O programa está organizado por tópicos, que veiculam tendências na representação literária
dos tradutores/intérpretes e que melhor se adequam a uma abordagem comparativa. Cada formador será responsável por dinamizar um dos tópicos a partir da leitura de um texto, ou conjunto de textos.
(São necessários conhecimentos de Inglês e de Espanhol como línguas de leitura.)
As sessões terão lugar semanalmente, à terça-feira, das 18:00 às 20:00.
01. INTRODUÇÃO
Marta Pacheco Pinto (04.05.2021)
Apresentação do curso de formação: formadores, conteúdos, objectivos, método de avaliação e modo de funcionamento. Discussão do texto teórico contextualizador: “Going fictional! Translators and interpreters in literature and film. An introduction” (2014) de Klaus Kaindl.
02. ILUMINAÇÕES: A LÓGICA DA TRADUÇÃO
convidada: Marisa Mourinha (11.05.2021)
O objectivo desta sessão é convidar a uma reflexão sobre os processos mentais e culturais que acompanham a tradução. O foco é no processo mais que no indivíduo, pelo que os textos propostos retratam duas situações muito distintas: um tradutor inexperiente que se encontra numa situação muito delicada e uma linguista a quem é pedido que descodifique e traduza uma língua alienígena.
Textos para leitura e discussão:
Jonathan Safran Foer. 2002. Everything Is Illuminated. Boston: Houghton Mifflin Company. (excerto)
Ted Chiang. 1998. “Story of Your Life.” In Stories of your Life and Others. New York: Tor Books, 117-178.
03. O TRADUTOR DENTRO DO ESCRITOR. O ESCRITOR DENTRO DO TRADUTOR
Serena Cacchioli (18.05.2021)
A partir de um fragmento do diário de Maria Gabriela Llansol em que a autora relata, ficcionalizando-a, a sua experiência como tradutora de Arthur Rimbaud, exploraremos a relação ambígua entre acto criativo e tradução. Analisando ainda as “notas do tradutor” de vários tradutores de poesia, veremos como a tradução pode ser capaz de expandir o imaginário de quem traduz ou até, pelo contrário, de definir mais rigidamente os seus limites.
Texto para leitura e discussão:
Maria Gabriela Llansol. 1998. “Introdução: um fragmento do diário de M. G. Llansol.” In O Rapaz Raro, de Arthur Rimbaud. Tradução e prefácio de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D’Água, 7-13.
04. N.d.A., O TRADUTOR SEM AUTOR
Dominique Faria (25.05.2021)
Vengeance du traducteur, de Brice Matthieussent, é uma ficção que adopta o formato das Notas de Tradução (N.d.T), ocupando apenas o final da página. O romance dá voz a um tradutor que decide inverter a hierarquia entre autor e tradutor e desafiar os princípios éticos e as regras de bom senso pelos quais se rege a profissão. Partindo de uma leitura de excertos do texto, pretende-se reflectir sobre os estereótipos associados à figura do tradutor.
Texto para leitura e discussão:
Brice Matthieussent. 2004. Vengeance du traducteur. Paris: P.O.L. (excertos) (Versão inglesa: 2018. Revenge of the Translator. Trad. de Emma Ramadan. Dallas, Texas: Deep Vellum Publishing.)
05. TRADUTOR, UMA PROFISSÃO DE RISCO
Cristina Almeida Ribeiro (01.06.2021)
Histórias de tradutores literários contadas por Rodolfo Walsh e José María Merino, onde as perturbações psíquicas se avolumam e a vida desemboca no suicídio ou estremece sob uma vaga ameaça de homicídio, dizem-nos que é de risco, no sentido mais comum da expressão, a profissão dos seus protagonistas. Os respectivos percursos e as revelações do oficial do mesmo ofício que se dá a conhecer num conto de Moacyr Scliar permitem-nos, porém, identificar na sua actividade um outro risco, a que todos eles sucumbem – o da inflação do próprio estatuto, patente no desvirtuamento intencional do texto a traduzir e na hipertrofia de notas de rodapé que o vampirizam e chegam mesmo a anulá-lo. Disso se tratará nesta sessão.
