Simulação Literária e Humanidades Digitais: Ler, Editar, Escrever
Manuel Portela (Universidade de Coimbra)
Como usar o meio digital para simular a leitura, a edição e a escrita enquanto processos literários? Como conceber e desenhar o meio digital de um modo que transcenda a imaginação bibliográfica? Nesta conferência argumentarei que o Arquivo LdoD: Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego (https://ldod.uc.pt/) oferece uma resposta singular a estas perguntas ao traduzir uma teoria performativa da ação literária num ambiente computacional dinâmico. O resultado é um ambiente textual evolucionário que simula a multidimensionalidade social dos textos, recriando a experiência literária através de uma rede de intervenções abertas segundo uma lógica de desempenho de papéis (ler, editar, escrever). Esta experimentação com o próprio meio enquanto espaço de invenção e interpretação afasta-se da epistemologia cartesiana e dos métodos estritamente quantitativos que dominam as Humanidades Digitais.
As Humanidades Digitais aplicadas à Paleografia e Diplomática: contributos internacionais
Ana Pereira Ferreira (UE/CIDEHUS)
Nos dias 6 a 8 de maio de 2021 realizou-se o primeiro congresso internacional sob a temática da Paleografia e Diplomática nas Humanidades Digitais. Com conferencistas de todo o mundo, houve contributos variados que deram a conhecer a aplicação das Humanidades Digitais nas disciplinas de Paleografia e Diplomática, mas também na Sigilografia e na gestão de Arquivos.
O propósito da presente comunicação é fazer uma análise, de entre as apresentações realizadas no supracitado congresso, das várias opções disponíveis para o estudo das referidas ciências, verificando as suas mais-valias e pontos fracos, potencialidades futuras e usos presentes no auxílio ao investigador em História. Desde metodologias mais complexas relacionadas com a fotografia, a programas informáticos de transcrição de documentos históricos ou a bases de dados especializadas, procuraremos sintetizar as principais tecnologias disponíveis ao historiador do século XXI.
A edição digital da História do Futuro, de António Vieira: arquivo e ferramentas
Ana Paula Banza (UE/CIDEHUS) e António Rito Silva (INESC-ID)
Resumo: Aborda-se, na presente comunicação, a forma como as novas concepções de edição e de texto, resultantes da chegada do Digital ao mundo da Filologia se reflectiram no projecto de criação de um arquivo digital da obra do Padre António Vieira, História do Futuro —“Arquivo digital e análise assistida da História do Futuro, de António Vieira” – que, pela sua natureza, incompleta e fragmentária, constitui um desafio filológico inatingível fora do novo paradigma digital.
Apresenta-se também brevemente a estrutura e objectivos do projecto, tomando como foco a construção do arquivo e a implementação de determinadas ferramentas de PLN, seleccionadas e adaptadas em função do tipo de texto, dos desafios que este suscita e das leituras que permite, desenvolvendo-se, a título de exemplo, alguns dos seus possíveis cenários de utilização para ilustrar as mais valias que o projecto trará quer do ponto de vista académico, quer como divulgação da obra do Padre António Vieira.
As Memórias Paroquiais: do manuscrito ao digital
Fernanda Olival, Helena Freire Cameron, Renata Vieira (UE, Politécnico de Portalegre/CIDEHUS)
O objectivo central deste texto é situar o esforço do CIDEHUS em torno das Memórias Paroquiais no contexto do que tem sido feito para publicar, transferir de suporte e estudar estas fontes setecentistas. Note-se que se trata de um recurso muito relevante para conhecer o Portugal de meados do século XVIII e que interessa não só ao historiador, como a muitos outros estudiosos e intervenientes no campo local, regional e do país.
No interior do CIDEHUS, até pela dimensão, as Memórias Paroquiais têm suscitado desde há mais de um decénio trabalho de equipa interdisciplinar, o que tem sido um dado a realçar. Pelas metodologias e ferramentas usadas tem sido também uma oportunidade para elos internacionais que podem ser relevantes no futuro imediato e de longo prazo. Refletir sobre o referido itinerário de esforços em Portugal, que ao longo do tempo tem sido gerido por várias instituições, é ainda uma forma de avaliar e repensar estratégias de trabalho.
História Digital – da transcodificação à re-significação
Renata Vieira (UE/CIDEHUS)
Da oralidade ao registo simbólico físico, da argila ao papel, do volumen ao códex, do manuscrito à imprensa, do papel ao digital: em todas essas transformações são muitas as revoluções tecnológicas envolvidas. A revolução atual em tecnologias computacionais de tratamento de linguagem abre novas portas aos mais antigos registos de linguagem. Ao considerar o desenvolvimento de áreas como a inteligência artificial, o aprendizado de máquina, o processamento de linguagem natural, a web semântica, a realidade virtual e tantas outras, surge a pergunta: como serão os robôs historiadores do futuro?
