Durante anos, ouvimos a mesma frase: “Todo mundo tem as mesmas 24 horas.” A ideia parece motivadora, mas ignora uma realidade que milhões de brasileiros conhecem bem. Não existem apenas 24 horas iguais para todos; existem 24 formas diferentes de desigualdade que determinam como cada pessoa vive esse tempo.
Para muitos jovens da periferia, o dia começa antes do amanhecer. O trajeto até o trabalho pode exigir horas em trens e ônibus lotados. O retorno acontece tarde da noite, depois de uma jornada exaustiva em escalas como o 6x1, muitas vezes sem espaço para descanso, convivência familiar, lazer ou desenvolvimento pessoal. E, quando essas mesmas pessoas conseguem estudar, precisam conciliar trabalho, deslocamento e faculdade em uma rotina que exige um esforço desproporcional apenas para competir por oportunidades básicas.
Nesse contexto, falar apenas em meritocracia é literalmente ignorar o ponto de partida.
O filho da família de baixa renda, o jovem negro, quem nasce em regiões historicamente negligenciadas, frequentemente enfrenta escolas com infraestrutura precária, acesso limitado a tecnologia, transporte insuficiente e moradia instável. Enquanto alguns iniciam a vida profissional com redes de contato consolidadas, cursos complementares e segurança financeira, outros entram no mercado carregando o peso da incerteza e do medo de não conseguir sequer o primeiro espaço para crescer.
O resultado disso tudo é um sentimento cada vez mais comum, o sentimento de que trabalhar muito já não garante a possibilidade de construir uma vida minimamente estável. Para muitas pessoas, comprar um apartamento, formar uma reserva financeira ou planejar o futuro parece um objetivo distante, enquanto o aluguel, o transporte e as despesas básicas consomem toda a pouca renda que elas tem.
E, se a gente for trazer aqui uma realidade paralela, um comparativo com a ficção é impossível não lembrar de cyberpunk.
Nas obras do gênero, a gente vê cidades repletas de tecnologia, telas luminosas e promessas de inovação, mas marcadas por desigualdade extrema, infraestrutura degradada e concentração de poder nas mãos de poucos. O contraste entre o brilho das vitrines e a dificuldade de quem está na base da sociedade é justamente o que torna o cyberpunk tão perturbador.
Em muitos aspectos, nossa realidade flerta com essa distopia. Empresas anunciam transformação digital enquanto trabalhadores lidam com sistemas ultrapassados e processos ineficientes. Se fala muito em futuro, inteligência artificial e inovação, mas milhões de pessoas ainda perdem horas diárias em deslocamentos precários, enfrentam serviços públicos insuficientes e vivem sem a segurança de uma moradia digna.
O problema não é a tecnologia. Pelo contrário, ela pode ser uma poderosa ferramenta de inclusão. O problema acontece mesmo quando o avanço tecnológico não vem acompanhado de investimento em infraestrutura, educação, transporte, habitação e oportunidades reais de mobilidade social. Um país não se moderniza apenas com aplicativos, campanhas publicitárias ou discursos sobre inovação. Ele se moderniza quando as pessoas conseguem viver com dignidade.
A urgência, portanto não é apenas tecnológica, é humana.
Precisamos de cidades que permitam menos tempo em deslocamentos e mais tempo de vida. Precisamos de escolas e universidades capazes de preparar jovens para competir em condições mais justas. Precisamos de políticas que ampliem o acesso à moradia e reduzam a insegurança cotidiana de quem trabalha sem parar e ainda assim mal consegue planejar o amanhã.
O verdadeiro sinal de progresso não é a quantidade de tecnologia que podemos ter, mas a quantidade de pessoas que conseguem enxergar um futuro minimamente decente, porque o futuro prometido pela modernidade não pode continuar parecendo uma paisagem do cyberpunk iluminada por telas, cercada de discursos sobre inovação, e ao mesmo tempo incapaz de garantir o básico para quem sustenta ela todos os dias.