A árvore de problemas apresentada identifica como questão central a falta de separação correta dos resíduos domésticos em Florianópolis. O problema está relacionado à baixa conscientização ambiental, limitações na infraestrutura da coleta seletiva e dificuldades na participação da população no descarte adequado dos resíduos. Como consequência, ocorrem impactos ambientais, sociais e econômicos, como aumento da poluição urbana, sobrecarga da coleta pública e prejuízos ao processo de reciclagem.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL
1. Falta de conscientização da população
Mesmo com amplo acesso à informação, a adesão à separação de resíduos ainda é baixa. Entre os brasileiros que afirmam não separar resíduos recicláveis, 42% alegam não ter acesso ao serviço de coleta seletiva na sua cidade, enquanto 21% relatam simplesmente sentir preguiça de fazer essa separação. Isso revela que o problema não é apenas estrutural, mas também cultural.
2. Pouca informação sobre coleta seletiva
Cerca de 18% dos brasileiros que não separam o lixo dizem não ter informação suficiente sobre reciclagem para fazê-lo. Esse dado é preocupante, pois indica que mesmo pessoas que gostariam de contribuir não conseguem por falta de orientação acessível e prática.
3. Dúvidas sobre quais materiais são recicláveis
Consultora em economia circular e conselheiro do Pacto Global da ONU avalia que preguiça, falta de tempo ou desprezo pela importância da reciclagem mostram a necessidade de avançar em ações de comunicação e educação ambiental, para que as pessoas percebam a importância da reciclagem e entendam que separar resíduos não tem nenhuma dificuldade técnica.
INFRAESTRUTURA
1. Falta de lixeiras seletivas nos bairros
Quando não há pontos de descarte suficientes, os resíduos acabam sendo descartados em locais inadequados. Lixeiras sem tampa, frágeis ou com capacidade incompatível comprometem toda a operação de coleta. A ausência de equipamentos adequados e distribuídos estrategicamente é um dos principais fatores que inviabilizam a separação correta mesmo quando há boa vontade da população.
2. Poucos pontos de descarte reciclável
A falta de padronização das lixeiras, nas cores e identificações, dificulta a coleta seletiva e aumenta os erros de separação. O posicionamento incorreto também contribui: distâncias longas até os pontos de descarte levam ao descarte irregular.
3. Coleta seletiva insuficiente em algumas regiões
Uma estrutura improvisada, sem planejamento, subdimensionada e mal posicionada, é um dos principais gatilhos dos problemas na gestão de resíduos, impactando diretamente a eficiência operacional. Sem uma base estrutural adequada, até o melhor plano de coleta seletiva tende a falhar.
GESTÃO PÚBLICA
1. Fiscalização fraca
A falta de punição efetiva para o descarte irregular é apontada por especialistas como um dos nós do problema. Segundo Elisabeth Grimberg, coordenadora de projetos do Instituto Pólis, são necessárias ações de educação, orientação, sensibilização e motivação, mas também fiscalização com multas. Sua avaliação é direta: primeiro se educa para tentar fazer a pessoa mudar; depois, se não houver mudança, aplica-se a multa, pois não se trata de uma questão de vontade, mas de interesse público.
2. Poucas campanhas educativas
Para o pesquisador Diego Campos, da área de administração sobre gerenciamento de resíduos em Florianópolis, existem poucas campanhas de conscientização, as pessoas não conhecem o caminho do lixo e acabam não se importando. Segundo ele, lixo é dinheiro, é fonte de renda, e precisa ser tratado de maneira que proporcione desenvolvimento econômico, social e ambiental, mas as prefeituras pensam apenas o lado econômico.
3. Planejamento inadequado da coleta
Moradores dos bairros do Norte da Ilha e região continental de Florianópolis sofreram com problemas sérios de coleta de lixo durante a transição entre empresas responsáveis pelo serviço. Com o contrato emergencial da antiga empresa encerrado e a nova empresa ainda sem operar, o recolhimento ficou sob responsabilidade da Comcap, que enfrentou dificuldades para atender toda a demanda.
Um morador do Balneário relatou que a Comcap passou a realizar a coleta com dias e horários diferentes dos utilizados pela empresa anterior, fazendo com que o lixo ficasse acumulado pelas ruas todos os dias. O Sintrasem alertou para a falta de equipamentos e de funcionários da Comcap, prejudicando o cumprimento de todos os roteiros na cidade.