Textos para leitura e discussão:
José María Merino. 2015 [1994]. “El caso del traductor infiel.” In Historias del otro lugar: cuentos reunidos (1983-2004). Barcelona: Penguin Random House, 319-340.
Moacyr Scliar. 1995. “Notas ao pé da página.” In Contos Reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 371-375.
Rodolfo Walsh. 1981 [1967]. “Nota al pie.” In Obra literaria completa. México: Siglo XXI, 419-446.
06. MULHERES QUE TRADUZEM/HOMENS QUE SE TRADUZEM: TRADUTORES E TRADUÇÃO EM BUDAPESTE (2003) E EM ESSA GENTE (2019) DE CHICO BUARQUE
Marco Bucaioni (08.06.2021)
Há duas tradutoras entre as personagens de Essa Gente: uma traduz para português autores estrangeiros e a outra traduzirá para inglês o próximo romance do protagonista/narrador. José Costa, protagonista de Budapeste, pelo contrário, traduz-se a si próprio e à sua carreira de escritor para terceiros, mudando-se do Brasil para a Hungria e mudando assim de língua numa relação de mórbido fascínio com a língua magiar.
Textos para leitura e discussão:
Chico Buarque. 2003. Budapeste. São Paulo: Companhia das Letras. (excerto)
Chico Buarque. 2019. Essa Gente. São Paulo: Companhia das Letras. (excerto)
07. APRENDER A TRADUZIR-SE COM A LÍNGUA ALEMÃ
Joana Moura (15.06.2021)
Nesta sessão abordaremos questões de tradução através das experiências de duas narradoras “estrangeiras” sobre o(s) seu(s) (re)encontro(s) com a língua alemã. Tendo como base a leitura do texto “Von der Muttersprache zur Sprachmutter” e de excertos do texto “Porträt einer Zunge” de Yoko Tawada, reflectiremos sobre as misérias e os esplendores que estas narradoras descrevem acerca da sua relação afectiva com a língua alemã no contexto da tradução entre línguas e culturas.
Textos para leitura e discussão:
Yoko Tawada. 2002. “Porträt einer Zunge.” Überseezungen. Tübingen: Konkursbuch. (excertos) (Versão inglesa: 2013. “Portrait of a Tongue.” In Portrait of a Tongue. Trad. de Chantal Wright. Ontario: University of Ottawa Press.)
Yoko Tawada. 1996. “Von der Muttersprache zur Sprachmutter.” Talisman. Tübingen: Konkursbuch, 9-15. (Versão inglesa: 2006. “From Mother Tongue to Linguistic Mother.” Trad. de Rachel McNichol. Mānoa 18 (1): 139, 141-143)
08. DENTRO DA CABEÇA DE UMA TRADUTORA-INTÉRPRETE
Claudia Fischer (22.06.2021)
Uma tradutora-intérprete em viagem com o seu amante pelo sul de Itália confronta-se com as aporias da linguagem e da comunicação. Nesta sessão, faremos um close reading do conto “Simultan” de Ingeborg Bachmann, sondando ligações a outras obras desta autora austríaca. Entre outros aspectos, discutiremos em que medida a simultaneidade invocada no título designa mais do que a mera prática profissional da protagonista.
Texto para leitura e discussão:
Ingeborg Bachmann. 1985. “Simultan.” In Sämtliche Erzählungen. München & Zürich: Piper, 284-317. (Versão inglesa: 1997. “Word for Word.” In Three Paths to the Lake. Trad. de Mary Fran Gilbert. New York & London: Holmes & Meier Publishers)
09. INTÉRPRETES DE DOENÇAS
Marta Pacheco Pinto (29.06.2021)
O intérprete como confidente, aquele a quem se confiam segredos, encontra-se numa posição de mediação peculiar, daí podendo resultar conflitos e equívocos. Nesta sessão, analisar-se-ão textos em que a percepção do intérprete como confidente leva a que se confunda interpretar com diagnosticar e tratar doenças afectivo-emocionais. Discutir-se-ão a competência e o desempenho dos intérpretes (um de ocasião e outro profissional) em dois contos que exploram relações familiares bem distintas e em que o veículo da mensagem é também ele confundido com a própria mensagem.
