Carol, Laura, Maria Joana e Nicole
Florianópolis é uma cidade de belezas naturais e crescimento acelerado, mas esse crescimento traz consigo um desafio silencioso: o que fazemos com o lixo que produzimos? Aqui, exploramos como a gestão de resíduos impacta o dia a dia da população e por que esse é um problema que exige atenção coletiva.
Toda manhã, antes mesmo de a cidade acordar, caminhões já percorrem as ruas de Florianópolis recolhendo o que foi descartado. O lixo some, e a maioria das pessoas não precisa pensar mais nisso. Mas esse "sumir" tem um custo, um destino e, muitas vezes, um problema.
Entender como Florianópolis gere seus resíduos é entender também como a cidade se organiza, quem ela prioriza e o que ainda deixa para trás. Não se trata só de coleta e aterro, há leis que moldam o sistema, diferentes tipos de resíduos com destinos distintos, uma infraestrutura que tenta acompanhar o crescimento da cidade e trabalhadores invisíveis que sustentam boa parte de tudo isso.
Nesta seção, exploramos cada uma dessas camadas: do marco legal aos programas em vigor, das frações de coleta à operação no dia a dia, do papel fundamental dos catadores e associações aos desafios que ainda persistem, e às metas que Florianópolis se comprometeu a alcançar até 2030.
O município instituiu o programa Florianópolis Capital Lixo Zero por meio do Decreto Municipal nº 18.646/2018, com o objetivo de valorizar os resíduos e reintroduzi-los na cadeia produtiva, seguindo o modelo de economia circular, o chamado "do berço ao berço". O programa está alinhado à Lei Federal nº 12.305/2010, que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos, e ao Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS).
O PMGIRS orienta a separação dos resíduos em quatro frações: recicláveis mistos (metal, plástico, papel/papelão), vidro, orgânicos compostáveis e rejeito. Antes de 2020, a cidade contava apenas com duas coletas regulares, de rejeitos convencionais e recicláveis secos. Com a inclusão dos resíduos orgânicos e a destinação correta para restos de poda, Florianópolis fortaleceu sua política de sustentabilidade.
A coleta seletiva em Florianópolis é 100% pública, operada pela SMMA/Comcap, e foi estendida a todos os bairros, chegando a 12 mil toneladas por ano. Em 2024, a cidade recolheu 7.130 toneladas de resíduos verdes, como galhos, folhas e troncos, todo esse material triturado e reaproveitado em hortas, paisagismo e compostagem.
De 2017 a 2024, o crescimento foi de ~33% na quantidade total coletada, representando assim, um aumento médio anual de aproximadamente 8%.
Já na Coleta Seletiva, de 2022-2024 teve um aumento de 41%, saindo de 25.417 t (2022) para 35.864 t (2024). O crescimento na coleta seletiva foi proporcionalmente maior que o total de resíduos.
Desde 2008, Florianópolis é uma das únicas cidades do país onde a prefeitura coleta os recicláveis e os doa a associações de triadores, prática estabelecida por Termo de Ajustamento de Conduta entre a Prefeitura, a ACMR e o Ministério Público de SC. Todo o material é destinado a 14 associações, sendo a ACMR a maior delas, responsável por absorver mais da metade do volume coletado. A iniciativa gera R$ 4,5 milhões por ano em renda para 842 pessoas direta e indiretamente na Grande Florianópolis.
A gestão de resíduos em Florianópolis enfrenta desafios acentuados pela geografia insular e pelo caráter turístico da cidade. Mais de 200 mil toneladas de resíduos sólidos são recolhidas anualmente, distribuídas de forma desigual ao longo do ano em razão do turismo.
Além disso, pelo menos um quarto do material separado para coleta seletiva acaba retornando ao lixo comum, seja pela separação incorreta, seja pela falta de mercado para certos tipos de recicláveis. A catação clandestina também representa um problema, pois retira os materiais de maior valor agregado antes da coleta pública, prejudicando as associações formalizadas de triadores.
A cidade assumiu o compromisso de valorizar 60% dos recicláveis secos e 90% dos recicláveis orgânicos até 2030. Em 2024, o município valorizou cerca de 13% dos recicláveis orgânicos e 11% dos recicláveis secos.
“Além de evitar o descarte incorreto, os PEVs (Pontos de Entrega Voluntária) impulsionam a economia circular e geram trabalho e renda com impacto ambiental positivo”, afirma Karina da Silva de Souza, engenheira sanitarista da Secretaria do Meio Ambiente.
“Cada fração de resíduo tem valor. A coleta seletiva de verdes é um passo importante para incentivarmos práticas mais sustentáveis”, reforça o secretário Alexandre Waltrick Rates.
"Nós temos uma responsabilidade enorme com os resíduos que eu produzo. Eu tenho filho pequeno e eu preciso que o mundo continue existindo são, saudável, com meio ambiente me dando ar puro todos os dias. Eu tenho essa responsabilidade, é uma obrigação, eu diria. Eu não posso fechar o olho e falar: 'Joguei ali na sua frente. Agora, você se vira'”, diz a administradora do condomínio Aretuza Fernandes Basso.