Nas páginas de Contos Perdidos - Histórias que o tempo não curou, a realidade e o sobrenatural se entrelaçam em narrativas sombrias onde o trágico é apenas o começo. Cada conto é uma janela para vidas marcadas por decisões irreversíveis, segredos enterrados e forças invisíveis que moldam destinos.
Contos Perdidos - Histórias que o tempo não curou é um convite para explorar o desconhecido e o inevitável, onde as ambiguidades são tão assustadoras quanto as tragédias. E, ao virar a última página, o leitor será desafiado a questionar: o que realmente nos prende ao passado?
CAPÍTULO 1- JULIETA
A chuva caia incessante. As gotas geladas batiam em seu rosto parecendo algo muito mais sólido do que líquido. As mãos trêmulas caçaram as chaves que se perdiam no fundo de uma jaqueta ensopada.
A noite amplificada pela falta de luzes na rua… os sons noturnos também calavam-se diante do tilintar grave das gotas sobre os tetos. Vez ou outra a escuridão era violada pelo brilho de um relâmpago e o som que se seguia gritava aos ouvidos do homem como se o condenasse.
Finalmente encontrou as chaves. Agora o próximo passo a superar era o de que suas mãos trêmulas achassem a chave certa só pelo tato, já adormecido pelo frio ou pela excitação - não sabia- e finalmente acertasse a entrância da fechadura.
Difícil imaginar uma mente vazia, nula, leitosa… mas era assim que ela estava, ele sentia, apenas… sem pensamentos.
Entrou então na casa, fechando num estrondo apressado a porta logo atrás de si. Uma meia luz lhe mostrava o corredor que passava paralela pela sala, cozinha e terminava na área de serviço que de onde ele olhava não parecia mais que um buraco negro pronto a engolir o que se aproximasse.
Seguiu os passos deixando um rastro de pegadas de lama. O ranger do piso de madeira logo nos primeiros três passos o fez lembrar de que dois passos adiante, à direita, havia uma tábua solta, a mesma que lhe custou um ferimento na canela. Lembrou-se da dor e como felino esquivou-se.
A televisão na sala era a única coisa que iluminava o cômodo e o cheiro que saia dele era muito peculiar.
Tinha 33 anos. Seus cabelos crespos e os grandes olhos negros se destacavam na pele preta e lustrosa. Os lábios pareceriam carnosos não fosse estarem comprimidos um contra o outro.
Chegou finalmente ao fim do corredor que lhe pareceu dessa vez infinito; acendeu a luz que o cegou por alguns instantes; despojou-se da jaqueta, atirando-a sobre a máquina de lavar, revelando sua camiseta que havia sido branca algumas horas atrás.
Ficou estático olhando a mancha que cobria toda a parte frontal. Sentiu asco e o asco lhe fez arrancar a camiseta em um só movimento dando-a o mesmo destino que jaqueta.
Jogou-se de costas contra a parede e escorreu como uma massa pastosa até encontrar o chão, onde sentou-se encolhendo as pernas e colocando a cabeça entre elas e as mãos na nuca.
Chorou com grunhidos quase inaudíveis.
As lágrimas lhe escapavam pelos olhos fechados e pelas narinas que aumentavam a cada tentativa de sorver ar entre cada soluçar.
Deixou-se ali por alguns minutos, dando-lhe o tempo que até então não teve para mostrar seu arrependimento.
Ali, se escutava os soluços, o tilintar da sólida chuva e os intermitentes relâmpagos.
Sorveu de uma só vez o ar e a secreção que saia das narinas e estancou o choro; levantou a cabeça e num só esforço ergueu-se; parou o mais alinhado que pôde. O piso dançava sob seus pés; continuou despindo-se e nu, foi até o banheiro.
Abriu o ducha que soltou um esguicho de água quente e fumegante. A quentura da água lhe causava dor e alívio.
Com uma bucha nas mãos, começou a esfregar freneticamente seu peito, fazendo escorrer junto com a água líquido rosado.
Com somente o nariz para fora da água, olhos uma vez mais fechados e a sensação da água escorrendo livre por seu corpo, que ardia pela temperatura da água e pelos esfregões, começou a cantarolar baixo a canção “What can I do”. Um meio sorriso se desenhou em seus lábios, agora em seu formato habitual, grossos e bem desenhados.
Baixou a cabeça e olhou seus pés. Viu no redemoinho o último fio de água tingida desaparecer pelo ralo. O semi sorriso lhe escapou deixando só a sisuda expressão marada na face.
Enrolou-se em uma toalha e foi até o quarto.
Agora, vestido, foi até a estante de livros da sala e buscou entre os exemplares um tal de “L’etranger”.
Deixou que seu corpo pesado caísse na poltrona que ficava a frente da televisão.
Antes de desligá-la, porém, uma notícia lhe chamou a atenção: “ Morre o Rei do Futebol Mundial”. Não que isso lhe importara, mas na multidão que foi velar seu ídolo, notou, ao fundo, um homem que parecia absorto na leitura de um livro. Não conseguiu ler todo o título, mas balbuciou o que conseguiu identificar: A Breviedade da...
Desligou a televisão, colocou o fone de ouvido. Abriu o livro, inclinou-se para trás e continuou a leitura soltando um suspiro profundo e ruidoso.
Ouvia “ Happier than ever”. Sorriu ao lembra-se de uma noite com ela. "Que delícia!" - suspirou.
O telefone soou alto, mas quando cessou, desconectou o fio, voltando os olhos para as páginas amareladas.
Quando deu-se conta o dia já rompia por entre as frestas da cortina.
Terminada a leitura, foi até a cozinha. Preparou um café amargo e sentou-se à mesa e enquanto bebia o revigorante néctar, reparou que a planta sobre a mesa precisava também de líquido revigorante. Aguou-a.
Três batidas fortes na porta o fez parar o trato com a rosacea.
Estático, ficou olhando para a planta até uma potente pisada arreganhar a porta.
Não pode ver a cena, mas imaginou como a porta havia cedido ante a pressão do golpe.
Passos cautelosos se aproximavam do cômodo onde estava. Lembrou-se da tábua solta e sorriu ao mesmo tempo que ouviu uma perna inteira ceder ao buraco.
Chegaram à cozinha empunhando armas em sua direção.
Tomou um último gole de café olhando para os as figuras que se desenhavam na frente do sol em aurora.
Posou a xícara na mesa e colocou a mão dentro do bolso da calça.
Sentiu nos tímpanos o zumbido das balas perfurando o ar antes de sentir a ardência no corpo. E, depois, nada.
O corpo caiu sobre a mesa que não resistiu ao peso e rendeu-se.
Aproximaram-se do corpo que se afogava.
Na mão direita. Um papel. Uma carta.
“Não vejo mais razão para seguir nesse jogo que é embuste.
Sairei hoje pela porta que eu mesma abri e nada temerei.
Adeus, meu amor.
Julieta. “