Xando e Bira são duas figuras clássicas do underground de Santa Catarina. Conheci eles no começo dos anos 2000 quando tocavam respectivamente no The Dolls e Fornicators. Dividimos os palcos inúmeras vezes graças ao empenho de ambos em produzir shows e trazer bandas de fora do estado para tocar. Então, lá pelo ano de 2011, eles me disseram que estavam com uma banda nova e queriam gravar no meu estúdio, o Caffeine em São Paulo. O plano era fazer tudo em um final de semana e ainda aproveitar a viagem de 700km para fazer um show.
Os dois rapazes chegaram em SP na sexta-feira à noite e foram direto para o local do show, era um desses bares moderninhos para turista na Rua Augusta que abrem e fecham todos os anos. Tinha tudo para ser uma grande furada e assim foi. O show aconteceu, os meninos tocaram com vontade, suaram, gritaram, dançaram, mas a verdade é que pouca gente viu e menos ainda entendeu alguma coisa. Mas nada disso poderia abalar os dois jovens que atendiam pelo nome de Golden Jivers, eles estavam numa missão.
No dia seguinte, acordamos no estúdio Caffeine, Xando montou a bateria com poucas peças e Bira apenas plugou sua guitarra velha de segunda linha, recém adquirida, num modesto amplificador Peavey. Os dois juntos na mesma sala executaram com perfeição o set de 12 músicas, uma atrás da outra sem parar, não só porque o tempo era curto (em algumas horas eles teriam que pegar o ônibus de volta para casa), mas também porque não havia motivo para que as coisas acontecessem de outra forma. Antes disso, eu havia microfonado a sala com meia dúzia de microfones baratos, que era o que tinha no estúdio na época, então apertei o rec e em poucas horas já tínhamos toda a parte instrumental do disco gravada. Partimos para os vocais. Bira com seu estilo vocal único de melodias anti-melódicas me deixou empolgado, conforme íamos avançando nos vocais, senti que algo importante estava tomando forma. Era o primeiro e único disco dos Golden Jivers.
O ar despretensioso que o álbum exala é empolgante. Apesar da inocência e urgência do punk rock que está impresso na gravação, o disco traz uma maturidade musical de dois artistas extremamente criativos, eles nos levam a outra realidade e nos apresentam o mundo dos Golden Jivers.
Durante a produção não falamos sobre referências ou como o disco deveria soar, não estávamos preocupados em parecer com as bandas da época, nem mesmo reproduzir um som do passado, era só o Bira e o Xando fazendo um som e o objetivo era captar isso. O processo de mixagem foi simples, nada foi polido, apenas tentei passar para a gravação a energia que havia sentido no show do dia anterior na Rua Augusta.
Mesmo passados 10 anos, sempre que escuto esse disco me surpreendo, acho que conseguimos captar um momento único, acredito que ficará na história da música marginal brasileira. Prova da importância desse disco é o relançamento comemorativo de dez anos pelo selo Low Tech Records com uma remasterização atualizada para os nossos tempos de streaming.
Divirtam-se!