reviews de cinema
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ÍNDICE ( A - Z )
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Realizado por Solveig Nordlund
★☆☆☆☆
No final do último século, Hollywood já contava com um portfólio considerável de filmes de ficção científica extravagante e respectivas sequelas (que ainda hoje continuam a ser produzidas), por entre viagens através de galáxias distantes e coloridas, conflitos com alienígenas descidos à Terra, especulações sobre catástrofes apocalípticas ou sobre a autenticidade do nosso próprio mundo. Da saga Star Wars a Jurassic Park, de Men In Black aos filmes do icónico Terminator, entre outros. Eram sucessos estrondosos de bilheteira e, inegavelmente, experiências memoráveis de cinema. No entanto, tendiam a ofuscar outras interpretações ao género que exploravam mais a vertente artística e contemplativa do cinema, ao invés da obra de entretenimento de receitas milionárias. Gattaca (Andrew Niccol, 1997), Dark City (Alex Proyas, 1998) e Strange Days (Kathryn Bigelow, 1995) inserem-se neste espectro de filmes que, apesar de decorrerem em imaginários com uma determinada quantidade de caráter fantasioso, prioritizam a profundidade da narrativa em relação à excentricidade conceptual generalizadamente associada ao género. Obras que extrapolam determinados aspetos, ansiedades e atribulações da sociedade do seu respetivo tempo para um contexto futurista, onde com a lente pessimista da distopia, suscitam uma panóplia de reflexões sobre aquilo que nos inquieta no presente.
É isto que Aparelho Voador a Baixa Altitude (2002) parece propor-se a fazer, à escala nacional. Pouco depois do virar do século, a realizadora sueca-naturalizada portuguesa Solveig Nordlund juntava-se a nomes como Steven Spielberg e David Cronenberg na demanda de adaptar para longas metragens obras do escritor inglês J. G. Ballard, conhecido pelos seus trabalhos de ficção científica com temas pós-apocalípticos. Algo relativamente importante que difere Aparelho Voador a Baixa Altitude dos respetivos Empire of the Sun (1987) e Crash (1996) é a compreensível diferença na extensão do orçamento. Ainda que o princípio se baseie no salientar das ideias da história e não necessariamente nas suas capacidades enquanto universo visual, é preciso alguma coragem para abordar uma obra distópica com recursos tão aparentemente reduzidos, por uma simples razão de proporção. Quanto menos estimulantes e informativas forem as imagens de um filme, mais a sua apreciação e compreensão dependerá da narrativa, o que coloca muita responsabilidade sobre a mesma.
Ainda que essas mesmas imagens possam ter um caráter mais minimalista ou uma estética sóbria, têm que ser suficientemente fortes para garantir a contínua imersão do público no imaginário proposto. Este fator é reforçado na ficção científica distópica, visto que o espectador não tem nenhuma informação a priori sobre o mundo no qual é suposto mergulhar. A facilidade de assumir que a história ocorre num presente equivalente ou muito próximo ao nosso não existe, pois no futuro, especialmente no cinema, todas as possibilidades estão em aberto. A habilidade com que nos é apresentada a complexidade de uma determinada ideia de um mundo é o que determina o quão profundamente nos conseguimos envolver como o mesmo e com a totalidade do filme. Logo, todos os elementos capturados pela câmera se tornam fornecedores de informação sobre o contexto com o qual somos confrontados. Aparelho Voador sugere alguma desconsideração pela importância deste fator, ao confiar cegamente na capacidade das suas ideias de manterem o filme cativante por si só. No entanto, todos os suportes das mesmas - as imagens, os diálogos e as performances - têm fragilidades que os impedem de as sustentar com sucesso. Oitenta curtos minutos passam surpreendentemente devagar, e a sensação final é uma de esforço infrutífero. A ambição admirável de fazer ficção científica em português não trespassa para o ecrã, e o resultado é um caos cujo potencial para ser belo é percetível, mas que foi contido e inexplorado a um ponto em que se tornou desinteressante.
