Há uma semana fazia 13 anos você chegava para a gente e também há uma semana você partiu. Ainda sinto sua presença (ultimamente) discreta mesmo tendo lembranças involuntárias da sua partida.
Uns dias antes, eu sonhei que tinha um incêndio perto do sítio e eu subia numa árvore em que você estava, para te resgatar. Então, você se agarrava nas minhas costas e éramos como dois macaquinhos.
É difícil me lembrar de um tempo sem você aqui, porque você mudou o tom de tudo e ocupou os espaços da casa, do sítio, do ócio, do caminhar, como nunca tínhamos vivido, preencheu muito em nós.
Quando decidi me mudar para o sítio, não nego que tinha uma motivação linda e forte em você, de segurança, de companheirismo e da nossa felicidade. E eu estou tentando entender essa existência curta, que foi inédita pra mim, desse ser que chegou depois de mim, envelheceu nesse tempo, e partiu. E eu sigo.
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Você nos deixou ao amanhecer, na hora que costumava acordar.
Você foi plantado onde você fugia. Faça uma boa passagem.
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Foi a primeira vez que vi alguém que eu amava morrer. É a imagem mais perturbadora e calma que eu tenho. Você precisava ir.
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Ainda tô tentando me acostumar a abrir a porta e vc não aparecer.
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Quando eu era criança, a coisa que eu mais queria era um cachorro.
Eu sempre fui doida por bichinhos, me deixavam curiosa, amava a maneira deles olharem, deles se moverem, deles interagirem. Então, acho que como minhas amigas tinham cachorro, eu queria um cachorro. De qualquer tipo, cor, tamanho, o primeiro que me aparecesse numa das tantas feiras de adoção que eu fui e chorei para meus pais deixarem eu adotar um bichinho. E eu realmente tentei muito, da maneira mais verdadeira. Meu pai nunca deixou e depois me privou de ir em feiras de adoção com eles (que aconteciam às vezes em lugares em que passávamos).
Hoje eu choro a partida do Woody, nosso primeiro cachorro, que completava 13 anos conosco.
Eu confesso, amava a maneira como o Woody tentou, todos os dias, entrar em casa. E por vezes conseguiu, quando meu pai não estava e a gente até deixava ele dar uma volta sorrateira. Eu amava. Amava como ele diariamente desobedecia à ordem do meu pai. Amava a subversão dele para — simplesmente — nos encontrar pois estávamos distantes dele. Amava a urgência do afeto dele, que era a minha também. Woody foi o ser mais afetuoso da família.
Ainda mais quando ele subia. Com aquele jeito de “deixa só eu ver o que tem aqui” e eu achando a coisa mais graciosa que eu adoraria deixar passar um tempo bom junto em qualquer lugar da casa. Afinal, ele era família.
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Um ser que te percebe pelo cheiro.
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A ansiedade que me era espelho.
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Décimo primeiro dia e agora me dou conta completamente: você não vai voltar. Não posso perguntar de você para a minha mãe, não tenho seus remédios e comida para te dar às 6h da manhã e às 6h da tarde. Quando voltei do sítio, não tinha você aqui e agora irei para lá sem também te encontrar. É perturbador.
Será que eu deveria ter uma religião? Para tentar visualizar seu destino. Ou talvez me comunicar com você.
Porque é como se eu estivesse órfã.
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Eu nunca mais caminhei por aqui.
Virar a esquina sem você é estranho. Por aqui o mato da praça das amoreiras segue alto, não daria para passear por ali.
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Aprendi com você a como andar no meio do mato. Vá sempre primeiro por onde não tiver mato, se possível, depois, vá entrando nas partes onde o mato está mais baixo, sentindo o território.
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Essa coisa de separar o amor que sentimos por gente e por bicho, será que tem também relação com os objetos? Em dois dias nos desfizemos das coisas do Woody, pois nada nos servia. Muito das coisas dos meus avós também nos desfizemos, mas nem tudo. Uma blusa ou outra, um perfume, um espelho, um móvel ou o vaporizador… Mas e do Woody? Ficaríamos com um osso de plástico que faz barulho quando aperta? Ou com sua casinha(ona)? Com suas cobertas cheias de pelo? Talvez devesse. É muito estranho não ter mais nenhum objeto seu. Ainda assim, vira e mexe, eu sinto sua presença, sinto como você ocupava esses espaços.
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Te sentia aqui no sítio quando vinha sem você, ouvia um barulho e já achava que era você chegando.
Agora convivo com o seu túmulo
Plantei em seu túmulo e agora acho que estou num processo de ressignificação. Voltei a cuidar de você, te rego todos os dias (eu sempre me preocupei com a sua água mesmo) e isso me faz bem. Plantei girassóis, eu acho que você amaria girassóis, queria ter te mostrado girassóis em vida.
