos ditames de um império em decadência.
Fonte: Tarifaço de Trump contra o Brics pode acabar fortalecendo união do bloco, dizem especialistas
País em foco: Rússia
4. Putin liga para Xi, Modi e outros líderes antes de reunião com os EUA
Maratona diplomática para alinhar posições BRICS antes do encontro com Trump.
A intensa rodada de contatos diplomáticos conduzida pelo presidente russo Vladimir Putin com líderes da China, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos e outros países revela uma dinâmica estratégica que transcende o caso específico da guerra na Ucrânia. Trata-se de um movimento que reforça a coesão política e a capacidade de coordenação do BRICS e de seus parceiros próximos frente à pressão externa exercida por Washington, particularmente diante das ameaças de novas sanções e tarifas impostas pelo governo norte-americano.
O contexto imediato dessas conversas é marcado pela tentativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de condicionar a resolução do conflito ucraniano a um conjunto de concessões territoriais e econômicas, acompanhado da imposição de prazos e penalidades para países que mantenham relações comerciais com Moscou. A reação de Putin, ao buscar alinhamento prévio com Xi Jinping e Narendra Modi — líderes das duas maiores economias emergentes do BRICS —, sinaliza a intenção de projetar uma frente diplomática unificada, que resguarde não apenas os interesses imediatos da Rússia, mas também a autonomia decisória de seus parceiros.
Neste quadro, a soberania do BRICS assume um significado expandido: não se limita ao princípio clássico de independência estatal, mas envolve a capacidade do bloco de atuar como polo articulador de agendas próprias, contrabalançando a centralidade dos Estados Unidos no sistema internacional. A presença de países como China e Índia, que figuram entre os maiores importadores de petróleo russo e que vêm sendo alvo de sanções e tarifas norte-americanas, evidencia que a disputa não é apenas militar ou territorial, mas essencialmente geoeconômica.
O telefonema de Putin a Modi, por exemplo, ganha relevância à luz da recente sobretaxa de 25% imposta por Trump sobre produtos indianos, medida interpretada por Nova Délhi como tentativa de dissuadir sua relação energética com Moscou. A resposta indiana, de manter o diálogo aberto e agradecer pelas atualizações russas, reforça a lógica de um multilateralismo pragmático, no qual a política externa é desenhada para preservar margens de manobra frente às coerções impostas pelo centro hegemônico.
A inclusão de líderes da África do Sul e dos Emirados Árabes Unidos nesse circuito de conversas evidencia ainda a ampliação da diplomacia BRICS para além de seu núcleo original, integrando parceiros estratégicos que compartilham da visão de um sistema multipolar e menos suscetível a medidas unilaterais. Ao tratar de possíveis sedes para um encontro de cúpula com Trump, a menção aos Emirados como local alternativo não apenas contorna barreiras políticas, mas também simboliza a busca de neutralidade estratégica e de fóruns de negociação fora da esfera de influência ocidental direta.
Assim, a sequência de ligações e encontros liderada por Putin não deve ser lida apenas como uma ação defensiva diante de pressões externas, mas como parte de um processo deliberado de consolidação do BRICS como ator soberano coletivo. Ao antecipar alinhamentos internos antes de um encontro com o chefe de Estado norte-americano, Moscou sinaliza para uma possível garantia de que eventuais negociações não resultem em fissuras na coesão do bloco, nessa condição indispensável para que a promessa de multipolaridade se converta em realidade política e econômica efetiva.
Fonte: Putin calls Xi, Modi and other foreign leaders ahead of planned meeting with Trump | Reuters
5. Telefonema Lula–Putin: Ucrânia e coordenação BRICS frente às tarifas
Brasília e Moscou falam de paz na Ucrânia e de resposta conjunta às tarifas dos EUA.
O diálogo entre Lula e Putin reforça a importância do BRICS como plataforma para enfrentar pressões externas e construir alternativas multilaterais. A referência à paz na Ucrânia, mesmo que genérica, permite que a Rússia projete uma imagem de ator disposto à negociação, enquanto o Brasil fortalece sua posição de mediador. Simultaneamente, a coordenação frente às tarifas impostas por Trump sinaliza uma tentativa de resposta coletiva a práticas protecionistas que afetam diretamente as economias do Sul Global.