A engenheira sanitarista Sara Meireles, da UFSC, aponta que a falta de investimentos torna a gestão dos resíduos mais cara para o município e não contribui para a destinação adequada. Ela destaca que a coleta e o transporte de resíduos chegam a representar 70% dos custos no sistema de Florianópolis.
COMPORTAMENTO DA POPULAÇÃO
1. Desinteresse na separação do lixo
Uma pesquisa do Datafolha revelou que, embora 99% dos entrevistados considerem a reciclagem importante para o futuro do país e do mundo, e 85% avaliem que atitudes individuais contribuem para a sustentabilidade, apenas 71% afirmam efetivamente separar os resíduos recicláveis em casa e mesmo entre os que têm coleta seletiva disponível na rua, 33% afirmam não separar.
2. Descarte rápido e incorreto
Entre os motivos para não separar o lixo, 4% declararam não ter esse hábito e outros 4% disseram não ter tempo para a tarefa. Apenas 3% afirmaram não separar por não achar importante. Isso mostra que o comportamento de descarte rápido e sem cuidado, embora minoritário em sua justificativa consciente, é amplamente praticado na rotina.
3. Mistura de resíduos orgânicos e recicláveis
O pesquisador Diego Campos defende que uma das alternativas para virar o jogo na gestão de resíduos seria a criação de um "cartão verde" que oferecesse benefícios para quem separa corretamente o lixo, reconhecendo que cobrar da população sem oferecer contrapartidas é insuficiente para mudar comportamentos enraizados.
PROBLEMAS AMBIENTAIS
1. Aumento da poluição urbana
O volume de lixo gerado em Florianópolis é alarmante e cresce ainda mais durante a temporada. Nos 174 quilômetros de litoral da Ilha de Santa Catarina, mais de 16 mil toneladas de lixo são recolhidas por mês, quantidade que chega a 24 mil toneladas durante a temporada de verão. O pico de geração foi registrado em 2 de janeiro de 2018, com 1.325 toneladas em um único dia. Esse volume é agravado diretamente pela falta de separação correta, que mistura recicláveis com rejeitos, sobrecarregando o sistema de coleta e o aterro sanitário.
2. Contaminação de materiais recicláveis
A oceanóloga Juliana Leonel, coordenadora do curso de Oceanografia da UFSC e responsável pelo projeto UFSC Sem Plásticos, destaca que os microplásticos podem causar danos físicos, fisiológicos e bioquímicos, servem como vetores de distribuição de outros contaminantes e interferem no ciclo da matéria orgânica. Quando orgânicos e recicláveis são misturados no descarte doméstico, o material chega às cooperativas já contaminado, tornando-se inútil para reciclagem.
3. Acúmulo de lixo em praias e ruas
As consequências do descarte irregular chegam diretamente às praias de Florianópolis, com dados científicos que colocam a cidade em situação crítica. A praia do Pântano do Sul, em Florianópolis, foi classificada como a mais poluída do país, segundo pesquisa do Instituto Oceanográfico da USP em parceria com a ONG Sea Shepherd Brasil, o maior estudo já feito sobre resíduos marinhos no Brasil. A expedição durou 16 meses, percorreu 201 municípios, e constatou que 100% das praias apresentam resíduos plásticos e 97% contêm microplásticos. Além do Pântano do Sul, a Praia do Rizzo, na região continental de Florianópolis, foi apontada como a terceira mais poluída do ranking, e a capital catarinense ocupa o terceiro lugar entre as cidades com maior densidade de plástico por metro quadrado do Brasil.
PROBLEMAS SOCIAIS
1. Problemas de saúde pública
O lixo mal descartado é reconhecido mundialmente como um dos principais fatores de risco à saúde coletiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 20 milhões de pessoas adoecem todos os anos pelo contato com lixo descartado de forma inadequada. Já o Brasil registrou, só em 2024, cerca de 344 mil internações por doenças ligadas à falta de saneamento, de acordo com o Instituto Trata Brasil.
2. Mau cheiro e proliferação de pragas
O descarte incorreto de resíduos cria um ambiente fértil para o surgimento e a disseminação de doenças. Resíduos acumulados em áreas abertas atraem mosquitos, ratos e baratas, que atuam como vetores de enfermidades que podem rapidamente se espalhar entre a população. Em períodos de chuva, o contato da água com o lixo aumenta a exposição a vírus e bactérias, gerando surtos de infecções que sobrecarregam o sistema de saúde pública. A leptospirose, transmitida pela urina de ratos em locais com lixo acumulado ou enchentes, pode levar a complicações renais, hepáticas e até à morte em casos graves. Já o descarte irregular de pneus, garrafas plásticas e recipientes que acumulam água parada cria condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão de dengue, chikungunya e zika.
