Pílulas de Liturgia I – O RITO DA PAZ

 

Dom Virgilio Cezar Henrique Pereira Torres

Bispo do Sínodo do Brasil

Bispo Moderador da igreja Anglicana Unida

Doutor em Divindade

 

O rito da paz na celebração eucarística tem suas raízes no "ósculo da paz" (beijo sagrado) da Igreja primitiva  (Romanos 16:16, 1 Coríntios 16:20, 2 Coríntios 13:12 , 1 Tessalonicenses 5:26 e 1 Pedro 5:14). Inspirado na saudação apostólica do Novo Testamento, era um costume do Oriente antigo. Consistia em um beijo sutil na face, trocado entre os fiéis como um símbolo de reconciliação, fraternidade e igualdade na fé antes da comunhão. Na antiguidade, em especial no Oriente Médio e na região do Mediterrâneo, beijar a face era um costume padrão de hospitalidade e saudação, e não algo restrito ao âmbito do Culto. Na liturgia, passou por adaptações históricas até chegar ao modelo atual de reconciliação antes da Comunhão (Na Igreja Romana)

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As Constituições Apostólicas, documento escrito no século IV, instrui que, aconteça após a Oração dos Fiéis e antes do Ofertório, exatamente como fazemos hoje em nossos cultos: "deixe o bispo cumprimentar a igreja e dizer: “A paz de Deus seja com todos vocês”. E os fiéis respondem, “E com o teu espírito”. Depois, o diácono diz a todos: “Saúdem uns aos outros com o óculo santo". A evolução deste momento litúrgico seguiu os seguintes marcos e contextos:

 

Igreja Primitiva: O "beijo da paz" era praticado logo após a Liturgia da Palavra, simbolizando a reconciliação e a união fraterna na comunidade.

 

Século V: Em 416, o Papa Inocêncio I transferiu o rito para o momento que antecede a Comunhão, uma prática também defendida por Santo Agostinho, que o chamava de "sináculum eucaristie" (selo da Eucaristia).

 

Século VI: O Papa São Gregório Magno consolidou o gesto logo após a oração do Pai-Nosso, alinhando-o com a instrução bíblica de se reconciliar com o irmão antes de apresentar a oferta.

 

Idade Média até o Concílio Vaticano II: O gesto público foi se perdendo com o tempo, tornando-se exclusivo do clero ou feito indiretamente através de objetos sagrados. Apenas com a reforma litúrgica de 1963 o rito foi reintegrado de forma ativa a toda a assembleia.

 

Significado Teológico e Prático

O rito não é uma saudação social, mas um gesto sacramental com duas finalidades: implorar a paz para a Igreja e expressar a caridade fraterna antes de receber o Corpo de Cristo. A Igreja orienta que seja um momento de recolhimento, sem exageros, cantos ou agitações que quebrem o clima de oração que precede a Comunhão.

 

O gesto da paz é um ato altamente simbólico e pretende apontar para a disposição do coração em receber a Sagrada Eucaristia. Lembra aos fiéis que, para estarem em plena comunhão com Cristo, é preciso primeiro "Amar, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Marcos 12:30,31). Portanto não é apenas o desejo de Paz, abstratamente, mas uma forma de nos reconciliarmos um aos outros (Mt 5:23,24): ), o texto ensina sobre a importância do perdão e da reconciliação antes de qualquer ato de adoração ou oferta a Deus.

 

Isso significa que devemos:

Dar Prioridade ao Amor: Deus valoriza mais a pureza das suas relações e a intenção do seu coração do que cerimônias religiosas ou bens materiais. O

Sentido da Oferta: De nada adianta apresentar orações, louvores ou ofertas se houver mágoa, ódio ou inimizade no coração.

A Iniciativa é Sua: O texto foca em você dar o primeiro passo. Mesmo que você não seja o responsável pela ofensa, você deve buscar a paz.