Francisco Rinaldo Cosmo de Assis Filho
francisco.filho1@alunos.sc.senac.br
O documentário Lixo Extraordinário é uma produção de 2010 que foi muito bem recebida pela maioria do público e da crítica, tanto que concorreu ao Oscar em sua edição. O documentário trata do processo de Vik Muniz em sua obra no maior aterro sanitário da América Latina, localizado na cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
A produção trouxe alguns dos catadores desse aterro sanitário para trabalhar diretamente no projeto, não com a intenção de apenas usá-los como tema para sua obra, mas também para fazê-los se enxergarem de outro ponto de vista, com mais dignidade e valorização de seu trabalho. Isso é algo que ele e seu parceiro deixam a entender durante todo o documentário. Ao chegarem lá e verem a energia que os catadores já tinham, eles ficam impressionados, como demonstra a frase dita pelo próprio Vik Muniz: “Não vejo gente deprimida, mas orgulhosa do que está fazendo.” E a intenção que ele tinha ao trazer essas pessoas para dentro do projeto realmente se concretizou, com os catadores se orgulhando cada vez mais do próprio trabalho, apesar das dificuldades, como demonstra um dos catadores na frase: “Tenho muito orgulho de ser catador” e também “A luta é grande, mas a vitória é certa.” Além disso, houve também uma ajuda financeira, pois o valor arrecadado com a venda dos quadros foi totalmente destinado às pessoas que serviram de inspiração para as obras. O papel da arte neste cenário foi esplêndido.
Porém, alguns críticos apresentam um contraponto a esses benefícios, como, por exemplo, o crítico Inácio Araújo, que descreve o documentário como “um conto de fadas neoliberal”. Segundo ele, o filme mascara a realidade das pessoas que moram nos arredores e das que trabalham nesse aterro sanitário, pois muitas delas viviam em situações extremamente precárias, morando muito perto de enormes quantidades de lixo, em residências com estruturas bastante debilitadas. Uma realidade que assusta. Uma das catadoras afirma: “Eu não quero voltar mais para o lixo” e que a situação em que se encontrava era “uma consequência da vida”. Além dessa situação desencadeada pelo lixo, também existiam disputas entre os próprios moradores, com um dos catadores dizendo: “Se houver guerra na favela, pode ter certeza de que vai ter um monte de defunto aqui no outro dia”, uma frase que assusta, impacta e reforça o ponto de que o documentário está romantizando situações inaceitáveis. Além disso, a crítica aponta que a transformação promovida pelo projeto artístico não substitui políticas públicas capazes de enfrentar a pobreza e as condições precárias em que vivem muitos catadores, que deveriam ser exercidas na prática, mas que no documentário também vemos que não é bem assim. E mesmo com todas essas frustrações os catadores também têm que lidar com estigmas da sociedade perante eles e seu serviço.
Portanto, apesar das divergências sobre a forma como o documentário retrata a realidade dos catadores, é inegável que seu trabalho é essencial para toda a sociedade pois as consequências das ações humanas relacionadas à produção de lixo já causam muitos prejuízos, tanto para a nossa saúde quanto para a saúde do planeta. Isso porque o acúmulo dessa quantidade de lixo produz poluição do solo, contaminação da água, poluição do ar, aumento de doenças e prejuízos à fauna e à flora, já que alguns animais ingerem lixo ou ficam presos nele. Além disso, contribui para as mudanças climáticas, pois a produção de gases influencia o aquecimento global, entre diversos outros impactos, que são causados por cada um de nós, independente da quantidade de lixo que descartamos, pois cada unidade faz a diferença, como enfatiza um catador na frase “99 latinhas não são 100“. E isso acontece mesmo com a prestação de serviço desses trabalhadores, o que nos leva a pensar: e se esse trabalho não existisse?
Blumenau, 30 de julho de 2026