Por Giulia Engel Accorsi
Formada em 1909 pela Faculdade de Medicina da Bahia, Maria Odília Teixeira (1884-1937), filha de uma união inter-racial, enfrentou grandes preconceitos durante o processo que a tornaria a primeira médica negra baiana e, quiçá, brasileira. Quem nos conta boa parte da história dessa mulher é Mayara Priscilla de Jesus dos Santos. Moradora do subúrbio soteropolitano, a historiadora vem estudando a trajetória da Dra. Odília desde seu período de graduação. Surpreendida por uma foto da médica recém-formada em uma exposição na antiga sede da Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, Mayara identificou-se prontamente com a mulher negra do retrato. Chocada com a falta de estudos densos sobre Odília e, à época, estudante do curso de história. Mayara decidiu que esse seria, então, o tema de sua monografia. Após concluí-la (2016), ingressou no mestrado em História, na Universidade Federal da Bahia (PPGH/UFBA), a fim de mergulhar mais fundo nas questões que povoaram o caminho de Odília, durante e após sua formação médica.
É possível imaginar que Odília tenha enfrentado situações de discriminação nos corredores de uma instituição por onde circulavam adeptos de certas vertentes do racismo científico e das teorias sexistas, como o médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906). Em sua dissertação, defendida em julho de 2019, e que, em breve, se transformará em um livro, Mayara nos chama atenção para as intersecções entre os marcadores de cor e sexo durante as primeiras décadas da República brasileira. Além de negra, Odília era uma das pouquíssimas mulheres em uma turma de medicina composta predominantemente por homens. Sem deixar de problematizar as dificuldades pelas quais passou a médica baiana em vista de ser negra e mulher, Mayara Santos também delineia episódios nos quais Odília resistiu a certos padrões seguidos por algumas de suas contemporâneas médicas. Era comum que essas mulheres elaborassem sua tese de doutoramento e clinicassem em áreas como pediatria e ginecologia, consideradas, então, mais femininas. Odília, entretanto, não só defendeu uma tese sobre cirrose alcoólica, como nela discordava de opiniões ventiladas por médicos homens acerca da incurabilidade da doença.
Uma preocupação de Mayara Santos, entretanto, era a transposição de sua pesquisa do universo acadêmico para o público geral. A autora submeteu sua pesquisa sobre Maria Odília Teixeira ao “Programa Audir Blanc Bahia” e foi contemplada, o que se refletiu na elaboração de cards de divulgação sobre a médica baiana e em rodas de conversa em escolas, com crianças do Ensino Fundamental I, as quais se mostraram profundamente interessadas e inspiradas na/pela figura de Odília. A iniciativa da pesquisadora comunga das propostas da história pública e da divulgação científica, iniciativas fundamentais para popularização das relações históricas entre profissionalização e produção do conhecimento e a sociedade na qual tais processos ocorrem. Essas iniciativas têm resgatado figuras, especialmente femininas e/ou negras, longamente preteridas pela história, inspirando crianças e jovens que não costumam verem-se refletidas/os em personalidades científicas e/ou intelectuais, as quais, a despeito de algumas iniciativas de mudança nesse quadro, ainda são predominantemente retratadas como homens brancos. Quer saber os detalhes da trajetória da Dra. Maria Odília Teixeira? Confira a dissertação de Mayara Santos (disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/33196) e a entrevista com a autoria no podcast Parabólica Bahia (disponível em: https://anchor.fm/s/615f3fc8/podcast/rss).