A vaga informação que nos é dada sobre o contexto em que decorre o filme relembra o posterior Children of Men (2006), do realizador mexicano Alfonso Cuarón. Por razão desconhecida, a natalidade é raríssima ou nula, o que está a conduzir a raça humana à extinção. As poucas mulheres que engravidam ou têm abortos involuntários ou são obrigadas a abortar por estarem a gerar mutantes, apelidados de Z.O.T.E’s no filme. Judite Foster (representada por Margarida Marinho, que foi nomeada para um Globo de Ouro pelo papel) é uma dessas mulheres, que na sua sétima tentativa de engravidar parte de uma decadente Suécia com o marido André Foster (Miguel Guilherme) para um hotel remoto à beira mar, onde procuravam encontrar o Doutor Gould (Rui Morisson), um misterioso médico que julgam poder acompanhar o seu possivelmente saudável bebé à margem da lei. O agora demolido projeto da Torralta, em Tróia, compõe a visão distópica de Nordlund, na qual as abandonadas torres hoteleiras irradiam uma frieza claustrofóbica comparável à dos arranha-céus de High Rise (2015), uma outra adaptação de um livro de Ballard, desta vez por Ben Wheatley. Neste exemplo, acompanhamos o Dr. Robert Laing ( Tom Hiddleston ) na sua experiência enquanto inquilino de um “high-rise” pertencente a um complexo de cinco edifícios idênticos, ainda em fase final de construção, onde decorre uma gradual decadência de moralidade até um ponto de loucura e total barbaridade por parte dos habitantes. O grande tema manifestado é a influência da arquitetura no comportamento e na psique humana, e a possibilidade da mesma os determinar ou controlar.
Esta dinâmica hostil entre arquitetura e usuário tem também manifestações em Aparelho Voador. Ainda que compostos por linhas modernas e um design elegante que até as Roxette atraiu - serviu de localização para as filmagens do videoclipe de “Anyone” (1999) - os edifícios não conseguem superar a sua visível decadência, e as personagens que os habitam no filme estão presas a uma relíquia que, tal como a restante realidade à sua volta, os rejeita. Como se o objeto se resignasse à sua ruína e aceitasse o inevitável regresso à natureza que, a par da iminente extinção humana que a narrativa implica, não demoraria a acontecer. A versatilidade da arquitetura moderna proporciona a Nordlund o trunfo do seu filme, a beleza de algumas das imagens que consegue captar das suas personagens - que atravessam diferentes níveis de distúrbios e desvarios - enquanto inquilinos desta arquitetura esquecida que, por sua vez, também os esqueceu. A ambiguidade temporal do desenho arquitetónico permite à paisagem ser um futuro relativamente credível enquanto mantém uma individualidade distinta digna de um passado distante, concedendo algum simbolismo às imagens.
Por entre os agonizantes lamentos da receosa grávida e cigarros à varanda do seu amável mas atribulado marido ( que resumem grande parte do filme ), aparece um conjunto de personagens que podiam ter acabado de sair de um filme de Terry Gilliam. Com aspectos coloridos, sotaques hiperbólicos e maneirismos dignos de caricaturas, servem de reflexo ao estado do resto da humanidade. Conformados com o fim (apesar de repetidas afirmações de “acreditamos no futuro!”) e pessimistas em relação à prospecção de vida nova e saudável, assumindo - acertadamente - que Judite será mãe de apenas mais um Z.O.T.E, criaturas rejeitadas que só ocuparão o mundo pacificamente após o fim da era dos humanos. O final é estranhamente otimista para um filme tão denso, numa aceitação dos Z.O.T.E’s que inspira uma muito vaga alegoria à aceitação da inevitabilidade do futuro no qual tanto alegam acreditar. Depois de uma performance digna de mother! ( Darren Aronofsky, 2017 ) que em tudo indicava um amor incondicional ao bebé independentemente da sua condição, a personagem de Margarida Marinho entrega o seu recém nascido mutante aos seus demais - “se queremos mostrar-lhe o nosso amor, temos que o deixar viver no mundo dele” - e o casal segue no seu descapotável em direção ao desconhecido.
Aparelho Voador a Baixa Altitude emana potencial para ser uma obra distópica meditativa bem executada, mas simplesmente faltam-lhe os alicerces para garantir essa consolidação. Tal como noutros exemplos do cinema português, parece que o próprio filme se lamenta ao espectador da sua impossibilidade de se tornar em algo mais, com um suspirante “foi o que se conseguiu”. As reflexões bem próximas à Terra que o filme poderia suscitar não têm, infelizmente, oportunidade de voar muito alto.
