poesia
poesia
vejo e revejo o novo
mas resgato minha câmera analógica
deveria olhar mais para o novo
mas tudo parece tão óbvio.
descubro os nomes das estrelas
dos planetas e das plantas do açude
mas isso parece tão velho
mas tão, de fato, não obvio
que parece que nada do novo
consegue ser interessante o suficiente.
descubro o fenômeno da grama
as fases da lua e das cheias
mas isso parece tão vivo
que talvez estejam no top 5 dos fatos mais óbvios
para o resto da humanidade moderna.
descubro meus próprios manuscritos
meus sentimentos à flor das folhas
mas isso parece tão adolescente
que consigo até me sentir velha o suficiente.
[escrita em meados de 2015 mas sabe-se lá quando
porque nessa época eu ainda não botava data nas coisas.]
de uma hora pra outra
encontrei uma maneira diferente de lidar
com as paredes que são nossas próprias peles.
descobri que,
há pessoas que abrem janelas
e é como se abrissem os olhos
e nunca se cansassem de ver
até encontrar outro par curioso.
há pessoas que deixam as cortinas abertas
e é como se arejassem a alma
e sempre colocassem as plantas no peitoril
esperando outros ares.
há pessoas que suspiram no peitoril
e é como se o cheiro de chá que sai de dentro delas
ganhasse a força capaz de percorrer as entranhas de outras
que como ela se abriram pra arejar.
[escrita no início de 2018,
no meio do território da beleza e do caos do rio,
cujo caos e beleza se repetiam dentro de mim.]
sei que viver no automático
ou então "tocando em frente"
muitas vezes é necessário.
mas olhar-se,
procurar-se,
redescobrir-se,
é uma questão de sobrevivência.
se não nos tornamos apenas
um aglomerado vazio de zilhões de células,
quando na verdade somos uma linda montanha de poeira de estrelas
cheia de história e sentimento.
[aqui vai um poeminha pra exaltar a nossa grandiosa pequenez.
escrito sei lá quando pq vcs sabem né, não me façam pergunta difícil]
sás vezes a gente vive coisas tão
mas tão bonitas,
que nossos próprios olhos demoram
pra alcançar a percepção dessa beleza
gigante e profunda.
acabam demorando muito,
muito mesmo pra enxergá-la inteira.
essas mesmas coisas nos "tiram do eixo",
mas talvez elas na verdade
estejam nos puxando pro eixo certo,
aquele onde a gente se vê
tendo coragem de viver.
tendo carinho, cuidado,
por cada pedacinho daquela parte da vida.
é como quando a gente planta alguma coisa,
o que sustenta todo aquele organismo
são as raízes.
com exceção de plantas aéreas,
a gente quase nunca enxerga.
mas a gente sente,
a gente sabe muito bem.
e se é difícil pra gente entender
tudo isso,
talvez a gente precise
plantar o caroço do abacate
do café da manhã de hoje
pra conseguir enxergar a vida acontecendo.
daí em diante é difícil
continuar vivendo sem sentir
que há pouca vida pra tanto sentimento.
[Escrita no meio do caos e beleza do rio,
deslumbrada com tudo mas com saudade dos pagos do sul.
como sempre, na eterna ambiguidade complementar das asas e raízes.
como diria Gilberto Gil "é como se ter ido fosse necessário para voltar."]