No plano geopolítico, o episódio mostra como o BRICS pode servir como um espaço de concertação diplomática que extrapola a agenda econômica, permitindo articulações conjuntas em temas de segurança e comércio internacional. A busca por alternativas multilaterais sugere que Moscou vê no Brasil um aliado útil para suavizar seu isolamento, enquanto Lula aproveita a oportunidade para afirmar o protagonismo global do Brasil.
6. Burevestnik: Rússia se prepara para novo teste, dizem analistas
A preparação para o teste do míssil Burevestnik — símbolo do avanço tecnológico e do poder militar russo — serve como um instrumento de barganha antes de negociações com os EUA. Essa exibição de força pode ser interpretada tanto como uma demonstração de autossuficiência estratégica quanto como uma mensagem política, indicando que Moscou não aceitará dialogar a partir de uma posição de fragilidade.
Contudo, o gesto envolve riscos elevados. A percepção internacional de ameaça pode reforçar barreiras diplomáticas e legitimar novas sanções, intensificando o isolamento russo. Além disso, ao atrelar o desenvolvimento de armamentos avançados ao processo de negociação, Moscou envia um sinal ambíguo: busca o diálogo, mas mostra-se pronta para escalar as tensões.
Para o BRICS, essa dualidade ilustra o desafio de conciliar a imagem de um bloco voltado à cooperação com a realidade de seus membros, que ainda utilizam demonstrações militares como instrumentos de política externa. O episódio também evidencia como a Rússia pretende manter sua margem de manobra em sua relação com os EUA, combinando diplomacia e poderio militar.
Fonte: Putin appears ready to test new missile as he prepares for Trump talks, researchers say | Reuters
Banco do BRICS (NDB)
7. Meta: 30% da carteira em moedas locais até 2026
Dilma Rousseff mantém meta (hoje ~25%) e defende swaps/mercados domésticos; sem “moeda única” no curto prazo.
O compromisso do NDB de ampliar o uso de moedas locais sinaliza um avanço na agenda de desdolarização. Essa estratégia visa reduzir as vulnerabilidades cambiais e criar condições para uma maior autonomia financeira para os países-membros. No entanto, a meta de 30% revela que, embora significativa, a substituição do dólar ainda será gradual.
A implementação da meta exigirá uma cooperação estreita entre os bancos centrais nacionais, o desenvolvimento de instrumentos de swap cambial e a expansão de mercados de capitais domésticos. O sucesso da iniciativa, contudo, dependerá da confiança dos investidores e da capacidade do NDB de oferecer liquidez em moedas locais, um desafio para países com volatilidade cambial. Ainda assim, a medida é simbólica, pois demonstra ao mundo que o BRICS está construindo alternativas concretas ao sistema financeiro atual.
Fonte: Dilma: Banco do Brics terá 30% da carteira em moedas locais em 2026 | Agência Brasil
8. Novo Fundo de Garantias do BRICS para baratear crédito
BRICS prepara fundo de garantias, através do NDB, para destravar investimentos e reduzir custo de capital.
O fundo de garantias representa um passo pragmático do NDB para ampliar sua relevância prática. Ao reduzir os riscos de crédito, o fundo abre espaço para atrair investidores privados e alavancar projetos de infraestrutura e energia em países do BRICS.
Mais do que um recurso financeiro, trata-se de um instrumento político: sinaliza que o BRICS pode criar soluções próprias para enfrentar as barreiras impostas pelo Ocidente. No entanto, há riscos de concentração, pois se as garantias forem direcionadas apenas a grandes empreendimentos, pequenas e médias empresas, que são fundamentais para o desenvolvimento, podem ser excluídas. Assim, o desenho do fundo será determinante para definir se ele se tornará um mecanismo inclusivo, capaz de impulsionar o crescimento sustentável e reduzir desigualdades, ou se reproduzirá as lógicas de exclusão já presentes no sistema financeiro global.