O gramado em frente ao Congresso Nacional (considerando o que se diz ser a frente, pois fica no lado oposto da Praça dos Três Poderes) sempre foi o destino das manifestações em Brasília. Isso porquê na maioria das vezes o policiamento levanta uma barreira que impede os manifestantes de passarem daquele ponto e prosseguirem até o Palácio do Planalto.
Tal espaço só mudou duas vezes desde a época da construção de Brasília: na primeira foi erguida uma estrutura de terra, uma espécie de morro com escada que ficou conhecido como "Parlatório". Era ali que qualquer cidadão podia subir e discursar para o povo presente. Bastante inútil para o fim a que se propunha, durante manifestações mais violentas o local se mostrou uma ótima barreira para onde corriam os mais exaltados agressores, pois sua posição privilegiada permitia que tais agressores atirassem objetos contra os policiais sem que pudessem ser atingidos ou mesmo vistos atirando os objetos, e portanto sequer podiam ser identificados para posterior responsabilização.
A proximidade dos manifestantes e ausência de barreiras levou os responsáveis pela segurança a improvisar. Foi assim que, na previsão de manifestações mais exaltadas, começaram a ser utilizadas grades de proteção. Tais grades, sem poderem ser fixadas ao chão, se mostraram um erro que quase virou tragédia em 11 de fevereiro de 1998.
Durante uma manifestação contra a reforma administrativa e da previdência, um grupo não muito grande, mesmo descoordenado, provocou um conflito que quase ceifou a vida de um policial, além de ter provocado ferimentos em outros.
Diante de uma previsível progressão e intensidade das manifestações, o SIAAP - Serviço de Inteligência e Apoio à Atividades Policiais (antes SIAOP, Operações), órgão de Inteligência do Senado Federal composto por um grupo de sete servidores dos quais eu era um dos integrantes, e com a contribuição de agentes da maior competência, efetuou uma análise e proposição de soluções, entre as quais a construção de um espelho d'água era a mais ousada. Tal proposta tinha por base o fato de que os espelhos d'água já estavam presentes nos demais palácios, mesmo no Congresso Nacional, só que do outro lado, de frente para a Praça dos três Poderes. Assim, quando da realização de um "brainstorming" para a formulação do documento que seria encaminhado ao Presidente do Congresso Nacional, não fui o único que apresentou essa mesma proposta.
Abaixo, cópia de alguns "slides" da apresentação encaminhada junto com a proposta. As páginas da apresentação são auto-explicativas. O projeto previa ainda outros assuntos, mas não relacionadas com o enfrentamento durante manifestações.
O então Presidente Antônio Carlos Magalhães gostou da proposta, e como o Presidente do Senado Federal também é o Presidente do Congresso Nacional, cabia a ele determinar a execução do projeto.
Como aquela é uma área tombada, o projeto da obra de engenharia só poderia ser realizado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Sabíamos que nosso esboço seria alterado, mas o que interessava mesmo é que algum espelho d'água fosse efetivamente construído. Isso porque o setores responsáveis pela continuidade das ações a partir dali seriam da Câmara dos Deputados, então não tínhamos certeza sobre os meandros de sua tramitação.
Inicialmente, ao tomar conhecimento da proposta a imprensa adotou o termo "Fosso do ACM", e críticas, como sempre, surgiram.
Para nossa sorte, o arquiteto Oscar Niemeyer não só gostou da ideia, como a viu uma oportunidade de "dar vida" àquela área.
E foi assim que nasceu o bonito espelho d'água que temos hoje. Pode parecer muito raso, já que as pessoas podem pular dentro, mas em termos de segurança coloca os manifestantes que assim o fizerem em um nível de altura mais baixo. Não nos quase dois metros originais, o que pensando bem era realmente um exagero e até um perigo, mas o que se perdeu de profundidade ganhou-se em largura e beleza. Abaixo, transcrição do texto de Raquel Ulhôa publicado pelo jornal Folha de São Paulo em 20 de agosto de 1999 sob o título "Fosso de ACM vira espelho d'água".
O arquiteto Oscar Niemeyer deu aval à idéia do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), de cercar o Congresso com um fosso cheio de água para impedir invasões ou "manifestações agressivas".Mas é uma versão mais branda do fosso de 6 metros de largura planejado por ACM.O próprio Niemeyer elaborou o esboço de um lago estilizado de 60 centímetros de profundidade, ornamentado com plantas aquáticas típicas do cerrado, para abranger o gramado que contorna as pistas de acesso à entrada principal do Congresso.O projeto precisa ser detalhado pelo próprio arquiteto e pelos engenheiros do Congresso. O levantamento de custos será feito posteriormente pela Fundação Getúlio Vargas. Depois, Câmara e Senado promoverão concorrência pública para a construção do espelho d'água, que deverá durar cerca de 75 dias.A intenção é concluir a obra antes da posse do próximo presidente da República, em 1º de janeiro de 99.Oscar Niemeyer concordou com a idéia de ACM, mas alterou totalmente o projeto original da Câmara. Além de transformar o que era um fosso (6 m de largura e 1,92 m de profundidade) em lago estilizado, Niemeyer reduziu a profundidade e manteve a chamada tribuna do povo.Pelo projeto da Câmara, a atual tribuna - um pequeno palanque de concreto instalado em frente ao edifício central - seria extinta. Em seu esboço, Niemeyer desenhou uma tribuna estilizada, que segue o desenho arquitetônico de Brasília, alguns metros mais afastada do prédio do Congresso que o atual palanque."O toque do Niemeyer vai diminuir a pretensão original de transformar o Congresso em uma casamata (abrigo subterrâneo blindado) para impedir o acesso do povo", afirmou o senador José Eduardo Dutra (PT-SE). "Espero que fique bonito", disse o petista.O presidente do Senado disse que o objetivo não é impedir a entrada da população, mas "proteger um prédio público de manifestações agressivas e baderneiras". Atualmente o Congresso é isolado de manifestantes apenas por uma cerca móvel de arame.O senador decidiu substituir as grades móveis pelo fosso após manifestação realizada em frente ao Congresso durante a Jornada Nacional por Emprego e Direitos Sociais, convocada por partidos de oposição, no último mês de maio. Nenhum integrante do SIAAP foi entrevistado a respeito do projeto, o que pode explicar a imprecisão a respeito da manifestação motivadora do projeto, bem como o crédito sobre a ideia ser de ACM. E o inútil parlatório, apesar da informação publicada pelo jornal, também deixou de existir.
No decorrer das manifestações seguintes pude observar que o espelho d'água ainda criou outras vantagens, essas de aspecto psicológico, se destacando o banho e o ato de jogar água na direção dos policiais.
Essa distração dos manifestantes se mostrou, ao contrário de um problema, uma poderosa ferramenta estratégica: os manifestantes consideram uma vitória pular na água, e, no sol escaldante de Brasília, parece mesmo uma atividade convidativa. E ainda se divertem muito provocando os policiais atirando água para cima e em sua direção.
Em termos de segurança, no entanto, essa condição é ideal. Os mais exaltados se distraem, se cansam, e ficam satisfeitos. E para o policial que porventura fique molhado, é melhor ter água do que sangue escorrendo pelo uniforme.
Encerrado esse breve relato histórico, abaixo estão fotos com manifestantes se distraindo com ou no espelho d'água.