22 de Setembro de 2023
Realizado por Shawn Levy
★★★★½
Ser fã da Marvel é viver numa inconstância quase doentia, em que se vive à procura de picos eufóricos equivalentes aos que foram proporcionados no passado pela mesma. É exigido a cada novo projeto, talvez até injustamente, que corresponda a esses standards quase fantasiosos sem deixar espaço nenhum para a mediocridade, esse conceito impensável que é visto como o insucesso total e que leva à desistência de seguidores outrora devotos, resignados com a ideia de que “já não tenho idade para isto”. Sendo eu próprio fã sou culpado disso mesmo, de esperar demais e de sair da sala de cinema desiludido porque um filme sobre um qualquer super-herói infantilizado do qual nunca gostei assim tanto não estar ao nível de um épico como Endgame ou semelhante.
No entanto, não acho que o cansaço desse repetido desapontamento se deva - claramente - a uma acrescida maturidade minha, ou à comparação inevitável com filmes anteriores, nem mesmo à dita superhero fatigue, que não acho que exista independentemente da quantidade absurda de conteúdo produzido à volta do tema. Filmes como Deadpool & Wolverine comprovam a minha teoria de que o público está simplesmente cansado de filmes preguiçosos, formulaicos e pouco inspirados, seja qual for o género, tenha ou não super heróis. As pessoas só querem passar um bom bocado no cinema, sentir qualquer coisa, rir ou chorar com estranhos numa sala escura. A partir daí, vale tudo. Não é preciso um “Marvel Jesus” messiânico para salvar a indústria, é só preciso de uma boa ideia e de alguma originalidade. Este filme não é perfeito, mas saí da sala com um sorriso que acho que não esmoreceu até ir dormir. O que é que interessa mais?
25 de Julho de 2024
Realizado por Ninian Doff
★★★☆☆
Gostar muito de cinema traz implicações, sendo a mais gritante o constatar de que se vê muitos filmes. A maioria deles são bons, e ainda bem, mas à medida que o número sobe, há outro fator que começa a ter que ser tido em conta na apreciação de uma obra. O quão memoráveis são. Já dei por mim a tentar relembrar os porquês de um determinado rating bastante positivo que dei, ou de uma review elogiosa que fiz a um filme, por realmente só me recordar do filme em questão de uma maneira muito superficial. Não quero com isto exigir às obras que tenham todas de transcender o tempo e me acompanhar para o resto da vida, nem desvirtuar o que senti imediatamente após ver um determinado filme, mas não consigo evitar questionar a minha própria versão passada quanto às motivações da sua opinião. E ter que considerar adicionar “esquecível” aos adjetivos que atribuí a uma obra.
Get Duked! é quase violentamente inesquecível, nem sempre num sentido positivo. Nos seus curtos 87 minutos leva-nos numa viagem alucinante que passa pelo hilariante, pelo sinistro e maioritariamente pelo total nonsense alucinogénico. Vê-lo foi uma experiência alienada que cheguei a considerar interromper ao fim da primeira hora, por estar já cansado da sua insistente aleatoriedade que falha em cativar. Mas essa desorientação total que o filme proporciona é recompensada da melhor maneira possível, o que satisfez a minha persistência. A maior qualidade desta primeira longa metragem de Ninian Doff é o seu humor ( descobri que inspirou inclusivamente um episódio de The Simpsons ), e as interações absurdas dos protagonistas cuja química é admirável. Todas as cómicas situações criadas que parecem inconsequentes no início, e já quase ignoradas a meio, têm o seu incrível payoff no final do filme, com um arco emocional surpreendentemente eficaz. A simples queda de uma carrinha tornou-se num dos momentos mais engraçados que vi num filme nos últimos tempos, o que prova que o filme tem consciência da perfeição dos momentos mais minimais inseridos dentro de todo o seu maximalismo.
No meio de todo o rídiculo de ladrões de pão, perseguições pelas highlands escocesas e consumo de dejetos de coelho, encontra-se em Get Duked! uma bonita e original história sobre amizade e sobre acreditar no melhor que as pessoas têm a oferecer por muito que tudo indique o contrário, algo que o próprio filme mimetiza. Tal como a polarizante obra do seu DJ Beatroot, Get Duked! é uma experiência provocadora que não agradará a todos, mas que irei garantidamente revisitar.