Textos para leitura e discussão:
Moacyr Scliar. 1995. “O intérprete.” In Contos Reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 329-332.
Jhumpa Lahiri. 2001 [1999]. “Intérprete de enfermidades.” Trad. de Maria dos Santos Costa. Lisboa: D. Quixote.
10. A TRADUTORA CONFINADA E A NECESSIDADE DE TRADUZIR
convidado: Hélder Lopes (06.07.2021)
Enclausurada no seu apartamento em Beirute, Aaliya Saleh traduz Tolstoy, Sebald, Pessoa, Hamsun, Cortázar (entre vários outros) para o árabe. A profusão de vozes literárias na mente desta septuagenária divorciada confere sentido à sua rotina diária, desvendando questões de carácter existencial. A personagem central encara as suas traduções enquanto processo de maturação emocional, desvalorizando a possibilidade de algum dia vir a partilhá-las com outros leitores. Aaliya, a “mulher desnecessária”, dedica-se à tradução com devota espiritualidade, pois vê neste investimento intelectual uma forma de libertação do ego e da violência causada pela guerra civil no Líbano.
Texto para leitura e discussão:
Rabih Alameddine. 2014. An Unnecessary Woman. New York: Grove Press. (excerto)
11. O INTÉRPRETE DE PUNHAL
Patricia Couto (13.07.2021)
A acção do romance situa-se nas Índias Orientais Holandesas, no final da Segunda Guerra Mundial e em plena guerra colonial. Arto Nolan, filho de pai indo-europeu e mãe chinesa, é contratado pela Marinha neerlandesa como intérprete. Na realidade cabe aos “tradutores”, jovens indonésios ou descendentes de origem mista, executar o trabalho que os marinheiros neerlandeses não querem fazer: conduzir interrogatórios, torturar prisioneiros ou combater na linha da frente, primeiro contra os japoneses, depois contra os guerrilheiros independentistas. Após a retirada das tropas neerlandesas da Indonésia, Arto Nolan é repatriado para os Países Baixos onde é recebido com hostilidade. O romance aborda o problema da identidade do intérprete, o trauma da guerra, a lealdade para com um país que lhe é estranho, racismo e colonialismo.
Texto para leitura e discussão:
Alfred Birney. 2020 [2016]. The Interpreter from Java. Trad. de David Doherty. London: Head of Zeus. (Tradução inglesa de De tolk van Java. Amsterdam: De Geus) (excerto)
A acção será realizada através do recurso à plataforma Zoom e os materiais para leitura prévia serão facultados através da plataforma Google Classroom. O trabalho assíncrono consistirá na leitura prévia dos textos seleccionados para discussão, bem como na dinamização da plataforma Google Classroom como fórum de discussão.
Adoptar-se-á um regime de avaliação qualitativa assente nos seguintes critérios de avaliação*:
(a) Participação nas discussões e actividades que venham a ser desenvolvidas em aula (50 %);
(b) Criação de um post** na plataforma Google Classroom (15 %);
(c) Realização de um exercício escrito individual*** (35 %).
A escala qualitativa pressupõe cinco níveis de avaliação: Excelente, Muito Bom, Bom, Regular (Suficiente) e Insuficiente.
* Considera-se que a frequência de um número mínimo de 14 horas da duração total da acção é condição para acesso à avaliação.
** O post consiste num breve comentário escrito a uma notícia ou outro item (escrito ou audiovisual) sobre tradutores, seleccionado pelos próprios formandos. O comentário deverá ter uma extensão variável de duas a cinco frases.
*** O exercício escrito individual consiste num comentário a um dos textos estudados no âmbito do curso à luz de um dos tópicos abordados (c. 1.000 a 2.000 palavras).