Cláudia Freitas
Cláudia Freitas é Professora Assistente na PUC-Rio, com título de Doutora em Letras obtido em 2007 nessa instituição. As suas áreas de interesse incluem: processamento computacional da língua portuguesa (PLN/Linguística Computacional); descrição do português com base em grandes corpora; humanidades digitais; anotação linguística e léxicos; extração de informação em textos; análise de conteúdo; análise de opinião; análise e crítica da metalinguagem gramatical. Desde 2007, é colaboradora da Linguateca, possui experiência de participação em projetos na área de Humanidades Digitais.
ORCID: 0000-0001-6807-8558
Ver de longe o quê? Humanidades Digitais e Anotação Linguística
Com a crescente digitalização de acervos, facilidade no acesso a documentos eletrônicos e convergência das práticas humanas para o meio digital, a exploração de grandes coleções de texto tem tomado novas dimensões. Nas Humanidades Digitais, a leitura distante (distant reading) -- modo de trabalhar em que a distância é uma aliada, e não um obstáculo -- tem se destacado como uma abordagem capaz de oferecer insights a partir de perspectivas que a leitura convencional jamais poderia vislumbrar. A leitura distante se baseia em padrões que são, sobretudo, padrões de forma: olhamos para as palavras, sua frequência e contextos de co-ocorrência. Em consequência, o que vemos é o que está mais diretamente observável.
Por outro lado, e de maneira complementar, o Processamento de Linguagem Natural (PLN) vem há algumas décadas se dedicando ao tratamento computacional das línguas, o que faz com que a incorporação de técnicas de PLN a acervos textuais relevantes para as Humanidades seja um caminho previsível. A anotação, uma das atividades do PLN, é uma maneira de organizar e atribuir sentido às formas linguísticas, viabilizando outras camadas de “leitura distante”. Tomando-se a anotação como resultado de uma atividade interpretativa, trata-se de uma maneira de concatenar a dimensão qualitativa à quantitativa na análise de textos. Com isso, a anotação permite não apenas ter a distância como aliada, mas permite ainda ver de longe e, deste ponto de vista, escolher pontos para ver de perto.
Ver de longe o quê?
No PLN, as categorias de análise/categorias de anotação vêm das tarefas, normalmente vinculadas aos interesses da indústria. E nas Humanidades, quais as demandas? O que seria uma anotação para as HDs? Nesta apresentação, defendo a anotação como prática também das HDs, ilustrando o ponto com dados de acervos literários.
Manuel Portela é Professor Catedrático no Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Doutorado em Cultura Inglesa pela Universidade de Coimbra (2001) e Agregado em Literatura Inglesa (2010). É investigador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra desde 2007, sendo o coordenador do Grupo de Investigação "Mediação Digital e Materialidades da Literatura" (2014-2022). Colaborou como investigador ou liderou diversos projetos na área das Humanidades Digitais, de que são exemplo 'PO-EX '70-'80: Arquivo Digital da Literatura Experimental Portuguesa' (2010-2013, CECLICO, Universidade Fernando Pessoa) e 'Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego' (2012-2015, CLP, Universidade de Coimbra) e é autor de numerosos trabalhos neste domínio.
CV CiênciaVitae: https://www.cienciavitae.pt/051C-FC46-0115.
Simulação Literária e Humanidades Digitais: Ler, Editar, Escrever
Como usar o meio digital para simular a leitura, a edição e a escrita enquanto processos literários? Como conceber e desenhar o meio digital de um modo que transcenda a imaginação bibliográfica? Nesta conferência argumentarei que o Arquivo LdoD: Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego (https://ldod.uc.pt/) oferece uma resposta singular a estas perguntas ao traduzir uma teoria performativa da ação literária num ambiente computacional dinâmico. O resultado é um ambiente textual evolucionário que simula a multidimensionalidade social dos textos, recriando a experiência literária através de uma rede de intervenções abertas segundo uma lógica de desempenho de papéis (ler, editar, escrever). Esta experimentação com o próprio meio enquanto espaço de invenção e interpretação afasta-se da epistemologia cartesiana e dos métodos estritamente quantitativos que dominam as Humanidades Digitais.