14 de Dezembro de 2023
Realizado por Celine Song
★★★★½
É difícil reunir adjetivos para Past Lives porque parecem todos tão contraditórios e paradoxais. É capaz de ser o filme mais delicado que já vi, se é que faz sentido, mas ao mesmo tempo quase violentamente cru. Uma relação vista através das suas subtilezas, que conseguem carregar em si uma profundidade tão bela e tão nuclear. Os protagonistas preenchem cada olhar, cada pausa, cada ínfimo movimento com uma intimidade quase absurda, e sente-se na pele a dor aguda daquilo que poderia ter sido misturada com a inevitabilidade de aceitar e aprender a apreciar aquilo que realmente é. Ainda assim, acho que o filme só é excelente pelo facto da personagem do Arthur estar tão bem escrita. Na sua dúzia de frases curtas e meio murmuradas diz tanto, e com tanta intensidade.
Escrevi e apaguei estas frases múltiplas vezes, por não sentir que eram as palavras certas. Ainda não sinto. Isso faz-me gostar mais do filme.
27 de Fevereiro de 2023
Realizado por Nia DaCosta
★☆☆☆☆
Ultimamente, tenho dado por mim do lado contrário ao da maioria no que toca à opinião relativamente a grandes produções que, mesmo antes do seu lançamento, já são assoladas por uma qualquer aura nociva ( Don’t Worry Darling e Amsterdam, por exemplo ), que acaba por ditar a condenação generalizada e crítica desenfreada das respectivas obras. A minha perceção foi que The Marvels experienciou um pouco desta penitência, em que o grande público e os fãs mais fervorosos de Marvel já calculavam o seu iminente fracasso. Apesar de nunca ter sido grande fã da personagem principal e muito pouco saber sobre as restantes, tentei entrar no cinema com a mesma postura recetiva com que iria para qualquer outro filme, talvez até reforçada pelo contentamento com que o último episódio de Loki me tinha deixado no dia anterior, e libertar-me destes ceticismos prematuros com os quais costumo discordar. No entanto, a qualidade deste filme não podia estar mais longe da maravilha que lhe dá título, e não há mente aberta que salve a experiência que foi vê-lo.
O maior defeito de The Marvels é também a caraterística que melhor o descreve. Forçado. O filme força quase a totalidade dos conceitos que aborda e depois implora à audiência que os valide e aplauda. A química entre as três grandes personagens é, à falta de uma melhor palavra, profundamente cringe, algo de que o guião débil tem mais culpa do que as atrizes. O enredo bem se esforça para ser cativante, através da quantidade absurda de exposição, mas se me pedissem agora para recontar os eventos do filme, não sei se conseguiria. A vilã mal teve hipótese para ser uma personagem, visto que os cineastas acharam suficiente dar motivo e profundidade a uma nova figura da Marvel num curtíssimo flashback. Conseguiram que o tom leve e jovial do filme fosse penoso de se presenciar, com momentos cómicos que mais rápido inspiram constrangimento do que uma amostra de sorriso. Ainda não vi Saw X, mas será garantidamente menos desconfortável.
A qualidade redentora do filme é o design das metrópoles alienígenas, cuja mistura de aparentes referências como Frank Lloyd Wright, Jean Nouvel e Blade Runner resultam em mundos visualmente interessantes, ainda que filmados com pouca inspiração. De resto The Marvels é bidimensional, apressado, fútil…só não digo desilusão porque realmente me esforcei para não ter quaisquer expectativas, positivas ou não. O filme mais curto da Marvel até agora foi, também, o mais longo. Ainda assim, não queria cair na pretensão de achar que este filme foi feito para mim e ter que satisfazer os meus standards imaginários. É claramente para uma faixa etária inferior à minha, o que não deixa de reforçar a contradição de rumos que os mais recentes projetos da Marvel têm tido. No entanto, acho que nem pré-adolescentes merecem conteúdo deste nível, e o que não falta são filmes feitos para crianças e jovens dos quais adultos conseguem tirar bastante prazer também. Sem querer dar spoilers, a Marvel confirma o que já se suspeitava: os seus próximos grandes eventos à escala de Endgame vão ser histórias infantilizadas totalmente desprovidas de caráter e emoções, e até lá, com projetos equivalentes a este, vão retirar aos seus leais fãs qualquer réstia de ânsia de comprar bilhetes para os mesmos
P.S.: ScreenX é o pior formato de cinema. O alegado acréscimo de imersão é totalmente falso e contraditório. Cada vez que os ecrãs panorâmicos se ligam e passamos a estar dentro de uma nave espacial, iluminam a sala a um ponto em que me relembram que estou, de facto, numa sala de cinema, e não dentro do filme.
12 de Novembro de 2023