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Mas agora tem me feito uma falta que dói absurdamente.
A praça, passei por ela esses dias. Mas não a pé, nem sei se consigo fazer isso. Plantaram umas árvores novas. Eu só me sentia segura andando por aqui com você, foram os únicos momentos da minha vida que me senti segura por essas ruas.
Foi perturbador estar em Campinas de novo e não ter você lá. Chegar em casa e não te ver, não ir te fazer um carinho, a casa está vazia.
A verdade é que eu detesto esse vazio que você deixou, eu detesto não te ver correndo pelo terreno, detesto não te ouvir pela manhã nos chamando, não ter que te dar a comida e os remédios às 6h e às 18h, arrumar sua casinha cheia de colchões e cobertas. Está doendo.
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Estou tentando carregar a coragem que você me transmitia.
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Ganhei um quadro que o Leo te retratou. Fazia tempo que eu não chorava tanto e não sentia tanto. Às vezes precisa botar pra fora. Ficou tão lindo o quadro, te vejo todos os dias.
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Ele sonhar que corria quando já nem conseguia se levantar — ao menos em sonho estava sendo livre.
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Eu não sei o que farei com tantas mangas quando elas voltarem a nascer.
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Te vejo em um lindo girassol, tenho me contentado com essa transformação.
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Pegar esse texto para organizar, completar, pois sentia essa necessidade, foi mexer em vespeiro. Lágrimas nunca serão suficientes pra superar o tanto que eu te amo, o quanto você me ensinou e a falta que você me faz.
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Enfim, talvez esse sonho fosse um desejo te levar nas minhas costas, por onde fosse (já que nesse tempo não parei muito quieta), sem ser cachorro e humano, mas como bichos que somos e amamos.
Mas realmente, adorei ver a gente como macaquinhos e é mais uma das nossas lembranças bonitas e puras.
(Esse texto foi escrito ao longo de 4 meses após a perda do Woody. Escrevi de diferentes lugares e surgiu como pequenas anotações que não têm pretensão de formar um texto único)- parece que esse texto nunca vai acabar.
Queria ter um terreno
baldio que fosse
no centro da cidade de São Paulo
Para deixar ele ser
o que quisesse ser,
qual fosse sua natureza
Floresta
Manguezal
Menos um lixão ou um comércio
Menos um condomínio
de apartamentos parcialmente ocupados
Deixar os anos passarem
Para aquele trecho de terra
ser finalmente o que quisesse
Queria ser de um terreno
em qualquer lugar do sertão
E sendo o que fosse
Qual fosse sua vocação
Cerrado
Pampa
Mata
Coqueiral
Ser assim.
Anos se passariam
Um dia, quem sabe
construiria uma casa
pequena morada
a partir do que ele me dissesse,
do que me propusesse
Lugar
Material
Sem alterar sua essência
Depois de tantos anos
talvez eu pudesse assim
me fixar pertencente,
participante simbiótica
ser o que sou
qual seja essa natureza
Fui colher alface ao sol a pino. Aquelas grandes flores verdes claras no meio da terra eram a textura fina e fresca desejada, formavam lençóis macios sobre a terra, como se, caso pisasse em suas folhas, não as fosse amassar, mas ser acolhida e abraçada humidamente.
Vejo as maiores para coletar e, ao colher a segunda e última, corto seu talo leitoso e a recolho em meus braços, abrindo vista para uma penugem preta, macia e brilhosa, em um pequeno volume calmamente repousado, aconchegado à terra regada e, antes debaixo daquelas folhas que havia recolhido, à sombra dos lençóis verdes e acolhedores. Um pássaro preto, macio e fresco, descansava em seu leito, aparentemente cuidadosamente escolhido de forma a preservar sua vividez. Me vi diante daquela imagem estática e vibrante, tomada pelo inesperado, pensava que, se pudesse escolher uma morte calma e bela, seria repousar por entre alfaces brevemente regadas, à sombra do frescor do brotamento.
No dia que alguém quiser esquecer um amor, recomendarei se mudar para São Paulo. A cidade do esquecimento. Seria por isso essa cidade estar tão cheia? Seria tão bom esquecer-se? Esqueça um amor aqui.
