Os ossos de nossos antepassados
colhem as nossas perenes lágrimas
pelos mortos de hoje.
Os olhos de nossos antepassados,
negras estrelas tingidas de sangue,
elevam-se das profundezas do tempo
cuidando de nossa dolorida memória.
A terra está coberta de valas
e a qualquer descuido da vida
a morte é certa.
A bala não erra o alvo, no escuro
um corpo negro bambeia e dança.
A certidão de óbito, os antigos sabem,
veio lavrada desde os negreiros.
Certidão de óbito - Conceição Evaristo
Escrito no início do ano de 2021, em meio à situação de pandemia no Brasil há mais de um ano, com os agravamentos dos casos e pouca perspectiva de mudança em curto prazo da situação vivida, este projeto de pesquisa visou a buscar estratégias de enfrentamento ao momento vivido através de produções artísticas brasileiras.
Iniciamos pela crítica à cultura e à sociedade tecnológica cada vez mais incapaz de solucionar os problemas humanos, ao seu aparente descompasso entre avanço tecno-científico e humano. Seguimos questionando as necessidades humanas, apresentando-as como categorias sociais, uma vez que as próprias pulsões – de vida e de morte – o são a partir de seu dado como cultura, para além de um simplismo biologicista. Apontamos papel fundamental da arte para o conhecimento, a elaboração e a criação de possibilidades de vida capazes de superar as condições de retorno sempre reincidente da barbárie.
Nosso objetivo geral foi investigar as produções artísticas sobre e durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19 no Brasil, em termos do que dizem sobre este momento histórico, o que dizem do que somos aqui e agora e do que nos tornaremos, e qual o seu papel na compreensão do vivido e na criação do porvir.
Nossos objetivos específicos foram:
1. Mapear as produções artísticas em diversas linguagens e formas narrativas no Brasil sobre e durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19;
2. Criar um acervo dessas narrativas como arquivo desse momento da história de forma a propiciar modos de elaboração subjetiva e social da catástrofe vivida para a superação de constante repetição;
3. Pensar criticamente essas produções em seu potencial estético e político de elaboração do presente à luz do nosso passado histórico para a construção de um futuro.
A metodologia é inspirada no primado (dialético) do objeto de Theodor Adorno e é dividida em quatro momentos:
1. mimético a-conceitual
2. analítico-formal
3. analítico-conceitual
4. produção de experiência