Este trabalho traz um olhar sobre o passado e o futuro dos registos e das tecnologias, com um enfoque particular em alguns processos de tratamento de fontes históricas manuscritas e impressas. Abordamos as questões envolvidas nesses processos desde a sua digitalização, passando pela transcrição e por fim a extração de informação, de forma a ilustrar parte dessa trajetória no escopo de pesquisas desenvolvidas no âmbito do CIDEHUS. Fazemos, no entanto, um convite de reflexão ampliada sobre o tema Humanidades Digitais e a evolução do pensamento humano.
Processamento de Linguagem Natural em Arqueologia: o megalitismo português como estudo de caso
Ivo Santos (UE/CIDEHUS)
A aplicação de novas formas de mapeamento e documentação (como, por exemplo, o 3D) na área do património tem gerado conjuntos de dados com aplicação e interesse para além do seu propósito imediato. No entanto, sem o recurso à normalização desta informação, estes conjuntos crescentes de informação tornam-se “silos de dados” com mecanismos limitados para a descoberta, visualização, transferência e reutilização.
No âmbito de um projeto de doutoramento, procuramos aplicar metodologias de Processamento de Linguagem Natural aos relatórios de trabalhos arqueológicos para a obtenção de um conjunto de dados normalizado e adaptado aos princípios FAIR. Escolhemos como estudo de caso o megalitismo. O megalitismo é uma das mais importantes categorias de monumentos pré-históricos europeus e a tipologia mais comum no sul de Portugal. Num trabalho anterior, verificámos a utilização de conceitos importados e de sinónimos no estudo do megalitismo ibérico. Para normalizar esta informação, é necessário utilizar dicionários controlados e demonstrar a relação entre os vários conceitos existentes. Apresenta-se aqui o workflow dos primeiros passos desta construção.
A interdisciplinaridade das Humanidades Digitais na produção científica portuguesa
Luísa Alvim, UE/CIDEHUS, Universidade de Coimbra/CEIS20
Teresa Costa, UE/CIDEHUS, Universidade de Lisboa/Centro de Estudos Clássico
Pretende dar-se a conhecer a investigação portuguesa na área das Humanidades Digitais, através de um estudo sobre as publicações depositadas no RCAAP (Repositórios Científicos de Acesso Aberto em Portugal). Muito se tem escrito e teorizado acerca da definição das Humanidades Digitais (Hockey, 2004; Unsworth, Schreibman, & Siemens, 2004). Estas encerram uma nova prática, um novo paradigma de investigar nas Humanidades. Tratando-se de uma área emergente, existe uma ampla discussão internacional sobre a definição de Humanidades Digitais, sendo difícil de formular e delimitar as suas fronteiras (Priani Saisó et al., 2014). Em Portugal, têm-se afirmado várias dinâmicas e projetos (Guerreiro, D., 2017, (Guerreiro & Borbinha, 2014, Rollo, 2020). Muitos investigadores, ligados às instituições de investigação, constituem já uma comunidade organizada com propósitos e objetivos comuns, formalizada nalgumas universidades, em linhas de investigação, como a linha Humanidades Digitais e Investigação Histórica, o Laboratório de Humanidades Digitais (Lab_HDig) do Instituto de História Contemporânea (FCSH/UNL) (Alves, 2016); o Núcleo Património e Humanidades Digitais (Universidade de Coimbra); no curso de Mestrado em Humanidades Digitais (Universidade do Minho), e o Grupo de Investigação em Humanidades Digitais do CEHUM (U.Minho); na fundação da Associação das Humanidades Digitais (http://ahdig.org/); e informalmente têm surgido comunidades e grupos, como na Universidade de Évora.
Entre o património, a literatura e as humanidades digitais: nova visão de Heritales do mapa da cidade de Évora (1500-2021)
María Zozaya-Montes e Nicola Schiavotiello (UE/CIDEHUS)
Esta proposta explora uma nova perspetiva cultural que se centra nas humanidades digitais. Trata-se de uma aproximação ao património desde a literatura, a história e os mapas. O seu objetivo é bivalente: abrir novos caminhos para as humanidades digitais e fomentar o interesse da visão de uma cidade por parte um público não especializado. Esta perspetiva, ao mesmo tempo que explora as possibilidades das humanidades digitais, pretende aproximar a ciência à sociedade renovando o interesse do grande público. Neste sentido, integra-se entre as propostas criativas do projeto Heritales, co-dirigido pelos autores, com o objetivo de promover novas relações interdisciplinares com o património.