Vou a pé, o comércio ainda fechado se abrindo. As ruas vazias, aos poucos sendo ocupadas. É o horário, cedo do sábado, horário de pescador. Chego ao cais e nos reunimos à espera. Telhado de garças, espreitas. Partimos. Desancoramos? Estar perto d’água, estar em meio a ela. A vista do que fica pra trás tão inédita quanto a vista do que vem adiante. Alcança o céu lá longe e vai profundas margens. Isso de sair de Porto Alegre e de ver o que nos reveste à distância, coloca-nos mais como indivíduos, sós. A cidade ao longe é ampla ainda, mas vai se tornando como uma linha, se inserindo no horizonte, cada vez mais fina. Não mais sufoca os olhares. Eu vejo metade céu. E a outra metade água, a textura dela e as cores que ela carrega, também as que ela reflete, seu movimento. Ela é fluída e o barco vai rasgando pelos caminhos que escolhe. A temperatura é agradável, o silêncio toma o espaço de uma maneira inesperada. Ter contato então com o que contorna. É parte da nossa cidade? O silêncio, as águas, os percursos livres e fluídos, o tempo estendido, a solidão, a paisagem longe, a natureza, a respiração dali. Ainda é Porto Alegre, é o que dizem. Pelos caminhos, as terras quase intocadas se transformam em condomínios com fachadas naturais, em uma ilusão de perspectiva. Aportamos de novo. Ancoramos?
Na Ilha da Pintada, contrastes lado a lado na beira d’água. A vila de pescadores se forma às margens. De um lado da rua, as casas coloridas, do outro seus respectivos cais — da cor correspondente a cada casa. São cachorros muitos, de todo tipo, pelas ruas e nas casas, tem gatos e galinhas e patos. E tem gente, tem criança, tem velho sentado na calçada e fundo musical. Nas garagens, barcos. Também tem escola de samba da comunidade Povo Bantu, os ensaios se iniciam em setembro, este ano choveu no dia da saída e aconteceu samba mesmo assim, dentro da casa da comunidade. Todas as atividades dali são muito sérias e feitas no seu ritmo. Recebemos sorrisos e um cheirinho com pressa, mas sinceridade.
Ao voltar, de novo pelas águas, a cidade se reaproxima. Vou aos poucos localizando seus referenciais. Voltamos à rotina. A nossa rotina.
Ao adentrar nessa nova cidade, dentre experiências vividas desde minha mudança, além desses percursos cotidianos, que me situam nesse novo ambiente e me ajudam a entendê-lo em diferenças e em especificidades, os passeios coletivos de bicicleta se apresentaram a mim como forma de conhecer a cidade de outra perspectiva — do deslocamento constante que liga um ponto conhecido a outro desconhecido, por um trajeto também enigmático — utilizando desse transporte comum aqui e que gosto. Os referenciais, nesse caso, restringem-se a si mesmo e ao conjunto de pedalantes apenas, para além das sinalizações de trânsito. Uma deambulação livre de referenciais conhecidos, porém guiada, que me leva a um local definido abstrato, pois não o conheço. Por vez ou outra, durante o caminho, a paisagem parece conhecida. A experiência de explorar o desconhecido de forma tão desvinculada é inédita, contudo e simultaneamente, os referenciais ampliam-se em locais agora já transitados. Ao chegar em nosso destino, particularmente o meu desconhecido, ele apresenta-se como um ponto de fixação temporária, em meio ao caótico volume de informações recebidas ao longo do trajeto e ao referencial conjunto pedalante, todos ainda suspensos e não conectados.
Abro a porta, tranco a porta, abro a outra porta e depois a grade e tranco a porta e fecho a grade, destranco a porta e fecho, destranco o portão e fecho. Ao atravessar a rua, uma pomba-asfalto. Caminho: semáforos, poucas pessoas, carros-preferencial, percursos, paradas, pontos, bichos, tropeço, bicicletas, escadas, viaduto, padaria, ônibus — percurso: uso o celular, desço — mercado, vendedores, muitas pessoas, pessoas-forçadamente-preferencial, lojas, “compro ‘ôro’”, subida, praça, grafite, esquina, prédio, entrada, catraca. Ao sair, vamos por caminhos que só havia feito de ônibus. O caminhar nos faz despertos. Insônia. Em cima do viaduto vejo: amarelos retalhos prédios, em meio a percursos asfaltos dinâmicos, céu azul. Faz frio e sol. É uma cidade grande, mas não é uma cidade insana. Ainda há horizonte, ainda há cor, ainda vejo árvores, ainda vejo espaço, ainda vejo o céu sem esforço. Embaixo do viaduto, plantas. Uma floricultura — Expectativa de vida. Comércios, pessoas, prédios baixos, calçadas estreitas, anúncios–“atacados, artigos religiosos, Gabriela”. Chegamos a uma grande avenida. Cidades frenéticas, fluxos permanentes. Churrasqueira na calçada, “Bebeto — 40 anos de swing — Bambas da Orgia”, comércio intenso, “agora tu cuida da tua bolsa”, manequins, salgados, meias-calças, brinquedos, panfletos, a la minuta, roupas, prédios antigos. Aguarda muito tempo para o semáforo de pedestres abrir por poucos segundos. Catraca.