3. Piora da qualidade de vida
Toda a poluição na faixa litorânea gera impactos irreversíveis, sejam eles ambientais, econômicos, sociais ou culturais. A capital catarinense depende da cadeia produtiva do turismo e também da atividade pesqueira, ambas diretamente impactadas pela poluição. Com relação à pesca, o impacto gerado pelo lixo pode resultar em diminuição na quantidade de organismos de espécies de interesse comercial. Além disso, a alta ocorrência de lixo nas praias pode diminuir o número de frequentadores, causando prejuízo ao turismo, afetando desde a indústria hoteleira até o vendedor ambulante.
PROBLEMAS ECONÔMICOS
1. Aumento dos custos da limpeza urbana
O descarte incorreto eleva diretamente os gastos públicos com limpeza. O custo operacional da coleta em Florianópolis varia significativamente conforme a época do ano: em julho de 2016 foi de R$ 7,7 milhões, saltando para R$ 9,4 milhões em janeiro de 2017 um aumento de mais de 20% apenas durante a temporada, reflexo direto do maior volume e da piora na qualidade do descarte. Esses valores são custeados com recursos públicos que poderiam ser reduzidos com uma separação correta na origem.
2. Perda de materiais recicláveis
Juliana Leonel, doutora em oceanografia química pela USP e coordenadora do curso de Oceanografia da UFSC, alerta que problemas complexos requerem soluções complexas: é preciso atacar elemento por elemento, pois nada se resolve da noite para o dia, e a falta de engajamento da população compromete toda a cadeia do comércio ao descarte individual. Cada material reciclável que chega contaminado às cooperativas representa perda econômica direta para os catadores e para o município.
3. Redução da eficiência da coleta seletiva
A Comcap, responsável pela limpeza urbana e das orlas de praia, está ciente do problema, mas aponta para a dificuldade de minimizá-lo caso a sociedade não encampe essa briga. Segundo a diretora de operações Nilda Oliveira: "Hoje, o que é feito nas praias é a varrição, mas não tem como ficar 100%. Essa é uma responsabilidade do usuário. É fácil reclamar, mas a partir do momento que você joga uma bituca na areia da praia, você é responsável por isso." Quando a população não separa, a coleta seletiva perde eficiência operacional e econômica.
IMPACTOS NA RECICLAGEM
1. Sobrecarga das cooperativas
As cooperativas de catadores são o elo mais vulnerável da cadeia de reciclagem e sofrem diretamente com a falta de separação correta na origem. Pesquisa realizada pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) e pela Universidade Federal Fluminense (UFF), analisando 20 organizações de catadores, revelou que quase 16 horas por mês, em média, são perdidas na triagem de plásticos que não geram retorno financeiro equivalente a cerca de 9,4% do tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente 2 dias por mês desperdiçados por trabalhador. A maioria dos catadores identificados na pesquisa é mulher (68,56%), sendo a maioria parda (58,75%) ou preta (30,82%).
2. Dificuldade no reaproveitamento dos resíduos
Os pesquisadores calcularam também a perda financeira das cooperativas: a estimativa é de que as organizações deixam de arrecadar mensalmente valores que variam entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72 apenas com rejeitos plásticos que poderiam ser comercializados, mas que acabam indo para aterros por falta de mercado, logística ou valorização econômica. A presidente do IDC, Tatiana Bastos, reforça: "Os catadores são uma categoria profissional essencial para o meio ambiente. O que acontece em termos de coleta seletiva no país passa pela mão do catador. A sociedade deve muito a esse serviço."
3. Maior quantidade de lixo enviada aos aterros
A pesquisa auditou 533 embalagens plásticas classificadas como rejeito e identificou que 82% são oriundas da indústria alimentícia. Do total de rejeitos analisados nas cooperativas, 44,83% eram compostos por plásticos e 40% por materiais orgânicos que, com a separação correta em casa, poderiam ser desviados do aterro e reaproveitados. O estudo reforça a necessidade de responsabilização tanto da indústria pela adoção de embalagens mais ecoeficientes, quanto do poder público pela fiscalização e pela coleta seletiva municipal e da população, pela separação correta na origem.