Com este propósito serão tratados os seguintes elementos: em primeiro lugar, será dada uma visão de diferentes aproximações culturais ao mundo dos mapas 2D. Serão mostrados exemplos de mapas literários, unindo a faceta histórica, literária e pictórica. Serão aplicados ao caso de Évora, trabalho que estamos a realizar desde 2017, tratando fontes desde a etapa medieval até à etapa contemporânea, que geram uma maquete de papel que representa uma visão cosmopolita da vida local da cidade (intervenção plástica de María Zozaya, partindo do desenho feito por António Couvinha para a CME). Será realizada uma intervenção artístico-cultural com efeitos 3D, onde se combinam a história e o património, reconstruindo um novo mapa com as letras da literatura. O intuito desta apresentação é conseguir renovar a visão cartográfica, gerar novos caminhos para a gestão cultural e ao mesmo tempo criar novos públicos para a História Cultural, promovendo novas inquietudes para o investigador, o cidadão local, e o turismo.
O projecto MONSOON: perspectivas digitais da Índia portuguesa
Ana Sofia Ribeiro (UE/CIDEHUS)
Nesta comunicação pretende apresentar-se o projeto MONSOON: o Estado da Índia hispânico em perspectiva digital. Apesar de não ser sido ainda financiado pela FCT, ele pretende estudar a dinâmica interna do Estado da Índia, nas suas múltiplas dimensões, de forma holística e complexa, no período em que a coroa Portuguesa era parte integrante da Monarquia Hispânica (1580-1640). Este foi um período crítico na evolução da presença portuguesa no Oriente, essencialmente devido a uma mudança dos equilíbrios internos e externos em diferentes regiões asiáticas. O grande desafio é o de combinar, simultaneamente e utilizando os mesmos instrumentos de análise, a presença formal e informal dos portugueses nos mares asiáticos, uma vez que a literatura tem vindo a analisar as duas perspetivas do império separadamente.
Para alcançar estes objetivos, a equipa usará um conjunto documental conhecido como Livros das Monções, incluindo uma parte desta coleção que se encontra no Arquivo Histórico de Goa, mas microfilmada em meados do século XX pelo Estado Português. A informação extraída das fontes será analisada de acordo com três variáveis base: agentes, eventos e espaços, usando diferentes ferramentas de humanidades digitais: a ontologia semântica digital, análise linked-data, análise de redes e a cartografia digital. A equipa acredita que estes instrumentos computacionais são os mais indicados para conseguir analisar de forma otimizada um volume massivo de informação textual, extraindo regularidades, exceções, mudanças e padrões organizados de relações. Propomos mostrar como.
Ver de longe o quê? Humanidades Digitais e Anotação Linguística
Claudia Freitas (PUC-Rio)
Com a crescente digitalização de acervos, facilidade no acesso a documentos eletrônicos e convergência das práticas humanas para o meio digital, a exploração de grandes coleções de texto tem tomado novas dimensões. Nas Humanidades Digitais, a leitura distante (distant reading) -- modo de trabalhar em que a distância é uma aliada, e não um obstáculo -- tem se destacado como uma abordagem capaz de oferecer insights a partir de perspectivas que a leitura convencional jamais poderia vislumbrar. A leitura distante se baseia em padrões que são, sobretudo, padrões de forma: olhamos para as palavras, sua frequência e contextos de co-ocorrência. Em consequência, o que vemos é o que está mais diretamente observável.
Por outro lado, e de maneira complementar, o Processamento de Linguagem Natural (PLN) vem há algumas décadas se dedicando ao tratamento computacional das línguas, o que faz com que a incorporação de técnicas de PLN a acervos textuais relevantes para as Humanidades seja um caminho previsível. A anotação, uma das atividades do PLN, é uma maneira de organizar e atribuir sentido às formas linguísticas, viabilizando outras camadas de “leitura distante”. Tomando-se a anotação como resultado de uma atividade interpretativa, trata-se de uma maneira de concatenar a dimensão qualitativa à quantitativa na análise de textos. Com isso, a anotação permite não apenas ter a distância como aliada, mas permite ainda ver de longe e, deste ponto de vista, escolher pontos para ver de perto.
Ver de longe o quê?
No PLN, as categorias de análise/categorias de anotação vêm das tarefas, normalmente vinculadas aos interesses da indústria. E nas Humanidades, quais as demandas? O que seria uma anotação para as HDs?
Nesta apresentação, defendo a anotação como prática também das HDs, ilustrando o ponto com dados de acervos literários.