Como eu poderia te contar das nuvens escamadas que eu vi nesse anoitecer? Não foi a primeira vez que vi e foi a segunda vez que notei. Como te faria ver o azul escuro seco e suave que se diluía no amarelo alaranjado claro do horizonte?
Essas nuvens rastejantes de contornos brancos ainda tinham o recheio laranja rosado macio e volumoso, que chegava mais perto dos olhos. Os grandes blocos de nuvens se moviam e seus contornos escamados aos poucos iam se espalhando e se aglutinando. A brisa densa vinha pela primeira vez no dia como quem fala da chuva sem saber. E na minha frente o prédio horizontal de janelas acesas tentava reduzir a lua minguante cintilante.
O meu cabelo muito mal preso já se agita, a porta mal fechada do depósito segue batendo levemente e ritmadamente no batente ao som e regência do vento. O banco de balanço é desconfortável mas eu gosto. Como eu gosto dos varais em ziguezague com os pregadores espalhados e das portas dos depósitos descascadas com exceção de 3 das 10.
É bom subir aqui no final do dia para poder sentir que, apesar do prédio ser baixo (e essa é uma qualidade positiva), a vista pode ir mais longe. Mas o que eu gosto mesmo daqui é quando o sol se põe e por alguns poucos minutos, o céu do lado oposto fica num tom de rosa levemente lilás, igualzinho à cor das paredes do terraço já com a pintura velha e levemente mofada em algumas regiões. Então as texturas da parede e do céu se tocam e fundem em cor o meu não horizonte com o céu, em uma perspectiva delicadamente transitória.
Tem um passarinho que canta próximo à minha janela. E ele canta muito e bonito. Eu até pensava que era do vizinho, pois canta o dia todo.
Um dia minha amiga me mandou uma mensagem falando “eu adoro quando você manda áudios de manhã porque tem um passarinho que canta aí e me dá uma paz muito grande”. Então eu ouvi meu áudio e ele quase fazia parte daquela conversa, de tão limpo era seu som. Não se ouvia a cidade. Mas o passarinho, ele também é essa cidade, e essa rua, e a minha casa.
Um dia eu o vi da janela do meu quarto, na árvore bem de frente. Da janela roxa, ele com a barriga bem amarela.
Pouco tempo depois, em uma tarde na casa de Cultura Mario Quintana, ouço o mesmo canto de passarinho. Se misturava com as falas dali. Seria este o passarinho cantante de Porto Alegre? Eu busquei qual passarinho cantador Porto Alegre pode ter. Mas não encontrei.
Do passarinho cantante não encontrei espécie ou registro de sua existência na região. O passarinho cantador me vem cantar o dia, me lembrar do tempo e da terra, me habita as lembranças do agora, desse lugar de habitar a liberdade em meio ao caos.
Eu não quero superar isso.
Essa é a minha escolha, não superar. Não superar o incêndio no Museu Nacional, não superar a greve dos caminhoneiros, não superar o assassinato da Mariele, não superar o golpe, não superar o rompimento da barragem em Mariana, não superar o aumento das passagens de ônibus e não superar o que mais vier a acontecer. E que seja cumulativo.
Eu quero me manter inconformada. Todos os dias. Esse sentimento que estou sentindo hoje, que é horrível de sentir, eu quero continuar sentindo; eu quero cultivá-lo, criar afeto por ele, quero que seja o pulsar das minhas ações rebeldes diárias. Amanhã eu quero acordar inconformada e pelo resto da semana e dos meses. Eu quero que esteja estampado na minha cara que eu não consigo engolir isso que estão me forçando goela abaixo. Não estou satisfeita, me falta apetite. Falta apetite pra comer aquilo que preparam com o que plantamos e nos oferecem pra comer como se fizessem um favor. A Lei Rouanet? Um favor. Os museus? Um favor. Escolas? Um favor. Querer que ensinem artes, filosofia e sociologia nas escolas é como pedir sobremesa, é como estar ingrato. “Não foi o suficiente, eu quero mais, eu quero um doce agora”. Mas a questão é que eu ainda estou com fome e estragaram o que eu plantei pra me dar de comer e então passaram a me fornecer sementes de coisas que não me interessam, para plantar de formas que eu não acredito. É intragável. Pois não como, vai estragar nas suas mãos. Me alimento da minha terra, mas não mais do teu veneno.
Eu não estou só triste, eu tô puta. Eu tô revoltada. E não vai passar, não mais.